Milo estava no Édem infernal criado por Lúcifer para entreter seus súditos de alto escalão e suas esposas.
Estava frustrado, irritadiço e profundamente abatido. Desde que abandonara o seu francês lá em Paris, nada tinha mais graça. Suspirou e arrancou uma flor.
Milo era mimado, estava habituado a ter tudo o que queria e quando queria.
Um perfume de sândalo invadiu suas narinas, denunciando que o seu Lord se aproximava. Lúcifer o abraçou pelas costas, carinhoso.
-Para que tanta infelicidade, meu valoroso general? –Perguntou-lhe, lambendo-lhe o lóbulo da orelha esquerda.
O loiro não se desvencilhou nem reagiu, só ficou ali, parado, com o olhar perdido.
-Milord, eu sou feio? –Milo perguntou ao seu mentor, como um adolescente inseguro pergunta ao irmão mais velho.
Lúcifer deu uma gargalhada e mordiscou a mesma orelha antes lambida.
-De onde tirou essa idéia maluca, meu pássaro do paraíso? Você é forte... –Lúcifer passou a mão por seu tórax e seus braços definidos –...Belo... –Contornou-lhe o rosto com a ponta dos dedos -...Sensual... –As mãos desceram, lascivas, até a área sensível do outro homem -...E muito desejado. –Soprou as últimas palavras com malícia em seu ouvido antes de começar a bulir com ele por baixo da calça.
Milo, apesar de chateado, estava muito carente e Lúcifer sempre soube como suprir suas necessidades físicas.
O rapaz soltou um suspiro lascivo e deixou a cabeça pender para trás, no ombro do moreno, e o corpo se entregar ao prazer. Lúcifer virou-o de frente para si, beijando-o nos lábios. Começou a arrancar as roupas vorazmente. Milo, impaciente, rasgou as vestes do outro.
O moreno beijava e chupava todo o seu tórax de uma forma despudorada e pecaminosa, tão envolvente, tão enlouquecedora, como só o Rei de todos os demônios saberia fazer. Sem cuidado nenhum, Milo cravou-lhe as costas com suas unhas compridas. Lúcifer mordia seu pescoço provocando um misto de dor e prazer lancinante, fazendo Milo gritar.
As pernas pálidas e compridas do Mestre envolveram a cintura de Milo e, em um ritmo frenético, uma dança demoníaca, cavalgava-o.
Após o ato, os dois se estiraram na grama, nus e suados.
Lúcifer adormeceu, como só fazia com Milo. Ao observá-lo ali, mais parecendo o mais doce anjo dos seus do que o mais traiçoeiro e cruel dos demônios, Milo se lembrou de Kamus.
Tão puro, ao contrário de seu Lord, que o corrompera e o transformara no que era. Não, não era uma pobre vítima, mas nunca conhecera o amor como os humanos o têm. Nem como os anjos.
O amor humano é um misto de pureza e pecado, delicadeza e desejo, um poço de contradições que os leva a fazer as maiores loucuras. E o amor angelical era completamente puro.
Aos demônios, sobrava a luxúria.
Fora iniciado naquele mundo cedo, devia ter uns 12 ou 13 anos...
Milo andava, cauteloso pelos corredores do palácio, não gostava muito dali. O Lord lhe explicara que, como era apenas meio-demônio, muitos dos demônios queriam devorá-lo. Em todos os sentidos. De uma esquina "brotou" Lilith. Seios fartos, longos cabelos castanhos, olhos verdes e brilhantes, pele alva, coxas grossas... A encarnação do pecado para qualquer homem. Ela lhe sorriu com os lábios carnudos e vermelhos, lasciva.
-Olá, Mi. –Ele detestava quando o chamavam assim, mas aquela mulher parecia ter um magnetismo natural.
Tímido e apavorado, colou-se contra a parede. O Lord mandara-lhe não falar com Lilith. Ela nunca aparecia por ali mesmo, não parecia haver motivos para temer sua presença, não antes daquele dia.
Notando seu medo, Lilith gargalhou, jogando a cabeça para trás e mostrando o quanto o seu decote era generoso. Meio enojado, Milo pensou que os peitos dela pareciam que iam saltar a qualquer momento. Nunca fora um poço de delicadeza mesmo.
Ela começou a se aproximar dele e Milo percebeu que sua respiração ficava rasa, ele suava e tentava ultrapassar aquela parede, correr para os braços de seu Mestre, para que ele o acalentasse, cuidasse dele e o ninasse como sempre faziam.
-Oh, pobrezinho. O "meu marido" lhe ensinou coisas más sobre mim, não foi? –Perguntou ela, se acocorando na sua altura. Milo acenou freneticamente com a cabeça. Ela sorriu delicadamente. –Não precisa se preocupar, querido. Eu adoro crianças... Ainda mais uma criança tão linda e deliciosa como você... –Murmurou, antes de dar-lhe um beijo na boca.
Ela pareceu segregar alguma droga para dentro do corpo dele através daquele beijo. Todos os músculos de Milo relaxaram e ele tombou nos braços da mulher, que rejubilava. Outras succubus surgiram das sombras, dando risadinhas. Carregaram-no até um quarto e arrancaram suas roupas. Drogado, Milo não entendia nada. Aquelas mulheres chupavam-no, mordiam-no, lanhavam-no, sugavam seu sangue, cortaram seus delicados cachos que o Mestre gostava tanto.
Droga, ele vai me matar... –Pensou meio grogue.
À Lilith coube a "honra" de desvirginá-lo. Bem no momento em que seu corpo infantil entregava-se ao gozo e as succubus davam risinhos, o Lord entrou furioso. Com o olhar apenas, explodiu uma succubus ruiva próxima. Dando gritinhos, as outras sumiram nas sombras deixando um Lúcifer enraivecido e uma Lilith satisfeita e nua.
-EU TE AVISEI PARA NÃO SE APROXIMAR DELE, LILITH! –Gritou, aproximando-se e agarrando-a pelos cabelos da nuca, puxando sua cabeça para trás com força.
Em vez de apavorar-se como todos, Lilith só riu mais alto, livrando-se das mãos do esposo e olhando-o, superior.
-Se não houvesse me alertado, talvez eu o fizesse mesmo. Mas ele é tão lindo... E, além do mais, Lu, você casou-se comigo pelo meu gosto pelo proibido, não? –Ia falando e puxando umas cobertas para cima de si. –E eu te fiz um favor, Lúcifer, desvirginando o moleque. Assim, ele vai ter alguma experiência quando você o quiser. –Riu, deitando-se. –Pode levá-lo, agora.
Lúcifer pegou Milo nos braços, com o semblante carregado pelo ódio.
-Ele drogado não é nenhum mérito, Lilith. Aliás, eu não sei o que me impede de te explodir como eu fiz com uma das suas serviçais que ousaram tocar nele.
Lilith coçou a própria cabeça, manhosa e achando muita graça de tudo.
-Mesmo drogado, você verá como ele voltará para mim, Lu. Como todos voltam. Mas, se você não sabe o que te impede, eu te digo, querido: te impede o fato de eu ter quase tantos serviçais leais a mim quanto você tem neste Inferno. Te impede o fato de saber que não me explodiria com tanta facilidade e, se tocasse em mim, desencadearia uma guerra por um ridículo meio-mortal.
Diante daquele ponto, Lúcifer não teve o que argumentar e partiu, com Milo enrolado em alguns lençóis para protegê-lo um pouco do frio e dos olhares alheios. Ele era seu, afinal. Mas Lilith ia pagar, ah se ia.
Milo abriu os olhos meio assustado e abraçou seu pescoço, principiando em soluços.
-Eu prometo que nunca mais vou sair do jardim, Mestre. Eu prometo. Não me castiga mais não, Mestre, por favor... –Balbuciou, com a voz entrecortada pelo choro.
Lúcifer sentiu algo que em toda a sua existência nunca tinha feito parte de si e que ele zombava dos demais, ternura.
-Você acha que isso foi algo que eu mandei ela fazer para te castigar, Milo? –Sussurrou contra seus cabelos agora curtos. Como sentia falta daqueles cachos para enrolar seus cabelos...
Milo fungou.
-Só pode ter sido, Mestre. Por que mais a Grande Dama Lilith e suas servas iam me machucar tanto? –Perguntou, apontando para os arranhões e mordidas pelo corpo.
Lúcifer o apertou com força, colocando sua cabeça contra seu peito. Será que Deus tinha dado-lhe Milo para castigar-lhe por nunca ter sabido amar?
-Nunca, Milo. Eu nunca faria algo assim com você. Lilith agiu por conta própria e ela vai pagar. Eu juro.
A criança ergueu seus olhos azuis para os amarelos de seu mestre.
-Mas, Mestre, por que ela faria tal coisa?
O olhar dourado em resposta foi duro.
-Porque ela é má, Milo. Todos aqui são maus e, um dia, infelizmente você vai acabar assim também. –Repousou Milo no chão, acariciando sua bochecha com um polegar. Tinham chegado à entrada dos jardins privados de Milo.
Milo hesitou por um instante antes de perguntar novamente.
-Mas... eu não gosto dela. Eu não gosto de gente má. O senhor não é mau, Mestre. O senhor não vai gostar mais de mim se eu for mau? –Ao concluir, agarrou uma mecha negra e lisa de seu cabelo.
Lúcifer não se agüentou e tomou os lábios de Milo nos seus em um beijo, pela primeira vez em milênios, cândido.
-Nunca, Milo. Nunca vou deixar de te amar.
No presente, ao terminar o ato, Milo começou a chorar sobre a cabeça de Lúcifer. Os soluços brotavam como nunca, desde aquele dia com Lilith.
Nisso, Lúcifer acordou e encarou-o.
-O que foi, meu querido? Por que está chorando? –Ele lambia suas lágrimas com a ternura que só existia quando estava perto de Milo.
-Choro porque amo, Mestre. Amo um ser puro que nunca me amará. Eu sou mau.
O coração de Lúcifer quase se partiu ao ouvir tais palavras, ao lembrar-se dele mesmo, milênios atrás.
-É sempre assim. E seu coração se partirá quando veres que ele se tornou um ser corrompido como você e ama algo puro que nunca atingirá. Ele nunca será verdadeiramente seu, Milo. –Estavam sentados na relva lado a lado.
Milo não perguntou se era perdoado, porque não precisava. Perguntou outra coisa que estava em sua cabeça.
-Ainda me ama, Mestre? –Murmurou, mais preocupado com Kamus do que com a verdadeira resposta de Lúcifer.
Ele demorou mais do que o loiro imaginou que pudesse para responder.
-Eu amarei para sempre aquela criança de cachos loiros que me embalava na hora de dormir e era tão pura quanto eu mesmo no momento de minha criação. É o que você sempre amará nele, Milo. Você mesmo. Demônios não amam nada nem ninguém além deles. Amamos um alguém que não existe e nunca existirá. É a nossa sina, nossa maldição.
