Ela ainda estava encostada à parede, da mesma maneira que na noite anterior. O sono apenas lhe fez uma breve visita pela manhã, mas mal pareceu ter chegado, foi espantado pelo som dos passos próximos a porta que em seguida foi aberta. Ela abriu os olhos inchados pela falta de sono e pelo choro ainda preguiçosamente. Sua mente lenta, ainda não havia se dado conta da situação e seu corpo não queria mover-se.
- Como foi
a noite? - a voz de Naraku ecoou pelo quarto, forçando Kagome a
lembrar-se de que era sua prisioneira. - Você parece horrível. -
ele continuou, um pouco sarcástico – Kagura! - assim que ele
chamou, a youkai apareceu na porta.
- Sim, Narakusama.
- Traga
algo para ela comer. - Kagura lhe lançou um olhar estranho, ao que
ele respondeu – Não quero que ela morra antes de encontrar a jóia.
- sem contestar, a mulher saiu novamente, deixando-os sós.
- Como
está Rin? - ela perguntou, repentinamente.
- Está viva. - disse
apenas.
- Quero vê-la. Se ela estiver ferida...
- Cale-se! -
ele disse um pouco alto, assustando-a – Você não exige nada aqui,
humana. Não pense que pode me chantagear. Se não quiser colaborar,
tenho meus meios para fazê-lo sem depender daquela garotinha. - ela
engoliu em seco. Em seguida, Kagura retornou com uma bandeja contendo
alguns pães e um copo que deveria ter água. - Alimente-se. - ele
disse, e se virou para sair do cômodo.
A bandeja foi deixada lá por Kagura que logo saiu também. Kagome a fitou sem nenhum ânimo de comer. Quanto mais isso duraria? Inuyasha já estaria vindo em seu auxílio? Ela suspirou desoladamente e pegou um dos pães e forçou-se a comer. Ela decidiu, manteria-se viva até que Inuyasha viesse buscá-la. E ele com certeza viria. Era no que ela queria acreditar.
[...]
Shiromaru corria velozmente pelas
encostas, sobrepondo vales e montanhas. O cão gigante e alvo que
carregava o hanyou nas costas já ofegava a essa hora, com a língua
pendida para fora da boca e tomando golfadas de ar a cada novo salto.
Inuyasha se preocupava com o estado do animal, mas achava um pouco
cedo para lhe dar um descanso, afinal, cada segundo perdido é um
segundo a mais em que Kagome ficava nas mãos do inimigo. E o norte
ainda parecia muito distante.
- Shiromaru, consegue sentir o
cheiro dela?
- Au, au.
- Eu também não. Entendo. Ela deve
estar longe ainda... - ele fitou por sobre a cabeça do cão, vendo
ainda um horizonte sem fim à sua frente. Não havia sinal de
construções ou qualquer coisa que indicasse um possível
esconderijo de Naraku. - Quer descansar um pouco? - perguntou.
Shiromaru latiu e grasnou algumas vezes, em sinal negativo – Certo,
então vamos mais rápido.
E o cão aumentou ainda mais a
velocidade.
- "Kagome, onde você está?" - pensou o hanyou,
preocupado.
Kaede adentrou o recinto com a bandeja de chá
recém-preparado em suas mãos. Inutaishou a fitou e fez sinal para
que se sentasse.
- Por que não foi com Inuyashasama? - a voz da
anciã indagou, enquanto servia o chá para o lorde.
- Acredite,
nada me faria mais feliz que cortar Naraku em dois... Olhe em que
estado ele deixou meu castelo. - respondeu, pegando o copo de chá
com as duas mãos – Mas vou deixar com Inuyasha por enquanto, ele
não se contentará se não resgatar Kagome com as próprias mãos. -
ele deu um gole no chá antes de continuar – E também, não posso
deixar o castelo desprotegido numa hora como essa.
- Ele
conseguirá sozinho? - perguntou de maneira preocupada.
- Oh, ele
não está sozinho. - Kaede o fitou, confusa – Meu outro filho logo
se juntará a ele.
- Ele o disse?
- Nâo. Mas o conheço
suficiente para saber que Sesshoumaru não vai deixar que Inuyaha
salve sozinho as duas humanas que ele nem conseguiu proteger, segundo
as próprias palavras dele.
- Eles finalmente vão se unir para
alguma coisa. - ela retrucou, esperançosa.
- Não creio nisso.
Ambos têm orgulho muito grande. - ele sorriu de forma brincalhona –
Deve ser culpa minha, acho que os mimei demais. - Kaede também riu
do comentário e pegou seu copo de chá, sorvendo um pouco do
líquido.
- Está amargo...
- É........
O
shougi foi arrastado para o lado, quase sem fazer som. Dentro do
cômodo, Naraku fitava distraidamente a paisagem além de suas
grandes janelas frontais. Kagura mal atravessou a soleira da porta e
foi percebida pelo youkai:
- E então? - a voz grave perguntou.
-
Nada. Parece que essa humana não tem habilidade nenhuma. - ela olhou
tediosamente para a mesma paisagem que ele – Não acho que ela vá
servir pra alguma coisa.
- Está enganada. Ela certamente tem
poderes espirituais, apenas não os despertou ainda – ele se tornou
pensativo por alguns instantes, ainda permanecendo de costas para a
que acabara de entrar.
- Pode demorar até que isso aconteça.
-
Não pretendo esperar tanto. Traga Hakudoushi. – um pequeno sorriso
se formou sombriamente em seu rosto.
- Sim, Narakusama. - ela fez
uma rápida reverência e foi prontamente atender o pedido do youkai.
- "Apesar de saber o risco que isso implica, ainda quer usar
Hakudoushi... Você está desesperado assim Naraku?"
Sentada
no chão bem no centro do quarto em que estava cativa, Kagome ainda
cumpria uma das ordens de Kagura antes de deixá-la sozinha outra
vez. Sentada sobre as próprias pernas e com os olhos fechados na
tentativa de concentrar-se em algo que sequer imaginava o que era.
Suas mãos descansando sobre o colo, já ficando inquietas pela
inércia aparentemente sem motivo:
- "No que exatamente eu
deveria me concentrar?" - ela reabriu os olhos, achando aquilo tudo
uma grande besteira. Só poderiam estar enganados sobre ela –
"Pegaram a pessoa errada... Eu nem sequer sei o que querem de mim.
Não sei o que fazer..."
- Assim como você pode sentir a
energia negativa dos youkais, você também pode sentir a energia
pura provinda da jóia. Concentre-se nessa energia.
Aquilo
lhe fora dito mais cedo, porém essas palavras não lhe faziam o
menor sentido.
- "Não sinto nada..." - ela suspirou,
exasperada - "Por que Naraku quer essa jóia afinal?"
- Que
bom que ao menos está se esforçando. - o som da voz de Naraku
cortou o ar, tirando-a de seus devaneios. Ela se surpreendeu por não
ter com seguido ouvir o barulho da porta sendo aberta, mas atribuiu
isso a sua distração.
- Levante-se.
Kagome certamente não gostou de obedecer tão prontamente ás ordens de tal ser vil, mas na situação em que estava ela achou melhor não ser teimosa. A vida de Rin e a sua dependia disso. Enquanto já de pé ela esperava pacientemente outra ordem ou algum castigo ser-lhe dado, ela viu em vez disso Kagura surgindo na porta com alguma coisa nos braços. Ao se aproximar mais ela viu que era um bebê. Um bebê de pele muito pálida, quase como se não tivesse sangue, seus cabelos também eram descoloridos, em um tom levemente lilás, pendendo para o branco, ele estava enrolado num pano tão claro quanto tudo nele.
Kagura
caminhou até parar bem em frente à ela. Kagome olhou confusa para a
youkai e o bebê em seu colo. Subitamente uma forte energia negativa
a atingiu. Ao olhar uma segunda vez, ela viu que o bebê agora tinha
os olhos abertos e inteiramente focados nela. Não era um bebê
comum, na verdade era uma das energias mais negras que Kagome já
sentira, juntamente com a de Naraku. Ela se sentiu mal, enjoada. Deu
dois passos vacilantes para trás, mas Kagura logo a alcançou. Antes
que ela pudesse fazer mais, a youkai pôs o bebê em seus braços.
-
"Esse bebê... Eu não sei o que ele é, mas preciso soltá-lo" -
mas seu corpo e sua mente agiram independentemente e seus braços
envolveram o pequeno corpo contra o seu. - "Não....consigo
controlar... meu corpo" - ela queria externar seus pensamentos,
queria soltar aquela criança e fugir dali, mas não podia. Ela
queria chorar, gritar por ajuda, mas não conseguia.
- Você
sabe o que fazer, Hakudoushi. - disse Naraku.
E então o bebê
levou suas pequenas mãos na altura do coração da humana. Kagome
sentiu algo gelado a preenchendo. Seu coração começava aos poucos
a ser dominado por aquela sensação fria. Ela sentiu que seu corpo e
suas ações não mais a pertenciam e sua mente começou a se
desfazer.
- "Não..." - ela tentou se livrar em desespero, mas
sua mente se anuviou até que escureceu por completo.
- Está
feito. - disse o bebê. Naraku sorriu friamente ao ver a garota com
seus olhos castanhos vidrados, sem emoção ou brilho. Agora uma
pequena marionete de seus desejos.
[...]
Shiromaru ainda
corria pelas encostas montanhosas, mas agora em ritmo reduzido: o
hanyou preferiu assim para que o cão não se cansasse muito.
Inuyasha viajava nas costas do animal, sempre vigilante e atento ao
caminho, procurando qualquer sinal de um possível esconderijo de
Naraku. O vento batia contra seu rosto e esvoaçava os longos cabelos
prateados, as orelhas caninas giravam vez por outra, procurando
captar algum som, e foi quando ele ouviu o barulho de algo se
aproximando rapidamente por trás. Ao girar a cabeça para trás para
ver o que era, ele apenas conseguiu ver uma esfera de energia azul
passar rapidamente voando ao seu lado, e sentiu um cheiro familiar
emanando dela. Segundos depois da esfera já ter-lhe ultrapassado, o
hanyou ainda fitava o lado em que ela passara com tamanha velocidade,
atônito:
- Sesshoumaru... - depois piscou algumas vezes caindo em
si – Hey, você não vai chegar antes de mim! - gritou para a
esfera que já estava bem longe a frente, quase sumindo no horizonte.
- Mais rápido Shiromaru! - e o cão obedeceu
imediatamente.
Sesshoumaru nem sequer deu atenção ao irmão,
apenas continuou seguindo em frente, pensativo. Por que afinal, ele,
o grande Sesshoumaru estava indo resgatar uma humana? O que ela
significava para ele? Humanos são desprezíveis. Então por que
ficar tão irritado se aquela garotinha foi levada por alguém?
Mas
o orgulhoso daiyoukai não aceitaria a possibilidade de gostar de uma
humana, em nenhuma hipótese ou maneira existente. Ele apenas queria
se vingar de Naraku por ter destruído a maior parte de seu castelo e
matar muitos de seus soldados. Sim, era essa a explicação que
queria aceitar.
Logo ele avistou alguns youkais guardando uma
residência de tamanho médio. Mas ela parecia bem protegida demais
para uma simples casa. Certo de que chegara no lugar correto, o
youkai diminuiu a velocidade ao mesmo tempo em que a esfera em volta
dele se desfazia e seu corpo voltava a forma normal – uma maneira
rápida de se viajar, com certeza.
Não demorou muito para que ele fosse avistado pelos guardas. Alguns deles correram em sua direção com as armas em punho. Sesshoumaru acabou com eles sem dificuldade e sem nem precisar tirar sua espada da bainha, aquela seria guardada para um certo youkai abrigado dentro daquela casa. Um a um eles foram derrubados, e às vezes muitos caíam de uma só vez diante daquele guerreiro implacável. Poderia se dizer sem exageros, que não havia rival a sua altura no meio daqueles reles soldados. Em breve tudo estaria terminado, Naraku estaria morto e Rin a salvo.
Inuyasha finalmente alcançara o irmão. Ou ao menos isso ele pensou até chegar a parte frontal da casa e ver diversos corpos pelo chão. Desceu do lombo de Shiromaru – que ficou esperando lá mesmo - e foi seguindo o caminho trilhado de sangue e corpos até que ouviu algumas vozes, um tanto distantes da cena, mas perto o suficiente para que suas sensíveis orelhas captassem. Subiu a ladeira estreita, rodeada em ambos os lados por muros de pedra altos e que parecia ficar cada vez mais íngreme conforme subia. Chegou a uma esquina, de onde pode ter certeza que as vozes vinham de algum ponto depois daquela curva:
- Em pensar que fiz o que
fiz apenas para ficar aqui e servir de guarda para aquele maldito do
Naraku! - exclamou uma voz frustrada – Nós deveríamos formar uma
sociedade, mas aposto que ele não pretendia honrar a palavra desdo o
início!
- Ora Hisashi. Se não o conhecesse bem, diria que está
quase arrependido de ter matado o próprio irmão. - disse outra voz
ao lado dele.
- Não, isso eu pretendia fazer desde que aquele
parvo tomou meu lugar de direito na liderança do clã. - respondeu
naturalmente – Mas Naraku me deu garantias de que além de ter o
clã aos meus pés eu ainda teria parte do que ele conquistasse
depois de matar Inutaishou. E veja agora, estou aqui sendo usado como
se fosse um mero soldado dele! - sua voz saiu tremida pela
raiva.
Inuyasha, não suportando mais ouvir aquilo, saiu de
onde estava para confrontar os dois youkai kitsune, que o olharam
espantados:
- Então você é o maldito que matou o pai do
Shippou. - disse com raiva, tirando a Tessaiga da bainha.
- Um
intruso. Matem-no! - gritou Hisashi e logo surgiram outros youkais de
diversos lugares e avançaram para cima do hanyou.
Pode-se
imaginar que nenhum deles foi páreo para o hanyou portando a
Tessaiga, mesmo sem usar seu poder total. Depois de derrotar todos,
ficou sobrando apenas Hisashi. Esse Inuyasha quis deixar por último.
Queria que ele soubesse por que estava sendo morto e queria que ele
sofresse com isso. O kitsune deu alguns passos incertos para trás
enquanto Inuyasha avançava em sua direção. Hisashi recuou até que
suas costas colidiram com uma parede, o youkai tremia de cima abaixo
e mantinha sempre os olhos na espada nas mãos do inimigo, esperando
que esta lhe cortasse ao meio como aos outros youkais antes dele.
-
P-por favor, não me mate. - ele implorou, choroso, embora aquilo
ainda soasse extremamente falso. - Eu lhe darei o que quiser, mas não
me mate.
O hanyou estreitou os olhos dourados para o kitsune
acovardado à sua frente, sentindo indescritível repulsa por aquele
ser.
- Você poupou a vida de seu irmão? - ele perguntou,
autoritário. Ele se sentiu comicamente estranho em ser ele a dizer
essas palavras, visto que muitas vezes já sentiu vontade de matar o
próprio irmão (não que tenha chegado a realmente pensar em fazer
isso), mas a idéia ainda lhe parecia repulsiva. - Você matou seu
próprio povo por inveja e agora está aí, pateticamente implorando
pela vida. Atsushi deve ter tido ao menos a nobreza de lutar até o
fim.
- Se não tem mais nada a dizer, então morra de
uma vez. - e ergueu a Tessaiga na direção do mononoke. Mas Hisashi
não hesitou em demonstrar mais uma vez como era traiçoeiro e, bem
quando Inuyasha fazia o movimento de acertá-lo com a espada, este
lançou uma chama azul que saiu de suas mãos, atingindo o rosto do
hanyou e o desnorteando temporariamente, desfazendo assim o ataque.
-
Maldição! - praguejou, levando a mão livre ao rosto como se
tentasse tirar poeira dos olhos. Ao olhar novamente o lugar onde o
kitsune estivera, viu que não estava mais ali.
- Ele fugiu. - mas
não foi por muito tempo, pois não muito longe ele avistou um animal
de formato muito estranho fugindo sorrateiramente. Aquela aparência
podia enganar onis burros o suficiente para cair nesse truque, mas
não a ele. Sem pestanejar, desceu a espada em forma de canino em
direção a pequena raposa, cortando-a ao meio como se fosse papel.
Foi um fim nada nobre para alguém que não o merecia. Depois guardou
a Tessaiga em sua bainha, sentindo que cumprira sua promessa para com
Shippou, agora só faltava a promessa que havia feito para si mesmo:
Salvar Kagome.
[...]
Kagome olhou ao redor, vasculhando a
sala com seus olhos sem vida. Hakudoushi era quem via o que os olhos
da menina focavam. Naraku aguardava quase ansiosamente pelo veredito.
Kagome então fixou os orbes em uma parede ao lado esquerdo, com o se
visse através dela. Hakudouhi arregalou os olhos:
- Está ali. -
ele disse, estupefato – Bem aqui ao lado.
Naraku arregalou os
próprios olhos, não acreditando ou entendendo aquilo.
- Como
assim? O que quer dizer?
- O que há atrás dessa parede?
O
youkai se virou e saiu apressadamente do cômodo, sendo logo seguido
por Kagome com o bebê nos braços. Parou na próxima porta no
caminho, bem ao lado da sala anterior. Abriu-a violentamente e sem
cerimônias. Dentro, uma assustada menininha encolheu-se contra a
parede.
- Onde? Onde está? - Naraku perguntava aflito.
Hakudoushi
concentrou-se no que Kagome sentia novamente. Depois disse
lentamente:
- Está naquela garotinha...A Shikon no Tama está
dentro dessa menina.
- Eu nunca imaginaria... - Naraku ainda
parecia abalado com tudo aquilo, mas logo uma euforia começou a
tomar conta de seu coração – O tempo todo...O tempo todo a jóia
estava dentro de uma garotinha humana. Que sorte eu tê-la bem aqui.
- ele sorriu diabólico e Rin estremeceu.
Kagura logo surgiu
de trás do youkai. Ela não veio prontamente para a sala quando
Naraku o fez, mas estava a par do acontecido. Prostrou-se ao lado do
youkai, fitando a pequena humana apavorada:
- Como vamos pegar a
jóia?
- Da maneira mais simples, Kagura. - Naraku disse,
calmamente – Vamos tirá-la de dentro dela.
- Devo matá-la
então? - a youkai já se aproximava da menina ao mesmo tempo em que
tirava um leque de dentro do kimono. Abriu o leque colorido,
revelando uma lâmina na parte externa deste.
- Faça isso, por
favor. - Kagura sabia que Naraku expressar gentileza era apenas uma
maneira de fazer seus subordinados pensarem que tinham uma escolha,
claro que não era verdade.
- Kagomesan! Kagomesan! - Rin chamou
pela humana, que parecia assistir a tudo sem sequer se importar –
Por favor, me ajude! Kagomesan!
Kagura se
aproximou mais, erguendo o leque. O sol brilhou na lâmina
perfeitamente afiada.
- Não adianta. Ela não pode te ouvir.
-
Kagomesan... - Rin murmurou para a garota de olhos sem vida e em
seguida encarou sua carrasca, pronta para lhe dar o golpe de
misericórdia. Naraku esperava ansiosamente pela jóia, com um brilho
quase alucinado nos olhos.
Mas antes que Kagura pudesse dar o
único e fatal golpe, um soldado irrompeu à porta, ofegante, quase
sem se agüentar em pé. Naraku o olhou, furioso pela interrupção.
Assim que viu seu erro o soldado tentou contornar a situação,
fazendo uma pequena reverência, mas Naraku não pareceu menos
irado:
- O que faz aqui? Pensei ter dito para que nenhum dos
soldados ou guardas entrassem aqui até que eu permitisse. - aquele
era o momento pela qual ele vinha esperando a tanto tempo e não
queria que ninguém o atrapalhasse.
- Desculpe senhor, mas é
urgente... - disse em tom de desculpas. Naraku interrompeu-o.
-
Não importa! Cuide disso sozinho!
- Mas senhor, estamos
sendo...
- Dê o fora daqui! - diante da ordem absoluta ele não
podia mais insistir, ou na próxima vez poderia não ter mais aviso.
O pobre homem já ia voltando pelo mesmo corredor que viera enquanto
Naraku lentamente voltava sua atenção à pequena Rin.
Mas Naraku
percebeu tarde demais seu erro em desprezar aquele aviso. Kagura ia
novamente preparar-se para atacar a humana quando alguma coisa
atravessou a parede de madeira reforçada com um estrondo, espalhando
destroços por todo o chão. Kagura foi lançada longe, juntamente
com algumas ripas de madeira quebrada. Naraku ficou lívido, inerte,
ainda tentando entender o que havia se passado.
Uma espessa
nuvem de poeira preenchia quase todo o quarto, a luz do sol agora
penetrava pelo buraco aberto na parede e passava translúcida pela
nuvem de pó. Depois do barulho alto, apenas silêncio podia ser
ouvido, como se o mundo todo houvesse ficado quieto. Rin ainda estava
imóvel no canto, rígida, cabeça escondida entre as pernas e as
mãos sobre a cabeça. O buraco havia sido aberto a apenas alguns
centímetros de sua cabeça e ela temia que se mexesse-se, poderia
ser atingida por algum outro ataque, ou ver alguma coisa
verdadeiramente assustadora.
Naraku continuava fitando o buraco,
atônito. A poeira começou a se dispersar e uma silhueta apareceu no
meio dela. Rin resolveu arriscar uma olhadela, lentamente levantou a
cabeça e abriu os olhos. O que viu não poderia deixá-la mais
feliz:
- Sesshoumarusama!
O príncipe inuyoukai fitava
impassível Naraku a sua frente, seus olhos da cor do sol se
estreitando para o inimigo. Os olhos de Rin brilhavam radiantes para
seu salvador. Naraku ainda parecia um pouco incrédulo, mas logo se
recuperou da surpresa e encarou o invasor.
- Sesshoumaru... o
príncipe youkai bem aqui em minha casa, a que devo a honra? - falou
sarcástico.
- Rin, esconda-se. - disse Sesshoumaru à menina no
canto da sala.
- Tem razão, tiremos as crianças da sala, não é
mesmo? - disse Naraku – Hakudoushi, vá também, e leve essa humana
com você, ela ainda pode ser útil – e lançou um olhar à Kagome.
Hakudoushi entendeu a mensagem e ordenou à humana que o levasse
para fora da sala. Sem contestar a ordem mental, ela caminhou
calmamente com este nos braços. Rin ainda permanecia parada, incerta
sobre o que fazer.
- Rin. - ela se virou na direção da voz de
Sesshoumaru – Encontre um lugar seguro para se abrigar... Não
fique muito longe. - ela assentiu e correu para algum lugar fora da
sala, tomando o cuidado de ir na direção contrária a de
Hakudoushi.
Naraku sorriu.
- Ora, se não o conhecesse bem,
pensaria que está preocupado com a menininha.
- Não sabe nada
sobre mim. - Sesshoumaru respondeu, frio. Naraku estreitou os
olhos.
- Não o deixarei levar a garotinha. Não ainda.
- Eu
apenas vim matá-lo. - e depois de dizer isso, Sesshoumaru
desembainhou sua espada e a apontou para Naraku, como uma sentença.
-
Pode tentar. - ele respondeu com um sorriso.
Shougi: porta corrediça feita de uma grade de madeira fina e recoberta de papel, usualmente com gravuras ilustrando-o.
Obrigada à todos que ainda acompanham a fic, apesar desta escritora tão inconstante. Desejo à todos os leitores um ótimo 2009. Espero ver muitos comentários seus ao longo da fic.
Muitos beijos.
