Disclaimer: Inuyasha não me pertence.

Tudo estava silencioso. Enquanto caminhava ela podia ouvir os próprios passos na madeira. Era estranho que um castelo tão grande e com tantos escravos ficasse tão calmo. Mas tinha algumas raras vezes que isso ocorria. Sinceramente, Kagome não gostava muito. Parecia mais frio e solitário se não havia pessoas por perto. Uma brisa fria passou por ela, arrepiando os pêlos de seu braço. Ela se encolheu diante da sensação desagradável, olhou em volta. Não havia entradas por onde uma brisa pudesse entrar. Ignorou o fato e voltou a caminhar.

Subitamente a incômoda sensação de estar sendo observada a atingiu. Rapidamente olhou para todos os lados à procura de alguém, mas nada viu. A sensação no entanto não a deixou. Retomou a caminhada, agora mais rápido. Ou era sua imaginação ou seus passos pareciam duplicados? Era como se houvesse mais alguém caminhando naquele corredor aparentemente vazio. Parou de andar de repente, mais uns dois passos ainda foram ouvidos depois que ela parou. A humana estremeceu ligeiramente e lentamente se virou para olhar seu lado direito. Arregalou os olhos para uma menina de branco, parada a mais ou menos três metros dela. A menina pareceu um pouco confusa, como se esperasse não ser vista apesar de estar bem no meio do corredor. Kagome pensou na possibilidade dela ser uma escrava perdida, mas nunca vira aquela garotinha antes. A garota agora estava parcialmente visível, metade de seu corpo se desfazia numa nuvem parecida a vapor, que foi subindo até que ela sumiu completamente como se tivesse sido soprada pelo vento.

Kagome piscou uma, duas vezes. Ficou paralisada ali, fitando o local onde outrora estava uma menina de roupas e cabelo branco. Seria um fantasma? Ou seria sua imaginação? Ela não queria ficar pra descobrir. Virou-se pra frente para continuar seu caminho o mais rápido possível. Qual não foi seu susto ao deparar-se com um corpo parado bem a sua frente, nem pode ver quem era:

- Ahhhhhhhhhhhhhhhh!! – ela gritou histericamente.

- Hey, pare de gritar! – disse Inuyasha, tampando as delicadas orelhas – O que deu em você??

- I-Inu...yasha... – murmurou abrindo os olhos e o fitando. Seu coração ainda palpitava.

- Quer me deixar surdo?

- E-eu pensei que... tinha uma... uma... – ela gaguejou, tremendo ligeiramente.

- Uma o quê?

- Nada, esqueça. – ele não acreditaria se ela dissesse.

Ele arqueou uma sobrancelha e depois cruzou os braços em frente ao peito – Vejo que não está com Kouga. – comentou ocasionalmente.

Ela o olhou por um tempo, não acreditando naquelas palavras – Por que eu deveria estar com ele?

- Não sei, vocês vivem juntos agora...

Ela respirou fundo – Foi só uma volta no jardim.

- Ah eu vi, você parecia confortável nos braços dele. – disse, cínico.

- Quando vai deixar de ser tão infantil? – ela explodiu – Eu não estava fazendo nada errado. E se eu realmente estivesse com Kougasama, o que tem isso? O que você tem a ver com isso? – ela tremia e fechava as mãos em punhos.

- Eu... – ele se viu acuado – Eu já disse que não gosto de te ver com ele. – tentou inutilmente se justificar.

- E por que não? – quis saber ela, quando ele ia abrir a boca para falar ela acrescentou – E não diga que é por que eu sou sua escrava, isso não é motivo! – ele tornou a fechar a boca.

Eles se encararam por longos segundos. Kagome não entendia aquela atitude dele, simplesmente por que ele não lhe explicava nada. Ela era sempre a culpada de alguma coisa que nem ela sabia ao certo o que era. Achou que ele não iria lhe responder e se virou para partir, agora esquecendo totalmente a visão da garota de branco.

- Hey... não me dê as costas.

- Se não vai me responder, não tenho por que ficar aqui. – ela retrucou sem se virar e sem parar de caminhar.

- Droga Kagome, você não entende! – ele gritou.

- Não, não entendo. – disse no mesmo tom, encarando-o novamente – Por que não me explica?

Ele suspirou profundamente afastando a raiva e tomando coragem para o que ia dizer a seguir – Eu gosto de você Kagome. – falou de uma vez – Como nunca gostei de ninguém antes.

Ela sentiu seu coração disparar e seu rosto esquentar. Não conseguiu dizer nada naquele instante, o choque daquelas palavras a paralisara. Ele deu alguns passos na direção dela, que não se moveu do lugar. Lentamente levou uma mão ao rosto dela, que estremeceu ao toque. Ele tinha um olhar bem diferente do usual, muito mais doce. Ele se aproximou mais. Agora o coração de ambos batia descompassado. Kagome fechou os olhos quando sentiu os lábios do hanyou sobre os seus. Timidamente ela passou os braços em torno do pescoço dele, enquanto seus lábios se moviam em sincronia. Inuyasha a abraçou pela cintura a puxando mais pra si. Felicidade, paixão, ansiedade, tudo se misturava dentro deles, era como se tivessem borboletas no estômago. O tempo não significava nada, nenhum dos dois poderia dizer quando tempo ficaram tão próximos quanto se permitiam ficar.

Mas outra pessoa podia. A youkai ruiva acabara de virar o corredor quando viu a cena se desenrolando. Rapidamente voltou e ficou atrás da parede observando, por mais que isso lhe doesse. Ela sentiu um aperto no peito e uma lágrima correu por seu rosto. A única pessoa que já lhe deu atenção antes e não a afastava por ser uma princesa preferia uma humana a ela. A derrota nunca foi uma opção para Ayame. Ela sempre tinha tudo o que queria e não era agora que isso mudaria. Saiu silenciosamente e certa de que não dormiria essa noite.

OoOoOoOoO

- Nossa, que história... – murmurou Miroku depois de acabar de ouvir o relato de Sango e Shippou a respeito da traição do irmão de Atsushi – Mas fico feliz que finalmente tenha confiado em mim, Sangochan – e sorriu amigavelmente para a humana.

- Só lhe contamos por que talvez pudesse nos ajudar – ela respondeu um pouco mal-humorada.

- Meu pai não acreditou na gente. – se lamentou o kitsune.

- Com certeza farei o possível pra ajudar. – depois colocou uma mão no queixo e arqueou uma sobrancelha numa expressão pensativa – Vocês se lembram... se eles mencionaram algum nome durante essa conversa? – perguntou.

- Um nome..? – Shippou ficou pensativo um tempo – Bem, eles falavam sobre pegar o pergaminho e sobre tomar o lugar do meu pai... Não me lembro de mais nada que seja importante. Você não lembra de nada, Sango?

- Bem... – ela também pensou um pouco – Sim... acho que ouvi mais um nome... No final um deles falou algo sobre... Como era o nome..? – ela cerrou mais os olhos se esforçando para lembrar – Inu... Inutaishou. Isso, era esse o nome. Ele disse que queria destruir o reinado de Inutaishou.

- Inutaishou? – se surpreendeu Miroku – O lorde inuyoukai?

- Ah, é mesmo. Se não me engano ele e meu pai são aliados. – concluiu, Shippou animado.

- Bem, então encontramos mais alguém que está sendo visado por aqueles youkais – o monge disse, pensativo – Shippousama, acha que pode conseguir falar com esse lorde? – indagou.

- Ele deve ser muito ocupado, e nem sempre está no castelo: sempre tem alguma batalha. – desanimou o kitsune.

- Mas esse pode ser o único jeito de podermos fazer alguma coisa, já que Atsushisama não acredita em nós – falou Miroku – Você não conhece mais ninguém que viva no castelo e que possa ser nosso porta-voz?

- Eu só fui lá uma única vez. – respondeu Shippou – Mas vi que o lorde tem dois filhos. Mas o Sesshoumaru nunca ajudaria... E eu não me dei bem com Inuyasha. – emburrou o pequeno.

- Inuyasha... por que esse nome não me é estranho..? – perguntou Sango, e pôs uma mão no queixo extremamente pensativa.

- Seria por que ele é um lorde? – disse Miroku, sarcástico.

- Não é isso! – ela fuzilou o monge com os olhos – Eu ouvi em outro lugar... Não consigo me lembrar onde... – e por mais que se esforçasse nenhuma única lembrança vinha a sua mente.

- Isso não ajuda em nada – suspirou Shippou.

- Temos que nos concentrar em como falar com alguém que possa ajudar. – pronunciou o monge – Shippousama, não tem mesmo nenhum amigo lá?

A palavra 'amigo' pareceu ter acendido alguma lembrança em Sango. Subitamente a imagem de Kagome veio a sua cabeça. A única que algum dia considerou verdadeiramente como sua amiga. E então o nome pareceu se ligar a imagem e tudo ficou claro como o dia:

- É isso! – ela comemorou alto, assustando os outros dois – Agora me lembrei. Quando eu reencontrei Kagome na cidade. Ela me disse que tinha sido salva por um youkai, e o nome desse youkai; eu não posso estar enganada, era Inuyasha. – ela parecia muito feliz por ter finalmente lembrado.

- Quem é Kagome? – perguntou Miroku.

- Não era aquela humana que estava com você outro dia? – indagou Shippou no reconhecimento.

- Sim. – ela respondeu – Ela vai nos ajudar, com certeza.

- E por que os youkais ouviriam ela? – Miroku ainda parecia um pouco cético quanto ao 'plano'.

- Tem uma idéia melhor? – inquiriu Sango lançando adagas pelos olhos ao monge.

- Então está bem, vamos pedir ajuda a sua amiga. – ele respondeu, desistindo de confrontar a garota.

oOoOoOoOoO

Certas vezes o silêncio pode ser mais ensurdecedor que o pior dos barulhos. Era nessa situação que a jovem Rin se encontrava. Sesshoumaru parecia estar em mais um daqueles momentos de contemplação profunda, onde o som da brisa era o máximo que se ouvia e ele ficava simplesmente parado lá, não olhando nada em especial. Ela obtivera permissão para acompanhá-lo desde que mantivesse silêncio, mas para uma criança imperativa como Rin era difícil ficar quieta por muito tempo. Ela precisava de algum som, qualquer coisa que quebrasse aquele ar denso. Começou então a dar compassadas batidinhas no chão com a ponta dos dedos. O youkai a olhou de canto, parecendo incomodado com o barulho:

- Desculpe. – disse ela, parando o que fazia. Mas somente para procurar outra maneira de se entreter. Não obteve sucesso. – Sesshoumarusama – chamou suavemente – O senhor gosta de música? – perguntou um pouco animada depois que ele a olhou interrogativamente.

- ...Poucas melodias me agradam. – respondeu depois de breves segundos.

Rin ficou feliz em obter uma resposta dele – Então vou cantar para o senhor.

Antes que ele dissesse que não ela já havia começado. Depois de inspirar fundo ela deixou sair uma voz aguda e infantil. Aos poucos o tom se suavizou mais e ficou mais melodioso. Era diferente de como ela tinha cantado antes, agora parecia haver mais... sentimento. As palavras fluíam com naturalidade e clareza e, embora a voz ainda fosse infantil, era suave e não mais feria os ouvidos. Sesshoumaru não a impediu de continuar, apenas ficou em silêncio ouvindo. Depois de alguns minutos nos quais a garota percebeu que o youkai fitava o horizonte, ela parou de cantar, pensando que ele não gostara.

- Gomen nasai. – se desculpou.

- Cante mais. – ele disse simplesmente, ainda sem fitá-la.

A pequena se surpreendeu um pouco. Ela pensou que ele não havia gostado, mas agora que tinha sua aprovação se sentiria feliz em cantar para seu mestre. Fechou os olhos e voltou a entoar as poucas melodias que conhecia, colocando todo o sentimento que uma criança de sete anos pode pôr em uma música cantada para alguém muito estimado.

...

Ayame se revirava de um lado pra outro no futon. Por mais que tentasse pensar em outra coisa, a cena de mais cedo não parava de se repetir em sua cabeça. Ainda era cedo para tentar dormir e ela fora muito ingênua em pensar que conseguiria dormir tão facilmente depois daquilo. Mas já fora bastante difícil ver os olhares que o hanyou e a humana trocaram durante o jantar. Ela ouviu alguns sons vindos do quarto ao lado. Deveria ser Inuyasha. Tão perto e tão longe... Ela nunca pensou que terminaria assim, antes era tão diferente. Olhou para o teto como se olhasse o nada e deixou suas lembranças levarem-na para anos atrás, quando era apenas uma criança...

A menina apertava com força a mão do pai enquanto fitava apreensivamente o castelo que de tão grande parecia um monstro sombrio prestes a engoli-la. O youkai, notando a ansiedade da filha afagou carinhosamente aquelas melenas ruivas. A pequena ergueu seus olhos verde-esmeralda para o genitor, que lhe sorriu gentil e confortadoramente:

- Não precisa ficar assim. Você só vai conhecer seu tio e seus primos, nada de ruim vai acontecer – ela assentiu com a cabeça, mas não estava muito convencida disso.

Cruzaram os portões e logo estavam no hall de entrada cumprimentando Inutaishou. Ele não parecia tão assustador como ela havia pensado. Depois de falarem sobre como ela havia crescido e outros assuntos chatos de adultos, Inutaishou chamou os dois filhos. Ayame olhou curiosa enquanto surgiam dois garotos, um mais velho que deveria ter o dobro da idade dela; o outro, menor, parecia ter a mesma idade que ela, ambos tinham longos cabelos prateados, assim como seu tio, e olhos tão dourados quanto. O pai de Ayame a levou pela mão até onde estavam os primos e Inutaishou foi junto apresentando o mais velho como Sesshoumaru e o mais novo como Inuyasha. Em seguida deixaram-na ali, sozinha com eles para que 'as crianças se entendessem', e foram para algum outro lugar conversar sobre negócios. A garota se aproximou ainda tímida, mas tentando parecer alegre:

- O-oi. – cumprimentou numa voz que não passava de um murmúrio baixo – Eu sou Ayame, prazer em conhecê-los. – disse tudo muito rapidamente.

- Nós sabemos quem você é. – respondeu o mais velho, tão frio quanto seu olhar.

A menina corou um pouco e fitou o chão apertando as mãos em volta de um pedaço do próprio kimono.

- Pára com isso Sesshoumaru, ou eu vou contar pro papai que você ta maltratando nossa prima.

A menina se surpreendeu com a outra voz e ergueu o rosto para fitar o mais novo, que olhava de maneira brava para o irmão. Este ainda continuava com a mesma expressão entediada/neutra no rosto.

- Que seja. – deu de ombros – Pirralhos. – disse antes de se virar e sair.

- Não ligue pra aquele chato. – Inuyasha disse, dirigindo-se a Ayame – Ele não gosta de ninguém. – ele pareceu um pouco pensativo antes de perguntar – Você sabe brincar de 'pique-pega'? – ele a viu assentir com a cabeça – Então aposto que você não me pega. – fez cara de desafio.

Ela imitou a mesma expressão – De onde eu vim, sou a corredora mais rápida.

- Então prove. – e correu pra longe dela.

- Hey, eu ainda não disse que podia ir – ela gritou logo correndo atrás.

Desde então não era mais amedrontador ir visitar seus primos. Apesar de Sesshoumaru nunca mudar seu conceito a respeito dela, Inuyasha sempre estava lá. Diferente das outras crianças ele não a afastava por ser uma princesa, como se isso fosse sua culpa. Ela não sabia desde quando a amizade evoluíra para outra coisa, ou que coisa seria aquela, mas não estava disposta a deixá-lo ir assim tão facilmente. Levantou-se, decidida a fazer alguma coisa a respeito. Como uma luz na escuridão uma idéia iluminou sua mente. Ela sentiu medo de si mesma ao pensar naquilo. Talvez se arrependesse do que estava prestes a fazer... ou não. Tomou coragem e se encaminhou para a porta.

Inuyasha estava com a cabeça nas nuvens. Deitado em seu futon, ele pensava em como tinha sido bom aquele momento com Kagome, e ainda não conseguia acreditar que tomara coragem de se declarar pra ela. Mas se sentia feliz agora que o havia feito. Parecia que um grande peso havia sido tirado dele, como se fosse um fardo guardar aquele sentimento para si. Tão distraído estava em seus pensamentos que mal notou quando a porta do quarto era lenta e silenciosamente aberta e uma figura esbelta passou por ela, praticamente deslizando pra dentro. Foi o som dos passos que o alertou. Imediatamente se sentou, todos os sentidos na figura que acabava de entrar e parecia se esconder nas sombras de um canto do aposento:

- Quem está... – mas ele não precisou terminar a pergunta, por que logo reconheceu aquele cheiro. Pareceu um pouco confuso, e sua confusão só aumentou quando a youkai ruiva saiu das sombras, sendo iluminada pela fraca luz da lua, provinda de uma janela. Ela começou a se aproximar lentamente. Havia alguma coisa estranha em seu olhar.

- Ayame... – murmurou – O que faz aqui?

Mas ela não respondeu, apenas se aproximou mais, até que estava praticamente em cima do futon com ele. Ela baixou uma alça do próprio kimono, deixando aparecer um pálido ombro, cuja pele macia refletia a luminosidade do luar. Inuyasha arregalou os olhos e se arrastou pra trás no futon até que batesse com as costas na parede, mantendo distância.

- A-Ayame... O-o que você tá fazendo? – gaguejou, se espremendo contra a parede quando a viu se aproximar novamente.

- Inukun... – ela parecia levemente corada, mas ainda determinada a seguir adiante. Ele estremeceu quando ela colocou as mãos sobre o kimono dele, abrindo um pouco e acariciando seu peito. O hanyou parecia um tomate de tão rubro. Não podia negar que sua prima era bonita... mas ainda era sua prima, e ele gostava de Kagome afinal de contas. Juntou toda sua força de vontade e segurou firmemente as mãos da youkai, afastando-as.

- Ayame, o que deu em você? – perguntou, nervoso e levemente ofegante.

- Eu... – hesitou por um momento – Você não gosta mesmo de mim... – concluiu tristemente.

- Gosto, você é minha prima. Mas gosto de você como minha prima apenas. – então achou que era seguro soltar as mãos da garota. Esta voltou a cobrir o ombro, agora parecendo bastante envergonhada.

- Você gosta daquela humana, não é? – indagou, fitando o chão.

- Sim. – ele respondeu depois de alguns segundos.

- Me.. me desculpe, eu não sei o que deu em mim.- e antes que ele dissesse mais alguma coisa, ela já havia saído do quarto, quase tão repentinamente quanto entrara. E deixou pra trás um confuso e um tanto aliviado hanyou.

...

Kagome tinha uma expressão sonhadora no rosto, como o de uma criança imaginando que surpresa poderia esperar no dia seguinte. Às vezes olhava pela janela, fitando a lua, e nessas horas surgia um pequeno sorriso em seu semblante. Sachiko e Akake haviam chegado a pouco no quarto, mas nem pareceram ser notadas pela jovem dispersa. Se entreolharam confusas:

- Kagomesan? – tentou Sachiko – Está tudo bem?

A garota piscou algumas vezes, como se alguma interferência tivesse atrapalhado uma profunda concentração. Inocentemente se virou para fitar as duas escravas, que a olhavam preocupadas:

- Sim? – indagou em resposta, abrindo um sorriso.

- É que...

- Você está um pouco estranha. – interferiu Akake.

- Estou? – ela parecia alienada aos olhos das duas.

Como elas não disseram mais nada, Kagome se ajeitou no futon, como se estivesse sozinha ali.

- Vou dormir. Oyasumi. – disse calmamente, num tom levemente alegre.

- Sachiko... Não acha isso estranho? – perguntou Akake, num sussurro.

- Sim. E hoje Ayamesama parecia tão abatida, e Kagomesan parece tão feliz... – e tomou uma expressão pensativa.

- O que pode ter acontecido..?

- Não sei, mas espero que Ayamesama fique bem. Não gosto de vê-la triste. – a outra assentiu com a cabeça. Kagome ressonava serenamente no futon ao lado.

...

Já era bem tarde segundo as contas de Kouga. A lua já estava no meio do céu e nem havia sinal de Ayame pelo castelo. Ele normalmente não se preocuparia, pois sabia que ela sempre estava com Inuyasha, isso acabava facilitando seu trabalho de ficar de olho nela, uma vez que não tinha que se preocupar caso algo acontecesse. Mas ele sabia que ela estava sozinha agora, havia visto-a correr pra fora, provavelmente para o jardim, e ela ainda não voltara. Se algo acontecesse àquela princesa, o avô dela certamente cortaria sua cabeça. O youkai lobo suspirou desanimadamente e saiu à procura da garota.

Andou inicialmente sem rumo até que começou a sentir o cheiro da youkai. Seguiu-o por algum tempo, adentrando a região coberta de árvores, até que finalmente a viu. Estava sentada no galho de uma árvore e fitava distraidamente a lua. Kouga ficou mais aliviado e sentiu como se a corda fosse tirada de seu pescoço. Se aproximou sem tentar esconder sua presença, porém ela parecia alheia a tudo:

- Ayame. – ela se assustou ao ouvir a voz dele e se virou brevemente para encará-lo. Mesmo com a pouca claridade ele pôde ver que ela tinha o rosto molhado e tinha um semblante abatido. Ela desviou rapidamente o olhar, voltando sua contemplação à lua:

- Ah, era você. – murmurou um tanto decepcionada.

Ele arqueou uma sobrancelha mas decidiu não perguntar o motivo dela estar chorando sozinha ali:

- O que está fazendo aqui a essa hora? Pode ser perigoso. – disse repreensivo, cruzando os braços em frente ao peito.

- E quem se importa...? – ela respondeu num fio de voz.

- Seu avô se importa. E eu me importo se ele quiser cortar minha cabeça por isso.

- Ah, claro... Foi por isso que você veio...

- O que há com você? – perguntou, intrigado. Não obteve resposta. Devia ser algo sério. Ele alisou os longos cabelos negros e expirou, cansado. – Vamos, entre logo.

- Prefiro ficar aqui. – disse, melancólica.

- Será que preciso lhe lembrar que meu dever é protegê-la? E que se algo te acontecer eu posso ser castigado? Sabe, seu avô... – mas ela não ouvia nada do que ele dizia.

- Kouga. – ele parou de falar e olhou para as costas da ruiva – Eu sou assim tão... insuportável?

Ele piscou algumas vezes, confuso. Logo armou um sorriso cínico – Quer mesmo saber?

Ela voltou os olhos para o chão, desanimada. Kouga percebeu que não era hora pra brincadeiras.

- Sempre foi assim... – ela começou novamente – 'Princesinha mimada', era assim que me chamavam. As outras crianças não brincavam comigo, tinham medo de que se eu me ferisse elas seriam punidas, ou achavam que eu as trataria inferiormente... E mesmo depois que encontrei alguém que não pensava igual a todo mundo, essa pessoa não me escolheu... – Kouga demorou alguns instantes para perceber de quem ela falava – Eu não pedi por isso. Não pedi pra ser uma princesa, e ainda assim não tenho alguém que possa chamar de amigo.

- Talvez se não pisasse nas pessoas ela quisessem ser suas amigas. – ele respondeu.

A ookamiyoukai olhou para ele, como se este tivesse dito uma heresia – O que quer dizer com isso? – e estreitou os olhos pra ele.

- Que você trata todos como seus subordinados, mesmo as escravas que sempre estão com você.

- Mas elas são escravas. – retrucou.

- É por causa desse pensamento que você não tem amigos. – ele disse, e depois se virou e partiu, deixando-a lá com seus pensamentos.

Ela ficou no mesmo lugar, como se paralisada. As palavras que acabara de ouvir ainda ecoando em sua mente. 'É por causa desse pensamento que você não tem amigos.' Será que era tudo culpa dela afinal...? Fechou os olhos, refletiva. Necessitava escanear seu interior e encontrar a resposta por si mesma. Logo,uma imagem borrada começou a se formar na sua mente, como uma memória manchada pelo tempo.