Disclaimer: Inuyasha ainda pertence a Rumiko Takahashi, mas estou quase conseguindo os direitos ;D
Finalmente a chegada ao local da reunião. Uma grande habitação se erguia, onde nela, entravam diversos youkais, das mais diversas formas e estirpes. A maioria porém, era de mononokes que tinha uma forma próxima a humana – isso sem levar em conta as caudas, orelhas pontiagudas, peles de cores exóticas entre outros detalhes – o que era uma coisa óbvia, já que em sua maioria, youkais que tinham essa forma 'intermediária' a forma verdadeira são considerados os mais fortes. Alguns estavam, assim como Inuyasha, acompanhados de escravos humanos, normalmente para levarem para seus mestres, pergaminhos ou o que quer que fosse. Kagome porém nada levava e era a única humana que parecia não ter uma finalidade de estar ali, mas isso de forma alguma a incomodava.
Quando eles adentraram o local, a garota lembrou de ficar sempre perto de Inuyasha e evitava encarar qualquer youkai. Olhou em volta e viu um lugar amplo e de teto bastante alto, no centro da sala uma enorme mesa retangular ocupava um bom espaço do cômodo, onde os youkais se sentariam próximo a ela haviam almofadas, alguns youkais já as ocupavam, enquanto, com os cotovelos apoiados à mesa, pareciam conversar animadamente. A conversa pareceu parar repentinamente quando os youkais enfim perceberam a presença dos recém-chegados. Todos os olhares se voltaram para eles e Kagome sentiu vontade de se enfiar no primeiro buraco que visse. Inuyasha não pareceu se importar.
Ele tomou um assento e Kagome imitou as outras escravas, ficando em pé encostada a uma parede, mas sempre às vistas de seu mestre. Os outros youkais voltaram ao que faziam anteriormente, mas a humana ainda pôde perceber que diversos deles olhavam para Inuyasha de uma maneira estranha, pareciam lhe lançar olhares de desprezo e até repulsa, ela não conseguia compreender o por quê. Os que antes conversavam voltaram a falar:
- Este não é o filho de Inutaishou? – um perguntou ao outro, quase sussurrando, crendo que ninguém o ouviria.
- Sim, ele mesmo. Mas onde está o general cão? Não vá me dizer que ele mandou o filho bastardo em seu lugar?! – debochou, também em tom baixo.
- Soube que o general está fora em uma batalha. – um terceiro chegou no meio do assunto, mas os outros dois não pareceram incomodados com a interrupção.
- E por quê ele não mandou seu outro filho? Aquele sim é um exemplo de youkai. – falou o primeiro.
- Ele também está em batalha. – o terceiro parecia bastante informado sobre o assunto.
- Ora, era o que faltava, ter que dividir a mesa com um hanyou e ainda ter que ouvir suas opiniões sobre o que é falado aqui! – o segundo disse com desprezo claro em suas palavras.
- Coisa mais repulsiva é esse ser. – o outro incrivelmente conseguia demonstrar mais desprezo que o amigo – Como o respeitoso lorde Inutaishou foi se unir a uma... reles humana e gerar uma coisa dessas? – completou, com asco.
- Aquele defensor dos humanos... não é tão ruim ele não estar aqui afinal. – disse o outro.
Duas orelhas caninas se moviam euforicamente em diversas direções, captando tudo. Por mais que eles achassem que não eram ouvidos, a audição sensível do ser sobre o qual falavam captava cada palavra. Em verdade, alguns youkais não queriam se ocultar, alguns sabiam que estavam sendo ouvidos e gostavam disso, lhes era prazeroso humilhar quem eles julgavam inferior. Inuyasha se segurava para não acabar comprando briga com todos os youkais ali naquele lugar – sairia em desvantagem além de tudo – afinal, não era a primeira vez que ouvia tais coisas, era por isso que detestava as tais reuniões.
Kagome, ainda estranhando a reação daqueles youkais fitou seu mestre e percebeu que este parecia conter a raiva a todo custo, a expressão fechada assim com seus punhos, que chegavam a ferir a própria palma com suas garras. Neste exato instante como se percebesse que era observado ele se vira na direção dela. Fitavam-se nos olhos, apesar de não ser a conduta certa entre uma escrava e seu 'dono', a expressão dele pareceu se suavizar um pouco ao fitá-la, e ela lhe deu um singelo sorriso, como se tentasse dizer que estava tudo bem. Ele sentiu como se nada mais importasse, não importava o que achavam dele se ele podia ter aquele sorriso para si. Agora sentia que fez a escolha certa em trazê-la consigo.
Ambos desviaram os olhares quando quase todos os youkais já se assentavam à mesa e a reunião tinha início. Durante alguns minutos os youkais falavam todos ao mesmo tempo, como se ainda não tivessem decidido o assunto principal. Foi quando mais um convidado chega, atrasado. O youkai adentrou o local, a expressão séria não demonstrava ressentimento em chegar depois do início da reunião. Kagome estancou ao ver quem era o youkai, não havia como não reconhecer os longos e negros cabelos ondulados emoldurando um rosto frio como a expressão de seus olhos vermelhos. Um dos que estavam à mesa lhe dirigiu a palavra:
- Está atrasado Naraku. – falou em tom sério e sem demonstrar sentimentos.
- Estava resolvendo algumas coisas, por isso me atrasei. – respondeu no mesmo tom frio do outro, logo em seguida tomando seu lugar junto aos outros.
Kagome queria ir embora dali a qualquer custo, mas não haveria como. O que a tranqüilizava era que o mononoke ainda não a notara, se tivesse sorte ele nem se lembraria dela. Mas por via das dúvidas ela procurava desviar o olhar tentando ocultar o rosto. Mais alguns angustiantes minutos se passaram, os youkais discutiam coisas como: batalhas contra inimigos, comércio de escravos humanos, economia, entre outros assuntos que pareciam não interessar nem um pouco a Inuyasha, que não falara uma palavra a reunião toda e tinha no rosto a expressão mais entediada do mundo. Uma dada hora, um youkai ordenou que algumas escravas lhes servissem um chá, e Kagome era uma delas.
Um pouco nervosa, pegou a bandeja que lhe foi entregue por outra escrava e começou a servir um por um, enquanto outras escravas faziam o mesmo em outras partes distintas da comprida mesa. Inuyasha a fitou com um pouco de preocupação, mas nada podia fazer a não ser torcer para que nada de ruim lhe acontecesse.
Ela fez tudo o que pode para não servir a Naraku, mas foi em vão. O próprio youkai a chamou, pedindo por mais chá. Ela estremeceu ao ouvir novamente aquela voz grave e fria. Aproximou-se temerosa, a bandeja tremulava em suas mãos, o olhar baixo e o rosto quase todo coberto pela franja negra. Ao servir o chá na pequena tigela, suas mãos tremiam incontrolavelmente, o acabou resultando na humana acabar por derramar um pouco do líquido quente sobre o youkai. A reação deste já se pode prever, nervoso puxou-a bruscamente pelo braço e gritou com ela:
- O que pensa que está fazendo sua idiota!? – foi quando a expressão dele se converteu em uma de reconhecimento – Você! – acusou – Minha escrava fugitiva! – sua voz expressava um ódio indecifrável.
Há essa hora Kagome mal podia se mover, apenas tremia, enquanto o youkai lhe segurava firmemente. Todos os olhares se voltaram para a cena:
- O que está dizendo Naraku? – um youkai perguntou, confuso.
- Essa humana...é minha escrava, ela fugiu de mim! – respondeu, tentando conter a raiva.
- Ela não é mais sua escrava! – todos os olhares agora se voltavam para um raivoso Inuyasha que havia se levantado de seu lugar e fitava o youkai com fúria.
- Não se intrometa seu hanyou imprestável! – retrucou Naraku, do outro lado da mesa.
O 'hanyou' agora começava a rosnar em um tom que chegava a ser assustador... ao menos assim Kagome o pensava, pois nunca o havia visto tão nervoso assim antes. As garras se enterravam na madeira da mesa sobre a qual estava com as mãos apoiadas, e iam rasgando-a como se fosse papel, mostrando que não estava para brincadeira. Naraku arqueou uma sobrancelha, tentando não demonstrar hesitação, puxou novamente Kagome pelo braço como se quisesse mostrar um objeto sobre a qual falava:
- Ora, está tão nervoso por causa de uma humana?! – disse sarcástico.
- Se não soltá-la agora lhe retalharei um mil pedacinhos! – ameaçou estalando as garras, não entendia por que estava tão nervoso, mas sentia vontade de matar aquele youkai ali mesmo.
Nenhum youkai ousava interferir, ficavam à distância apenas assistindo ao 'show'. Naraku por fim soltou a garota, que rodeou a mesa rapidamente até chegar onde Inuyasha estava e se esconder atrás deste, ainda tremendo e expressando receio, mas se sentia mais segura agora.
- Era de se esperar que um hanyou, e ainda mais filho de Inutaishou, também fosse defender os humanos. – disse novamente Naraku, de maneira debochada. Os outros youkais demonstravam sorrisos escarnecidos no rosto e falavam entre si novamente.
Inuyasha fez menção de ir pra cima do youkai, mas sentiu um puxão na manga do haori e se virou para se deparar com Kagome, que parecia lhe lançar um olhar suplicante para que não agisse precipitadamente. Ele achou que seria sensato não se envolver numa briga naquele momento pois isso poderia pôr a garota em risco. Pegou a mão dela e a saiu rapidamente do local, fazendo o máximo para tentar ignorar a zombaria dos youkais, onde a palavra que mais se ouvia era 'hanyou'.
Uma vez do lado de fora e já um tanto distante, Inuyasha pára e se vira para a humana com uma certa preocupação, vendo que ela ainda parecia um pouco abalada pelo reencontro com Naraku:
- Você está bem, Kagome? – indaga, apreensivo.
- Estou. – responde, ainda que um tanto incerta.
- Não se preocupe, Naraku não vai mais lhe fazer mal, eu não permitirei. – diz confiante.
- Eu confio em você. – ela diz com um sorriso, ele não pôde evitar corar com aquelas palavras e aquele simples gesto.
- O-o que disse? – tartamudeou, como se não acreditasse no que ouvira.
- Disse que confio em você, Inuyasha. – ela repetiu, ainda no mesmo tom – Não tenho medo quando estou ao seu lado. – confessou. Ele ficou um tanto sem reação com aquilo, sem saber como responder apenas deu pequeno sorriso à humana e depois voltou sua atenção ao caminho:
- Melhor irmos embora, já é tarde. – falou fitando o céu escuro, onde brilhavam algumas estrelas e uma lua minguante sendo constantemente encoberta por nuvens.
- Inuyashasama? – chamou a humana, depois de alguns minutos de caminhada.
- Já disse que não precisa me chamar assim, me chame apenas pelo nome. – disse sem tirar porém os olhos do caminho escuro. A humana apenas sorriu e continuou:
- O que é...um hanyou? – perguntou, com um tanto de receio. Ele ficou mudo por uns segundos pensando no que dizer. Mas depois da humana ter dado tal voto de confiança à ele, talvez fosse de hora de confiar um pouco em alguém também pra variar, nunca confiava em ninguém. Quando a jovem pensou que sua pergunta mais uma vez ficaria sem resposta o ouviu dizer:
- Bem... – começou ainda buscando as palavras certas – Meu pai é um youkai, e minha mãe era humana, o que faz de mim um hanyou. – disse com um tanto de desgosto – Por isso aqueles youkais me desprezam, por que desprezam os humanos... – concluiu.
- Então temos muito em comum. – ela disse graciosa. Ele a fitou, incrédulo, ela não se importava com o que ele era. No escuro, porém, a única coisa que a humana pôde ver foram os dois olhos dourados brilhando como faróis, como os de um felino. Isso a deixou um tanto 'hipnotizada' por um instante, o que fez com que tropeçasse em uma pedra, caindo praticamente de joelhos ao chão.
- Kagome, tudo bem? – perguntou preocupado.
- Sim – disse se levantando com a ajuda dele – É só que não estou enxergando quase nada nesse escuro. – ela olhou em volta, para fitar apenas escuridão, as estrelas pouco iluminavam e a lua não era clara o suficiente para mostrar o caminho, a única coisa que a impedia de entrar em desespero era que não estava sozinha.
- Assim nunca chegaremos – ele disse já recuperando o tom de voz habitual – Venha. – e sem aviso a pegou no colo.
A garota se surpreendeu momentaneamente quando sentiu ser levantada, mas não tinha o que refutar, então apenas se aconchegou mais naqueles braços quentes e fortes e se deixou levar. Ela quase não via o caminho mas podia sentir o ar se deslocando rapidamente a sua volta e sentia o leve balanço da corrida, deviam estar indo bastante rápido, mas nada disso a preocupava, estava segura agora. Começou a sentir seus olhos pesarem até que não mais pôde mantê-los abertos.
O hanyou sorriu internamente ao perceber que a humana dormia serenamente em seus braços. A escuridão era quase total, mas ele enxergava muito melhor que qualquer humano, e conseguia visualizar a silhueta do rosto pacífico da jovem, parecia despreocupada e tranqüila. Gostaria de sempre vê-la assim, por isso não deixaria Naraku ou qualquer outro youkai tocar-lhe mesmo que fosse um fio de cabelo. Assim ele prometeu a si mesmo sempre protegê-la, sem ao menos entender por quê de tanta determinação.
Não foi um caminho muito longo, na velocidade que ele corria era muito mais rápido do que caminhando ao ritmo da humana e em questão de minutos chegaram ao castelo. Os guardas imediatamente o reconheceram pelo cheiro e abriram passagem. O hanyou adentrou o local, ainda carregando a humana, visto que esta ainda não acordara. Nesse momento Inuyasha se lembrou do dia em que a trouxe ao castelo da mesma maneira, com a diferença que antes ela estava ferida e agora apenas dormia calmamente.
Ao cruzar as grandes portas, se deparou com um lugar quase vazio, a maioria dos escravos já dormia a essas horas da noite. Ele seguiu um longo corredor até chegar na porta do mesmo quarto em que a levara da primeira vez que a trouxera, parecia estar revivendo a mesma cena de outrora e isso parecia um tanto estranho. A depositou com delicadeza no futon do cômodo que ainda continha o cheiro dela, o que provava que entrara no quarto certo. Ele fitou mais uma vez o rosto adormecido da jovem, como era possível que parecesse ainda mais bela desta maneira? Na verdade começava a achar que ela era bela de qualquer jeito. Fez menção de virar-se para sair, mas ouviu o barulho da jovem despertando e se virou para ela novamente:
- Já chegamos? – perguntou sonolenta.
- Sim, volte a dormir. – ele disse de uma maneira doce, bem atípica dele. Mas ela estava muito torpe devido ao sono para notá-lo. Deu-lhe um sorriso e voltou a fechar os olhos, logo adormecendo de novo.
Continua...
