Capítulo 5 – Dor e perdição

Era domingo e Susana fora passar a tarde na casa de Marianne, juntamente com Danna. As três estavam sentadas em uma das extremidades do vasto jardim, onde havia um conjunto de mesas e cadeiras. Ela apreciava muito a companhia de suas novas amigas, que haviam se tornado muito importantes para ela em muito pouco tempo. Agora, mais do que nunca ela precisava de boas companhias... A dor e a agonia pareciam cada vez maior, principalmente depois de conhecer Ben, que sem querer trouxe de volta toda a sua frustração em relação a Caspian.

Por que eles têm que ser tão idênticos? Esse Ben Whittaker é uma cópia londrina de Caspian ou o quê? Por que ele tem que existir? E por que teve que cruzar o meu caminho?

Caspian... Eu o amei tanto... Me entreguei a você, mostrei o quanto eu o amava, e o que você fez? Me esqueceu num piscar de olhos. Se é que chegou a me amar algum dia...

Me esforcei tanto pra esquecer você e as suas mentiras e agora foi tudo por água abaixo... Por que você tinha que voltar para a minha vida? POR QUÊ? Já não bastava o meu sofrimento por causa da minha família...?

- E então, Su, como foi?

A voz de Marianne despertou Susana de sua "discussão" interna.

- Como foi o quê?

- Ora, Ben levou você até o alojamento naquele dia, não foi? E então?

Susana revirou os olhos.

- Então, nada.

- Como nada? Ele não fez nada? Nadinha? – indagou Marianne.

- Ora, Su, conte! – implorou Danna.

- Ele demonstrou certo interesse por mim, mas eu o rejeitei.

- VOCÊ O QUÊ? – as duas interrogaram, estupefatas.

- Su, como pôde rejeitar alguém como Ben? – perguntou Marianne, inconformada.

- Eu apenas não quero nada com ele, é muito difícil entender isso?

Marianne e Danna nada responderam. As duas se entreolharam, atônitas com a reação de Susana, e voltaram a olhar para ela. Foi quando Marianne percebeu o quanto Susana estava abatida.

- Su, você está bem?

- Só com um pouco de dor de cabeça...

- Tem certeza?

Susana não respondeu.

- Su, você não voltou a beber, voltou?

Os olhos de Susana se encheram de lágrimas.

- Susana, por favor... Você não pode continuar tentando escapar da realidade com bebidas... Ouça, nós sabemos que você é fraca para álcool e que provavelmente você ainda não bebeu o suficiente para ser perigoso pra você... Mas é justamente por isso... Su, pare enquanto é tempo, eu lhe peço... – disse Marianne, implorando para a amiga.

- Você precisa ser forte pra superar tudo isso, e nós vamos ajudar você de todas as formas possíveis, mas, por favor, não beba mais... Por favor... – completou Danna, acariciando os cabelos de Susana.

Marianne e Danna então abraçaram Susana, que não pôde mais se conter e caiu em prantos, sendo carinhosamente amparada pelas amigas.

Depois de alguns momentos, um som de carro chegando chamou a atenção das moças.

- Devem ser o John e o Ben!

Susana ficou alarmada e incontrolavelmente agitada.

- Ben está aqui...?

- Sim, John o convidou... Você sabe, eles são amigos... – Marianne tentou explicar.

- Oh, não...

- Su, você tem tanta aversão assim ao Ben? O que ele fez pra você? – perguntou Danna.

- Ele não fez nada...

- Então por que você o rejeita dessa forma?

Susana ficou algum tempo em silêncio, enquanto suas amigas a fitavam atentas, curiosas.

- É que... ele me lembra demais uma pessoa que eu amei muito... Essa pessoa me fez sofrer muito e partiu o meu coração, e até hoje eu tento recolher os pedaços... – sua voz falhou no final, enquanto lágrimas surgiam de novo no canto de seus olhos – Ben é muito parecido com ele, vocês não fazem ideia... Eu não consigo olhar pra ele sem me lembrar do que eu passei, sem sofrer tudo de novo...

- Su, eu não fazia ideia... – disse Marianne.

- Pobre Ben... Ele não tem culpa... – disse Danna.

- Eu sei, mas eu não posso encará-lo... Ainda mais depois das coisas que eu disse a ele e...

Susana não teve tempo de completar a frase.

- Olá, meninas! Espero que esteja tudo em ordem... – disse John, que acabara de entrar junto com Ben.

- Boa tarde, Marianne. Boa tarde, Danna.

- Boa tarde, Ben! – responderam as meninas.

Ben cumprimentou Susana gentilmente, mas de forma distante. Ele ficara extremamente magoado com as palavras dela no dia em que ele a levara ao alojamento. Ele se sentou com John do outro lado do jardim, mas vez ou outra olhava para Susana, mas sempre desviando o olhar quando ela olhava para ele. John percebera o clima tenso e Ben acabou contando tudo o que aconteceu.

- Então você levou um fora? E que fora, hein...

- John... Eu mereci.

- Por quê?

- Porque eu a vi apenas duas vezes e já me achei no direito de cortejá-la... Ela me odeia, e com razão.

- Olha, sinceramente não é o que parece. Desde que nos sentamos aqui, ela já olhou para a sua direção várias vezes. Ela parece bastante interessada para quem disse que era melhor ficar longe de você... Talvez ela só não esteja preparada para um relacionamento agora. Depois do que aconteceu...

- O que aconteceu? Do que você está falando?

- Você não soube? Ela perdeu toda a família há alguns meses, os pais e os três irmãos, num acidente de trem.

Ben ficou perplexo com o que acabara de ouvir. Era o mesmo acidente que ele estava pensando?

- Aquele acidente que matou dezenas de passageiros cerca de três meses atrás?

- Sim, esse mesmo... Uma fatalidade...

- Eu me lembro de ter lido sobre essa notícia na época, e ela dizia que entre as vítimas havia um casal e três dos seus quatro filhos...

- Sim, foram eles mesmos, os Pevensies. Susana e Marianne são colegas de faculdade, mas não eram próximas até o acidente. Marianne decidiu se aproximar dela para oferecer apoio e as duas acabaram se tornando amigas.

Ben olhou novamente para Susana e dessa vez não desviou o olhar quando ela o encarou. Aquilo realmente era muito estranho... Além de ter certeza de que os olhos azuis dos seus sonhos eram os dela, ele acabara de descobrir que o déjà vu que tivera também estava relacionado a ela. Não poderia ser simples coincidência, e ele não poderia simplesmente ignorar aquilo. O destino havia colocado Susana em seu caminho por algum motivo, e ele precisava descobri-lo.


Na manhã seguinte, Ben foi até a biblioteca novamente para devolver os livros que havia retirado dias antes. Ele passeava pelos corredores quando se deparou com Susana. Ben ficou repentinamente nervoso, ansioso, sem saber o que fazer. Ele havia encontrado sua amada novamente, totalmente sem querer... Ele teria ficado realmente feliz, se não soubesse da aversão que Susana tinha por ele. E, de fato, aquele não seria um encontro feliz.

- Você está me perseguindo ou o quê? – perguntou Susana, de forma seca.

- Até onde eu sei, este é um local público... – respondeu Ben calmamente.

Susana bufou, irritada, deu as costas e começou a se afastar. Não, ele não poderia deixá-la ir. Ele precisava saber de uma vez por todas a razão de toda aquela rejeição.

- Susana, espere! – Ben segurou a mão de Susana, que parou imediatamente e voltou-se para ele, fitando-o de modo desafiador – O que foi que eu fiz pra você me odiar tanto?

Susana olhou para Ben com um olhar ameaçador, como se estivesse olhando para o próprio Caspian, o alvo real de seu ódio.

- Nasceu.

Uma palavra. Uma única palavra, e foi o suficiente para perfurar o coração de Ben como uma faca habilidosamente afiada. Ele então soltou a mão de Susana, que pôde perceber na expressão de Ben o efeito de sua resposta.

Por um milésimo de segundo, Susana sentiu remorso, mas antes que pudesse transparecê-lo, deu meia volta e deixou o corredor. Ela não podia evitar. Toda vez que olhava para Ben, todo o seu sofrimento por causa de Caspian vinha à tona. Era tanta amargura, tanto rancor, tantos ressentimentos... E agora ela inconscientemente direcionava tudo isso a Ben. O fato é que ela precisava culpar alguém, precisava descontar sua amargura em alguém. E Ben acabou se mostrando o alvo perfeito.

Ben ainda ficou mais alguns momentos no corredor, seus olhos fixos em algum ponto indefinido enquanto lágrimas começavam a se formar neles. Ele não conseguia entender por que Susana o rejeitava tanto. A razão dos seus sentimentos mais puros e mais profundos agora também era a origem da sua pior dor.


Mais tarde naquele mesmo dia, Ben decidiu ir à casa de John, mas primeiro se certificou de que não encontraria Susana lá. Ele precisava desabafar com o amigo, precisava de conselhos. Então Ben contou a John o que acontecera mais cedo na biblioteca.

- Eu não acredito que aquela louca disse isso pra você!

- John... Não a ofenda, por favor...

- Ben! Chamá-la de louca não é nada! Olhe o que ela fez com você! Desde que eu o conheci você nunca demonstrou tristeza, sempre estava sorrindo, de bom humor e de bem com a vida! Agora olhe pra você! Desde que a conheceu você está pior a cada dia!

- John, eu a amo!

Um silêncio se fez entre os dois rapazes. John não se conformava com o sofrimento do amigo, mas não se atreveu a falar mal de Susana novamente. John decidiu esperar Ben estar pronto para continuar a falar, o que demorou ainda mais alguns minutos.

- Sabe, eu sempre sonhei em me apaixonar por alguém, em encontrar a mulher dos meus sonhos... Quando eu vi Susana pela primeira vez, eu soube que era ela. Eu soube imediatamente o que era o tão falado amor à primeira vista, porque eu pude senti-lo intensamente em meu peito. Eu não tive dúvidas... Mas na primeira vez ela já demonstrou certa rejeição por mim, mas eu ainda sim quis vê-la outra vez. Então nos encontramos outras vezes e a aversão dela só aumentou...

Ben parou um instante, tentando se recompor, já que sua voz começara a falhar enquanto falava. Mas ele logo continuou.

- O que eu faço, John? Eu a amo mais do que eu jamais pensei amar alguém, mas eu não posso sequer chegar perto dela! Ela só me rejeita, só me machuca... E eu nem sei o que foi que eu fiz pra ela agir assim! Eu me sinto num beco sem saída, não tenho alternativas... Não sei o que eu posso fazer para melhorar simplesmente porque eu não sei onde eu errei! – Ben completou acaloradamente, revelando para o amigo todo o seu desespero.

- Ben, não sei o que dizer, sinceramente... Nunca vi um amor nascer de forma tão intensa em um espaço de tempo tão curto... E também nunca vi tanta rejeição por alguém que mal se conhece como a que Susana tem por você... Bom, o que posso fazer é tentar descobrir com minha irmã se ela sabe algo sobre isso. Elas são amigas, talvez ela possa ajudar...

Ben olhou para John com um fraco brilho de esperança em seus olhos. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Marianne entrou esbaforida em casa, alarmando os dois rapazes.

- Por Deus, Marianne, o que houve? Parece que viu um fantasma!

Marianne parou diante dos dois com a respiração acelerada, tentando recuperar o fôlego. Sua expressão era preocupante.

- Marianne...? O que está havendo? – perguntou John mais uma vez, dessa vez mais seriamente.

- John, Ben... Aconteceu algo terrível...

- O que houve, mana? Diga logo!

Então Marianne olhou para Ben.

- É a Susana... Ela está no hospital!

Ben congelou em sua poltrona, com medo do que poderia ouvir em seguida.

- No hospital? Mas o que aconteceu? – indagou John, agora realmente preocupado.

- Ela... Ela tentou suicídio...


Oi, gente! Peço um milhão de desculpas pela demora, mas eu realmente levei bastante tempo até decidir o que aconteceria neste capítulo. Minha criatividade estava em baixa (continua, na verdade), por isso me dediquei às traduções desta fic e da When it's Love para o inglês. Farei o possível para não demorar muito para as próximas atualizações!

Espero que tenham gostado do capítulo! Por favor, não me matem por eu ter judiado tanto do Ben, mas o que ele está passando é um sofrimento necessário para os acontecimentos futuros... Me perdoem, ok? ;)

E por favor, deixem reviews! :D