Disclaimer: Inuyasha não me pertence...ainda...
Apesar de curiosa, Kaede optou por não perguntar a Kagome sobre o ocorrido no dia anterior, mas no fundo ela sentia que tinha algo a ver com seu jovem amo. Deixou a jovem no quarto a maior parte do dia, pois esta parecia não querer sair de qualquer maneira. Tentou afastar os pensamentos e se concentrar na tarefa de supervisionar as outras servas.
Após muito remoer o outrora ocorrido, Kagome considerou-se de total culpada, afinal, foi um erro ter entrado no quarto do youkai sem permissão e ainda mexer em suas coisas, ele tinha razão em ficar bravo. Mas lembrava-se da expressão furiosa dele, um calafrio lhe percorria a espinha ao fazer comparação a Naraku, embora o anterior não tenha sequer lhe tocado. Mais do que nunca queria ir embora dali, reencontrar seu irmão, sua mãe... Uma lágrima solitária rolou por sua face ao lembrar dos familiares e um aperto no coração em não saber onde poderiam estar, ou o que ocorrera a eles.
A hora do almoço se aproximava, tudo já preparado, as servas serviam a mesa onde apenas se sentaria Inutaishou, já que Inuyasha não parecia querer comparecer – coisa que era muito freqüente na verdade.
- Já está tudo pronto Tsubaki? – pergunta Kaede.
- Hai, Kaedesama.
- Inuyashasama não virá novamente? – indaga a anciã, notando a quantidade de pratos.
- Não... ele parecia mais quieto do que o normal... – disse pensativa.
- Então, leve um pouco de comida até o quarto dele, às vezes ele prefere ficar por lá. – pede a anciã, já conhecendo os gostos de seu mestre.
- Quando o vi, ele me pediu que fosse aquela menina... a Kagome. – retrucou.
- A Kagome..? – indagou confusa – "Alguma coisa aconteceu entre esses dois.." – pensava tentando imaginar o que seria para que a jovem ficasse naquele estado em que a encontrou ontem.
- Vou avisá-la. – disse Tsubaki, já se dirigindo para o quarto onde a garota estava.
Uma batida na porta e em seguida a jovem de cabelos negros aparecia à porta com um sorriso doce:
- Kagomechan. – chamou.
- Tsubakisan. – exclamou surpresa.
- Venha, tenho uma tarefa para você. – terminou ainda sorrindo.
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Novamente em frente a porta cerrada que daria naquele já conhecido e temeroso lugar. Seu corpo e sua mente pareciam entrar em confronto com o bom-senso. Suas ordens eram de entrar ali levando a bandeja tremulante em suas mãos inseguras, mas seus pensamentos formulavam os mais aterrorizantes castigos para quem ousasse atravessar aquela porta.
- "Será que ele pretende me castigar por ontem?" – se perguntava temerosa. Rapidamente afastou os pensamentos e tentou controlar a imaginação fértil. Afinal, se fosse essa sua intenção ele teria simplesmente feito conforme sua vontade e ela não estaria parada ali, com uma bandeja contendo a refeição do dia, como se nada tivesse acontecido. Tomou coragem e bateu à porta.
- I-Inuyashasama? – chamou, incerta.
- Entre! – a voz não soou tão ríspida quanto da outra vez.
A passos lentos e cautelosos a jovem adentrou o aposento. Olhar sempre baixo, ações hesitantes, um pouco de receio também. Depositou o objeto próximo ao grande e grosso futon onde estava o youkai, sentado em posição de lótus, com as pernas cruzadas em frente ao corpo. Não se atreveu a erguer-lhe o olhar, e este percebeu a mudança em sua atitude. Na primeira vez a humana o encarara abertamente, apenas desviando o olhar por respeito, seu nervosismo se devia a situação nova e estranha. Porém, agora, podia sentir medo em suas ações. Sentiu-se culpado, e com razão. Agora o silêncio tomava conta do aposento, enquanto a humana pacientemente aguardava ordens, castigos, o que quer que fosse.
- Kagome...não é? – começou o youkai – É esse o seu nome.
- Hai... – respondeu surpresa. Nem achava que ele lembrasse seu nome.
- Ontem, eu... – começou o youkai, mas parando sem motivo aparente.
- Sinto muito senhor. Eu realmente não devia ter entrado aqui. Gomen nasai! – se apressou em dizer, enquanto se curvava até o chão.
- Eu... acho que me excedi... – o youkai prosseguiu sem dar importância às desculpas da humana - Eu te assustei, não é? – perguntou em tom baixo.
- Bem... eu... – mas ela não sabia como terminar aquela frase.
- Não precisa inventar nada. Eu senti o cheiro do seu medo. – seu tom parecia mais normalizado agora – Quero que esqueça que aquilo aconteceu.
- Está... se desculpando, senhor? – perguntou, para ter certeza de suas suspeitas.
- Veja como quiser. – respondeu já no costumeiro tom, cruzando os braços e olhando para o lado, com um ar levemente constrangido.
Kagome percebeu que pelo orgulho que aquele youkai parecia possuir, aquilo era o máximo que conseguiria dele. Mas parecia sinceramente arrependido da maneira como havia agido, apesar de tentar não demonstrar muito seus sentimentos. Para ele havia sido um tanto difícil simplesmente admitir que errara, mas ainda não conseguiria pronunciar desculpas formais. Sempre fora orgulhoso e arrogante - isso tinha de admitir – mas no momento a confiança daquela reles humana parecia mais importante que isso.
- Não precisa mais ter medo. – ele completou ainda sem encará-la.
- Não tenho medo, não mais – ele finalmente a fitou ao ouvir aquelas palavras – Percebi que o senhor é muito diferente de Naraku, não tenho razão alguma para temê-lo. – terminou com um sorriso.
O youkai corou, nunca vira um sorriso tão lindo, parecia iluminar tudo, parecia revitalizar todo o ambiente. Teve que se segurar para não sorrir também, aquilo era contagioso afinal.
Naquele momento não existiam barreiras entre escravos e mestres, humanos ou youkais, nada disso era importante.
Kagome sorriu ainda mais ao notar como as orelhas caninas se moviam de um lado a outro como se ainda tentassem captar a mensagem que acabaram de ouvir, o dono delas, porém parecia não notar tal ato – ou ignorava.
- Tenho uma coisa para te ordenar. – o youkai disse, fazendo um tom um pouco sério.
- Diga, por favor. – respondeu um pouco preocupada.
- Pare de me chamar de senhor, fico parecendo velho. – falou num resmungo, fazendo cara emburrada.
A garota por pouco não caiu na risada. De maneira alguma era velho – "Muito pelo contrário" – pensava a púbere, rapidamente desviando os pensamentos.
- Hai. – disse apenas, com outro sorriso. Se ele soubesse que ela tinha um sorriso daqueles teria feito isso muito antes.
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- Meu filho me deixou sozinho de novo? – dizia o daiyoukai, tamborilando os dedos na mesa, com expressão entediada. Detestava comer sozinho.
- Parece que sim. – respondeu Kaede risonha.
- Kaede, me acompanha? – convidou o youkai.
- Seria uma honra. – respondeu sorrindo, logo depois se sentando no chão em frente a ele, para o espanto das outras servas.
- O tempo passa, não é mesmo...? – começou o youkai enquanto calmamente se servia – Quando você chegou aqui era apenas uma criança.
- Sim, é mesmo... – disse saudosa.
Uma mulher e uma criança corriam pela floresta como se suas vidas dependessem disso – o que era a mais pura verdade. Á um certo tempo que um youkai as estava perseguindo. Ambas apresentavam escoriações e arranhões, devido à corrida desesperada pela floresta. Apesar do cansaço, não podiam se dar ao luxo de descansar, pois o demônio que estava em seu encalço não pararia até ter o sangue de suas vítimas escorrendo em suas garras. A menor era a que mais sofria, suas pequenas pernas não agüentariam acompanhar a irmã mais velha por muito tempo. Uma pequena fenda em uma rocha surgiu como uma salvação aos olhos da miko mais velha.
- Kaede, venha por aqui! – gritou, guiando a pequena até a fenda, fazendo-a entrar na mesma depois; mas apenas ela.
- E você oneesama? – perguntou a jovem, preocupada com a irmã.
- Eu vou distrair o youkai. Você não deve sair daí até estar seguro aqui fora, entendeu? – instruiu rapidamente, vendo que seu tempo se acabava.
- Kikyou oneesama, não vá, ele vai te matar! – dizia desesperada, ás lágrimas começando a se formar em seus olhos inocentes.
- Kaede... Não deixe eles te pegarem, sobreviva... Minha irmã... – disse com carinho, logo em seguida correndo para longe da rocha.
- Oneesama! – a pequena gritou inutilmente.
Quase na mesma hora, surge o youkai que perseguia as duas. O oni seguiu o mesmo caminho trilhado pela miko a pouco, não percebendo a pequena escondida ali perto. Ela apenas podia ver o monstro se afastar e esperar até que estivesse seguro o bastante para sair dali. Um grito feminino ao longe fez disparar o pequeno coração da jovem, era sua irmã, na certa havia sido pega pelo youkai. Depois disso não ouviu mais nada. As lágrimas represadas em seus olhos saíram livremente. O pequeno corpo sacudia com os soluços, a tristeza e solidão tomando conta de seu ser.
- Neesan... – disse chorosa, desejando que tudo aquilo não fosse verdade.
Não soube quanto tempo estivera ali, apenas chorando a perda da irmã. Lembrou que as últimas palavras dela foram para que esperasse até tudo estar seguro para sair. Cuidadosamente olhou para fora da 'caverna', não avistando perigo, saiu ainda cautelosamente. Á sua volta, apenas floresta.
- "Para onde eu vou...? O que vou fazer sem você, neesan?" – pensava a pequena, recomeçando a chorar.
Começou a lenta caminhada com destino a lugar nenhum. Parou de andar quando ouviu algo à sua frente, como andava olhando para o chão não podia saber o que era. Lentamente ergueu os olhos úmidos e avistou um youkai, possuidor de longos cabelos prateados presos num rabo de cavalo alto, gentis olhos dourados e uma lustrosa armadura sobre seu impecável kimono branco.
- Você é um youkai? – perguntou a menina, apreensiva.
- Sou sim, mas não vou lhe fazer mal. – respondeu gentilmente – Você está sozinha? Onde está sua família? – indagou, apesar de saber que a maioria dos humanos estavam sendo mortos naquele tempo.
- Minha oneesama... foi morta por um youkai... – respondeu chorosa.
- Venha, vamos comigo para o meu castelo. – convidou, lhe estendendo a mão.
- Castelo? – perguntou, limpando as lágrimas com as costas da mão.
- Hai. – respondeu sorrindo, enquanto tomava a mão da criança e a guiava.
(...)
- Inutaishou-sama foi muito bom comigo. – disse Kaede, com um sorriso.
- Bem, acho que aquilo foi influência de Izayoi. Depois de conhecê-la eu não podia mais ver os humanos com os mesmos olhos. – disse, com olhar distante.
- Queria tê-la conhecido, devia ser uma pessoa muito boa.
- Sim, ela era... – disse, ainda devaneando um pouco.
As demais servas observavam a cena discretamente e sem acreditar no que viam. Elas já sabiam que Inutaishou era bondoso e não maltratava seus servos, mas ele conversava com Kaede como se fossem iguais. Certamente era uma coisa rara de se ver atualmente e por que não acrescentar: impossível. Outra coisa incomum era uma serva chegar à idade da anciã, pois a maioria dos humanos não sobrevivia tanto, e se ocorresse, poderiam ser descartados por seus mestres, por não serem mais úteis para executar trabalhos.
Suas divagações foram quebradas com a chegada de um afoito mensageiro:
- Inutaishousama! – disse assim que chegou, logo depois se ajoelhando em frente ao daiyoukai, estendendo-lhe um pergaminho enrolado – Mensagem para o lorde.
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- Então você tem irmão e mãe!? – indagava Inuyasha, após ouvir atentamente a história da humana.
- Eu sempre penso neles. Se eles estão bem, se ainda estão vivos... – confirmou Kagome, tristemente.
- E depois disso tudo, você foi comprada por Naraku e fugiu? – adivinhou.
- É... – pausou um pouco – E ainda não me contou nada sobre você. – disse curiosa.
- Na há nada sobre mim que precise saber. – respondeu, grosso.
- Mas eu pensei que isso seria uma troca. Eu lhe contei sobre mim, e agora deveria contar um pouco sobre você. – disse levemente indignada.
- Eu nunca prometi isso. – retrucou – E por que eu deveria falar sobre mim a uma reles humana? – perguntou, franzindo o cenho.
- Ah, é assim? Mas então por que se desculpou com essa 'reles humana'? – perguntou, sarcástica.
- Eu... – murmurou desconsertado – Hei, porque está me interrogando afinal? Eu é que sou o mestre por aqui! – retrucou nervoso, recuperando a pose.
- Ah, me desculpe 'senhor' – desculpou-se não muito convincentemente. Inuyasha franziu o cenho com o tratamento – Então acho que essa 'reles humana' já vai partir, já que não é mais útil aqui. – disse se levantando., e após uma reverência foi saindo do aposento.
- Eu não disse que podia sair! – quase gritou.
- Se precisar, me chame. – ela disse uma última vez, sorrindo, antes de sair e deixar um atônito Inuyasha pra trás.
- "Mas que humana atrevida!" – pensou, estupefato. Mas depois sorriu malicioso. Era exatamente isso que o havia atraído, essa petulância dela. Mas se sentia atraído por ela? Não, não, impossível, mal a conhecia, e ela era apenas uma humana fraca. Um som atrás da porta felizmente o tira desses pensamentos. Imediatamente reconheceu o cheiro do autor do som. – Oyaji! –chamou.
A porta se abre e um youkai de longos cabelos prateados e olhos dourados entra por ela.
- Inuyasha. Fiquei preocupado quando Kaede me disse que poderia ter acontecido alguma coisa entre você e Kagome. Mas como a vi saindo daqui, acho que não tenho motivos pra me preocupar. – falou calmamente, referindo-se a garota que encontrara no corredor quando vinha. Ao contrário do que Kaede falara, ela não parecia triste.
- Veio aqui só pra me dizer isso? – retrucou, imitando uma expressão entediada.
- Não. Vim lhe dizer que recebi a pouco um memorando. – fez uma pequena pausa - Parece que as coisas não estão indo muito bem no campo de batalha. Amanhã eu viajarei para o norte para tentar resolver isso de uma vez. – termina no costumeiro tom calmo.
- O quê? Mas o Sesshoumaru não está lá pra isso? – indagou, nervoso.
- Sesshoumaru foi para o leste. Acredito que essas notícias ainda não tenham chegado a ele. – fez outra pausa, procurando as palavras certas para dar a próxima notícia – Daqui a uns dois dias haverá uma reunião muito importante com os youkais mais poderosos do país. Como não vou estar aqui, você vai no meu lugar.
- Sem essa! Eu odeio essas reuniões chatas! – quase gritava as palavras – Todos vão ficar olhando pra mim de uma forma estranha e eu vou ter que aturar aqueles youkais arrogantes e metidos!
- Inuyasha! – disse mais enérgico – Não me conteste. Você é um príncipe, aja como tal!
- Hai. – respondeu à contra-gosto, bufando e emburrando a cara.
- "Parece uma criança" – se lamentava Inutaishou.
Olhando para um canto no quarto o daiyoukai avistou a preciosa katana, como sempre pousada sobre o apoio horizontal sobre o móvel. Aproximou-se alguns passos, sobre o olhar curioso do filho, até ficar de frente para o valioso objeto. Tomou-a nas mãos com cuidado, vislumbrando mais uma vez seu brilho semi-novo. Sem virar-se para o filho, começou a falar em tom calmo, porém sério:
- Lembra-se de quando lhe dei esta espada?
- Como eu poderia esquecer? – respondeu, um pouco surpreso com a pergunta repentina.
- Se lembra do que eu lhe disse na ocasião...? – indagou novamente, ainda com os olhos fixos na espada.
- Por que isso agora?- perguntou confuso, enquanto se mexia desconfortável no futon. Ante a não resposta do pai, finalizou – Claro que lembro...
Continua...
Oneesama ou neesan: irmã mais velha
