Capítulo 9 – A Destemida

- Anne! – gritou John, ao encontrar a irmã – Sua aula já acabou?

- Sim, há alguns minutos...

- E onde está Susana?

- Não sei... Fiquei um pouco mais na classe para tirar algumas dúvidas com a professora depois da aula, mas Susana saiu apressada e disse que me encontraria na entrada do campus. Nós vamos nos encontrar com a Danna daqui a pouco para fazermos algumas compras.

- Hum, está explicado então...

- O quê?

- Ben também saiu apressado depois da aula, nem me esperou... Aposto que...

John não precisou completar o raciocínio. Ao chegarem à entrada do campus, ambos viram Ben e Susana do outro lado da rua, em frente à banca de jornal, conversando alegremente. John e Marianne se entreolharam, deram um meio sorriso e foram em direção deles.

- O que há de errado nesta cena? – perguntou John, aproximando-se dos dois.

- Que cena? – perguntou Ben, sem entender exatamente o que seu amigo estava querendo dizer.

- Esta, oras! – disse John exagerando na dramatização e fazendo Marianne dar o melhor de si para conter o riso.

- Eu não sei do que você está falando... – disse Ben.

Susana só observava, intrigada com o rumo daquela conversa.

- Bom, vou lhes contar então... – agora John voltou-se para Susana – Supõe-se que você, Susana Pevensie, seja amiga da minha querida pequena irmã...

Susana ia abrir a boca para dizer algo, mas foi interrompida por Marianne.

- Para de me chamar de pequena, John! Eu sou apenas quatro minutos e meio mais nova que você...

- Mas é vários centímetros mais baixa, o que faz de você a pequena...

- Hunf...

- E quanto a você, querido Panda... Supõe-se que você seja meu amigo. E o que temos aqui? Dois pobres irmãos abandonados pelos seus melhores amigos! – completou John acaloradamente. Quem não o conhecesse poderia até acreditar que ele realmente estivesse arrasado com "tamanho abandono".

- Ele te chamou de Panda? – perguntou Susana, dando-se conta do que acabara de ouvir.

- Deixa de ser dramático, John... – disse Ben, fingindo não ter ouvido a pergunta de Susana.

- Ele te chamou de Panda? – Susana perguntou mais uma vez, agora sem esconder o riso.

- Sim! – respondeu John, com um largo sorriso – Ele não te contou sobre o apelido dele?

- Não! É... tão fofo...!

- Não é nada fofo… – Ben respondeu, suas bochechas extremamente vermelhas. Ele então voltou-se para John – Você quer que eu te mate agora ou mais tarde?

- Ah, não o mate! É adorável, Ben! De onde veio?

- Você não vai querer saber...

- Sim, eu quero!

- Não, não quer...

- Bom, quando nosso querido Ben era uma pequena e fofa criança... – John começou, o que fez Ben levar a mão à própria testa, morto de vergonha – ele costumava dormir com um panda de pelúcia e, de acordo com sua mãe, ele se transformava em um monstrinho demoníaco irritante quando seu brinquedinho era tirado dele, o que suas irmãs adoravam fazer...

- Oh, devia ser a coisa mais fofa do mundo!

- Ah, era sim... Quando você for à casa dele, peça a mãe dele que lhe mostre fotos dele quando era criança!

- John! – Ben estava à beira do desespero.

- Ou melhor, não será preciso pedir, ela provavelmente vai mostrá-las a você sem que você peça!

- Já acabou de me envergonhar, John?

- Sim, já acabei... – John respondeu, com um sorriso satisfeito no rosto.

- Ótimo...

- Bom... – foi a vez de Marianne falar – Vamos, Su? Danna está nos esperando...

- Sim, vamos... – Susana respondeu, voltando-se em seguida para Ben – Vou sair com elas hoje... Antes que elas achem que eu troquei a amizade delas pela sua e que eu as abandonei para sempre... – completou ela, rindo.

- Só espero que elas não sejam tão dramáticas quanto o John... – Ben respondeu, rindo também, olhando de relance para o amigo, que trocava algumas últimas palavras com Marianne – Hum... nos vemos amanhã?

- Não sei... Amanhã eu provavelmente não serei uma boa companhia... Vou ao cemitério visitar o túmulo da minha família. Amanhã minha irmã completaria 18 anos...

- Entendo... Você vai sozinha?

- Sim...

- Você... quer companhia?

- Eu adoraria, Ben... Eu não queria mesmo ir sozinha, mas eu não tive coragem de chamar ninguém para ir comigo. Acho que um convite para ir a um cemitério não é dos mais agradáveis... – Susana sorriu, um pouco sem jeito.

- Eu não me importo, desde que eu esteja com você... – disse Ben, fazendo Susana corar – Que-... Quero dizer, eu não me importo de ir a um cemitério, desde que eu possa fazer companhia a uma amiga tão especial como você...

- Obrigada, Ben...

- Vamos, Su! – Marianne chamou novamente.

- Já estou indo!

- Então... Até amanhã... – disse Ben.

- Até amanhã, Ben...

Ben observou enquanto Susana se afastava com Marianne e se esqueceu completamente da presença de John.

- Err... Oi?

- Huh? Oi, John...

- E então? Quando você vai se declarar para ela?

Ben olhou para John sem acreditar no que acabara de ouvir.

- "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço"... Não é, meu amigo? – continuou John.

- Não é isso, John...

- Para mim a situação é exatamente a mesma.

- Não é. A relação entre você e a Danna é bem diferente da minha com a Susana. Você tem medo de se declarar a ela porque acha que ela o vê apenas como um irmão, mas você não tem certeza disso. Além do mais, Danna nunca odiou você nem nunca disse que o seu erro foi ter nascido...

- Você ainda não esqueceu isso, não é?

- Não é que eu tenha mágoa da Susana, eu não tenho mais... Mas eu não quero correr o risco de sofrer de novo aquilo tudo. Não quero que ela pense que eu salvei a vida dela só para conquistá-la.

- Não seja tolo, ela nunca pensaria isso! Ela parece gostar bastante de você agora.

- Sim, mas como amigo. Eu não quero arriscar essa amizade. Eu a amo demais, quero poder estar ao lado dela sempre... Não quero ser rejeitado outra vez...

- E se ela se apaixonasse por você e também tivesse medo de revelar? Vocês estariam perdendo a chance de viver algo muito bonito. A amizade de vocês já é bastante notável...

- Não acredito que isso vá acontecer. Mas se acontecesse, eu acho que eu perceberia...

- Não conte com isso, meu amigo... Nós homens somos péssimos em perceber os sentimentos das mulheres, principalmente quando elas decidem escondê-los de nós...

- Devo admitir que isso é verdade, infelizmente...

- Mas não se preocupe... Se a Susana acabar se apaixonando por você, tenho quase certeza de que eu vou acabar sabendo... Sabe como é a minha irmã, sempre bancando o Cupido...

Ben apenas riu. Ele não tinha a menor esperança de que isso pudesse acontecer. Mas sem dúvida ele seria o homem mais feliz do mundo se conseguisse conquistar o coração de Susana...


- Finalmente você resolveu passar um pouco de tempo conosco, hein, Su? Você não dá mais bola para a gente desde antes do início das aulas, e olha que já faz duas semanas! Agora você só tem olhos para o seu novo amigo...

- Não exagere, você está falando como o seu irmão...

- Porque ele tem razão, oras...

- Mas não eram vocês que queriam que eu e o Ben nos aproximássemos de qualquer forma? Do que estão reclamando agora?

- Su, não se faça de desentendida... – dessa vez Danna se pronunciou – Queríamos que você desse uma chance ao menino, ele arrasta um bonde por você! Se pelo menos você estivesse aproveitando bem o tempo que passa com ele, nós não reclamaríamos...

- Não sei do que vocês estão falando... Ben é meu amigo, oras!

- Mas tenho certeza de que ele gostaria de ser muito mais do que isso... Eu lembro como ele ficou preocupado quando você estava no hospital... – disse Marianne – E antes daquilo, eu lembro de John ter comentado o quanto Ben estava sofrendo com a sua rejeição. John me disse que Ben estava apaixonado por você.

- John disse isso...?

- Sim, com todas as letras...

- Bom... Se Ben realmente chegou a sentir algo assim por mim um dia, tenho certeza de que ele não sente mais. Francamente, quem continuaria apaixonado por uma suicida? Ele deve ter se decepcionado muito depois do que eu fiz... Tenho certeza de que o que ele sente por mim hoje não passa de amizade.

- E você, Su? Não sente nada por ele? Nadinha? – perguntou Danna.

- Bom, eu gosto da companhia dele... Ele é agradável, é engraçado... Descobrimos muitas afinidades... Enfim, ele é um bom amigo.

- Su, não é disso que eu estou falando!

- Veja bem, ele é muito bonito, atraente, tem um sorriso maravilhoso... – explicou Marianne – Você não se sente nem um pouquinho atraída por ele?

- Claro que não! Ele é muito bonito, admito, mas ele é só meu amigo, e vai continuar sendo só meu amigo. Parem de imaginar coisas...

- Meninas, olhem esse vestido, que lindo!

Susana ficou aliviada por ter sido tirada do foco da atenção da Marianne e Danna, que estavam deslumbradas com as roupas da loja. Ela aproveitou para refletir sobre seus sentimentos por Ben. Para falar a verdade, ela realmente estava se sentindo atraída por Ben e apreciando os momentos com ele mais do que deveria...

Mas ela não pretendia admitir essa atração às amigas. Se elas suspeitassem, provavelmente iniciariam uma campanha para unir os dois, acabariam envolvendo John e, consequentemente, Ben saberia. E isso não poderia acontecer de jeito nenhum.

Susana tinha certeza de que Ben não tinha mais nenhum interesse amoroso por ela depois da tentativa de suicídio, mas achava possível que esse interesse renascesse caso ela desse a ele alguma esperança. Porque, para falar a verdade, se ele tivesse se decepcionado tanto assim com ela, provavelmente nem amigo dela ele teria se tornado.

Mas ela não poderia dar falsas esperanças a ele... Ela se sentia atraída por ele, sim, isso era inegável... Mas ela tinha plena consciência de que o que a atraía nele era a semelhança com Caspian. Era Caspian que ela amava e sempre iria amar... E ela já gostava muito de Ben para fazê-lo sofrer outra vez... Ben era uma pessoa muito especial e sem dúvida merecia ser amado pelas suas qualidades, e não por lembrar outra pessoa.

Susana deu um longo suspiro e decidiu deixar esses pensamentos de lado por hora. Era melhor voltar a dar atenção às amigas, que agora se distraíam na seção de sapatos da loja.


No dia seguinte, um sábado nublado, Ben acompanhou Susana ao cemitério, como combinado. Ao chegarem à entrada, Susana respirou fundo.

- Não venho aqui desde o enterro deles... Não tive coragem de voltar...

- Você se sente preparada agora?

- Acho que sim... Algo me diz que eles estão bem agora... – disse ela. Na verdade ela tinha certeza, pois havia conversado com Lúcia enquanto estivera inconsciente no hospital. Mas obviamente ela não podia contar isso a Ben...

Susana entrou no cemitério em direção ao túmulo, e Ben a seguiu. Ela se aproximou do jazigo da família e depositou sobre ele as flores que havia levado. Ao ver as fotografias de seus pais e de seus irmãos, seus olhos se encheram de lágrimas.

Ben se aproximou também e colocou as flores que ele também levara. Ele então olhou para as fotografias e, ao ver os rostos de Pedro, Edmundo e Lúcia, seu coração quase parou. Ele teve certeza de já tê-los visto antes... Mas quando? Se fosse apenas uma leve sensação, ele poderia julgar que já havia cruzado com eles alguma vez enquanto eram vivos, já que moravam na mesma cidade. Mas não era isso... A sensação dele indicava algo mais forte, como se ele realmente os tivesse conhecido. Tão estranho... Mas Ben não teve tempo de pensar a fundo no assunto, já que nesse momento ele ouviu os soluços incessantes de Susana.

Ben sentiu seu coração partir ao ver Susana chorar e não se conteve: tomou-a em seus braços num abraço carinhoso e reconfortante, que Susana aceitou sem hesitar. Ficaram alguns minutos assim, Susana chorando copiosamente enquanto Ben acariciava seus cabelos e tentava acalmá-la.

- Eu sinto tanto a falta deles, Ben...

- Eu sei, minha querida, eu sei... Mas tenho certeza de que eles estão juntos num lugar muito bonito, longe de todo o sofrimento e de toda a dureza do nosso mundo... Eles estão bem, e tenho certeza de que eles não gostariam de ver você assim...

Susana foi aos poucos se acalmando com as palavras e com o carinho de Ben. Em poucos minutos suas lágrimas cessaram, mas ela se manteve abraçada a Ben por mais algum tempo. A sensação de estar nos braços dele era tão morna e agradável... Ela poderia ficar ali para sempre.

Ben sentiu quando os braços de Susana se apertaram um pouco mais ao redor da cintura dele, e ele teve que evocar todo o seu autocontrole para não fazer nada estúpido... Ben fechou os olhos, suspirou e se limitou a dar um suave beijo no alto da cabeça de Susana, que estava recostada em seu peito.

Susana fechou os olhos ao sentir o beijo, e recostou mais ainda ainda sua cabeça contra o peito de Ben. Então ela percebeu que o coração dele estava acelerado... freneticamente acelerado... E essa percepção a deixou um pouco desconcertada. Era melhor não prolongar aquele momento... Ela então suavemente se afastou dele e olhou em seus olhos, sorrindo ternamente.

- Obrigada, Ben... Obrigada pelas palavras, e obrigada por ter vindo aqui comigo.

- Não precisa me agradecer... – disse ele, levando uma de suas mãos ao rosto de Susana e enxugando os últimos resquícios de lágrimas que ainda havia nele – Apenas seja forte e por favor não chore mais... O seu sorriso é a minha recompensa...

Susana não pôde conter um sorriso, e Ben a olhou fascinado. Tão linda... Eu te amo tanto, Susana..., pensou ele. Ben estava presentes a se perder nos olhos dela e provavelmente fazer papel de bobo, mas decidiu quebrar o contato visual e olhou para a direção do túmulo.

Susana então se voltou para o túmulo novamente e fez uma pequena prece silenciosa. Ben fez o mesmo, apesar da sensação estranha que tomou conta dele naquele momento. Para ele, era como se eles não estivessem mortos... Uma imagem clara deles veio repentinamente em sua mente, e nela eles estavam bem e felizes.

- Podemos ir agora... – disse Susana, ao terminar sua prece.

- Vamos...

Os dois seguiram em direção à entrada do cemitério. Sem Susana perceber, Ben olhou para trás mais uma vez, na direção do jazigo, e o que ele viu então tocou fundo no seu coração. Ele viu uma bela jovem em frente ao túmulo, e ela estava inclinada sobre as flores que acabaram de ser depositadas, deleitando-se com o aroma agradável que elas exalavam. Ben não teve medo daquela visão, muito pelo contrário. Era agradável olhar para ela. Parecia um anjo... A jovem então olhou para a direção de Ben e sorriu, dizendo mentalmente a ele.

"Você está se saindo muito bem... Obrigada por salvar minha irmã... Muito obrigada."

Ben não teve dúvidas de quem se tratava. Era a própria Lúcia, irmã de Susana. Mais uma vez ele teve certeza de que a conhecia. Rainha Lúcia, a Destemida..., pensou ele, imediatamente estranhando esse pensamento. De qualquer forma, ainda que sua razão não pudesse definir claramente o que estava acontecendo, seu coração entendeu o recado da jovem e ele soube que estava no caminho certo.


Hello, people! :) Espero que tenham gostado deste capítulo!

Quero agradecer a Diessika, Lady Lien, Renata, Regina Wassally, Rosalie HaleNessie e MaNgA aLbInA (ri muito com esse nick! XD) pelos reviews! Fico feliz que estejam gostando da minha fic, obrigada mesmo! :D

Renata, até vai ter parte "hot", mas os "derivadios" eu vou ficar devendo... Esta fic é classificação T... =P

Rosalie, já te adicionei no MSN... :) E eu tb estou muito ansiosa pela estreia de VPA! Não vejo a hora!