Disclaimer: Inuyasha não me pertence.
- Nossa oyaji, você está com cara péssima. – disse Inuyasha ocasionalmente. A família sentava-se junta esta manhã para desfrutar do farto café da manhã servido para os três na grande mesa. Inutaishou sentava-se na ponta da mesa retangular, o lugar mais importante. – Até parece que não dormiu bem.-Inuyasha completou, quase podia-se notar um tom sarcástico em sua voz.
A face cansada e as leves olheiras que se destacavam no sempre bem-aprumado lorde youkai, mostravam como fora sua noite. Tendo a audição sensível era constantemente acordado pelo barulho das brigas dos filhos. Inutaishou fitou o filho mais novo com os olhos estreitos, os lábios se encresparam. Ele o fitou silenciosamente, com um olhar que dizia: "Isso é culpa sua". Depois fitou a Sesshoumaru que comia sua refeição calmamente, sempre mantendo a pose, fitando qualquer coisa com seus olhos sempre frios.
- Vocês dois... – começou, podia-se ver uma veia saltando em sua testa. Mas a entrada de três escravas trazendo mais da refeição distraiu momentaneamente sua atenção da bronca que faria seus filhos levarem e o fez se focar nos pratos. Pra quê estragar o começo do dia com discursos ou punições? Deixaria para mais tarde.
Uma das escravas que trazia a refeição por acaso era Kagome, que descansou na mesa uma tigela contendo alguma coisa – que realmente não era importante no momento para um certo hanyou ali presente – depois lançou um rápido olhar a Inuyasha, acompanhado de um pequeno e terno sorriso. Ela já se acostumara tanto a ficar na presença dele, que pareceria frio e estranho se não lhe desse sequer um sinal que notara que ele estava ali – como pareciam fazer as outras escravas. O hanyou correspondeu o sorriso de forma rápida, porém sincera, com um daqueles sorrisos que você perderia de vista se piscasse por muito tempo. Do outro lado da mesa Sesshoumaru estreitou os olhos para a cena. Inutaishou parecia entretido demais devorando uma tigela de arroz cozido para notar.
Como o dia parecia longo quando não se tinha nada em especial para fazer. E era assim que se encontrava Kagome. As outras escravas pareciam dar bem conta dos serviços sem ela, e com certeza eram muito melhores no que faziam. Mas apesar disso não queria ficar ali parada, enquanto todos cumpriam seu dever – além de que, poderia levar uma bronca se Kaede, ou pior, Inutaishou a visse sem fazer nada de útil na vida.
A humana caminhou até onde sabia que haveria materiais para limpeza – na cozinha – e pegou um pequeno pedaço de tecido em um móvel de madeira. Tirar o pó dos objetos não era exatamente a tarefa mais importante a se cumprir, mas dado ao tamanho do castelo, deveria ter poeira em lugares inimagináveis... Pensando bem, talvez fosse uma árdua tarefa... Com o pano em mãos, caminhou pelo grande hall de entrada, mas parecia que já havia muitas escravas cuidando daquela parte. Adentrou então a passagem para os corredores ao lado da grande sala.
Incrível como depois de tanto tempo naquele lugar, ainda se perdia no castelo vez por outra. Eram muitas entradas, corredores e portas. Ela tinha certeza que conhecia apenas uma fração do enorme castelo feudal. Continuou andando e indo por lugares desconhecidos por ela, às vezes parava para tirar finas camadas de poeira de algum móvel, mas não era tão necessário, parece que outra escrava tinha se encarregado disso recentemente. E falando-se em escravos, Kagome não notara nenhum por ali, estava tão só naquele lugar enorme que sentia que se fizesse um mínimo ruído faria um eco enorme nas paredes distantes. Ignorou a pontinha de pânico que quis se apoderar dela e continuou caminhando, não havia nada a temer... não é?
Sem que notasse, estava em frente á uma porta quase totalmente aberta. Seus pés a levaram para aquele lugar antes que sua mente distraída pudesse se dar conta. Fitou cuidadosamente o interior, para se deparar com milhares de prateleiras de madeira, onde objetos, que mais tarde ela identificou como pergaminhos, eram guardados aos montes, amontoados uns sobre os outros nas estantes. Era uma espécie de biblioteca, e por sinal bem pouco usada, já que a poeira fazia dali seu lar predileto. Ela adentrou então, disposta a fazer uma bela faxina e poder orgulhar seus mestres, e a si mesma, claro.
Uma mesa no centro da biblioteca continha ainda alguns pergaminhos que alguém talvez estivesse lendo, então ela optou por não tocar nestes. Mas depois de alguns minutos de silenciosa – e por que não dizer tediosa – limpeza das grossas camadas de pó, acabou por se deixar levar pela curiosidade e deu uma olhadinha em alguns pergaminhos, afinal, havia tantos, não haveria nada de mal em folhear alguns. Pegou um e o desenrolou, seu nariz coçou, incomodado com a poeira. As palavras que ela pôde discernir não diziam nada realmente interessante, apenas alguma coisa sobre um youkai que era dono de um feudo destruído pelos humanos na guerra a centenas de anos atrás. Pegou outro: um poema confuso; deixou-o de lado para se apossar de outro pergaminho e fitar seu interior, dizia algo sobre as origens dos youkais; desenrolou mais um pouco e pôde ver uma referência a hanyous, esse parecia interessante. Olhou mais interessada, tentando decifrar alguns símbolos; como era maravilhoso poder ler, tinha que lembrar de agradecer a Inuyasha novamente por estar lhe ensinando. Porém, logo se desinteressou pelo pergaminho, deixando de lado com uma carranca ao ler uma parte sobre a impureza das criaturas híbridas e como seria mais sensato – ou criativo – matá-los antes que se desenvolvessem.
- Quanta besteira! – disse para si mesma. Se aproximou da mesa então, e fitou um pergaminho estendido sobre ela, aberto. Soprou uma grossa poeira dele para que pudesse ler, mas se arrependeu logo em seguida, quando sentiu uma onda de espirros incomodarem seu nariz por causa do pó. Recompôs-se e fitou as palavras no pergaminho. Dizia algo sobre um objeto de grande poder, aparentemente uma jóia. Kagome piscou e releu esta parte. Como assim uma jóia? O pergaminho dizia que uma pequena jóia redonda tinha um enorme poder de destruição. Havia um desenho feito em carvão: uma pequena esfera, abaixo as palavras Shikon no Tama. A garota franziu o cenho, mas continuou tentando ler. Só que a partir dali, começavam a surgir uns caracteres desconhecidos por ela. Fez uma anotação mental de pedir mais aulas a Inuyasha.
Finalmente se cansou de tentar decifrar aquilo e ergueu seus olhos do pergaminho, talvez para voltar ao que fazia anteriormente. Seu movimento congelou e seu corpo enrijeceu quando ela pousou os olhos sobre uma figura parada a porta. Sesshoumaru apoiado ligeiramente ao batente da porta corrida, a fitava com seus sempre frios olhos dourados. A expressão dele era neutra, os olhos não se moviam um centímetro da humana, e ela sentiu como se estes a perfurassem e pudessem ler dentro de sua alma. Ela engoliu em seco e se endireitou, sem conseguir coordenar seus pensamentos naquele momento, muito menos seu coração que ainda parecia estar sofrendo o susto que ela levara há pouco. Rapidamente desviou os orbes para o chão, evitando encará-lo.
- Eu...me..me desculpe... eu suponho que não deveria estar aqui. – ela tentou dizer sem tremer a voz, mas foi quase impossível.
- Suponho que não. – ele apenas disse em tom frio de sempre. – Sabe ler? – indagou, sem demonstrar interesse.
- U-Um pouco. – gaguejou fitando o chão.
- Quem lhe ensinou? – perguntou novamente.
- ...I-Inuyashasma – respondeu, insegura.
- Hm...- murmurou, antes de endireitar-se e desencostar da porta, Kagome se encolheu contra o ranger da madeira. – Talvez ainda não tenha entendido humana... – pronunciou 'humana' com bastante desprezo – Mas você nada é além de uma escrava aqui. Não tem direitos ou desejos próprios. Todos os youkais pensam desta maneira, inclusive Inuyasha.
A garota se mexeu, pouco a vontade, mas se manteve firme no lugar, apesar de sua vontade ser de correr pra bem longe dali. – Não pense que não notei como se tratam diferente. – ele continuou, o tom sempre sinistramente calmo e frio – Mas não pense que por Inuyasha ser o hanyou que é, ele não compartilha dos pensamentos de que humanos são criaturas inferiores. Pergunte à ele se gosta de ser metade humano. – adicionou um pouco de cinismo as ultimas palavras – Então, ponha-se no seu lugar. Por que comportamentos como o seu são inaceitáveis para uma escrava. – agora ele parecia ter falado perigosamente sério.
- ...S-sim, Sesshoumarusama. –ela disse, temerosamente, depois de alguns segundos. Seus olhos começaram a lacrimejar, mas guardou no fundo da alma a vontade de chorar, não queria parecer mais vulnerável do que já estava. As mãos acariciavam uma à outra nervosamente e o solo acarpetado era tudo que via. Ele se moveu do lugar, saindo da frente da porta e fez sinal claro e silencioso para que ela saísse. Ela não precisou olhar em sua direção muito tempo antes de entender a mensagem e passar pelo youkai tão rápido quanto pôde, e claro, com o máximo de distância.
Quando não mais tinha a sala da biblioteca à vista, seu passo rápido se transformou em uma corrida quase desesperada pelo castelo. Mas afinal, por que estava correndo? Não era como se um monstro ou algo assim a estivesse perseguindo – ela havia olhado para trás para constatar que Sesshoumaru não a seguia - , mesmo assim sentia-se acuada e solitária. Parou, recuperando o ar e a racionalidade. Por um tempo ficou parada em um vazio corredor, pensando sobre o que o youkai dissera. Ele tinha razão, ela não agia com Inuyasha como se fosse seu mestre, era como se ele fosse outra coisa, talvez até um amigo, mas não pensava nele realmente como um mestre – não da mesma maneira que pensava em Inutaishou, por exemplo. E será que realmente Inuyasha também desprezava os humanos? Não, impossível! Ele sempre fora bom com ela. Repentinamente, uma lembrança veio num flash em sua cabeça, um dia em que escutara uma conversa atrás da porta, antes de saber que Inuyasha era um hanyou:
"- Mas Inuyashasama sempre disse que não lhe agradavam os humanos fracos."
A lembrança vinha na voz de Kaede, conversando com Inutaishou sobre porquê, possivelmente, Inuyasha salvara Kagome. Aquela frase deixava bem claro o que ele pensava sobre os humanos. Abaixou a cabeça fitando o chão, pensativa. Talvez fosse hora de começar a agir como uma escrava por hora e voltar aos antigos planos de retornar para sua família, ainda não havia desistido de tentar encontrá-los novamente. Mas para isso ela sabia, precisaria fugir do castelo, e eram poucas as chances de que conseguisse ou sobrevivesse depois...Meneou levemente a cabeça afastando esses pensamentos, não era hora para pensar nisso agora. Apertou as mãos e estranhou o objeto macio em uma delas, a ergueu então e fitou o pedaço de tecido que ainda estava firmemente preso ao seu punho fechado... nem se lembrava mais dele. Pegou o pano e o dobrou para que voltasse novamente a atividade de uma escrava... tirar o pó.
A madeira rangia sobre seus pés enquanto o hanyou caminhava ocasionalmente pelo castelo. Já era fim de tarde e ele nem vira sinal de Kagome, ela normalmente não ficava tanto tempo 'ausente'. Claro que o motivo dele estar andando à esmo pelos corredores e alas do castelo não era para encontrá-la, estava apenas... dando uma volta. Ora, por que não? Aquele castelo era tão grande que poderia caminhar quilômetros ali dentro ao invés do jardim ou coisa assim... Ok, talvez fosse exagero, mas ainda assim não estava a procurando. Mas bem que não seria má idéia cruzar com ela pelo caminho... Abanou a cabeça tentando se livrar desses pensamentos, mas era um tanto difícil, parecia que desde que eles ficavam tanto tempo juntos enquanto ele lhe ensinava a ler, que parecia solitário sem ela por perto.
- "Preciso de uma ocupação..." – ele pensou, desalentado.
Ignorou as escravas que praticamente se jogavam no chão aos seus pés, em profunda e exagerada reverência e continuou tentando sentir o cheiro daquela única humana que não saía de seus pensamentos – o que já o incomodava, inclusive -, mas com tantos cheiros diferentes juntos era difícil se concentrar em um só. Desagradavelmente encontrou alguém bem menos conveniente que ela.
- Procurando alguém 'maninho'? – sarcasmo não era muito o forte de Sesshoumaru, não conseguia mudar muito o tom frio.
- Com certeza não era você. – respondeu Inuyasha, rude.
- Talvez fosse aquela humana...qual era mesmo o nome..? – fingiu estar pensativo antes de continuar – Kasome..?
- Kagome. – corrigiu o hanyou, estreitando os olhos para o irmão.
- Ah... – fez uma expressão de reconhecimento – Não me importo realmente em saber o nome dos escravos. – falou em tom de pouco caso – Mas você parece se importar muito com eles... Ou deveria dizer, com ela? – provocou.
- Cala a boca Sesshoumaru! – retrucou, cerrando os punhos e a expressão.
- Inuyasha, não jogue mais ainda o nome de nossa família na lama, como já fez ao nascer. – falou, um pouco mais sério.
- O que quer dizer com isso, maldito!? – gritou, irritado.
Os característicos sons de objetos se quebrando ecoaram pelo castelo. Inutaishou interrompeu sua 'interessante' tarefa diária de polir a espada usada nas batalhas e encarou as paredes do aposento, como se pudesse ver através delas e descobrir o que se passava em seu castelo. Não era muito difícil imaginar a peleja que se desenrolava em algum lugar ali dentro, ao qual os resultados eram muitos objetos espatifados e muito prejuízo. O lorde colocou a espada de lado por um momento e apoiou o queixo em uma mão, que por sua vez tinha o cotovelo apoiado na própria perna, dobrada em frente ao corpo em posição de lótus. Por um momento ele cogitou seriamente a possibilidade de trucidar seus próprios 'filhotes', como faziam tantos youkais menos pacientes que ele... Mas logo descartou a idéia, nunca poderia fazer isso. Será que alguma coisa que ele fizesse poderia fazê-los pararem de brigar tanto..? Provavelmente não... Suspirou como se isso espantasse seus problemas e talvez pudesse trazer uma solução e voltou à tarefa de antes, tentando ignorar os sons ao menos por essa vez.
OoOoOoOoOo
Mal-humor. Era a palavra que mais descrevia Inuyasha nesse instante. Sentado à mesa estava um emburrado hanyou, escrevendo algo em um pergaminho. Aquele era o castigo que Inutaishou dera a ele por brigar com Sesshoumaru. Agora tinha que escrever milhares de vezes a frase: "Não vou mais brigar com Sesshoumaru" em um pedaço de pergaminho que parecia interminável. Era um castigo bobo, era uma coisa para criancinhas e não deveria ser um desafio. E certamente não seria se Inuyasha não detestasse tanto ficar horas parado em um mesmo lugar escrevendo coisas repetidas – aquilo era pior que assinar aqueles pergaminhos quando seu pai estava ausente. A cada frase que escrevia adicionava mentalmente "Mas vou matá-lo um dia". Às vezes não se continha e desenhava um rascunho bem feio do meio-irmão na borda do pergaminho, só para depois rabiscá-lo para que o pai não visse, e em seguida voltava a escrever. Inutaishou conhecia muito bem seus filhos para lhes dar um castigo psicológico que se adequasse a cada um. E nesse momento tanto ele quanto Sesshoumaru estavam por aí em algum lugar procurando por um castigo adequado para o filho mais velho.
Mas voltando ao pergaminho... Inuyasha já não agüentava mais escrever naquilo. E seu mau-humor não era só por esse fato, porém. Desde o dia anterior ele não via Kagome em parte alguma. A única vez que a viu foi de relance, durante o almoço, quando ela passou rapidamente pelo cômodo, mas mal olhou na direção dele e rapidamente desviou o olhar, ignorando-o e seguiu seu caminho, e também uma outra em que ele pensou tê-la visto de relance, mas logo ela dobrou um corredor sumindo de vista. Parecia até que estava evitando-o... Bobagem, por que faria isso? E por que isso o incomodava tanto? Tudo isso já começava a lhe dar dor de cabeça. Fitou o pergaminho novamente e decidiu que já escrevera o bastante. Levantou-se com um estalo nas juntas. Maldito castigo.
Nesse momento, como se por acaso do destino, sentiu um cheiro familiar e próximo. Sem dúvidas era ela. Seguiu seu faro por um corredor e em pouco tempo viu o que mais queria. Kagome arrumava distraidamente alguns objetos de porcelana, que enfeitavam uma mesa. O hanyou se aproximou de maneira silenciosa, quase furtiva, e logo estava bem atrás da humana:
- Kagome. – chamou repentinamente.
Ele se sentiu um pouco culpado quando a garota praticamente pulou de susto e se atrapalhou toda com os objetos quase os deixando cair. O tilintar da porcelana feriu seus ouvidos por mais um tempo enquanto ela colocava tudo no lugar desajeitadamente:
- Me assustou, Inuyashasama. – ela falou colocando uma mão sobre o coração, mas ainda sem fitá-lo.
- Não foi por mal. – mentira, ele quisera sim surpreendê-la por um momento, talvez para compensar o tempo em que esteve sem vê-la, ao que ela parecia fugir dele a todo o momento. – Mal a vi hoje... nem ontem depois do café da manhã, se quer saber.. – falou ocasionalmente.
A humana se sentiu repentinamente nervosa, mas conseguiu ficar sob controle, 'aparentemente' não demonstrando nada – Apenas estive ocupada. – respondeu.
- Mas por que não a vi por aí..? Aliás, creio que vi, mas me ignorou... – comentou como quem não quer nada.
- Por que eu faria isso..? – retrucou. Mas aquela voz à suas costas e a consciência de que ele fitava atentamente cada ato dela não ajudava muito na hora de manter a calma.
- Não sei... assim como não sei por que não está olhando para mim enquanto falo com você. – ele disse, ficando levemente nervoso ao ver que ela ainda olhava a mesa, fingindo arrumar um pequeno vaso no lugar pela milésima vez.
- Não é respeitoso olhar nos olhos de um youkai. – ela respondeu simplesmente.
- E desde quando você se importa com isso? – retrucou, se enervando.
- Por que eu...? – ela perguntou num tom tão baixo que se não fosse por sua audição, Inuyasha não teria ouvido.
- Como?! – indagou, aparentemente confuso.
- Por que procura a mim e quer saber por onde estive? Por que se importa? ...Por que me pede para fitá-lo quando as outras escravas se esforçam tanto em fazer longas reverências para não cruzar olhares com seus mestres? – ela fez uma pausa dramática, enquanto acariciava delicadamente uma peça de porcelana, enquanto falava suavemente – Por que sou diferente das outras? – o silêncio que veio depois indicava que ela terminara sua fala. Porém o hanyou ainda estava atônito demais para falar qualquer coisa. A verdade era que essas perguntas também estavam em sua cabeça o tempo todo e ele próprio não tinha uma resposta a elas.
- Eu...não sei... – respondeu sinceramente.
- Eu sou uma escrava como as outras, e sei disso... Devo agir como tal, então. – ela disse em tom baixo.
- De onde você tirou isso? – perguntou, recuperando a pose indignada – Essa é a maior besteira que já ouvi. Então quer dizer que quer ser tratada como as outras e apenas fazer tudo o que lhe ordenam de cabeça baixa para o resto de sua vida? – indagou quase aos gritos – Ou será que não suporta mais ficar ao lado de um hanyou?
- Não é nada disso. – ela se apressou em responder – Não me importo que seja um hanyou – ela agora fitava o chão – Mas talvez você se importe de eu ser humana. – enfim criara coragem para dizer isso, e talvez poder ter certeza de que Sesshoumaru dissera a verdade.
- O q... De onde você tira essas idéias?
- Então me responda uma coisa, por favor – ela disse, finalmente encarando-o – O que acha dos humanos? O que acha de ser metade humano? Considera isso uma fraqueza ou uma vantagem? – perguntou com determinação.
Ele fechou a expressão, franzindo o cenho em uma carranca enquanto que as palavras pareciam entaladas em sua garganta. A raiva parecia emanar dele. Ele enfim decidiu que não tinha que ficar ali ou responder às perguntas daquela humana. A fitou de maneira que beirava a ameaçadora e depois simplesmente se virou dando-lhe as costas e partindo. Assim que ele sumiu em uma curva no corredor, Kagome deixou que seus joelhos enfim se dobrassem e ela desabou ao chão. Sentada ali com as mãos apoiadas no solo em posição derrotada, ela sentia um misto de tristeza, solidão e outras coisas que não sabia definir. Logo algumas lágrimas brilhantes corriam por seu rosto, pingando em pequenas gotas no tapete asseado. Ela não merecia nem uma resposta da parte dele? Era tão desprezível assim? E por que se sentia tão horrível?
Continua...
