Disclaimer: Inuyasha não me pertence, mas a história da fic, sim u.u
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Uma voz familiar ecoou em sua mente e depois de um tempo ela percebeu que a voz chamava seu nome. O escuro que tomava conta de sua visão foi aos poucos se dissipando e uma silhueta borrada se formou em sua frente.
- Kagome! Kagome! – a voz chamou novamente, dessa vez bem nítida.
A garota apertou os olhos focando a figura de uma garota.
- San...go. – balbuciou com fraqueza.
- Kagome, pensei que não fosse acordar nunca. – disse aliviada.
Ao focar ao redor, a jovem notou ainda estar na cela, mas esta estava aberta e a amiga estava do lado de dentro com ela, segurando sua cabeça sobre seu colo.
- O que faz aqui...?
- Eu soube o que aconteceu com você Kagome... – disse tristemente – Sinto muito pelo que houve... Mas, como está? – perguntou preocupada, observando o estado lastimável da amiga.
- Sinto como se tivesse sido pisoteada por um youkai. – não era tão longe da verdade...
- Venha, vamos sair daqui. – disse a ajudando a se pôr de pé.
- Espera! Como você entrou aqui? – indagou desconfiada.
- Eu criei uma pequena distração na cozinha pra chamar a atenção dos guardas. – respondeu erguendo um molho de chaves na mão – Essa é uma de minhas 'habilidades', digamos assim. – finalizou com um sorriso.
Kagome apenas assentiu com outro sorriso. Seu corpo todo doía, mas ao menos estava viva... ao menos por hora. Sango a guiou até a porta que dava ao exterior, um movimento foi notado ao longe e ela apressou a amiga que andava com dificuldade:
- Vamos logo, eles estão voltando!
As duas correram como podiam e se esgueiraram pelos corredores até sair pelas portas dos fundos. Uma vez do lado de fora, a jovem percebeu que o sol já se escondia e começava a escurecer, a noite daria cobertura a elas e seria mais fácil circular pelas ruas com menos movimento. Após dar a volta pelos fundos da propriedade, Sango fez sinal para que Kagome parasse. Estavam na esquina da parte lateral da casa com a frontal, de onde podiam ver os dois guardas no portão, dentro da mansão já se podia ouvir a confusão que se instalara quando descobriram que duas escravas haviam fugido, precisavam se apressar.
Sango pediu à amiga que ficasse onde estava que ela resolveria o problema. Aproximou-se dos guardas calmamente, quando os olhares se voltaram para ela, começou a dizer:
- Mestre Naraku quer vê-los imediatamente. Está muito nervoso por que deixaram uma escrava fugir! – disse despreocupadamente.
Os youkais se entreolharam, um deles arqueou a sobrancelha e fitou a humana, que ficou ligeiramente nervosa, afinal essa não era a função dela, mas os guardas não podiam ignorar uma ordem de seu mestre. Saíram apressadamente, adentrando a casa.
Sango fez sinal para Kagome, que correu silenciosamente a seu encontro. As duas cruzaram o portão principal e logo estavam livres. Correram por dois quarteirões e pararam para descansar em um beco:
- Conseguimos! – disse Kagome exultante.
- Não sei... foi muito fácil... – desconfiou.
- Mas já estamos longe deles. – respondeu a outra, inocentemente.
- Eles virão atrás de nós. – retrucou séria. Isso fez a outra sentir um calafrio com a aquele pensamento.
Um barulho de algo grande se aproximando fez com que Sango pusesse a cabeça cuidadosamente para fora do beco para ver o que era, e o que viu a deixou apavorada. A outra notou o estado de pânico da amiga:
- O que foi Sango? – perguntou aflita.
- Naraku mandou Goshinki atrás de nós. – respondeu quase num sussurro.
- Quem? – a outra perguntou confusa.
- Ele sempre encontra escravas que tentam fugir, e normalmente as mata e devora na hora! – respondeu se virando para ela – É apenas questão de tempo para que nos encontre.
- O que vamos fazer? – perguntava já se desesperando.
- Eu vou distraí-lo, enquanto isso você deve correr o máximo que conseguir. Vá para bem longe, onde Naraku não possa te encontrar.
- Não, Sango! Você vai morrer. – dizia já com lágrimas nos olhos.
- Tudo bem, eu conheço mais sobre youkais do que você. Vou ficar bem.
- Sango... – abraçou com força a amiga, enquanto tentava segurar às lagrimas.
Sango se desvencilhou da amiga, dando-lhe um sorriso caloroso e depois correu para o meio da estrada, chamando a atenção do youkai para si, apesar deste estar meio distante.
- Hey feioso, venha me pegar! – gritou a garota, somente para começar a correr depois com a criatura em seu encalço.
Kagome fitou de onde estava e se surpreendeu com o que viu. A criatura que agora perseguia sua amiga era imensa, maior que qualquer oni que ela já vira, tinha o corpo em tom roxo e uma espécie de crina branca nas costas e dois longos chifres córneos em sua cabeça, seus olhos vermelhos como o sangue só expressavam o desejo de cravar os enormes dentes afiados na carne tenra da humana, os longos braços com garras se adiantavam destruindo tudo no caminho de sua perseguição. A visão deixou a garota temporariamente paralisada, sacudiu a cabeça intentando 'despertar' do transe e observou até que quase sumiam de vista, para então correr na direção oposta.
Seus pensamentos passavam tão rápido quanto a sucessão de ruas que ela conseguia correr a toda velocidade que possuía. Agora entendia o que Sango havia feito, pois ela tinha feito o mesmo para salvar sua família, se sacrificou por eles, assim como a amiga fizera por ela. Não deixou que lágrimas caíssem e continuou correndo, já com velocidade reduzida. Sentia pontadas de dor no estômago, devido ao golpe recente do youkai, sua pernas já se cansavam da corrida e seu corpo todo clamava por descanso. Ao decorrer de seu percurso, as poucas criaturas que passavam pelas ruas a olhavam curiosas, ela, porém fazia o máximo que podia para não olhar para eles, não queria ver a expressão de desprezo que lhe lançavam vez por outra, fechou os olhos um instante ainda sem parar de correr e sentindo suas forças acabarem.
Quando os abriu novamente, avistou ninguém menos que Goshinki, o youkai assassino de Naraku, saindo de trás de uma casa e parando bem a sua frente, bloqueando sua passagem pela rua. Ela parou imediatamente de correr, fitou horrorizada com um detalhe que notou em seu perseguidor: na boca do monstro, um pedaço de tecido sujo de sangue balançava ao vento, ainda preso a seus afiados dentes. O que a deixou sem fala, foi reconhecer aquele pedaço de tecido como sendo um pedaço do kimono de sua amiga:
- Sango... – disse em tom baixo, mais para si mesma – O que você fez com ela seu monstro!? – gritou por fim, já com as lágrimas incontidas começando a sair.
O youkai abriu um sorriso sinistro e em seguida gargalhou com sua voz gutural de uma maneira que fez com que a garota se arrepiasse, principalmente depois do que ele disse em seguida:
- Não se preocupe, logo você se juntará a ela.
Ato contínuo o youkai partiu pra cima da indefesa e até então atônita humana. Esta saindo do transe ao qual aquela visão e palavras lhe causaram, se viu no caminho do enorme ser que vinha em sua direção quase com tanta ânsia de devorá-la quanto o fez com sua amiga. Pôs-se a correr como pôde, apesar do cansaço, pois o instinto de sobrevivência era maior que seu esgotamento.
Foi repentinamente jogada ao chão ao mesmo tempo em que sentia uma forte dor no ombro esquerdo. Seguidamente do doloroso ato de se levantar, percebeu a ferida em seu ombro, ao olhar para trás viu as garras sujas de sangue que o monstro ostentava, juntamente com uma expressão deleitosa na face.
- Já desistiu? – o youkai pergunta com desapontamento e um certo tom irônico – Corra mais, assim é mais divertido. – encerra com expressão somente igualada a de um maníaco frente sua vítima.
Kagome com certeza tinha a expressão aterrorizada dessa vítima. Viu que o youkai somente esperava que ela recomeçasse a fugir para voltar a persegui-la, mas não tinha outra escolha senão jogar aquele jogo perigoso. Correu novamente, agora com mais debilidade, com o youkai sempre em seu encalço.
Não agüentando mais caiu ao chão, já imaginando qual seria seu destino. Mas ao invés do som das garras e dentes do youkai lhe estraçalhando, ouviu uma voz a sua frente:
- O que pensa que está fazendo humana? – era uma voz masculina, um tanto áspera e indignada.
A garota levantou sua mirada, para ver que estava praticamente aos pés de um ser indefinível, já que sua visão embaraçava como resultado do esgotamento e da perda de sangue. Tudo que ela distinguia era que o ser trajava vestes tão brancas quanto seu longo cabelo que ela com dificuldade pôde discernir. Depois tudo ficou escuro...
O jovem youkai a olhou, curioso. Sentia o forte cheiro de sangue se desprender daquela humana inconsciente a seus pés, ela tinha o cabelo negro como a noite e vestia um kimono simples e surrado. Antes que pudesse analisar mais, o enorme youkai responsável pelas feridas da jovem – o supôs por ter em suas garras o mesmo cheiro do sangue que saía dela - surgiu a sua frente.
- Me entregue a humana! – grunhiu.
- Como ousa dar-me ordens? – o outro contestou, nervoso.
- Me entregue ela agora. Se me atrapalhar, o matarei também!
- Por acaso sabe com quem está falando? – disse fazendo ar de superior e estalando as garras.
- Não me interessa! – Goshinki gritou, enquanto corria até o outro youkai com fúria.
Kagome ouviu vozes, seguidas de estrondos e outros sons que ela não soube definir. Abriu pesarosamente os orbes e viu uma cena borrada, de um Goshinki caindo aos pedaços ao chão e um ser de forma parecida à humana à sua frente, de costas à ela. Via gotas de sangue do outrora vivo youkai que a perseguia escorrer por seus dedos e pingar ao solo. A última coisa que viu foi o longo cabelo prateado balançando ao vento e dois orbes dourados sobre si, para depois desmaiar novamente.
O jovem voltou a olhar a humana, que parecia ter voltado à consciência por um curto tempo, para então desmaiar novamente. "Como humanos são fracos" – pensou. Ia se virar para partir, mas algo o deteve. Não entendia bem o que o impedia de deixar aquela humana ali e ir embora, mas não lhe parecia muito direito deixar uma criatura tão débil e indefesa a mercê de outros monstros, uma vez que a havia salvado – mesmo que involuntariamente. A pegou delicadamente nos braços e notou que esta tinha diversos hematomas pelo corpo, além do ferimento no ombro, feito pelo youkai que a perseguia e que sangrava ainda. Não seria a primeira notícia de um humano que tenta fugir por causa de maus tratos, mas diferente dos outros esta sobreviveria...
OoOoOoO
Sua chegada ao imenso palácio ao estilo feudal não pôde passar desapercebida. Todas as servas e até mesmo soldados, observavam a curiosa cena de longe: Um de seus mestres chegando com uma humana desacordada nos braços com certeza era uma cena incomum. Este, quando percebia os olhares sobre si, os fitava de volta da maneira mais assustadora que conseguia, parecia soltar faíscas pelos olhos. Claro que ninguém ousava olhar uma segunda vez...
Ao entrar pela porta principal foi recebido por um preocupado youkai muito parecido a ele mesmo:
- Filho, até que enfim voltou, já estava escurecendo e... – sua fala morre quando ele finalmente resolve olhar para o que o filho carrega consigo – O que é isso!? – pergunta um pouco mais alto e nervosamente do que pretendia.
- É uma humana, não está vendo? – fez pouco caso.
- Que é uma humana eu posso ver. Quero saber o que faz com ela... ou o que fez... – termina vendo o estado da criatura.
- Eu não fiz nada! – retruca indignado – Foi um youkai que a estava perseguindo... Eu o matei – diz com orgulho.
-Você a salvou?
- Por assim dizer... – respondeu sem se importar muito.
- Então não fique aí parado, traga-a para dentro.
- Ora, só estou aqui por sua causa oyaji! – retruca.
- Que seja. Mas saiba que agora ela é responsabilidade sua.
- O quê? – replicou.
- Você a trouxe, portanto será responsável por sua segurança. E também já estava mais do que na hora de arrumar uma serva pessoal para você. – respondeu despreocupadamente.
- Keh! Eu não preciso disso! Não gosto de humanos me servindo o tempo todo. – retrucou franzindo o cenho.
Levou a humana até um quarto mais interior do enorme palácio e a deitou cuidadosamente num futon. O sangue ainda não havia parado de sair do ferimento aberto e isso o incomodava muito. A voz de seu genitor atrás dele o fez 'voltar à realidade':
- As servas irão cuidar dela, não se preocupe.
- E quem disse que me preocupo? – respondeu já saindo do aposento.
O outro apenas balançou a cabeça em sinal de desistência. Realmente era difícil dialogar com seu filho.
- Kaede! – chamou. Ao que apareceu uma senhora idosa que se curvou respeitosamente.
- Sim, Inutaishousama!
- Cuide da menina. – disse apenas, indicando a garota com a cabeça. Após isso saiu deixando a mulher a sós com a jovem...
O youkai que havia 'salvado' a vida da garota, ainda se perguntava por que não a abandonara lá onde a encontrara. Afinal, não era problema seu se a humana morreria ou não, nem sequer salvara sua vida por intenção, a verdade é que só queria acabar com aquele youkai que o afrontara. De repente se pegou pensando muito nesse assunto:
- "Não me importa. É só uma humana qualquer!" – disse a si mesmo em pensamento, dando o assunto por encerrado.
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Oyaji: velho. É a maneira como Inuyasha se refere ao pai, ao invés da forma mais polida, que seria: chichiue (muito educado ele né? xD)
