Disclaimer: Inuyasha não me pertence.
No capítulo anterior: Ayame flagrou o primeiro beijo entre Kagome e Inuyasha e o ciúmes do primo a fez agir precipitadamente, porém seu plano não deu certo. Ao ter uma conversa com Kouga, a garota recebeu um 'puxão de orelha' dele por 'pisar nas pessoas', como ele disse. E agora ela relembra o passado... Será que as palavras dele são verdadeiras?
A youkai não estava mais com seu costumeiro sorriso no rosto. Depois que seu pai morrera ela se sentia extremamente só. Era apenas tristeza e mais nada. E ela era apenas uma garotinha. Sentada sobre a grama ela escondeu o rosto entre os braços apoiados nos joelhos e tentou não chorar novamente. Já cansara de chorar. Ela ouviu uma risada e levantou o rosto pra fitar o general do exército de youkais lobos. Ele estava não muito longe e supervisionava atentamente a brincadeira do filho numa hora de folga. O pequeno youkai tinha pouco mais idade que ela e corria alegremente com outras crianças que brincavam com uma bola.
- Olha otoosan. – gritou para o pai, e em seguida deu um chute forte na bola. O youkai sorriu levemente, orgulhoso do filho, mas logo voltou ao semblante sério de um respeitado general.
Ayame sentiu uma ponta de inveja. O que não daria para poder brincar novamente com o pai... Mas agora isso era passado, um passado que nunca voltaria. A bola que havia sido chutada à pouco veio rolando e se depositou próxima aos pés da garotinha. Ela olhou para a mesma e depois para o garoto:
- Hey esquisita, joga a bola pra cá. – ele gritou de onde estava.
Ayame franziu o cenho e emburrou a cara. Rapidamente se levantou e deu um chute na bola, jogando-a para longe do menino. Depois saiu bufando e pisando duro para o lado oposto, enquanto o garoto tentava pegar a bola a todo custo.
(...)
Inutaishou a recebeu como sempre com um sorriso. Ela sorriu fracamente de volta. Ao seu lado o general a escoltava e dessa vez vinha acompanhado do filho, Kouga. Que para surpresa e desgosto de Ayame era o mesmo garoto que a havia chamado de 'esquisita'. Ela esperou quase impaciente até que Inuyasha aparecesse. Quando ele finalmente surgiu ela abriu um grande sorriso, como a muito não se via e correu até ele, praticamente derrubando o garoto no chão. Inutaishou apenas riu.
Kouga olhou curioso enquanto o garoto de cabelos brancos ralhava com a princesa por pular nele desse jeito. Depois que os adultos saíram ele se aproximou de ambos:
- Quem é você? – perguntou Inuyasha, um tanto desconfiado.
- Pergunto o mesmo. – disse superiormente.
- Eu perguntei primeiro. – retrucou – Você está na minha casa, então eu tenho prioridade. – concluiu, orgulhoso de si mesmo.
- E quem se importa com isso? – disse arrogantemente.
- Seu lobo fedido. – rosnou.
- Cara-de-cachorro. – rosnou de volta.
Ali tinha início uma eterna rivalidade, que começou, não se sabe ao certo por quê. Mas ambos pareciam ter personalidades conflitantes, dois egos que não podem ocupar o mesmo espaço. Ayame sorriu maldosamente... mesmo para uma criança.
(...)
- Te encontrei de novo! – exclamou Inuyasha enquanto olhava o interior de um tronco de árvore seco.
- Você sempre me encontra. – Ayame saiu de dentro do tronco dando leves batidinhas no kimono, para tirar o pó.
- É fácil te encontrar pelo cheiro - se gabou o hanyou – E você não se esconde muito bem – ela franziu o cenho pra ele.
Ela ia responder à altura, mas atentou ao hanyou que mexeu as orelhas caninas, como se captando um som. Ele se virou numa direção, Ayame fez o mesmo e viu Kouga mais ao longe, observando-os.
- Amadores. – o pequeno youkai lobo disse, cruzando os braços.
- Então venha brincar também. Quero ver se você se esconde melhor. – retrucou o hanyou, arqueando uma sobrancelha e sorrindo desafiadoramente. Kouga devolveu o sorriso e fez menção de se aproximar.
Ayame se desesperou. Não queria ficar perto daquele garoto insuportável.
- Inuyashakun – ela disse num tom dolorido – Acho que torci meu pé.
- Quando foi isso? – ele estranhou, não se lembrando dela ter caído.
- Aquela hora... – disse vagamente – Está doendo. Me leva de volta pro castelo? – ela era boa atriz desde pequena, e conseguia até mesmo chorar sem vontade. Mas o hanyou nunca desconfiou que fosse fingimento.
- Desastrada. – disse apenas, ajudando-a a apoiar-se em si – Fica pra outra hora, lobinho! – gritou á Kouga, que parou de andar na direção deles e pareceu levemente decepcionado.
- Não vai ganhar de mim, cachorro! – gritou de volta, tentando parecer o mais despreocupado possível. Ayame sorriu internamente com seu feito.Aquela não fora a única vez. Sempre que tinha chance de fazer Kouga se sentir excluído ela o fazia. Isso parecia preencher um pouco o vazio que a perda de seu pai deixara em seu peito. Mas agora ela via como havia agido mal esse tempo todo. Tudo aquilo por quê? Por inveja dele ter um pai vivo e ela não? Por vontade de vê-lo tão triste quanto ela? Começou a se envergonhar de si mesma.
- "Acho que sou mesmo... uma 'princesinha mimada'". – concluiu tristemente. Olhou para o céu escuro, deixando uma lágrima rolar por seu rosto – "Desculpe... Kouga..."
OoOoOoOoO
O sol da alvorada nunca parecera tão radiante e ao mesmo tempo tão sombrio antes. Na mesa esta manhã, sentavam-se os moradores e convidados do castelo inuyoukai. Entre eles, Sesshoumaru era o único a não ter nenhuma mudança de atitude. Inuyasha parecia estar com a mente bem longe dali. Inutaishou parecia levemente preocupado com alguma coisa. Kouga - que havia sido novamente convidado para o café da manhã - estava sério, já que não tinha a atenção do hanyou para implicar com ele. Ayame fitava a mesa o tempo todo e de vez em quando lançava um rápido olhar culpado a Inuyasha e a Kouga, somente para voltar a olhar a madeira do móvel como se houvesse algo de muito interessante e imperdível ali. A atenção de Inuyasha rapidamente se voltou para a porta assim que Kagome passou por ela. Não puderam evitar de sorrir um para o outro.
Ayame também olhou brevemente na direção dela e Kagome estranhou que ela não estivesse agarrada ao braço do hanyou como sempre. Assim que a humana depositou da mesa o que trazia em mãos ela se virou para sair, mas foi detida por uma voz inconfundível:
- Kagome! – chamou Inuyasha – Não quer comer conosco? – convidou assim que ela se virou para ele.
- Perdão? – ela perguntou, pensando não ter ouvido direito.
- Sente-se com a gente. – ele repetiu em tom alegre.
- Eu... não... mas... – ela gaguejou, incerta, e olhou para Inutaishou esperando uma aprovação ou o contrário.
O daiyoukai sorriu para ela – Não tem problema. Pode se sentar.
Kagome parecia bastante surpresa com isso e olhava atônita para o lorde youkai – Mas eu realmente... eu não sei se... – murmurou.
Mas antes que ela pudesse arrumar mais desculpas, Inuyasha se levantou e a puxou pela mão, a guiando até um lugar na mesa.
- Obedeça seu mestre. – ele disse com um pequeno sorriso. A garota corou e finalmente sentou-se à mesa.
Kouga fitava curioso enquanto Inutaishou sorria largamente, parecendo bastante satisfeito com a atitude do filho mais novo.
- Sinta-se à vontade.- ele disse gentilmente.
Sesshoumaru olhou de relance, mas ao invés de censurar como seria de seu feitio, apenas ignorou. Se Inuyasha não o conhecesse bem, diria que viu um minúsculo sorriso na face do irmão. Mas claro que não podia ser verdade, senão aquele não seria Sesshoumaru. Ayame os fitou brevemente lançando um pequeno e triste sorriso à Kagome e voltou a focar a mesa. A humana se perguntou o que haveria com ela, mas no fundo ela sabia o motivo, e esse motivo tinha duas orelhas de cachorro e estava sentado do lado dela. Apesar de ficar pesarosa pela youkai, estava inegavelmente feliz em estar ali. Não obstante, ela não estava muito à vontade. Pensava que qualquer movimento errado poderia insultar os youkais ao seu redor.
Inuyasha parecia notar seu nervosismo e a olhava confortadoramente como se dissesse com os olhos: 'Não se preocupe, está tudo bem'. Certamente funcionava para acalmá-la um pouco. Kaede discretamente observava a cena da porta. Inutaishou a olhou cúmplice e pareceu haver um consentimento mútuo ali. Era o que ambos previram afinal.
A refeição correu bem, apesar de Kagome estar inicialmente muito acanhada. De vez em quando ela olhava sorrateiramente para os outros youkais na mesa, esperando captar alguma reação negativa com relação à ela. Surpreendentemente todos pareciam agir como se fosse a coisa mais natural do mundo uma escrava sentar-se à mesa com seus amos. Mas as outras escravas não pensavam o mesmo, e assim que uma delas contou o ocorrido ás outras, logo estavam todas apinhadas junto à porta, tentando ver o que se passava.
- É Kagome? – perguntou uma delas, sussurrando pra não ser ouvida pelos youkais.
- Parece que sim. – respondeu outra – Nunca achei que veria uma cena dessas um dia...
- Mas ela sempre foi a preferida desde que chegou aqui. – uma delas disse, meio ressentida – Afinal, ela não foi trazida aqui nos braços de Inuyashasama?
- Ele é como Inutaishousama, tem compaixão dos humanos. – respondeu, admirada.
- Mas antes não era assim. – emburrou a garota.
- Invejosa. – disse Tsubaki, que também observava a cena – Não pode ficar feliz por ela? – completou quando recebeu um olhar reprovador da mulher.
- Agora sabemos por que Ayamesama estava tão deprimida. – falou Sachiko, que junto com Akake, via tudo ao lado das outras escravas. Akake concordou com a amiga.
- Quem chamou vocês aqui? – perguntou Kaede, assustada com a quantidade de escravas que já se juntavam na porta. Não foi sequer ouvida por elas.
Enquanto todas se esmagavam para ficar mais próximo a porta, não notaram uma menininha passar por elas, tomando a frente. Rin olhou curiosa o mesmo que elas e não viu nada de surpreendente ali, resolveu então perguntar:
- O que vocês estão olhando? Posso ver também? – perguntou alegremente e 'um pouco' mais alto do que devia. Elas se sobressaltaram com os gritos da garotinha e as que estavam na frente – que eram constantemente empurradas pelas de trás – caíram quando a porta irrompeu sobre o peso das jovens curiosas. Logo as de trás caíram sobre as de cima num espetacular efeito dominó. Causou com que todos os presentes à mesa olhassem para a porta para visualizar uma pilha de humanas vindas não se sabe de onde. Inutaishou arqueou a sobrancelha enquanto Sesshoumaru pareciam tão impassível como sempre. Kagome não pode conter um riso, e até Ayame conseguiu sorrir um pouco, ainda mais ao ver suas próprias escravas pessoais ali no meio. Kouga olhou interrogativamente para o hanyou:
- As escravas desse castelo são estranhas.
- Eu é que sei. – respondeu Inuyasha, vendo as tentativas das garotas de se levantarem do chão.
- O que é isso? – Inutaishou perguntou, autoritário.
- Mil perdões Inutaishousama. – e seguindo o exemplo de Tsubaki todas se desculparam infinitamente e saíram temerosas de um possível castigo.
Rin se aproximou de Sesshoumaru com expressão preocupada:
- Eu também queria ver o que elas estavam vendo. – falou em tom de desculpas.
Sesshoumaru apenas colocou uma mão sobre a cabeça da humana, indicando que estava tudo bem. Ela sorriu alegremente sobre os olhares assombrados dos presentes.
- "Creio que meus filhos estão aprendendo suas respectivas lições." – pensou o lorde inuyoukai, orgulhoso.
OoOoOoOoO
- Como assim não temos permissão pra entrar no castelo? Você sabe com quem está falando? – o pequeno Shippou brigava com um dos guardas do castelo de Inutaishou, que insistia em dizer que o kitsune não tinha sua visita marcada ou que, se a tinha, não foram avisados disso, e sem tal, não poderiam deixá-los entrar.
- Será que o você não poderia ter avisado que vinha, Shippousama? – sussurrou Sango ao pequeno.
- E que justificativa eu daria? Nem meu pai sabe que estamos aqui. – sussurrou de volta.
- Creio que podemos resolver tudo dialogando – ofereceu Miroku, que havia vindo com eles – Senhor guarda. – dirigiu-se o youkai que guardava fortemente o portão – Acredito que houve um equívoco aqui. Talvez o lorde Inutaishousama não tenha lhe avisado sobre nossa visita por estar muito ocupado, ou por acreditar que seus guardas teriam discernimento suficiente para notar que um aliado importante espera ser bem recebido e que se tal não ocorrer, isso poderia resultar em uma guerra sem-sentido, a qual poderia ser facilmente evitada se nos deixassem passar por esse portão. – ele disse tudo rapidamente e com um sorriso cortês no rosto.
Os guardas ficaram silenciosos um tempo, ainda tentando digerir toda a informação. Eles não pareciam muito inteligentes. Depois de finalmente terem entendido, eles pareceram concordar que uma guerra contra um aliado não seria boa, e resolveram dar passagem aos visitantes. O portão foi aberto e os três o cruzaram sem problemas.
- Incrível, Miroku. – disse Shippou surpreendido, assim que já estavam longe do portão e caminhando até a entrada do castelo.
- Eu não disse que uma conversa resolveria tudo? – se gabou.
- E de 'conversa' você entende muito, não é? – disse Sango sarcástica. Miroku fingiu que não ouviu a afirmação.
Tinham uma visão geral do jardim de cada lado deles enquanto passavam pelo caminho feito de pedras poligonais que levava a parte frontal do grande castelo. Shippou estava alheio enquanto os dois humanos admiravam a construção suntuosa. Na porta desta, uma senhora idosa os observava se aproximarem, quando chegaram próximos da mesma, ela lhes olhou de cima abaixo e logo sorriu gentil para o pequeno kitsune:
- Olá Shippousama, que bom vê-lo novamente.
- Kaede obaachan. – disse alegremente.
Depois de se cumprimentaram-se brevemente a anciã os guiou até o interior do castelo onde se acomodaram na sala de visitas. Kaede logo depositou uma grande bandeja com frutas e doces sobre a mesa, da qual Shippou se fartou entusiasticamente. Sempre que Shippou visitava o castelo, a anciã lhe servia doces, por esse mesmo motivo ele simpatizava com a velha escrava. Sango parecia impaciente para que fossem logo ao assunto, mas teve que esperar o pequeno terminar sua refeição. Só então ele dirigiu-se à anciã:
- Onde está Inutaishou? – perguntou ocasionalmente.
- Ele não se encontra no momento. – ela respondeu, em tom de desculpas. Shippou olhou levemente preocupado para Sango. Esta fez sinal positivo com a cabeça para que ele seguisse com o que tinham combinado antes.
- Será que podemos... eu posso – corrigiu – Falar com a escrava Kagome? – foi mais um tom de ordem. Apesar de pequeno ele sabia ser firme nas palavras quando queria.
Kaede pareceu um pouco surpresa, e isso era refletido em seus olhos cansados. Ela fitou o youkai com preocupação na face:
- Como... sabe que há uma escrava com esse nome aqui?
- Minha escrava, Sango, a conhece. – e apontou a garota.
Kaede olhou analiticamente para a garota indicada. Com sua idade e experiência sabia reconhecer o mal nas pessoas, e não havia mal aparente ali. Mas não seria muito prudente confiar de imediato.
- Se trabalham para Naraku, sinto muito, mas não poderei chamá-la. – ela parecia um pouco temerosa de suas próprias palavras, mas sabia que aquele seria também o desejo de Inutaishousama. Ele nunca aceitaria – assim como Inuyasha – que Kagome fosse levada de volta ao youkai cruel.
- Naraku? – perguntou Sango – Não. Eu também era escrava dele. Kagome e eu fugimos dele juntas. Somos amigas. – disse com convicção.
Ela parecia determinada. A anciã não achou motivos para duvidar da veracidade das suas palavras:
- Irei chamá-la. – disse por fim, virando-se e saindo da sala, desejando internamente estar fazendo a coisa certa.
Os que ficaram se entreolharam esperançosos. Depois de alguns minutos de espera, uma jovem surgiu na porta com a face levemente preocupada de início, mas esta logo mudou ao ver quem lhe aguardava.
- Sango! – exclamou, já correndo de encontro a amiga.
- Kagome. – ela fez o mesmo.
Ambas se abraçaram e se cumprimentaram alegremente, esquecendo-se temporariamente que não eram as únicas presentes. Shippou tossiu, indicando que estava ali, e Kagome viu os outros dois pela primeira vê desde que tinha entrado ali. Logo reconheceu o kitsune:
- Ah, Shippousama. – e fez uma breve reverência. Depois olhou para Miroku e ficou um tempo observando-o como se tentasse reconhecer alguma coisa nele – Nos conhecemos? – perguntou.
O jovem se aproximou da garota rapidamente e tomou uma de suas mãos – Certamente. Eu nunca esqueço o rosto de uma garota bonita.
Sango suspirou cansada e Kagome sorriu sem graça – Acho que falei com você na loja de tecidos quando fui à cidade. – ela lembrou.
- Sim, como poderia esquecer. – ele respondeu galante.
- Mas antes você tinha esquecido. – falou Sango.
O 'monge' pareceu meio deslocado, mas Kagome pareceu ignorar aquilo. Havia algo mais importante; uma dúvida pendente em sua cabeça:
- Mas Sango... Por quê está aqui? – perguntou, curiosa. Também lhe era uma incógnita como sua amiga sabia como encontrá-la, mas isso não tinha tanta importância agora.
- Ah sim. – respondeu, ficando séria – Kagome, precisamos da sua ajuda.
- Minha ajuda? – repetiu.
Foi tudo contado à garota. Desde a conversa do irmão de Atsushi à idéia de pedir a ajuda da humana. Kagome ouviu tudo atentamente:
- E querem que eu peça para Inuyashasama que fale com Inutaishousama sobre isso? – perguntou para confirmar.
- Exatamente. – disse Shippou – Você acha que ele te ouviria?
- Acredito que sim. – disse meio pensativa e levemente distante.
- Vai nos ajudar? – perguntou Miroku.
- Sim, com certeza ajudarei.
Sango sorriu para o monge como se dissesse: 'Eu não disse?'. Ele ignorou seu gesto e voltou-se para Kagome.
- Poderia falar com ele então?
- Ah, claro. – ela ia saiu para procurar o hanyou, logo sumindo na mesma porta em que surgiu.
- Espero que dê certo. – comentou Shippou.
- Uma vez que o nome do lorde Inutaishou está envolvido, não há dúvidas que ele irá nos ajudar. – tranqüilizou Miroku.
- Não temos muito tempo. Hoje quando estávamos saindo notei algumas pessoas estranhas observando a moradia de Atsushisama. – Sango estava insegura.
- Espiões de meu tio – o kitsune abaixou o olhar para o chão – Ele já está se movendo. Quer mesmo destruir meu pai.
- Não se preocupem, tudo vai dar certo. – o monge disse, compreensivo. Sango sorriu. Ele conseguia tranqüilizá-la quando falava desta maneira.
- Inuyashasama! – chamou Kagome, assim que o avistou. Ele virou-se para ela, e pareceu levemente mais feliz ao vê-la. A garota resolver ir logo ao assunto – Preciso da sua ajuda.
Ele ficou sério. Uma pequena e incômoda preocupação surgindo em sua mente.
- Diga.
A garota começou a dizer tudo que sabia desde o começo, enquanto o hanyou ouvia curiosamente.
Ayame andava pelo castelo, pensativa. Ela agora percebia o quanto agira mal durante todo esse tempo. Seria equivocado porém, afirmar que tudo o que fazia antes era por pura maldade ou egoísmo. Muitas das suas ações eram feitas sem que ela se desse conta. Estava tão acostumada com a vida de luxos e de ter tudo à mão, que não se lembrava de agradecer pelo que tinha ou tampouco considerava escravos e soldados como amigos. Mas sim, algumas vezes ela realmente tentara magoar as pessoas, como havia feito com Kouga ou como chegou a intencionar fazer com Kagome – desistiu da idéia depois da noite passada. E agora um peso pairava sobre sua consciência, que repetia vezes seguidas para ela numa voz que ecoava por cada canto de sua mente: 'Você não merece o que tem. Não merece ter mesmo amigo algum. Não deu valor ao que tinha e agora perdeu tudo.'
Ela sabia que era um conceito exagerado. Mas lembrar do que ela já havia feito anteriormente só lhe dava essa idéia de que nunca alguém se aproximaria dela com intenções verdadeiras, ela não tiraria sua razão, as dela nem sempre eram verdadeiras também.
A youkai suspirou fundo e continuou sua caminhada, fitando continuamente o chão por onde seguia sem dar importância ao que vinha à frente, assim como sua mente apenas regredia ao passado, sem se aperceber do presente. A distração não podia causar outra coisa, senão um esbarrão em alguém. Ela regrediu alguns passos com o impacto, um pouco atordoada.
- Não olha por onde anda?
Aquela voz rude só podia pertencer a uma pessoa, e ao olhar para a figura vítima de sua dispersão viu que realmente era Kouga, quem pareceu nem ter se movido com o esbarrão, mas aparentava um leve aborrecimento. Aquele que mais fazia sua consciência pesar estava agora bem ali à sua frente. Ela precisava fazer alguma coisa para quitar aquele peso dos ombros antes que não mais o suportasse. Faria aquilo por ela, não por ele. E novamente se sentiu egoísta com esse pensamento.
- Desculpe. – disse em tom baixo.
- Tudo bem. – ele disse, fazendo pouco caso e voltando a fitar o horizonte como fazia antes de ser 'atropelado' pela youkai.
- Não... Não falo disso – ela quase sussurrou. Ele voltou a fitá-la, curioso. – Falo de tudo que lhe fiz até agora... – ela olhou para baixo, não querendo encará-lo – Eu o tratei mal esse tempo todo e sem justificativa alguma. Espero que me perdoe um dia.
Kouga não estava nada mais que atônito com a declaração de menina. Ela nunca havia lhe pedido desculpas assim antes e nunca foi tão gentil com ele também. Confusão o tomou e ele não sabia o que pensar. Por que ela resolvera se desculpar por isso agora? Ela continuava fitando o chão como se esperasse uma reprimenda ou uma ofensa.
- Do que está falando?
A garota ergueu os olhos para ele ligeiramente – De tudo que o fiz passar. De ter te ignorado e ofendido... – e não terminou a frase. Mas ele já imaginou que ela falava especialmente do tempo em que eram crianças. As brigas que vieram depois foram apenas conseqüência daquilo.
- Esqueça. Aquilo já passou a muito tempo. – ele retrucou e voltou a olhar a outra direção.
- Então... – ela começou, esperançosa – Você me perdoa?
- Eu disse pra esquecer. – ele cortou rudemente. Ayame notou um leve ressentimento em suas palavras e percebeu que meras desculpas não afastariam a mágoa que ele deveria guardar dela.
Ela olhou de um jeito culpado e depois virando-se, voltou para o castelo. Kouga viu a garota se afastar e não soube o que sentir. Ele próprio nunca havia considerado realmente graves as ações da menina; pelo fato dele não ser de classe alta isso seria considerado até normal. Mas quando ele era apenas uma criança aquilo já lhe doeu uma vez. Aquela indiferença que as crianças conseguem ter com as outras sempre deixa marcas. No momento em que a youkai mencionou aquilo, a lembrança da sensação de ser ignorado voltava com toda a força, de forma que não pode dizer que a perdoaria. Ele mesmo não sabia se poderia perdoar toda sua mesquinhez, mas ela parecia realmente arrependida. Balançou a cabeça , afastando as lembranças e optando por não pensar em coisas desnecessárias.
Continua...
