Capítulo 6 – Ironias do destino
Depois do encontro com Ben na biblioteca, Susana voltara para o alojamento. Ela havia prometido a Marianne e Danna que pararia de beber, mas lá estava ela, esvaziando mais uma garrafa de whisky. Eu sou tão repulsiva... Sou uma pessoa repugnante, pensou ela. Tudo o que ela estava fazendo recentemente era deixar suas amigas preocupadas, além de fazer uma pessoa sofrer...
Ela pôde ver claramente no rosto de Ben o efeito de sua resposta áspera na biblioteca. Por um milissegundo, ela sentiu remorso, mas antes que pudesse demonstrá-lo, ela fugiu dele, deixando-o sozinho e provavelmente ferido. Mas ela não podia evitar. Todas as vezes que olhava para Ben, toda a dor causada por Caspian vinha à tona. Era tanta amargura, tanto ressentimento, tanto ódio... E agora ela involuntariamente direcionava todos esses sentimentos ruins a Ben. O fato era que ela precisava culpar alguém, precisava de alguém para descontar sua raiva. E Ben acabou se tornando o alvo perfeito.
Mas isso era horrível... Ela estava sendo muito cruel, e ela nunca pensou que um dia fosse capaz de tratar alguém com tanta crueldade. Mas ela não era mais a pessoa que ela costumava ser. Seu coração agora era pura escuridão, e ela estava espalhando essa escuridão por tudo e por todos à sua volta.
Susana sentia como se estivesse mergulhando num abismo, sem nenhuma luz para guiá-la de volta à superfície. Ela tinha certeza de que jamais conseguiria se recuperar depois de tudo o que ela sofreu; ela jamais voltaria ser a antiga Susana Pevensie. Esta havia morrido um pouco quando descobriu que de fato havia perdido Caspian para sempre. E a sua morte completa havia sido selada quando ela perdeu sua família. Agora ela era apenas uma sombra da pessoa que ela costumava ser.
A Rainha Susana, a Gentil, não existia mais. A antiga Susana Pevensie não existia mais. Tudo o que ela tinha agora era sua dor e o seu terrível recém-adquirido talento de perturbar as pessoas com sua fraqueza e autopiedade e de fazê-las sofrer... Ela poderia viver com isso?
Então um pensamento insano veio à sua mente... A garrafa de whisky já estava vazia e ela sequer estava sonolenta ainda, o que a impediria de ter algumas horas de paz e esquecimento. Porém, o álcool já havia sido o suficiente para alterar seu comportamento, e sua racionalidade não era mais a mesma – se é que ainda havia alguma.
Tudo o que Susana queria agora era acabar com tudo aquilo de uma vez por todas. Só assim ela se livraria do sofrimento, e também livraria os outros da sua presença obscura e doentia. Foi com esse pensamento que Susana pegou a garrafa vazia, quebrou-a na quina da mesa e escolheu entre os fragmentos aquele que tinha a ponta mais afiada...
Naquela tarde, Marianne decidira sair para fazer compras e resolvera chamar Susana para ir com ela. Ela também pretendia chamar Danna, mas lembrou-se de que a amiga estaria fora da cidade naquela semana. Marianne então fora até o alojamento de Susana, mas estranhou quando ninguém atendeu – o porteiro a havia assegurado de que Susana entrara horas antes e não havia mais saído.
Depois de chamar repetidas vezes, Marianne convenceu o porteiro a procurar pela chave-mestra do quarto de Susana para ver o que havia acontecido. E o que Marianne viu foi a imagem mais terrível que ela já vira em toda a sua vida...
Ao perceber que Susana ainda respirava, Marianne rapidamente chamou uma ambulância e a acompanhou até o hospital. Depois de concluída a internação de Susana, Marianne correu para casa para avisar o irmão, e agora voltava para o hospital, dessa vez acompanhada de John e Ben.
- John, estou com tanto medo... – disse ela, com a voz trêmula.
- Calma, mana, fique calma... Vai dar tudo certo... – respondeu John, tentando acalmar a irmã, mas sem acreditar nas próprias palavras. John deu uma olhada para Ben enquanto dirigia, mas achou melhor não tentar falar com o amigo naquele momento.
Ben não conseguira dar sequer uma palavra ao longo do caminho. Ele estava extremamente chocado. Mais do que chocado, ele estava apavorado com a ideia de perder Susana. Ainda que eles não tivessem relacionamento algum, ainda assim ele a amava.
Ele então começou a se lembrar de toda a tristeza que ele sempre vira refletida nos olhos de Susana, desde o primeiro encontro. Ela estava sofrendo, ele sabia. Ela havia perdido os pais e os irmãos... Enfim, toda a sua família. Ela estava tão sozinha, tão desprotegida...
Ben sentiu uma profunda compaixão por ela, apesar de ela tê-lo tratado tão mal. A verdade é que Ben mal pensava nisso agora, naquele momento seu próprio sofrimento não tinha a menor importância.
Ao pensar na dor de Susana e aonde isso a levou, Ben mal conseguia conter as lágrimas. Mas ele se recusava a derramá-las.
Eu não vou chorar ainda, eu não posso chorar ainda... Ela está viva, ela vai continuar viva... Por Aslam, ela PRECISA continuar viva...!
Ben estava tão desesperado com a situação de Susana que nem se deu conta do nome que acabara de evocar em sua mente.
Susana sentiu como se estivesse flutuando, ora vagarosamente, ora numa velocidade alucinante. O medo do que encontraria a impediu de abrir os olhos, e ela os manteve fechados por um bom tempo. De repente, ela sentiu seu corpo desacelerar novamente, até que seus pés tocaram uma superfície de textura agradável.
Ela então começou a perceber o esplêndido som do canto dos pássaros que chegava suavemente aos seus ouvidos. Um som melodioso, harmonioso, como ela nunca havia ouvido antes. Ela então decidiu abrir os olhos e notou a grama macia sob seus pés e percebeu o vasto campo florido ao seu redor. Susana ficou impressionada com a beleza daquela paisagem. Ali, a grama parecia mais verde, o céu parecia mais azul, as flores pareciam mais coloridas. Tudo era mais belo, mais intenso, mais divino... Mas que lugar era aquele?
- Susana?
O coração de Susana parou em seu peito quando ela ouviu aquela voz, vinda de algum ponto atrás dela. Aquela voz soou como música em seus ouvidos... Uma voz delicada, suave e inconfundível que ela tanto quis ouvir novamente... A voz de sua amada irmã...
Susana virou-se para a direção da voz e imediatamente seus olhos se encheram de lágrimas ao ver Lúcia, que parecia mais bela do que nunca. Parecia um anjo...
- Lúcia... Lúcia, minha irmã!
Susana correu em direção a Lúcia, que a recebeu com um forte e carinhoso abraço.
- Oh, Lúcia, como estou feliz em vê-la!
- Eu também estou feliz em vê-la, minha irmã! Senti tanto a sua falta... – disse Lúcia, quebrando o abraço logo em seguida. Ela então fitou Susana com um olhar sério, quase reprovador – Mas eu estaria muito mais feliz se fosse em outras circunstâncias, Su...
- O que quer dizer, Lúcia? Eu estou com você, não estou? Então valeu a pena eu ter tido coragem de me livrar de todo aquele sofrimento...
- Su, o que você fez nunca poderia valer a pena, nunca!
Susana ficou perplexa com a reação de Lúcia. Ela não estava feliz em vê-la?
- Su, – continuou Lúcia – o que você fez não foi um ato de coragem, muito pelo contrário. Suicídio é a demonstração máxima da covardia, minha irmã... Você não quis enfrentar o seu destino, não teve coragem de encarar e vencer seus medos. Você esteve muito perto de mergulhar em um sofrimento ainda pior, o sofrimento daqueles que abdicam da própria vida...
- Mas... eu não estou morta então?
- Ainda não... E é só por isso que você está aqui agora. Se você tivesse conseguido... Oh, Su, prefiro nem imaginar em que lugar você estaria agora... Provavelmente no País de Tash. Suicídio é um crime terrível, minha irmã. Ele não acaba com o sofrimento, muito pelo contrário... Ele o prolonga indefinidamente.
Susana fitou Lúcia em silêncio, seus olhos refletindo o medo que ela estava sentindo agora. Agora ela percebia o quanto fora estúpida e inconsequente... O que aconteceria com ela agora?
- Que lugar exatamente é este, Lu?
- Aqui é o País de Aslam.
- Se você está aqui... Pedro e Edmundo também estão?
- Sim, estamos todos aqui... E também o professor Kirke, e a senhorita Polly, e Eustáquio, e Jill... E também papai e mamãe.
Susana começou a soluçar, enquanto lágrimas rolavam novamente pelo seu rosto.
- E eu posso vê-los também...?
- Não, Su... Infelizmente, não. Apenas eu tive a permissão de Aslam para vir conversar com você...
- Entendo...
- Su, temos muito o que conversar...
Ao chegar ao hospital, Ben, John e Marianne foram acompanhados por uma enfermeira até a sala de espera, onde aguardaram pelo que parecia ser uma eternidade.
- Ben, você está bem? – perguntou John.
- Eu não sei... Me diga que isso é um pesadelo, por favor...
- Infelizmente não é...
- Eu não posso perdê-la, John... Não posso...
John compadeceu-se de seu amigo e decidiu apenas segurar seu ombro em sinal de apoio. John não acreditava que Susana poderia sobreviver depois daquilo, mas não queria tirar de vez as esperanças de Ben.
Depois de alguns minutos, o médico responsável por Susana chegou à sala de espera.
- Como ela está, doutor? Podemos vê-la? – perguntou Marianne, levantando-se rapidamente.
- Não é prudente vê-la agora, querida. Ela está inconsciente e recebendo todos os cuidados possíveis. Conseguimos parar a hemorragia, mas ela continua muito mal. Ela perdeu muito sangue.
Aquela notícia abalou os três jovens, principalmente Ben. O doutor percebeu as expressões preocupadas dos três e resolveu tentar tranquilizá-los de alguma forma.
- Mas devo dar graças à senhorita por ela ainda estar viva – disse ele, voltando-se para Marianne – Se ela demorasse um pouco mais para ser encontrada, infelizmente teria sido tarde demais. Também ajudou o fato de ela ter cortado os pulsos da forma "errada", por assim dizer... Mas ainda assim a condição dela é grave.
- E não há nada que se possa fazer? – perguntou John.
- Ela precisa de uma transfusão de sangue urgente, mas ela tem um tipo sanguíneo raro e não o temos em nosso banco de sangue... Ela não tem parentes? Irmãos?
- Não, doutor... Ela é órfã e não tem irmãos – disse Marianne, a voz falhando enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.
- Nós já iniciamos a busca por um doador, mas até agora não tivemos sucesso. Ela precisa de uma transfusão o quanto antes. Infelizmente o sangue O negativo é um tipo muito raro, e...
Nesse momento, o coração de Ben disparou, fazendo-o quase ofegar.
- O que... O que você disse? – perguntou ele, mal acreditando no que acabara de ouvir.
- Eu disse que o sangue O negativo é um sangue muito raro... Aliás, nenhum de vocês o possui?
- Eu possuo! Esse é o meu sangue!
- O quê? – todos os olhares se voltaram para Ben.
- Verdade, Ben? Você está falando sério? – perguntou Marianne, agitada.
- Sim, meu sangue é O negativo – respondeu Ben, com a voz trêmula, seus lábios finalmente esboçando um sorriso depois de muito tempo. Ben então se voltou para o médico – O que eu preciso fazer, doutor? – perguntou ele, sem hesitar.
- Você está mesmo disposto?
- Sim, estou. Posso fazê-lo agora?
- Claro, meu rapaz... Isso é ótimo! Venha comigo, você só precisa preencher alguns dados e responder a algumas perguntas. Se não houver nenhum fator que o impeça, a doação será feita agora mesmo!
Ben mal conseguia conter sua emoção, e ele repetia para si mesmo várias vezes o que ele mal conseguia acreditar...
Meu sangue pode salvar Susana... Eu posso salvá-la...! Não... Eu VOU salvá-la!
Gostaram, people? :)
Agora as coisas vão ficar menos obscuras, eu prometo! XD
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