Capítulo 7 – De volta à luz
John e Marianne ficaram na sala de espera enquanto Ben fazia a retirada de sangue na sala de doação.
- Eu ainda não consigo acreditar no que está acontecendo, John... Depois de tudo o que a Susana fez com o Ben, depois de tê-lo tratado tão mal...
- Sim, é mesmo uma ironia do destino. Ela o maltratou tanto, e agora é ele quem vai salvar a vida dela.
- Você não acha que isso foi uma coincidência incrível? Sabe, eu fico assustada quando esse tipo de coisa acontece... É como se estivéssemos recebendo um recado claro de que há alguma força poderosa muito acima de nós, uma força que definitivamente sabe o que está fazendo.
- Eu concordo...
- Ben a ama de verdade, não é?
- Sim, ele a ama. Ele não demonstrou a menor hesitação, se dispôs a salvar Susana incondicionalmente. Ela é uma garota de sorte...
- Eu sempre disse isso a ela em relação ao Ben... Ela tem muito sorte por ter um rapaz como ele praticamente aos seus pés. Mas ela nunca nos deu ouvidos, nem a mim, nem à Danna...
- Acho que dessa vez ela vai mudar de ideia, não é?
- Espero que sim...
Nesse momento, Ben voltou da sala de doação. Ele segurava o curativo em seu braço esquerdo e tinha em seu rosto uma expressão completamente diferente. Seus olhos estavam mais iluminados, e seus lábios esboçavam um leve sorriso.
- Ben, como você está? – perguntou John.
- Melhor do que nunca... – sorriu ele.
- Deu tudo certo?
- Sim... Eles estão fazendo as últimas análises em meu sangue, mas logo vão encaminhá-lo a Susana.
- Você está feliz, não está?
- Muito... Eu sei que o meu sangue vai salvá-la, tenho plena confiança nisso. Algo me diz que... Algo me diz que é essa a razão de eu estar aqui.
- Muito obrigada, Ben... Obrigada por ter se disposto a salvar minha amiga, mesmo ela tendo sido tão rude com você... – disse Marianne, com os olhos cheios de gratidão.
- Sabe, Marianne... Eu teria sido muito mesquinho se me recusasse a salvar uma vida por causa de uma mágoa minha... A vida dela é muito mais importante do que isso. O que ela fez comigo não importa mais...
John e Marianne se entreolharam, ambos com a expressão mais calma agora. Pela mente dos dois irmãos passou exatamente o mesmo pensamento: Susana realmente era uma garota de sorte...
Susana e Lúcia agora estavam sentadas em uma grande pedra, assistindo ao belo pôr do sol no País de Aslam.
- Su, quando você vai perdoar Caspian?
- Perdoar Caspian? Como eu poderia perdoá-lo, Lu? Ele me traiu! Ele mentiu quando disse que me amava!
- Ele não a traiu, Su, muito menos mentiu para você! Ele sempre a amou, e continua amando!
- Mas ele se casou com outra! Ele me jurou amor eterno, mas se casou com outra na primeira oportunidade!
- Susana, ouça... Você precisa entender que ele tinha obrigações como rei de Nárnia, ele precisava corresponder às expectativas de seu povo. Nárnia precisava de um herdeiro, para garantir sua estabilidade e sua paz. Caspian se casou, gerou um herdeiro e foi sempre leal à sua esposa. Mas o coração dele sempre foi seu, sempre... Por favor não o culpe. Ele também sofreu muito tendo que seguir em frente sem você, tendo que se casar com outra pessoa para garantir a segurança de Nárnia quando o que ele queria era ter você como esposa... Por favor, leve em conta o sofrimento dele. A vida também não foi fácil para ele.
Susana refletiu sobre as palavras de Lúcia e aos poucos ela pôde entender tudo o que acontecera. Como ela fora egoísta e incompreensiva... Caspian deve ter sofrido muito, talvez mais do que ela. Ele certamente sofrera com a separação, mas seguira em frente, abraçando as responsabilidades que o esperavam, sendo um bom rei, um bom líder para seu povo. E ela, o que fez? Foi fútil, superficial, irresponsável...
- Como eu fui tola, Lu...
- Caspian não merece todo o ódio que você tem sentido por ele, Su... Por favor, perdoe-o... Só assim você poderá seguir em frente e abrir seu coração a Ben, porque eu sei muito bem que a única coisa que afasta você dele é esse ressentimento infundado que você guarda por causa de Caspian...
- Ben? Como sabe sobre ele?
- Aslam é onisciente, Su... Ele me contou tudo quando permitiu que eu viesse vê-la, com a esperança de que eu pudesse colocar um pouco de juízo nessa sua cabecinha...
- Bom... Eu acho que é tarde demais para mim e Ben, Lu... Depois da forma como eu o tratei, depois de ter sido tão cruel com ele, duvido que ele ainda tenha algum interesse em mim... Ainda mais agora que eu provei ser uma pessoa fraca e estúpida...
- Eu tenho as minhas dúvidas... O que ele sente por você é muito especial, Su. Eu diria até que ele seria capaz de cruzar mundos e dar o sangue por você... – disse Lúcia com um meio sorriso nos lábios.
Susana quis perguntar o que Lúcia quis dizer com aquilo, mas quando se deu conta, tudo ao seu redor começou a se esvair em uma espessa névoa... De repente, Lúcia e toda a bela paisagem do País de Aslam haviam desaparecido.
Susana abriu os olhos devagar, mas sua visão turva a impediu de ver com clareza o lugar onde estava. Aos poucos as imagens foram se tornando nítidas, e ela conseguiu distinguir o teto e as paredes do quarto. Sem dúvida era um quarto de hospital.
Então é isso... Eu estou mesmo viva.
Seus olhos aos poucos foram se acostumando com a luz do quarto. Logo ela percebeu que havia alguém ao seu lado. Era uma jovem enfermeira.
- Olá, querida... – sorriu a enfermeira.
- Olá... - respondeu ela, com a voz um pouco fraca.
- Como você está se sentindo?
- Bem... eu acho... Há quanto tempo estou aqui?
- Bom, você foi internada há três dias. Esteve desacordada desde então.
- Três dias? – perguntou Susana, espantada.
- Não fique assustada, isso é perfeitamente normal. Nunca passei por isso, mas deve ser mesmo estranho acordar depois de dias... – sorriu a jovem.
Três dias...? Para mim, pareceu que estive com Lúcia durante apenas algumas horas... Bom, por que estou estranhando? O tempo em Nárnia sempre correu de modo diferente, eu devia saber que no País de Aslam também seria assim...
- Bom, vou avisar ao doutor que você já acordou. Com licença... – completou ela, retirando-se do quarto.
Ben chegara ao hospital pela manhã. Depois de muita insistência por parte de Marianne e John, ele fora convencido a ir passar a noite em casa, visto que os médicos asseguraram que Susana já estava fora de perigo.
Ao chegar à sala de espera, Ben notou que Marianne também já estava lá.
- Bom dia, Marianne.
- Bom dia, Ben.
- E o John?
- Ele precisava resolver alguns assuntos pela manhã, talvez venha só à tarde.
- E Susana...?
- Acabei de pedir informações a uma das enfermeiras, logo deve vir alguém para... – antes que Marianne pudesse completar sua frase, ela percebeu a chegada do médico.
- Senhorita Wotton, senhor Whittaker, bom dia.
- Bom dia, doutor. Como está Susana? – perguntou Marianne.
- As notícias são ótimas: ela já está acordada. Como eu havia dito antes, a transfusão foi um sucesso. Talvez ela só precise ficar mais um dia internada, para recuperar as forças.
Marianne abriu um largo sorriso e olhou para Ben, cujos olhos brilhavam de alegria.
- Verdade, doutor?
- Sim, querida. Algum de vocês quer vê-la? Ela já pode receber visitas.
Ben ficou imediatamente nervoso com a possibilidade de ver Susana. Seu coração disparou, e toda a insegurança que ele sentia em relação a ela voltou como um furacão.
- Você quer ir, Ben? – perguntou Marianne, notando o nervosismo do rapaz.
- Eu... Talvez não seja uma boa ideia... Acho que ela não vai gostar de me ver, e eu não quero importuná-la, ela precisa se recuperar...
- Ben, você não existe... – disse Marianne, sorrindo incredulamente para Ben. Ele acabara de salvar a vida dela e agora tinha medo de importuná-la...! – Bom, eu vou então... Mas fique aqui. Logo trarei notícias.
- Está bem...
Marianne foi até o quarto de Susana e bateu levemente na porta, abrindo-a em seguida.
- Anne...! – disse Susana o mais animadamente que sua fraqueza permitia.
- Su, como você está?
- Eu... ainda não sei. Acho que estou bem... Só um pouco fraca, mas o médico disse que é normal.
- Fico feliz... – disse Marianne, com um largo sorriso que logo deu lugar a uma expressão severa – Susana Pevensie, eu a proíbo de nos dar outro susto como esse, está me ouvindo? – disse Marianne, num tom de reprovação suavizado pelo sorriso que involuntaruiamente voltava a se formar em seus lábios e pelas lágrimas equilibradas no canto de seus olhos.
- Me desculpe, Anne... Eu fui uma tola, uma inconsequente, só pensei em mim...
Susana então olhou para os curativos em seus pulsos.
- Quem me encontrou? Quem me trouxe?
- Fui eu... Fui ao alojamento chamá-la para ir fazer compras comigo e a encontrei...
- Oh, Anne... Lamento tanto por tê-la feito passar por isso...
- Já passou, Su... Você está bem agora, é o que importa. Eu a trouxe a tempo e conseguimos um doador a tempo também.
- Foi fácil encontrar um doador? Eu sei que o meu sangue é raro...
- Foi mais fácil do que você imagina... De fato não havia o seu tipo de sangue no estoque do hospital. Mas havia um doador bem debaixo do nosso nariz!
- Quem?
- O Ben...
- O Ben...? Ele doou sangue para mim?
- Sim.
- Mesmo... mesmo depois do que eu fiz? Mesmo depois de eu tê-lo tratado tão mal?
- Sim, Su, e posso lhe dizer que ele não hesitou em nenhum momento. Quando o médico disse qual era o seu tipo sanguíneo e Ben percebeu que era o mesmo dele, ele imediatamente se prontificou a fazer a doação.
Susana ficou sem palavras.
- Ele salvou a sua vida, Su.
- Eu... eu não posso acreditar...
- Eu disse que ele era uma ótima pessoa, Su, ele não merecia ser tratado da forma como você o tratou.
- Meu Deus, eu sou horrível... Onde ele está? Ele voltou ao hospital desde a doação?
- Você está brincando? Ele tem estado aqui desde então! Só voltava para casa para tomar banho, trocar de roupa e pegar alguma coisa, mas sempre voltava. Só ontem o convencemos a ir dormir em casa, pois já sabíamos que você estava fora de perigo. Mas ele já chegou, está na sala de espera.
- Então ele está aqui agora?
- Sim... Você quer vê-lo?
- Claro que quero... – disse Susana, sorrindo ternamente. Ela fora tão má com ele, e ainda sim ele salvou sua vida...
- Então vou chamá-lo... – sorriu Marianne, saindo em seguida.
Minutos depois, Ben surgiu à porta, hesitante, e olhou temeroso para Susana, que imediatamente notou sua insegurança.
- Pode entrar, Ben... – disse Susana, com uma voz suave. Ela notou o olhar hesitante de Ben e seu coração se encheu de compaixão. Ele estava com medo... Provavelmente com medo de que ela o magoasse novamente... E a culpa era toda dela. Ela o maltratara tanto e ainda assim ele não hesitou em oferecer seu sangue a ela...
- Como você está...? – perguntou ele, após fechar a porta, mas permanecendo distante.
- Estou bem... Agora estou bem... Graças a você.
Ben fitou-a, ainda hesitante. Seu coração mal cabia em seu peito tamanho era o alívio de vê-la viva e sendo cordial com ele... Parecia um sonho...
- Ben, chegue mais perto, não tenha medo de mim. Eu não mordo, sabe...? – disse ela, sorrindo.
Ben sorriu de volta e se aproximou da cama de Susana.
- Sente-se aqui... – disse ela, apontando para a beirada da cama, bem ao lado dela.
Ben sentou-se, e Susana imediatamente segurou a mão dele, o que fez o coração dele disparar em seu peito.
- Obrigada, Ben... Obrigada por salvar a minha vida. Eu nunca vou poder agradecer suficientemente o que você fez por mim...
- Não precisa me agradecer... Eu nunca poderia ter negado o meu sangue a alguém, nunca poderia ter me negado a salvar uma vida...
Principalmente a sua, meu amor..., pensou ele, sem verbalizar esse pensamento.
A omissão daquela frase, no entanto, deu outro sentido ao que ele acabara de dizer.
Então é isso..., pensou Susana. Ele teria feito isso por qualquer pessoa, claro... Ele sabe o quanto o sangue dele é raro, ele tem consciência disso. E se ele tinha algum sentimento especial por mim, provavelmente agora ele não tem mais. Quem continuaria interessado em uma suicida covarde como eu? Ele deve estar decepcionado comigo... Bom, era isso o que eu queria não era? Acho que eu consegui, afinal..., concluiu ela, com certa amargura em seu coração.
Ela não podia culpá-lo... Mas agora ela sentia que devia muito a ele, e prometera a si mesma nunca mais maltratá-lo de novo. Ele definitivamente não merecia. Marianne e Danna tinham razão... Ela era uma garota de sorte por ter despertado o interesse de alguém como Ben. E ainda que agora certamente ele não tivesse mais interesse algum nela, pelo menos a sua amizade ela gostaria de conquistar. Afinal, ele era o seu salvador...
- Podemos ser amigos? – perguntou ela, de forma sincera, mantendo a mão de Ben firmemente entre as dela.
O rosto de Ben se iluminou num largo sorriso, que fez o coração de Susana bater um pouco mais forte. Caspian. Era o mesmo sorriso de Caspian... Mas agora a semelhança entre os dois não a fazia mais sofrer. Graças à conversa com Lúcia, ela conseguira perdoar Caspian, ou melhor, entender que ele nunca fizera nada de errado. E agora ela finalmente podia olhar para Ben sem sentir aquela dor angustiante de antes.
- Claro que sim... – respondeu ele, unindo sua outra mão às dela.
Ben mal podia acreditar no que estava acontecendo. Ele não salvara a vida dela esperando recompensas, mas aquilo era um presente muito bem-vindo. Talvez ele jamais conseguisse alcançar o coração de Susana, mas ao menos a amizade dela já era um bem valioso, e ele lutaria todos os dias para mantê-la.
- Amigos... – disse ele, selando a amizade que acabara de nascer.
- Amigos... – respondeu ela, sorrindo ternamente para Ben.
Então, de repente as palavras de Lúcia voltaram à mente de Susana: "Eu diria até que ele seria capaz de cruzar mundos e dar o sangue por você..."
Dar o sangue por mim... Ele realmente deu o sangue dele por mim... Ela sabia... Lúcia sabia...
Susana finalmente entendera o que sua irmã quis dizer com aquilo. Mas ela se ateve tanto ao último trecho, que sua mente falhou em dar mais atenção à primeira parte da frase de Lúcia. Talvez ainda não fosse a hora de descobrir o que "cruzar mundos" significava...
Oi, pessoas! Espero que tenham gostado deste capítulo! :)
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