Capítulo 11 – Duas vidas, um amor
Ben sempre for a um estudante muito atento, sempre prestando total atenção às suas aulas. Mas dessa vez foi diferente. Ele simplesmente não estava conseguindo prestar atenção em nada do que estava sendo dito. Por sorte ninguém percebeu, já que ele continuava olhando atentamente para o professor, como se prestasse atenção. Mas sua mente estava muito, muito longe.
"O que diabos está acontecendo comigo?", ele se perguntava, lembrando-se da cena que surgiu em sua mente quando ele olhou para a amiga de Susana. Aquela mulher... Ele sentiu como se a conhecesse, e esse sentimento foi ainda mais forte do que quando ele viu as fotos dos irmãos de Susana, especialmente a irmã dela. Aliás, ele estava quase certo de que a moça que ele viu no cemitério era Lúcia, mas ela não conseguia entender por que ela aparecera para ele em vez de aparecer para Susana. E ela ainda se comunicou com ele meio que telepaticamente... Mas por quê?
Ben começou a pensar a fundo sobre todas as coisas estranhas que estavam acontecendo ultimamente. No início, as cenas estranhas ocorriam só em sonhos, durante o sono, mas não elas surgiam quando ele estava acordado também. Na noite anterior, depois de chegar em cãs, ele estava pensando em Susana quando uma outra cena o pegou de surpresa. Na verdade ela fazia parte da cena que ele havia visto na lanchonete. Susana estava lá também, vestida em uma espécie de roupa de batalha e apontando seu arco e flecha para aquela mulher, enquanto esta apontava a besta para ele. Parecia que Susana o estava tentando proteger...
"Deus, isso não faz o menor sentido! Essa insanidade está me deixando louco! Ou será que é a minha loucura que está produzindo essas alucinações...? Eu preciso de ajuda... ajuda profissional... e rápido.
Seu primeiro pensamento foi procurar um terapeuta, mas ele reconsiderou, já que ele achou que tudo aquilo iria soar muito esquisito, mesmo para um terapeuta. Então ele decidiu procurar algo para ler. Talvez ele pudesse encontrar algumas respostas sem precisar mostrar a ninguém que ele estava ficando louco... Ele precisava ir à biblioteca, e ele tentaria ir assim que encontrasse algum tempo livre. Ele gostaria de ir naquele mesmo dia, mas ele precisava ir à casa de John buscar um livro que ele havia esquecido na última vez que estudaram juntos. Talvez ele pudesse ir depois que saísse da casa de John... Mas agora o que ele precisava era prestar atenção à aula, ainda que essa tarefa parecesse impossível.
- Aqui está o seu livro, Ben.
- Obrigado, John. Eu não acredito que eu o esqueci aqui...
- E eu não acredito que você só deu falta dele hoje!
- Pois é... Eu estou tão distraído ultimamente, não sei o que está acontecendo comigo...
- Você não sabe? Você tá brincando, né? Isso se chama "amor", meu amigo...
- Não, não é só isso, John...
- Não?
- Não...
Ben suspirou. Ele estava hesitante sobre compartilhar sua insanidade, mas a verdade era que ele estava impaciente para conversar sobre as suas "esquisitices" com alguém. John era seu amigo, afinal; não teria problemas se ele pensasse que ele era um maluco...
- John... Se eu lhe contar algo realmente estranho, você não vai me chamar de maluco, vai?
- Creio que isso seja impossível, Ben – John disse, rindo – O máximo que eu posso fazer é não chamá-lo de maluco na frente de outras pessoas...
- OK, eu aceito.
- Nossa, você parece tão sério... O que está acontecendo? É sobre Susana?
- Em parte, sim...
Então Ben contou a John tudo sobre os sonhos que ele tinha desde a infância, inclusive aqueles em que via os olhos de Susana, contou sobre ter visto Lúcia no cemitério e também sobre as suas "alucinações" recentes. Mas a reação de John definitivamente não foi a que Ben esperava.
- Ben, isso é incrível! Eu já li sobre esse tipo de coisa, mas eu nunca encontrei ninguém que realmente estivesse passando por isso...
- Do que você está falando?
- Vidas passadas, claro.
- Vidas passadas? Vidas passadas... Eu nunca considerei essa possibilidade... Você disse que leu sobre isso? Onde?
- Na verdade, eu tenho um livro sobre esse assunto. É um livro sobre psicologia. Algum tempo atrás, Marianne me pediu para eu ir à livraria para comprar alguns livros para ela, e eu achei este aqui. Eu fiquei bastante interessado. É sobre uma pesquisa científica sobre lembranças de vidas passadas e outros fenômenos psíquicos.
- "Da Índia ao Planeta Marte", de Théodore Flournoy – Ben leu baixinho, antes de folhear algumas páginas do livro e ler alguns trechos do prefácio – John, você pode me emprestar?
- Claro, pode levar! Eu acho que você vai encontrar as respostas que você está procurando. Mas eu posso lhe dizer que esses seus sonhos e "alucinações" realmente parecem ser lembranças de vidas passadas. Talvez você tenha conhecido Susana em outra vida e é por isso que você se apaixonou por ela tão rapidamente!
- John, isso... isso é incrível! Muito obrigado!
- E você achou que eu fosse chamá-lo de maluco... Que espécie de amigo você acha que eu sou? – ele perguntou, fingindo estar profundamente ofendido e arrancando uma gargalhada de Ben.
- Você realmente me surpreendeu. Não sabia que você acreditava nesse tipo de coisa.
- Bem, a vida tem tantos mistérios, nós temos que tentar desvendar alguns deles, sabe. Não podemos simplesmente fechar os olhos para as coisas que não conseguimos explicar.
- É, você está certo...
Ben olhou para o livro em suas mãos e mal podia esperar para começar a lê-lo. Aquilo definitivamente era o que ele estava procurando.
- Então você se casou com Glozelle...
Susana e Prunaprismia haviam se encontrado numa cafeteria perto do campus e agora já conversavam há algumas horas.
- Sim... Quando chegamos aqui, nós ficamos muito próximos, ajudando um ao outro, e ele desenvolveu uma grande amizade com meu pai.
- Lorde Scythley...
- Sim... Glozelle sempre foi muito atencioso, muito gentil, e sempre se preocupava com meu filho. Mas levou algum tempo até começarmos um relacionamento. Dois anos, eu acho. Eu não estava preparada para um novo relacionamento no início, eu nem pensava nisso. Mas dois anos mais tarde, eu comecei a pensar em me casar novamente, em dar um pai ao meu filho. Então eu me dei conta de que Glozelle esteve sempre presente quando eu precisei, então eu pensei: "Por que não?".
- Entendo... Acho que Glozelle sempre foi um bom homem, eu pude ver bons sentimentos nele. Quando lutamos na Revolução Narniana, eu presenciei uma cena que foi bastante comovente. Caspian estava no chão e Glozelle estava em pé à frente dele e poderia tê-lo matado facilmente se ele quisesse. Mas ele não o matou. E mesmo se as árvores não tivessem chegado naquele exato momento, tenho certeza que ainda assim ele não o teria matado. Ele hesitou, e eu vi um brilho de lealdade em seus olhos. Caspian era o herdeiro do trono por direito, afinal.
- Sim, ele era. E Miraz tentou roubar-lhe o trono e obrigou Glozelle a seguir suas ordens. Foi por isso que Glozelle aceitou a oferta de vir para cá, ele estava tão envergonhado... – ela disse, com a voz cheia de lamentação – Olhe... Eu quero me desculpar pelo meu comportamento naquela época... Eu feri Caspian, quando tudo o que ele queria era lutar por seus direitos.
- Não precisa se desculpar, Prunaprismia... Você fez o que você tinha que fazer, você só estava defendendo seu marido. Você não sabia que Miraz tinha matado o pai de Caspian, nem que ele tinha tentado matar o próprio Caspian no dia em que seu filho nasceu. Não foi sua culpa...
- Obrigada, Susana... Estou muito feliz por você não ter guardado rancores em relação a mim.
- Nem eu nem meus irmãos, eu posso lhe garantir.
- Eu lamento tanto pelo que aconteceu a eles e aos seus pais...
- Foi um período muito difícil para mim... Mas eu tenho certeza de que eles estão bem agora, felizes e em paz... Mas eu sinto tanto a falta deles... – disse ela, sua voz falhando um pouco.
- Oh, querida... – Prunaprismia segurou a mão de Susana, confortando-a.
Susana decidiu não deixar a dor dominá-la e rapidamente secou as lágrimas que começavam a se formar em seus olhos.
- Eu vou ficar bem...
Prunaprismia olhou seu relógio e notou que já era um pouco tarde.
- Susana, querida, eu preciso ir agora. Deixei meu filho com seu professor no hotel, não quero que ele sinta minha falta por tanto tempo... Podemos nos encontrar novamente?
- Claro, eu ficaria muito feliz de poder conversar com você outra vez.
- No próximo sábado nós estaremos livres, você poderia me visitar em meu hotel, o que você acha? Poderíamos almoçar a passar a tarde juntas. Glozelle estará lá também, tenho certeza de que ele ficará muito feliz em vê-la.
- Seria ótimo!
Prunaprismia pegou um pedaço de papel, anotou o endereço do o hotel nele e entregou-o a Susana.
- Aqui está. Estarei esperando você para o almoço então.
- Eu estarei lá.
Prunaprismia se despediu de Susana e deixou a cafeteria. Susana ficou lá por mais algum tempo, refletindo sobre toda a conversa que tiveram.
"Ela é uma boa mulher... Ela não merecia ter aquele canalha como marido. Mas estou feliz que ela está tendo uma segunda chance agora."
Quando Susana acordou na manhã seguinte, seu primeiro pensamento foi em Ben. Aliás, ela estava pensando nele com bastante frequência... Todas as manhãs ela ansiava pelos momentos que teria com Ben, mesmo sabendo que durante a semana eles não tinha muito tempo para se ver, já que estudavam em prédios diferentes e ambos estavam ficando muito ocupados com seus estudos.
Agora Susana estava a caminho de sua aula, ainda pensando em Ben, quando uma voz fez seu coração disparar.
- Susana!
- Ben! – ela sorriu um pouco nervosa, tentando acalmar o ritmo de seu coração – Bom... Bom dia!
- Bom dia, amor... – ele disse, corando imediatamente ao perceber o que havia deixado escapar, fazendo-a corar também. – Err... desculpe, eu não deveria ter dito isso... Eu...
Susana apenas sorriu com o embaraço de Ben. Ela adorou o modo como ele a chamou de "amor", mas ela não sabia se deveria dizer a ele que ele não precisava pedir desculpas. Mas antes que ela pudesse chegar a alguma conclusão, ele decidiu mudar de assunto.
- Eu... Eu estou feliz de tê-la encontrado, preciso falar com você.
- Sobre o quê?
- Bom, meu aniversário é no próximo domingo e eu vou celebrá-lo com os meus amigos mais próximos, na minha casa, à noite. Eu gostaria muito que você fosse...
- Oh, é seu aniversário! Que ótimo! É claro que eu vou, eu adoraria!
Ben deu um largo sorriso de pura felicidade, e ele estava tão arrebatador que o coração de Susana doeu em seu peito.
- Ótimo! Vou pegá-la no seu alojamento então às 18 horas, tudo bem?
- Sim, está ótimo!
- Bom... Estou convidando você agora porque creio que não teremos tempo de nos ver novamente até o fim de semana...
- Por quê...? – ela perguntou, com uma ponta de tristeza surgindo em sua voz.
- Eu vou ter algumas aulas de treinamento fora do campus, com os meus colegas de classe. Vamos sair dentro de poucas horas, aliás. Será uma semana bem agitada...
- Entendo... – ela disse timidamente. – Então só nos veremos novamente no domingo?
- Não sei... Talvez possamos nos encontrar no sábado, poderíamos passear um pouco... O que acha?
- Oh... Eu já tenho um compromisso no sábado... Vou visitar minha amiga no hotel onde ela está hospedada. Aquela amiga que encontrei na lanchonete.
- Eu me lembro... – ele disse, lembrando-se brevemente da memória que aquela mulher provocou. – Então parece que só vamos nos ver novamente no meu aniversário... – ele concluiu, fitando Susana com um olhar melancólico.
- É, acho que sim... – respondeu ela, tão melancólica quanto ele.
Ben continuou olhando para ela, querendo dizer algo mais, mas não encontrando coragem suficiente. Ele já havia lido várias páginas do livro que John lhe emprestara, e ele estava completamente convencido de que seus sonhos e alucinações eram na verdade lembranças de outra vida – uma vida na qual ele com certeza havia conhecido Susana. Desde a primeira vez em que a vira, ele soube que ela era o amor da vida dele, e agora ele estava certo de que aquele amor havia nascido muito tempo atrás, em outra época. Mas ele não estava certo do que deveria fazer agora. Ele não podia simplesmente contar a ela tudo aquilo, ou ela provavelmente acharia que ele estava ficando louco. Além disso, ele precisava ir para a aula agora...
- Eu preciso ir agora...
Ben se aproximou de Susana, um pouco hesitante, e isso fez Susana prender a respiração. Ele aproximou-se devagar e deu um suave beijo na bochecha de Susana, e ela fechou os olhos enquanto uma sensação extremamente agradável a dominava. O coração dela estava disparado, ainda mais rápido do que quando ele beijou sua testa na outra noite.
- Até mais... – ele disse, olhando profundamente nos olhos dela.
- Até mais... – ela respondeu, olhando-o nos olhos e, em seguida, desviando brevemente o olhar para os lábios perfeitos dele.
Ele então partiu em direção ao seu prédio, com o coração apertado em seu peito. "Oh, deixe de ser tão dramático...", ele disse para si mesmo. "São apenas alguns dias...". Depois de alguns passos, ele voltou-se novamente para a direção de Susana e ela ainda estava no mesmo lugar, observando-o. Ele sorriu, e ela sorriu de volta. Mas ele não teve tempo de observá-la por mais tempo, já que um colega de classe se aproximou, chamando sua atenção.
Susana continuou no mesmo local, seguindo Ben com o olhar até não poder mais vê-lo. Ela sentiu uma ponta de dor em seu coração e respirou fundo. "Oh, deixe de ser tão dramática...", ela disse para si mesma. "São apenas alguns dias..."
"Apenas alguns dias..."
Oi, pessoas! Eu queria pedir desculpas pela demora, mas eu estive muito ocupada os últimos dias... Sorry!
E também queria agradecer a todos pelos reviews! Espero que tenham gostado deste capítulo! :D
Diessika e Rosalie HaleNessie, me perdoem por torturar vcs com a minha demora! XD
PS1: O livro Da Índia ao Planeta Marte é outra referência real. Seu nome original é From India to the Planet Mars (não sei se foi publicado em português), e seu autor, Théodore Flournoy, foi professor de psicologia na Universidade de Genebra e escreveu livros sobre fenômenos psíquicos.
PS2 (para aqueles que não são registrados): Gostaria de pedir mil desculpas, mas eu desativei os reviews anônimos. Sinto muito mesmo, mas eu tive que fazer isso antes que as coisas fugissem do meu controle (eu estava recebendo muito "spam" nas minhas fics em inglês). Mas vocês podem se registrar! É bastante útil, já que permite que vcs adicionem suas histórias favoritas ao sistema de alertas e recebam os avisos de atualizações por e-mail! :)
