Disclaimer: Inuyasha (infelizmente) não me pertence, mas talvez um dia a tia Rumiko me empresta ele ;D

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A garota começava a despertar lentamente. Sentia que estava deitada num lugar confortável e quente, sentia-se realmente descansada. Há muito tempo não dormia bem assim. Ficou ainda um tempo deitada sem abrir os olhos, temendo que aquilo fosse um sonho, se o fosse gostaria que ele não acabasse... Enfim tomou coragem e abriu os orbes castanhos. Olhou para si mesma e viu que não era sonho ou imaginação, estava realmente deitada num confortável futon. A sua volta erguiam-se paredes de madeira nobre, adornadas com tecidos finos, quase não havia objetos no quarto além de uma pequena bancada onde descansava uma tigela com água e panos umedecidos, um armário médio constituído de madeira clara e fina, pousava a um canto do quarto. Tentou se levantar, quando sentiu uma pontada de dor no ombro, rapidamente levou a mão ao local e percebeu que este estava enfaixado.

Sentiu uma dor aguda na cabeça e em seguida várias imagens e lembranças vieram a sua mente todas de uma vez: a fuga do castelo de Naraku, o sacrifício de Sango, a perseguição de Goshinki e por último a visão do mesmo aos pedaços... Esta última parte era muito confusa para ela, não conseguia se lembrar como o youkai fora retalhado e o que ocorreu depois. Mas a principal pergunta que tomava conta de sua mente: Que lugar era esse que estava agora?

Um som vindo de fora, e uma mulher jovem abriu a porta corrida do aposento, fitando seu interior e deparando-se com a 'hóspede' acordada, dirigiu-lhe a palavra:

- Você acordou. Que bom. – disse sorridente. Antes que Kagome pudesse lhe fazer qualquer pergunta, a moça se virou e saiu do quarto, deixando-a novamente sozinha e confusa.

Em questão de minutos uma velha senhora adentrava o quarto, sorrindo calorosamente para a garota. Kagome deduziu que a jovem de outrora havia saído para chamar a mais velha e avisar que ela estava acordada. A anciã aproximou-se e sentou-se sobre o tatame estendido no chão ao seu lado:

- Vejo que está bem melhor. – pronunciou a voz velha e cansada.- Onde estou? O que houve? – foram as primeiras coisas que vieram a sua mente naquele momento.
- É normal estar confusa, afinal, você chegou aqui inconsciente e muito ferida. Aliás dormiu por dois dias inteiros. – disse calmamente.
- Dois dias? – repetiu incrédula - Como eu cheguei aqui? – indagou confusa.
- Pelo que sei, você foi salva de um youkai pelo amo Inuyasha e trazida até aqui por ele. – respondeu como se dissesse algo muito natural.
- Como?! – novamente não entendia o que se passava ali.
- Você não deve se lembrar. – disse risonha – Mas teve sorte de vir parar aqui. Os humanos aqui não são maltratados como em outros lugares. – depois de uma pequena pausa analisando as feições desconfiadas da garota, lhe perguntou – Qual seu nome minha jovem?
- Kagome... e a senhora? – perguntou de volta.
- Pode me chamar de Kaede. – assentiu com um sorriso.
- Obrigada... por cuidar de mim. – agradeceu timidamente, segurando o ombro.
- Não me agradeça. Agradeça ao amo Inuyasha e a bondade de Inutaishousama, por permitir-lhe ficar aqui.
- Não entendo quem são estas pessoas que mencionas. – disse confusa.
-Vai entender logo, no momento apenas descanse. – disse gentil, ajudando-a a se deitar novamente.

Em seguida a anciã deixou o quarto, dizendo que tinha tarefas a cumprir, mas que mais tarde voltaria para ver como ela estava. Kagome se ajeitou mais nas cobertas, se sentindo confortável e novamente adormeceu. Em seus sonhos via toda aquela fuga alucinada que fora as ultimas coisas que se lembrava antes de acordar ali; via Goshinki ser destroçado por sabe-se lá o que. E por último, via um par de olhos dourados sobre ela. Acordou de um sobressalto. Quando viu que ainda estava no futon e que tudo fora um sonho, aliviou-se. Porém não conseguia mais dormir, apenas repassava as cenas em sua mente. Aqueles olhos... de quem seriam? Eram tão brilhantes e tinham uma cor nunca vista pela jovem antes.

- Kaede! – chamou a voz ríspida.
- Sim, Inuyashasama? – respondeu a anciã, virando-se para ele, com um sorriso gentil.
- Como está aquela humana que eu trouxe? – perguntou sem parecer se importar muito.
- Ela já está melhor. Finalmente acordou, mas a deixei lá descansando um pouco mais.
- Certo. – disse simplesmente, parecendo mais aliviado – Quando ela estiver melhor, diga-lhe que quero vê-la... Para saber de onde ela vem. – apressa-se a completar.
- Tudo bem. – diz ainda sorrindo. Inuyasha se perguntava se alguma coisa faria aquele sorriso irritante deixar o rosto daquela velha.

O youkai se vira e sai para alguma parte do castelo enquanto pensa sobre a humana mencionada. Afinal, por que aquele youkai estava perseguindo-a naquela noite? Teria ela feito alguma coisa ruim, ou talvez fugido de seu mestre? Se fosse, seria prudente devolvê-la ao mesmo? Mas prudência nunca fora mesmo uma de suas melhores qualidades, então que se catasse aquele youkai que tinha deixado uma escrava escapar assim.

Mais uma vez a velha senhora cruzava a porta daquele aposento para checar como estava a garota. Surpreendeu-se quando entrou e a encontrou já de pé, olhando para algumas decorações do quarto.

- Não deveria levantar-se ainda. – disse de onde estava.
- Ah, Kaedesama. – alegrou-se em direção a ela – Achei que tinha sido esquecida aqui.
- Claro que não. Mas por que levantou?
- Estou bem melhor, apesar de ainda doer um pouco. Mas não agüentava mais ficar deitada. – diz pondo uma mão nas costas.
- Bem... Se já se sentir bem para isso, Inuyashasama gostaria de vê-la quando pudesse. – disse a velha senhora.

Kagome ficou pensativa por um instante antes de responder.

- "Preciso agradecer-lhe por ter me salvo... Mas e se ele for um youkai perigoso? E se ele for igual ao Naraku?" – só de pensar essas coisas, sentiu um frio na barriga – Sim... acho que estou bem o suficiente para isso. – respondeu por fim, afinal não evitaria essa situação para sempre.
- Bom. – assentiu sorrindo – Mas acho melhor colocarmos uma roupa melhor em você antes. – terminou analisando-a.

Olhou para si mesma e se deparou com os trapos que usava a tanto tempo que nem se lembrava mais. Era um kimono velho e sujo, e estava parcialmente rasgado na parte de cima por causa de Naraku e do ataque de Goshinki.

- Vamos lhe dar um banho primeiro. – disse a anciã a levando para outro cômodo.

Depois de tomar um banho com a ajuda de Kaede e algumas servas - apesar dos protestos de que não precisava de ajuda, pois na verdade era muito tímida, mas não admitia – foi vestida com um kimono simples, mas bonito para uma escrava: era rosa com detalhes brancos. Nenhum outro humano que já tenha visto usava roupas como aquelas, a maioria usava trapos como os que ela usava anteriormente, mas os desse castelo não usavam roupas de escravos... eram mais para servos pessoais ou coisa do tipo. Realmente devia ser verdade o que Kaede dissera sobre que os humanos não eram maltratados ali. Enquanto se trocava, notou que ainda tinha alguns hematomas pelo corpo, mas estes já se amenizavam.

Por fim, já vestida e limpa, era hora de encontrar aquele que salvara sua vida. Quer ele fosse uma terrível criatura quer não, precisava agradecê-lo pelo que havia feito.

- "Se ele me salvou, não deve ser má pessoa..." – se acalmava com esses pensamentos – Kaedesama! – chamou a senhora à sua frente, que caminhava pelo longo corredor a guiando pelo castelo.
- Sim? – indagou em resposta.
- Esse Inuyasha... é um youkai não é? – perguntou vacilante.
- Mais ou menos isso... – disse vagamente.
- Como assim? – perguntou Kagome, ligeiramente mais preocupada.
- Não precisa ter medo, ele não lhe fará mal. Inutaishousama não aprovaria se o fizesse.
- Inu...taishou? – voltou a se perguntar confusa.
- Mais tarde lhe explico minha criança, já estamos chegando.

Realmente já fazia um tempo que estavam andando pelo enorme castelo. Ao chegarem a uma sala maior, que parecia ser como um hall de entrada, Kagome não pôde deixar de reparar na beleza e suntuosidade do castelo feudal. Nas paredes, entalhes na madeira adornados em ouro, formavam figuras de lutas lendárias. Tanto nas paredes como nos finos tecidos e estandartes anexados a algumas delas, sempre se via figuras de imponentes e enormes cães brancos travando batalhas épicas com outros youkais. Alguns finos objetos de porcelana davam um toque mais refinado ao local.

A garota observava com muita admiração cada detalhe, incluindo duas estátuas imponentes de cães que adornavam cada uma um canto da enorme sala. Teve que parar a contemplação, quando a voz de Kaede lhe avisou que restava muito pouco pra enfim chegarem. A senhora abriu uma porta corrida de papel fino e ricamente desenhada, dando passagem para uma outra ala. Poucos passos depois, pararam em frente a uma porta e Kaede se dirigiu a ela:

- Chegamos. – diz em tom baixo.

- Kaede, por que não entra de uma vez ou bate na porta!? Sei que está aí! – uma voz ríspida grita de dentro do quarto, assustando Kagome.
- Hai. Gomen nasai, Inuyashasama! – responde a velha ainda sem adentrar o cômodo – Trouxe a humana que me pediu.
- Sim, já sei disso. Mande-a entrar! – a voz gritou de dentro do quarto novamente.

A jovem se via um tanto apavorada neste instante. O youkai, ou seja lá o que ele fosse, parecia ter um péssimo temperamento, mas o que mais lhe assustava é: como ele sabia que elas estavam ali, se não fizeram som ou se apresentaram? Ignorando seus medos, Kaede abriu a porta e deu uma 'ajudinha' para que a jovem se movesse do lugar e a deixou dentro do cômodo, fechando a porta atrás dela em seguida.

Kagome se sentia nervosa, tentava controlar as mãos que insistiam em tremer, e ainda encarando o chão pensava se seria certo fitar o rosto de seu 'salvador' ou se isso o ofenderia. Não teve muito tempo de pensar, pois a voz já ouvida antes a indagou:

- Por que está com tanto medo? – dizia sem entender – Eu não vou te morder. – terminou num tom um pouco mais cínico.

A garota então tomou coragem e ergueu o rosto para fitar o dono da voz que lhe falava. Surpreendeu-se em ver um jovem garoto, possuidor de longos cabelos prateados, olhos incrivelmente dourados - que lhe faziam lembrar as imagens de seu sonho – e curiosas orelhas caninas alvas no topo da cabeça. Vestia um luxuoso kimono masculino todo branco, com longas mangas e cujos detalhes eram vermelhos; por cima, um obi de cor amarela com detalhes também em vermelho. Mas os olhos da garota se concentravam nos orbes dourados, dos quais não conseguia desviar o olhar.

Inuyasha por sua vez, observava curioso a frágil humana. Ela parecia um gatinho assustado quando entrara ali, vestia um simples e singelo kimono rosa com adornos brancos, tinha o cabelo negro como a noite sem estrelas. Quando ela lhe encarou com os vívidos orbes castanhos, ele pôde ver melhor as feições de seu rosto, antes embaçados pela terra e ferimentos resultantes da perseguição de Goshinki. Ela tinha um rosto delicado e feições ternas em seu semblante jovial, e o encarava diretamente nos olhos, coisa que nunca antes nenhum humano fizera, por um motivo simples: não era permitido, não era respeitoso – claro que o medo também era outro motivo.

Percebendo que o encarava diretamente, Kagome rapidamente, ainda que relutante, abaixou o olhar, se lembrando da regra de nuca fitar um youkai nos olhos. Este, também saindo do 'transe' que lhe causara o contato visual, começa a falar:

- E então garota... Qual é seu nome? – lhe pergunta em um habitual tom mal-humorado.
- Kagome. – disse de pronto – Senhor, quero agradecer-lhe por ter-me salvo de Goshinki. – acrescentou rapidamente.
- Feh. Não fiz aquilo para salvar-lhe! Aquele youkai me provocou e eu só lhe mostrei seu lugar. – retrucou ríspido.
- Mas, mesmo assim salvou minha vida... Obrigada. – disse novamente, reparando em como o assoalho parecia interessante...
- Por que aquele youkai a estava perseguindo?- perguntou direto.
- ... – a garota ficou um tempo pensando se poderia dizer a verdade, optou por ser sincera e evitar problemas futuros – Eu fugi de meu antigo mestre e ele mandou aquele youkai me perseguir. – respondeu por fim, ainda incerta se fizera o correto.
- Fugiu? – era como ele previa – Por quê?
- Ele... era cruel. – disse ocultando os detalhes.
- Quem era seu mestre?
- ... – a jovem, nervosa e incerta sobre o que responder, fitava o chão em silêncio.
- Eu lhe fiz uma pergunta, responda! – bradou num tom mais alto e levemente mais nervoso.
- Era Naraku,... senhor – acrescentou em seguida.
- Naraku? – franziu o cenho – Não é a toa que fugiu. – disse despreocupadamente.
- Por favor não me leve de volta a ele. – implorou, em seguida se dando conta de que agira de forma precipitada, recuperando a postura.
- Keh. Por que eu faria isso!? Detesto àquele cretino tanto quanto qualquer um!

Voltou a fitá-la novamente. Podia ouvir as batidas de seu coração rápidas e percebia pelo seu cheiro e ações que estava pouco à vontade, mas não era medo que ela sentia, era puro nervosismo. Aproximou-se alguns passos da humana que estremeceu um pouco mais, a olhou divertido enquanto ela tentava olhar para tudo menos para ele.

- Não está com medo está? – perguntou, analisando as reações dela.
- Por que teria medo? – respondeu tentando manter a calma e a frieza. Quem lhe visse por fora, acharia que estava relativamente calma, mas ela nunca enganaria os sentidos do ser a sua frente.
- Mas está nervosa. – disse dando mais dois passos e percebendo como a garota parecia querer sair correndo dali.
- Deveria estar? – indaga tentando não responder a pergunta.
- Talvez... – diz baixo, como se pensativo. Isso enervou mais ainda a púbere. – Vá, pode ir! – disse apontando a porta.

Kagome, feliz pelo término daquela 'tortura' se apressou em uma rápida reverência e saiu do aposento, deixando-o só ali. Ele se divertira em pôr a humana nervosa, era melhor do que gritar com os servos, estes apenas se curvavam e se desculpavam infinitamente por sua incompetência, nenhum lhe responderia da mesma maneira que ela. Isso deveria deixá-lo bravo, mas em realidade achava mais interessante assim, estava farto dos mesmos servos agindo submissamente e com medo, queria alguém que o retrucasse. Talvez estivesse ficando louco,não sabia ao certo.

A garota tratou de se afastar o suficiente do quarto para não ser percebida pelo youkai, embora não fizesse idéia de como ele o faria. Apoiou a mão na parede respirando mais aliviada, tentava controlar seu coração que ainda parecia assustado. Achava-se idiota por ficar temerosa do youkai que a salvara, mas depois do que Naraku fez isso era mais que natural. Porém, depois que o viu melhor não sentia mais medo, mas ainda assim se via intimidada diante dele. Por mais estranho que isso parecesse ela também havia ficado... fascinada? Seria essa a palavra? O fato era que nunca vira criatura com semelhante aparência. Aqueles olhos dourados pareciam esconder mais do que expressavam externamente.

Balançou a cabeça, se livrando desses pensamentos e voltou a caminhar pelos longos corredores, que pareciam infinitos para a humilde humana. Houve um momento que se viu perdida na sucessão de portas e passagens, tentou não se desesperar e continuou seguindo, embora não soubesse exatamente para onde. Parou em frente a uma porta, onde ouviu algumas vozes que vinham de dentro do cômodo. Aproximou-se mais e observou pela fresta aberta, para visualizar Kaede conversando com alguém que não era visível de onde estava.

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Obi: espécie de faixa usada para amarrar o kimono à cintura