Capítulo 3 – O passado bate à porta
Sozinha. Completamente sozinha. Era assim que Susana se sentia. A morte de seus pais e de seus irmãos a atingiu de forma fulminante e a deixou num estado de torpor que durou semanas. Depois, uma dor profunda tomou conta de seu coração, acompanhada de uma revolta igualmente intensa. Por quê? Por que sua família tinha que morrer tão cedo? Seus pais mal haviam chegado aos cinquenta anos... E o que dizer de Lúcia, então? Ela estava na flor da idade...
Os pais de Eustáquio chegaram a se aproximar dela para juntos tentarem superar a tragédia. Ela aceitara de início, mas aos poucos começou a se afastar. Já era doloroso demais ter perdido os pais e os irmãos... Testemunhar também as lágrimas de quem perdera um filho era além do suportável, já que ela acabava absorvendo essa dor também. Susana sequer conseguia imaginar a real dimensão desse sofrimento – talvez isso só fosse possível quando tivesse seus próprios filhos, o que ela duvidava que um dia fosse acontecer.
A casa em Finchley estava vazia, depressiva, e Susana se recusara a ficar lá durante as férias da faculdade. Não havia por quê. Seus pais não estariam lá para recebê-la, nem seus irmãos... Ainda que eles a estivessem aborrecendo ultimamente, ela preferia mil vezes passar o resto da vida ouvindo suas críticas do que perdê-los para sempre. Tudo na casa lembrava a sua família, e não poderia ser diferente. Susana chorava ao ver a cadeira onde seu pai costumava se sentar, ao ver os álbuns de fotografia que sua mãe organizava tão prazerosamente, ao ver as bonecas que enfeitavam a cama de Lúcia, ao olhar para a porta do quarto de Pedro e Edmundo...
Não, era impossível ficar ali. Ela certamente enlouqueceria. Susana então resolvera permanecer em seu alojamento no campus durante todo o verão. Ainda restavam algumas semanas até o início do novo semestre, que também seria o início de seu último ano na universidade. O dinheiro que recebera como herança era o suficiente para garantir o término da faculdade e para viver durante algum tempo até conseguir emprego na sua área de formação. Seus pais se esforçavam para garantir a educação dos filhos, e aquele dinheiro provavelmente era parte do que seria usado para assegurar até o fim os estudos de Edmundo, que acabara de entrar na faculdade, e de Lúcia, que já estava terminando o colégio. Pedro estava prestes a se formar.
Mais um dia se passava sem que Susana saísse do alojamento para praticamente nada. Ela mal se alimentava. Tudo o que fazia era chorar, embora nos últimos dias nem isso ela conseguisse mais. Era como se suas lágrimas tivessem se esgotado. Ela estava cansada de chorar, cansada de sofrer. Mas a dor estava lá e não a deixaria em paz tão cedo. Porém, ela havia encontrado uma maneira de se livrar do sofrimento por algumas horas. Susana então olhou para a garrafa de whisky sobre a cômoda e notou que ela já estava quase vazia.
Ben viajara com seus pais durante boa parte das férias, mas já estava de volta à cidade. Em algumas semanas começaria o novo ano letivo, e, além de resolver algumas pendências antes de mergulhar de cabeça em seu último ano de faculdade, ele também queria aproveitar o tempo livre para fazer algo de que ele gostava muito, que era ler – mas ler por hobby, já que durante as aulas ele só tinha tempo de ler seus livros da faculdade.
A biblioteca da cidade ficava próximo do campus universitário, e Ben decidira ir até lá para ver o que havia de interessante. O local era agradável, muito limpo e repleto de livros dos mais variados temas, desde literatura infantil até obras de cunho científico. Ele então entrou em um dos corredores de estantes e começou a examinar os títulos disponíveis. Ele pretendia pegar algum livro de ficção, fazia tempo que não lia histórias desse tipo. Ben viu três que o interessaram e, ao retirá-los da prateleira, notou alguém do outro lado da estante, no corredor adjacente. Uma moça estava concentrada procurando títulos na prateleira de baixo, no que parecia ser a seção de autoajuda.
Algo naquela figura o atraiu e ele não pôde deixar de observá-la. Sua pele alva contrastava de modo perfeito com seus cabelos castanho-escuros, que estavam graciosamente presos em um rabo de cavalo baixo. Seus lábios naturalmente rosados eram fartos e convidativos, e a respiração de Ben se acelerou ao imaginar como seria beijá-los. Os olhos dela mantinham-se na prateleira de baixo, mas não demorou para ela perceber que estava sendo observada e levantar o rosto, revelando seus brilhantes, porém tristes, olhos azuis.
Nesse momento, Ben sentiu seu coração parar em seu peito. Aqueles olhos eram exatamente os mesmos que visitavam seus sonhos constantemente. O coração de Ben então disparou e ele ficou imóvel, completamente hipnotizado por aquela jovem e incapaz de tirar os olhos dela. Ela, por sua vez, parecia tão chocada quanto ele e por alguns momentos também fora incapaz de desviar o olhar. Seus olhos mantiveram-se mergulhados um no outro pelo que parecia ser uma eternidade.
De repente, a jovem não suportou mais encará-lo e rapidamente pegou os livros que escolhera e dirigiu-se para uma das mesas da biblioteca, deixando Ben sem ação e completamente desconcertado. Ela deixara cair um dos livros, mas nem percebeu, tamanha era a pressa de sair daquele corredor.
"Por que ela fugiu desse jeito?", pensou Ben, percebendo o livro caído do outro lado da estante. Ele então foi até o livro, pegou-o do chão e procurou a moça, disposto a entregá-lo a ela. Seu coração disparou mais uma vez quando ele a encontrou e percebeu que ela o observava de longe. Ela então rapidamente desviou o olhar para seus próprios livros, fazendo Ben sorrir com aquela reação. Tão adorável...
Ele então decidiu se aproximar e, cautelosamente, dirigiu-se a ela.
- Er... com licença... Você deixou cair este livro... – disse ele, entregando-o a ela.
A jovem fitou-o mais uma vez, desviando o olhar em seguida ao pegar o livro das mãos dele.
- Obrigada... – disse ela gentilmente, mas sem olhar para ele novamente.
A expressão dela deixou Ben confuso. Era como se fosse doloroso para ela encará-lo. Por que ela reagia dessa forma?
- Eu... posso saber o seu nome?
- Susana... Susana Pevensie – respondeu ela – E o seu?
Ben sentiu um certo alívio ao perceber o interesse recíproco dela, apesar de que talvez ela estivesse sendo apenas educada.
- Meu nome é Ben. Ben Whittaker.
- Muito prazer, Ben Whittaker... Agora... se me der, licença, eu preciso ir... Adeus...
Dizendo isso, Susana recolheu seus livros e dirigiu-se ao balcão para formalizar a retirada, deixando Ben um tanto magoado. Ela havia escolhido uma mesa e, aparentemente, pretendia passar algum tempo lendo seus livros ali mesmo. Mas ela mudara de ideia depois da aproximação dele. Por que ela fugia dele daquela forma? Foi com essa dúvida que ele a observou enquanto ela deixava a biblioteca, mas não sem antes lançar mais um breve olhar na direção dele. Sem dúvida um olhar confuso e melancólico, mas também o olhar mais doce e mais lindo que Ben já vira na vida.
Susana voltara para o alojamento e tentava se concentrar em um dos livros que pegara na biblioteca, mas era inútil. O encontro com Ben Whittaker fora extremamente perturbador, e ela não conseguia deixar de pensar nele. Ele era inacreditavelmente parecido com Caspian. Só não era idêntico por causa do cabelo mais curto e da ausência do sotaque telmarino. Mas tinha os mesmos olhos, os mesmos lábios, o mesmo tom de voz e a mesma expressão meiga... Como era possível?
Susana passara anos tentando esquecer Caspian, tentando esquecer Nárnia, e de repente o destino a forçava a se lembrar de tudo aquilo que ela queria tanto esquecer. Parecia uma grande piada de mau gosto.
Desde que voltara de Nárnia pela segunda vez, Susana evitava falar de Caspian, pois era doloroso demais saber que ela nunca mais voltaria a vê-lo. Mas foi depois que Edmundo e Lúcia relataram suas aventuras a bordo do Peregrino da Alvorada e contaram a ela as intenções de Caspian com relação à filha de Ramandu que ela decidiu apagar tudo aquilo de sua memória.
Sem dúvida era menos doloroso ignorar a existência de Nárnia e de Caspian do que admitir que ele a esquecera e que agora provavelmente estava nos braços de outra. Depois de tudo o que eles passaram juntos... Era simplesmente impossível aceitar.
Então ela decidira fingir que nada acontecera, fingir que Nárnia não passara de uma brincadeira infantil – quem sabe assim ela não passaria a acreditar nas próprias mentiras? Depois de anos agindo dessa forma, era quase possível afirmar que ela tivera sucesso e realmente acreditava na inexistência de Nárnia. Mas então a morte de sua família colocou Nárnia de volta nos pensamentos de Susana. Fora em Nárnia que Susana vivera os anos mais esplêndidos de sua vida, e era justamente daquela época as lembranças mais felizes que ela tinha ao lado de seus irmãos.
Ela se lembrava de cada detalhe, desde a entrada no guarda-roupa, na casa do professor Kirke, até a caçada ao cervo branco. Susana repassava em sua mente, repetidas vezes, os anos de reinado ao lado dos irmãos e a alegria com a qual ela os via crescer e se tornar adultos belos e nobres, como ela própria. Juntos, eles levaram paz e harmonia a Nárnia.
E agora a existência de Caspian também batia à sua porta. Até então, sua mente deliberadamente ignorava a segunda ida a Nárnia, mas então o destino colocou Ben Whittaker em seu caminho, jogando cruelmente em sua face tudo o que ela se esforçara tanto para apagar de sua mente.
- Por quê, Aslam? Por que está fazendo isso comigo? O que eu fiz para merecer tanta punição? O QUÊ? – perguntou Susana em meio a lágrimas desesperadas – Não aguento mais... não aguento mais... – disse ela, sua voz diminuindo em meio aos soluços à medida que ela perdia as forças para se manter de pé e se ajoelhava ao lado da cama, abraçando-se fortemente ao seu travesseiro como se ele fosse a sua tábua de salvação.
Susana olhou para a garrafa agora vazia de whisky sobre a cômoda, desejando ardentemente que ela estivesse cheia e pronta para varrer para longe a sua agonia.
Ben chegara em casa e fora direto para seu quarto. Porém, não folheara sequer uma página dos livros que trouxera. Deitou-se na cama, cruzando as mãos por detrás da cabeça, e pôs-se a se lembrar do encontro na biblioteca.
Aquela jovem era sem dúvida a criatura mais adorável que seus olhos já tiveram o privilégio de admirar. Ela parecia completamente indefesa, despertando em Ben uma vontade irresistível de cuidar dela, de protegê-la. Ele não sabia o que o impressionara mais: se fora sua beleza, delicadeza e fragilidade, ou se foram seus olhos, idênticos aos que ele vira tantas vezes em sonhos. Além disso, a tristeza estampada neles lançou um enigma que Ben agora queria desesperadamente desvendar. Mas será que ele teria oportunidade? Será que ele voltaria a encontrá-la?
"Por Deus, eu preciso vê-la de novo...", pensou Ben. Ele imediatamente começou a imaginar maneiras de vê-la outra vez. Será que ela costumava ir à biblioteca com frequência? Em que outros lugares ele poderia encontrá-la? Isso seria difícil, ele não sabia quase nada sobre ela. Mas algo em seu coração dizia que ele não precisava se preocupar com isso. Algo dizia que seus caminhos logo voltariam a se cruzar.
Então Ben percebeu que aquele breve encontro fora capaz de despertar algo diferente dentro dele. Algo morno, agradável e que fazia seu coração bater mais forte. Se antes a mulher de seus sonhos não passava de um misterioso par de belos olhos azuis, agora ela tinha nome e sobrenome: Susana Pevensie.
Agradecimentos a Perola Negra pelo review do capítulo anterior! :)
Gostaria de aproveitar e fazer uma pequena pesquisa de opinião. Inicialmente classifiquei essa fanfic como T, planejando uma história mais focada no drama mas com algum "tempero". Mas depois acabei ficando meio em dúvida se deveria "abusar do tempero" ou não... rs. Como ainda vão rolar alguns capítulos até que eu precise realmente decidir isso, resolvi saber a opinião de vocês. O que vocês preferem? Classificação T ou M? Preciso de opiniões! =P
E também preciso de reviews, claro! Por favor, façam uma ficwriter feliz... :)
