Capítulo 8 – Um dia muito especial

Era quarta-feira de manhã e Ben havia ido à livraria. O novo semestre na universidade começaria na próxima semana, e ele precisava comprar alguns livros. Ben examinava atentamente a lista de obras importantes que ele precisava adquirir e procurava concentradamente pelas prateleiras. Ele poderia simplesmente pedir ajuda a um dos atendentes, mas ele gostava de procurar sozinho pelos livros, era um tipo singular de divertimento.

Enquanto examinava os títulos dos livros na prateleira, Ben se lembrou de Susana... Como estaria ela agora? A última vez que ele a vira foi há três dias. Depois de receber alta, Danna, que havia acabado de voltar de sua pequena viagem, insistiu para que Susana passasse alguns dias na casa dela. Danna queria compensar o fato de ter estado ausente quando Susana passou horas difíceis e decidira cuidar dela durante sua recuperação. Susana não teve como recusar, e para falar a verdade ela não queria ficar sozinha no seu quarto de alojamento depois de tudo aquilo, ainda debilitada.

Sabendo dos sentimentos de Ben por Susana, John decidiu chamá-lo para uma visita à casa de Danna. Eles trocaram algumas poucas palavras na ocasião, mas nada de substancial. Mas foi o suficiente para deixar Ben contente por vê-la recuperada.

Enquanto tirava um livro da prateleira, outra lembrança veio à mente de Ben: o sonho que tivera naquela noite. Ele sonhara com Susana mais uma vez. O sonho havia sido nebuloso, não muito claro, mas ele tinha certeza de que era ela...

O sonho fora curto – ou talvez ele tenha tido essa impressão porque ele só se lembrava de uma pequena parte. Ele viu os olhos de Susana novamente, e eles estavam tristes e sem esperança. Ele não pôde distinguir claramente, mas teve a impressão de que ela vestia roupas diferentes das que ele costumava ver na Inglaterra. Pareciam ser de outra época... Da Idade Média, talvez?

Mas havia, além dos olhos de Susana, outro elemento que ele pôde distinguir claramente: a sua voz doce e encantadora. E o que ela disse foi a parte mais intrigante do sonho...

"Esse é o problema… Nós não voltaremos..."

O que aquilo significava? Ela disse que eles não voltariam... Não voltariam de onde? Não voltariam para onde? E quem eram eles? Ben teve uma intuição de que aquela frase de alguma forma estava relacionada a um dos seus sonhos anteriores, aquele no qual pessoas atravessavam um portal em uma árvore...

Ben estava tão distraído com seus pensamentos que deu um passo para trás e nem percebeu que havia uma pessoa cruzando o corredor. Aparentemente ela estava tão distraída quanto ele, visto que examinava uma lista de livros, alguns deles já em suas mãos.

O choque foi inevitável e fez com que os dois derrubassem seus livros no chão, abaixando em seguida para recolhê-los, em meio a inúmeros pedidos de desculpas. Quando Ben finalmente levantou seus olhos para se desculpar mais apropriadamente, suas palavras fugiram. Era Susana.

Depois de alguns minutos de choque, ela não pôde evitar uma pequena risada, achando graça da situação.

- Oi, Ben... – disse ela, sorrindo.

- Err... oi, Susana... – respondeu Ben, um pouco desconcertado – Não vai perguntar se eu estou te seguindo, vai? Eu juro que não estou...

- Não, eu não vou... – respondeu ela, com um meio sorriso no rosto - ... Mas eu realmente preciso tomar cuidado com os meus pensamentos...

- Como assim? – perguntou Ben, sem entender o que ela estava querendo dizer.

- Bem... eu acabei de pensar em você... e você simplesmente apareceu!

O coração de Ben disparou ao ouvir aquilo. Ela estava pensando nele?

- Estava pensando em mim...?

Nesse momento, Susana percebeu que havia falado demais. Na verdade ela estava pensando em Caspian, e em seguida se lembrou de Ben, porque ele se parece com Caspian... Mas eu não posso dizer isso a ele! Ai, Deus...

Mas a mente de Susana conseguiu trabalhar rápido o suficiente para responder sem que Ben percebesse sua hesitação.

- É que eu passei agora há pouco pela seção médica e vi um livro sobre transfusão de sangue... Então me lembrei de você... – disse ela sorrindo, satisfeita com a desculpa perfeita que encontrara.

- Hum, então foi isso... – respondeu ele, um pouco desapontado. No que ele estava pensando? Ele sabia muito bem que ela não correspondia aos seus sentimentos... – E como você está? Já se sente totalmente recuperada?

- Eu estou bem, obrigada... Minha saúde sempre foi muito boa, acho que isso ajudou na minha recuperação, sabe... E Danna cuidou muito bem de mim nos dias em que estive na casa dela.

- Danna é uma moça ótima, não é? Não é à toa que o Jo... – Ben parou no meio da frase, dando-se conta de que estava prestes a revelar, sem querer, o segredo de seu amigo.

Mas Susana imediatamente entendeu o que ele quase disse.

- John gosta dela, não é?

Ben ficou sem saber o que responder. Ele não poderia trair a confiança de John...

- Ben, pode me dizer! Eu já venho percebendo isso há algum tempo...

- Bom, sim... Ele gosta dela – Ben não teve mais como negar.

- Nunca falei com Danna nem com Marianne sobre isso, mas eu já tinha percebido, sabe. Mas achei melhor não dizer nada ainda. Pelo menos não enquanto não encontrasse uma boa oportunidade.

- E quanto a Danna? Você acha que ela sente algo por John?

- Sinceramente eu não sei... Desde que a conheci, nunca a vi falar sobre nenhum rapaz, ela é um pouco fechada quando o assunto é esse... Ela é meio... indecifrável...

- Entendo...

- Será que podemos fazer algo a respeito? – perguntou Susana, com um brilho travesso no olhar.

- Talvez... – respondeu Ben, gostando da ideia – Podemos trabalhar nisso...

A ideia de se unir a Susana com um propósito em comum animou Ben. Ele já havia tentado convencer John a se declarar para Danna, mas ele parecia irredutível. Mas com a ajuda de Susana talvez fosse possível fazer algo por ele.

De repente Ben se lembrou do motivo de estarem naquela livraria.

- Você também está procurando livros para a universidade, não é? Já encontrou todos?

- Quase. Falta só um, mas ele está indisponível aqui... É uma pena, pois é uma obra realmente importante...

- Bom... eu também não encontrei dois dos livros que eu quero, mas estou pensando em procurá-los em outro lugar. Conheço uma livraria muito boa, mas é um pouco longe daqui, uns 40 minutos de carro, se eu me lembro bem. Você quer ir comigo? Tenho certeza de que encontrará o que procura. – disse ele, sem ter muita certeza de que havia feito bem em convidá-la...

- Oh, seria ótimo! Você... não se importa?

O rosto de Ben se iluminou com um sorriso radiante.

- De forma alguma! Uma boa companhia é sempre bem-vinda... – disse ele de forma gentil, oferecendo o braço a Susana, que rapidamente aceitou.


- Essa livraria é mesmo incrível! Aqui está o livro que estava faltando! Vejo que você encontrou os seus também.

- Sim, agora a minha lista está completa... Agora o que não está completo é o meu estômago... – disse ele, rindo em seguida e arrancando uma risada de Susana também.

- Bom, já é quase meio-dia... Eu também estou com fome...

A situação que se apresentou a Ben o deixou um pouco desconcertado. Era óbvio que agora ele deveria chamá-la para almoçar. Mas a conotação que aquilo poderia ter o deixou nervoso... Ele estava prestes a convidá-la para almoçar com ele... Soava como um encontro! Mas... Não... Naquela situação, o convite não soaria como se ele a estivesse chamando para o encontro... Soaria? Deus, por que eu sou tão tolo?

- Tem um restaurante muito bom a duas quadras daqui... – Ben começou hesitantemente, ainda inseguro – Você... aceita almoçar comigo?

Susana sorriu docemente para Ben. Ela notara a insegurança dele, mas atribuiu o nervosismo ao fato de ela tê-lo tratado mal antes... Pobre Ben...

- Claro que aceito, Ben, será um prazer...

Durante o almoço, Ben e Susana conversaram sobre os mais variados assuntos, desde travessuras de infância até dificuldades da faculdade. Agora Susana acabava de contar sobre as viagens que ela fez no ano de intervalo entre o término do colégio e o início da universidade.

- Eu tive uma experiência parecida... – disse Ben – Mas no meu caso foram dois anos de intervalo entre o colégio e a faculdade. Assim que terminei o colégio, fiquei um ano acompanhando os negócios da família. Eu passava os dias com meu pai na sede da empresa, visitávamos as fábricas, aprendi muita coisa...

Enquanto Ben falava, Susana o observava atentamente. Ele era tão parecido com Caspian... Como aquilo era possível? Ela se sentia um pouco atraída por ele, ela não podia evitar... Mas ela sabia que a origem daquela atração era o seu amor por Caspian... Ela olhava para Ben e enxergava Caspian nele... Não tinha como ser diferente.

Ela inclusive chegou a pensar na possibilidade louca de ele ser Caspian, mas era logicamente impossível. Até alguns anos atrás, Caspian estava vivo em Nárnia, e ele não poderia estar vivo em Nárnia e em Londres ao mesmo tempo... A hipótese mais lógica era de que Ben era uma espécie de sósia de Caspian... Um correspondente londrino de um nativo de Nárnia... e que cruzou o caminho dela por algum motivo que ela ainda não sabia...

- Meu pai queria que eu me inteirasse de tudo e também queria que eu tivesse certeza de que era isso o que eu queria... – continuou Ben – Queria ter certeza de que eu queria realmente me envolver com a empresa da família ou se eu tinha alguma outra coisa em mente.

- É uma preocupação natural...

- Sim, ele coloca em mim as esperanças de dirigir a empresa no futuro.

- Você é filho único?

- Não, mas sou o único que sobrou... – Ben riu – Eu tenho duas irmãs mais velhas, Marion e Hilda, mas ambas já são casadas e vivem no exterior com seus respectivos maridos. Marion está na França, e Hilda na Itália. Mas elas nos visitam duas ou três vezes por ano.

- Entendo... Então seu pai aposta todas as fichas em você, não é?

- Sim, é mais ou menos isso... Mas eu não o culpo, nem reclamo. Eu sempre me interessei pelos negócios da família, sempre fui apaixonado pelo mar, sempre adorei navios, embarcações em geral... Então decidi cursar engenharia naval, para me especializar no ramo, sabe. Acho que é muito importante saber com o que estamos lidando. Depois desse ano de "estágio", passei um ano viajando, conhecendo novos lugares, assim como você. E foi uma experiência valiosa.

- Seus pais devem ter muito orgulho de você... – disse Susana, sorrindo.

- Bom... eu faço o possível para não decepcioná-los... – respondeu Ben timidamente, com um leve rubor em sua face – Espero poder corresponder às expectativas deles...

- Tenho certeza de que você já corresponde...

Ben sorriu sem jeito e olhou Susana nos olhos, quase se perdendo naquele mar azul. Mas ele logo desviou o olhar. Controle-se, Ben... Ela quer apenas a sua amizade, não crie esperanças..., pensou ele consigo mesmo.

Ele então constatou que ambos haviam acabado suas refeições.

- Então, o que você quer fazer? Quer voltar agora?

- Eu... eu não sei... O que você tem em mente?

Já que estamos aqui... por que não?, pensou ele.

- Bom, faz tempo que eu não venho para esses lados, há lugares muito bonitos por aqui. Talvez possamos aproveitar que já estamos aqui e passear um pouco... O que acha?

- Acho que é uma ótima ideia!

Ben pediu a conta e logo depois os dois saíram em direção ao carro dele.

- Você parece conhecer bem este lugar... Já morou aqui?

- Não exatamente... Quando meus avós eram vivos eles moravam aqui, e eu costumava passar as férias com eles quando criança.

- Hum, entendi... E para onde exatamente estamos indo agora?

- Há um parque muito bonito aqui, com um belo lago. Era um dos meus lugares preferidos... Você vai gostar de lá!

Ao chegar ao parque, Ben e Susana sentaram-se em um banco de frente para o lago e conversaram durante horas. Os assuntos pareciam infinitos, um sempre puxando outro, revelando uma grande afinidade entre os dois.

Depois, os dois foram a uma cafeteria, onde ficaram até o fim da tarde. Quando se deram conta, haviam passado o dia inteiro juntos.

- Obrigada pelo passeio, Ben! Foi um dia muito agradável – disse Susana alegremente, ao chegar à entrada de seu alojamento.

- Eu é que agradeço a sua companhia, Susana... Eu já estava meio mal-humorado com a possibilidade de ir até lá sozinho... – riu ele, e Susana riu também – Por mais que eu goste de lá, uma boa companhia é sempre bem-vinda...

- Obrigada pelo "boa companhia"...

Para mim você é muito mais que uma boa companhia, Susana..., pensou Ben, incapaz de desviar os olhos dos de Susana dessa vez.

- Bom, preciso entrar agora... – disse Susana, sem perceber a intensidade do olhar do rapaz – Até outro dia, Ben!

- Até outro dia... – respondeu Ben, vendo Susana se afastar em seguida e entrar no alojamento.

Ben ficou ainda mais alguns instantes olhando fixamente para a porta do alojamento antes de voltar para o carro e seguir para casa. Seu coração estava transbordando de alegria, ainda que aquilo significasse apenas amizade. Não importava se ela não sentia por ele o mesmo que ele sentia por ela... O que importava era que agora eles eram amigos e ele aproveitaria cada segundo dessa amizade.

Da janela de seu quarto, Susana viu o carro de Ben seguir pela rua até dobrar na primeira esquina. Um sorriso se desenhou em seus lábios. Há muito tempo ela não se sentia tão bem com alguém. Como ela pôde ser tão rude com Ben no início? Ele era tão doce, tão gentil... Há muito tempo ela não passava um dia tão agradável com alguém. E ela nem suspeitava que seu dia seria tão especial quando acordou pela manhã! Ben sem dúvida era um amigo valioso...


Olá, pessoas! Gostaram do capítulo? Gostaria de agradecer muito a todos que deixaram reviews, adorei! Obrigada também a quem adicionou minha fic aos Favorites/Alerts. Muito obrigada mesmo! ^_^

Eu não tive muito tempo de revisar esse capítulo, então se tiver algo estranho não reparem... XD Depois eu leio com mais calma e corrijo o que estiver esquisito... rs

Agora... reviews, please! :D


REVIEW REPLIES

renata – Fique tranquila, eu não vou abandonar a fic, não! Eu demoro às vezes, mas eu posto! XD

Rosalie HaleNessie – Oi! Sim, esse é o meu trabalho, e eu gosto muito do que eu faço! :) Muito obrigada pelos elogios, fico feliz que esteja gostando da fic! E vc é amante do Ben Barnes? Então somos duas! =P

Diessika – Fico feliz que está gostando, e desculpe se eu te deixo ansiosa pela demora! XD Prometo que vou tentar atualizar mais rápido... Quanto à sua sugestão, pode ser que eu a siga, vamos ver como as coisas vão rolar... :)

Regina Wassally – Obrigada pelo review! Espero que tenha gostado do novo capítulo! :D