Inuyasha havia acabado de matar os últimos soldados que se interpuseram em seu caminho. Agora faltava muito pouco pra chegar ao lugar onde encontraria Naraku e Kagome. Correu para a entrada a alguns metros de distância. Estacou e ficou parado quando alcançou a soleira da porta. Um cheiro muito familiar o atingira. Com cautela ele passou por dois corredores, sem fazer barulho e sempre atento à tudo. O cheiro ficou mais forte. Ele cruzou a última curva que o separava daquele odor e viu o que tanto almejava: Kagome.

Feliz por encontrá-la sã e salva, se aproximou mais rapidamente dela.
- Kagome.
- Não se aproxime. - disse uma voz fria. O hanyou estacou e observou melhor. A humana segurava em seus braços um bebê muito pálido, que cheirava a youkai. Os olhos de Kagome estavam frios e sem vida. O bebê o encarou com a mesma frieza.
- O que você fez com ela? - perguntou indignado, já colocando a mão sobre o cabo da espada em sua cintura.
- Não se mexa, ou mato essa garota. - uma das mãos da própria Kagome se levantou, como que por vontade própria e segurou em seu pescoço, com as unhas apontadas para a pele delicada.
- Kagome, o que está fazendo? - ele deu um passo em direção a ela, vacilante.
- Eu disse pra não se mexer. - gritou o bebê, e a mão de Kagome apertou um pouco o próprio pescoço, tirando dela um baixo gemido.

Inuyasha parou imediatamente o movimento que fazia. Olhou para aquela menina de olhos opacos e não reconheceu Kagome nela, não parecia a mesma pessoa.
- "Ele a está controlando..." - concluiu.
- Isso mesmo, fique parado aí mesmo. - o bebê continuou dizendo, mas Inuyasha não estava mais prestando atenção.
- "Eu poderia matá-lo rapidamente com um golpe da Tessaiga, mas podeira acabar ferindo Kagome. Droga, o que eu faço?" - pensava aflito. - "Se eu me aproximar..."
- Agora fique aí enquanto nós dois saímos por aquela porta e sumimos da sua vista. - falou o bebê.
- O quê? O que você vai fazer com a Kagome seu maldito!? - gritou o hanyou.
- Não interessa. Mas se você tentar qualquer coisa eu ordenarei que esta garota aperte o próprio pescoço até morrer. Não vai ser uma visão agradável.
- Maldito! - ele cerrou os dentes e estreitou os olhos enquanto o bebê sorria vitoriosamente.
- Hm, acabei de pensar em algo que seria bem mais divertido. – ele sorriu maldosamente, de uma maneira que fez Inuyasha ter um mal pressentimento sobre o que ele estaria planejando. – Kagome, acabe com ele!

Inuyasha arregalou os olhos quando Kagome veio pra cima dele, tão depressa quanto poucos humanos poderiam fazer. Com a mão livre e aberta, ela o golpeou com uma força sobre-humana. Ele foi lançado a alguns metros de distância e bateu as costas contra uma parede. Em seguida, se levantou com algum esforço e sentiu que seu ombro ardia. Olhou perplexo para o mesmo e constatou que o tecido do ombro, onde a armadura não cobria estava chamuscado e por pouco não se abrira um buraco nele.
- Mas o que... – balbuciou, desnorteado. Mesmo que ela adquirisse força de alguma maneira, isso jamais poderia tê-lo queimado, então o que era? Olhou para Kagome e então entendeu tudo. A mão da garota estava envolvida por um brilho róseo e emanava uma energia extremamente pura. Fora essa energia que o lançara longe. – A energia de uma sacerdotisa....
- Sim, é isso o que ela é. Não é incrível? – respondeu Hakudoushi – Mas ela não soube usar esses poderes sozinha, eu dei uma pequena ajuda claro.
- Maldito! Deixa-a em paz!
- Ora, mas a diversão só começou. - disse com um sorriso.

[...]

Aos poucos Kagura foi recuperando a consciência. Alguns escombros que ainda estavam sobre ela foram jogados para o lado e levantaram um pouco mais de poeira pra variar. Ela se levantou, ainda desnorteada. Olhou para frente ao ouvir sons de luta e viu Sesshoumaru e Naraku se engalfinhando no quarto ao lado e quebrando tudo o que ficava em seu caminho: a parede praticamente não existia mais. Vasculhou com os olhos a sua volta e notou a falta de algo.
- "Cadê a garotinha?"

Naraku acabara de ser novamente cortado pela espada de Sesshoumaru e como das outras vezes, regenerou-se rapidamente. O inuyoukai estreitou os olhos para o inimigo.
- "Será que este maldito não morre?" – indagou mentalmente enquanto partia pra outro ataque.
Naraku nem fazia muita questão de desviar dos ataques. Toukinjin passou a centímetros de seu peito e cortou um de seus braços. Em poucos segundos um novo braço já substituíra o outro. Tão logo quanto cresceu, o braço tomou a forma de um longo tentáculo e golpeou Sesshoumaru. Este se defendeu rapidamente bloqueando o ataque com a própria espada.
- É inútil. – sorriu Naraku – Não pode me matar.

- Assim veremos. – e dizendo isso Sesshoumaru ergueu Toukijin para o alto, e com um movimento rápido, cortou o ar com a espada, liberando dela uma luz azul em forma de lâmina que foi na direção de Naraku, fazendo um rastro de destruição no chão.

O ataque atingiu Naraku em cheio. Ele foi despedaçado quase na mesma hora e as partes de seu corpo se espalharam por todo lado, sem sangue porém. Apenas a cabeça permaneceu parcialmente intacta e flutuava acima do solo. Logo os inúmeros pedacinhos de carne começaram a se juntar, como se atraíssem uns aos outros e todos iam em direção à cabeça sorridente de Naraku. Sesshoumaru observou os órgãos e tendões se juntando sem mostrar muita surpresa, mas internamente frustrado que seu ataque não surtisse o efeito desejado.

Naraku já estava quase inteiro, faltava apenas se formar alguns órgãos vitais e se fechar o buraco em seu tronco, o que aconteceu bem mais rápido do que o imaginado. Mas no momento em que o último: seu coração, deveria se formar, nada se juntou naquela região da sua caixa torácica, apenas músculos e pele cobriram o espaço vazio ali.

- "Ele não tem coração..?!" – se surpreendeu Sesshoumaru. Como isso seria possível?

- Acho que você deve ter percebido. – disse o youkai – Eu não tenho coração. Eu descobri que não posso ser morto se meu coração não for ferido, então me livrei dele. – disse calmante e com um pequeno sorriso de satisfação – Mas isso ainda não é a imortalidade que eu quero. Por isso terei a Shikon no Tama, custe o que custar. E nem você nem aquele vira-latas do seu pai irão me impedir.

Sesshoumaru estreitou perigosamente os olhos para Naraku. Agora precisava descobrir como derrotar alguém que não pode ser ferido. Embora isso não lhe deixasse temeroso da batalha, também não o deixava mais aliviado. Então ele apenas decidiu continuar lutando e cortando Naraku até que não restasse mais nada. Sem plano algum.... Estava começando a ficar parecido com Inuyasha.

Kagura passou quase imperceptível pelos dois youkais e seguiu um corredor mais à diante. Seguiu até uma pequena sala no fim deste e entrou. Ela sabia que Rin estava ali, pois a vira correndo pra lá pouco antes de perder a consciência. Porém o lugar parecia vazio. Não se dando por satisfeita, começou a procurar pela garota atrás de cada objeto e fresta.

Rin viu Kagura entrando e se encolheu mais ainda atrás da velha tábua de madeira que estava à sua frente. Por uma fresta ela observou a youkai ir a sua procura e quase ficou sem respirar quando esta passou perigosamente perto de onde ela estava. Em um dado momento em que Kagura foi para a direção oposta a ela, Rin correu de seu esconderijo o mais rápido que pôde. A youkai logo correu atrás com o leque em mãos.

- Volte aqui, pirralha maldita!

Rin continuou correndo até quase o final do corredor quando alguma coisa cortante atingiu sua perna, fazendo-a cair. Kagura estava praticamente aos seus pés agora.

Sesshoumaru ouviu um baque surdo e virou instintivamente a cabeça na direção do som ao sentir o cheiro da menina.

- Rin!

Ela ouviu a voz dele e se esforçou até que estivesse de pé. Kagura não a perseguiu, não havia escapatória de qualquer jeito. Rin caminhou parcamente até chegar ao cômodo na qual Sesshoumaru se encontrava.

- Sesshoumarusama. – chamou com os olhos marejados. Uma sombra pairou atrás da garotinha. Kagura ergueu seu leque cuja lâmina brilhava clamando por sangue. Sesshoumaru imediatamente correu na direção delas.

- Rin!!

A pequena garotinha o olhou sem entender e em seguida arregalou seus assustados olhos castanho-escuro como se ficasse paralisada de repente. Kagura puxou o leque de volta; junto dele, uma jóia manchada de sangue caiu em sua mão. Rin caiu pra frente como se não passasse de um boneco sem vida e o sangue em suas costas manchou o chão. Sesshoumaru estacou vendo o corpo inerte da menina no chão, em aparente estado de choque. Naraku sorria.

- Muito bem Kagura. Agora me dê a jóia e vá proteger Hakudoushi. – disse estendendo a mão aberta.

[...]

Inuyasha pulou, desviando de Kagome outra vez. Se aquela energia pura toda o atingisse ele seria purificado e sumiria completamente. Mas como lutar com Kagome? Ele sabia que jamais conseguiria feri-la.

- "O único jeito é separá-la desse bebê." – ele segurou no cabo da espada presa em sua cintura, mas logo desistiu do ato – "Não. Não posso usar a Tessaiga contra Kagome, tem que haver outro jeito."

- Não se distraia! – disse o bebê no colo de Kagome, enquanto esta novamente partia pra cima de Inuyasha. Este se desviou por pouco da energia purificadora dela, que agora parecia querer transbordar de sua mão.

- Droga. – praguejou quando a energia lhe queimou superficialmente o ombro.

O ferimento ardia como se tivesse sido feito por ferro em brasa. Provavelmente se ele fosse youkai completo, seria difícil se aproximar muito de Kagome. Outra coisa que o preocupava era que a quantidade de energia que ela emanava era muito grande, se continuasse assim logo ela se esgotaria até que não sobrasse mais nada que mantivesse a vida da humana. Parecia um beco sem saída.

- Vai ficar apenas fugindo? Vai se deixar ser morto por essa simples humana? Por que não a mata? – indagou Hakudoushi.

- Nunca!

- Então morra logo híbrido!

Kagome correu em sua direção novamente. Ele se preparou para desviar a qualquer momento. Assim que ela moveu seu braço para atacá-lo, o hanyou rapidamente jogou o corpo para o lado e se abaixou até o solo. O ataque passou a centímetros de sua cabeça, atingindo o ar. Ainda no chão, ele passou uma perna por trás das pernas da humana, jogando-a no chão junto com Hakudoushi. O bebê parecia muito surpreso com a ação do meio-youkai, ele não esperava por algo como aquilo.

Inuyasha se levantou e preparou suas garras, mirando Hakudoushi.

- Sankou Tessou! – no momento em que suas afiadas garras desciam na direção do bebê, Kagome inesperadamente abraçou-o, ficando na frente do ataque. Inuyasha tentou parar, mas já era tarde e logo marcas mais ou menos profundas foram abertas nas costas da humana. Ela não gritou, tampouco chorou, apenas abriu mais os olhos sem brilho ao receber o impacto e depois caiu por sobre o bebê.

Inuyasha arregalou os próprios olhos, incrédulo, perplexo. Ele deu alguns passos pra trás e olhou para suas mãos manchadas de sangue, não acreditando que havia ferido Kagome. Ela logo se levantou, com certa dificuldade, o sangue pingando no chão e o bebê ainda bem seguro em seus braços. Hakudoushi olhou para o hanyou e sorriu.

- Muito bem Kagome. Proteja-me até a morte. – agora ele seria vitorioso com certeza. Inuyasha não conseguiria mais lutar contra Kagome ferida e ele poderia ser facilmente morto agora.

O hanyou ainda estava atordoado de mais para fazer qualquer coisa se não olhar para a humana, desesperado. Ela fixava seus frios olhos sobre ele, indiferente. Ele sentia a culpa correndo-o até os ossos: o que só piorava quando ele via as gotas do líquido vermelho pingando no chão. Depois ele fitava as próprias mãos, as mesmas com que ele afligira Kagome, ainda que acidentalmente. Ele sabia que não podia usar armas para lutar pois correria o risco de feri-la, mesmo assim achou que com um golpe preciso de suas garras conseguiria libertar a garota do youkai. Mas ele não esperava que Kagome protegesse o bebê... E agora ele só queria fugir daquela luta e cuidar dos ferimentos que lhe causara: era o máximo que ele poderia fazer.

- Kagome... – murmurou enquanto estendia debilmente a mão na direção dela, como se quisesse remediar o acontecido. Ela não reagiu.

- Você queria tanto salva-la e olha só o que você fez. – disse Hakudoushi – Feriu a mulher que ama. Como vai se perdoar agora? – ele era muito bom com jogos mentais, uma parte disso ele podia agradecer à Naraku – O que você acha que ela pensaria? Que você está tentando matá-la.

- Eu tentei matar você, seu desgraçado! – explodiu.

- Mas quase matou a Kagome. E se ela morresse? O que você faria? – ele deu um pequeno sorriso cheio de malícia – Você deve morrer agora. Ou ela não poderá seguir com sua vida. Então morra por ela.

Kagome veio mais uma vez pra cima de Inuyasha, mas ele não fez qualquer movimento de defesa ou fuga. Ele deixou os braços penderem dos lados do corpo, como se aceitasse sua derrota. Kagome o acertou em cheio. O hanyou foi jogado do outro lado da sala. Com um gemido foi se levantando, espantado por não estar morto agora. Então ele percebeu que a energia dela enfraquecera: devia ser efeito do ataque dele. Isso lhe deu uma nova onda de culpa.

A humana, ordenada por Hakudoushi, caminhou até ele lentamente. Parou diante do hanyou impotente e posicionou a mão espalmada em frente à ele, juntando energia nela. Ele fitou mais uma vez os olhos sem vida dela, tentando achar a verdadeira Kagome no fundo deles, mas só encontrou escuridão. Hakudoushi sorriu por entre os braços da garota. Sem se mover, ela deixou a energia purificadora chegar até ele. Inuyasha pensou que fosse ser purificado ali mesmo, mas só foi novamente jogado pra trás.

- Você é muito resistente híbrido. – disse Hakudoushi – Mas a brincadeira acaba aqui. – e cerrou os olhos para o hanyou tentando se levantar novamente.

- "Kagome..." – ele pensava enquanto se punha de pé – "Eu vim para salva-la, mas só consegui te ferir..." – ele fechou os olhos por um instante, pensativo, desistente. Então ele se lembrou de que havia prometido à Shippou e à ele mesmo que traria Kagome de volta. Custasse o que custasse ele a salvaria. – "Não posso desistir agora. Não posso morrer aqui. Não sem antes salvar Kagome e me vingar do maldito do Naraku." – então ele se endireitou, mais determinado que nunca.

Hakudoushi franziu o cenho e ordenou que Kagome acabasse de vez com o hanyou. Ela assim fez, avançando a toda velocidade. Mas para espanto do bebê, Inuyasha ao invés de desviar, agarrou o braço da humana. Ela tentava forçar caminho, mas nem com sua energia pura era páreo para a força física do hanyou, ainda mais estando ela enfraquecida. A áurea rósea que ainda envolvia a mão dela passou para o braço do meio-youkai. Ele cerrou os dentes e segurou um gemido de dor quando sentiu seu braço queimando como se estivesse sobre fogo em brasa, mas mesmo assim não a soltou. Hakudoushi estava muito próximo agora. Inuyasha sorriu pra ele:

- E agora? Como vai escapar? – e ergueu a outra mão, preparando suas garras pra retalhar o bebê, que, aterrorizado, tentava se soltar desesperadamente dos braços de Kagome. Mas novamente seus planos de acabar com o youkai foram interrompidos. Desta vez por Kagura, que atirou uma lâmina de vento saída de seu leque na direção do hanyou bem nessa hora. Ele teve tempo de perceber e desviar, bem como tirar Kagome do caminho do ataque, mas o bebê caiu e foi levado até Kagura por um forte vento que parecia se mover pela vontade da youkai. Logo Hakudoushi estava são e salvo no colo de Kagura.

- Desculpe hanyou, mas esse bebê não pode morrer ainda. – ela disse e foi caminhando pra fora do quarto. Inuyasha não perdeu tempo com ela e correu para Kagome, rapidamente pegando-a nos braços.

- Kagome! – ela estava desmaiada e muito fraca. Ele novamente tomou consciência dos ferimentos dela quando sentiu suas costas molhadas de sangue. A colocou delicadamente no chão, depois rasgou uma das mangas do próprio kimono e improvisou alguns curativos pra ela. Sentiu-se um pouco mais aliviado ao ver que os ferimentos não eram tão graves quanto ele tinha pensado.

OoOoOo

Sesshoumaru não desviava os olhos do pequeno e imóvel corpo de Rin jogado ao chão, como se estivesse em uma espécie de transe. Naraku se vangloriava de ter a jóia em mãos e dizia isso em alto e bom som para o youkai, que a nada mais ouvia. Sesshoumaru se aproximou mais até que enfim se ajoelhou e pegou o pequeno corpo entre os braços. Seria difícil para ele mesmo descrever o que sentia naquele momento, mas os sentimentos mais evidentes eram raiva, repulsa e estranhamente...um certo vazio inexplicável.

Naraku resolveu deixar cerimônias de lado e usar a jóia. Ele a segurou firmemente diante dos olhos e admirou seu brilho róseo se enegrecendo aos poucos com sua energia sinistra. Se ela não tivesse sido anteriormente manchada pelo sangue inocente provavelmente não seria possível tocá-la agora. Ele sorriu e logo depois apertou a jóia redonda firmemente em sua mão. Como se não tivesse corpo material ela penetrou em sua pele e sumiu em seu interior.

- Realmente....essa jóia é poderosa... Já sinto o poder dos antigos youkais correrem por meu corpo. – exclamou, exultante. Ele sentia seu corpo pulsar e seu poder aumentar a cada instante. Ele se virou para Sessoumaru e o viu ainda segurando a garota nos braços – Esqueça essa humana, ela já era.

Sesshoumaru sentiu repentinamente seu ódio aumentar. Ele abriu de súbito os olhos âmbares que quase imediatamente se tornaram vermelho sangue. Seus longos cabelos flutuaram ao seu redor, movidos pelo vento de energia sinistra que emanava dele. Ele colocou o corpo de Rin de volta no chão e se levantou. Naraku apenas observava.

Logo as mãos do youkai foram se transformando em patas com garras e em seu rosto se formou um focinho com dentes afiados. Seu corpo ficou coberto por lustrosos pêlos brancos. Ao fim, havia um enorme cão branco de olhos carmim em frente à Naraku. Seu hálito era venenoso e sua saliva corroia tudo em que tocava.

- Ora, ficou bravinho por causa da menininha? – provocou Naraku.

O cão branco gigante rosnou e de um pulo, foi pra cima de Naraku. Este também iniciava uma transformação, onde tentáculos surgiam de suas costas e envolviam seu corpo; a jóia pulsava dentro dele. Sesshoumaru subiu até bater no teto, que não era muito alto e quebrou facilmente sobre ele. A sala em que estavam era pequena demais pra os dois monstros que nasciam sobre a ira de uma vingança e uma ambição.

Inuyasha se assustou com o barulho de madeira se partindo por toda parte. As paredes e o teto pareciam que iam cair a qualquer momento. Rapidamente pegou a semiconsciente Kagome nos braços e tentou se localizar melhor. Sentiu fortemente o cheiro de Sesshoumaru no ar, um cheiro venenoso, tal como o de Naraku, ambos preenchiam o ar agora. Temerosamente Inuyasha sabia o que isso significava.
Seguiu até onde seu faro e sua audição o levaram (não foi difícil) e chegou ao quarto onde a destruição ocorria. Sesshoumaru agora transformado em cão, atacava e investia contra Naraku envolto em grandes tentáculos que tentavam segurar e ferir o inuyoukai. Inuyasha ainda olhava um tanto atônito, quando sentiu a humana em seu colo mexendo-se.

- Kagome. – chamou. Ela abriu lentamente os olhos atordoada.
- Inuyasha... - focou-se na figura que a segurava enquanto sua visão se desembaçava. Ela sentiu uma grande felicidade em vê-lo, mas ainda não se lembrava o porquê. Até que ela ouviu um som alto e olhou para o lado, vendo Naraku e um estranho cão branco lutando. Se lembrou de tudo quase na mesma hora. – Inuyasha, você veio me salvar. – ela sentiu seus olhos lacrimejarem e sentia ganas de abraçar o hanyou, mas parecia estranhamente fraca.
- É claro que vim te salvar. Você é minha, lembra? – ele sorriu docemente pra ela. Kagome quase pulou em cima dele, não fosse pela dor aguda que sentiu.
- Ai.
- O que foi? – perguntou preocupado.
- Minhas costas... – ela apertou um pouco os olhos. Ele sentiu a culpa batendo forte em seu peito.
- Kagome... Eu.... Pra te salvar...eu... - o restante da frase saiu quase um sussurro - Acabei te ferindo... – ele abaixou o olhar, as orelhas caninas caíram um pouco.
Ela sorriu – Não importa. Você me salvou.
- Kagome...

Antes que pudesse dizer mais, ele se pôs rapidamente em alerta, a segurou mais forte e deu um pulo. No mesmo instante um pedaço grande de madeira do teto caiu onde outrora eles estavam.
- Acho que não temos tempo para conversar agora. – ele disse. Havia se esquecido da luta que ocorria bem à sua frente.

Inuyasha assistia a luta brutal entre o meio-irmão e Naraku, que já era realizada mais fora que dentro da mansão. Sesshoumaru parecia fora de si. Era extremamente raro ele se transformar para uma luta, pois isso o dava algumas desvantagens: como não poder utilizar uma arma e ser mais fácil ser atingido pelo inimigo (embora Inuyasha tivesse que admitir que ele ficava incrivelmente forte em sua verdadeira forma), então ele pensou o que teria levado o meio-irmão a agir assim. Kagome, que olhava mais abaixo respondeu sua pergunta:

- Rin!!!

Ele também olhou pra baixo e viu um pequeno corpo no chão, uma pequena poça de sangue saía dele. Pôs rapidamente Kagome no chão, certificando-se que esta conseguia permanecer de pé e se aproximou do corpo.
- Ela ainda está viva... – disse depois averiguar a respiração fraca da menina, tão fraca que se ele não fosse um hanyou provavelmente não teria percebido vida nela.

Kagome se aproximou manquejando e também se abaixou perto da menina – Ainda podemos salvá-la, certo? – perguntou temerosa.
- Não sei... – ele então pegou Rin nos braços e olhou pra Kagome – Vocês duas precisam sair daqui. – ela o olhou sem entender, até que o hanyou deu um assobio alto. Em questão de minutos Shiromaru apareceu, ofegando e abanando a cauda. Inuyasha pôs Rin cuidadosamente em cima do cão e puxou Kagome pra si, pretendendo fazer o mesmo com ela. Mas a menina se debateu e protestou.

- Não, eu quero ajudar.
- Do que está falando? Você está ferida. Volte pra casa e fique lá onde é seguro. – retrucou já erguendo-a do chão. Ela tentou lutar, mas ele era muito mais forte que ela.
- Eu quero ajudar em alguma coisa. Eu sei que posso. – o hanyou parou e olhou desafiante pra ela.
- Como!?
- Naraku disse que eu tinha poderes de sacerdotisa, talvez eu possa purificá-lo...

Inuyasha pensou um pouco no que ela disse e viu que fazia sentido, porém a única coisa que ele não queria era que ela se machucasse mais.

- Não seja boba, o Naraku é forte demais pra você, deixe que eu e o Sesshoumaru cuidamos dele. - retrucou.
- Por favor, me deixe ajudar. - ela implorou. Ele não pôde resistir dessa vez.
- Ok, mas fique em algum lugar seguro. - ele suspirou e a colocou de volta no chão. - Shiromaru, volte pro castelo. - o cão deu um latido e obedeceu a ordem, levando consigo uma Rin inconsciente e gravemente ferida.

Sesshoumaru rosnou alto e pulou em Naraku com a boca cheia de dentes escancarada, preparado para dilacerar seu inimigo. Naraku ainda não havia parado de se transformar, os tentáculos se multiplicavam e surgiam espinhos em seus ombros e uma espécie de armadura de osso envolvia seu peito. Ele pôs um dos tentáculos propositalmente na frente do ataque de Sesshoumaru, que o mordeu vorazmente. O miasma jorrou pra todo lado e o youkai maligno sorriu, sabendo que seu youki era venenoso. Mas seu sorriso sumiu ao ver o inuyoukai intacto, nem sequer havia sentido o ar rarefeito.

- Meu miasma não faz efeito em você? – ele parecia um pouco atordoado, mas ainda confiante.
O enorme cão branco esboçou um sorriso na face bestial. Um líquido esverdeado pingava de sua boca como saliva e ao cair no chão, derretia tudo o que via pela frente. A fumaça proveniente da rápida evaporação desse líquido preenchia o ar. Naraku sentiu-se ligeiramente tonto, mas nada que pudesse atrapalhá-lo em seu momento de glória.

- Kagome, não respire isso! – Inuyasha gritou para a humana e rapidamente cobriu a boca da garota para evitar que ela se contaminasse. – É veneno.
Ele a pegou no colo e correu rápido para um canto mais afastado. Lá, ficou espreitando a luta, esperando um momento certo para agir. Kagome se mexeu em seus braços, incomodada. Ele estranhou e voltou o olhar pra ela. A garota estava num tom ligeiramente púrpura, seus olhos bem abertos estavam desesperados.

- Oh meu Deus, desculpe. – ele imediatamente tirou a mão da boca da menina. Kagome puxou o ar com força e seu rosto foi voltando à cor normal.
- Você quer me matar?! – ela exclamou, ofegante. Ela parou para olhar para ele, enquanto o hanyou tirava a armadura e logo em seguida o kimono mais externo. Ele o colocou sobre os ombros dela gentilmente.
- Escute, se respirar esse veneno seu corpo vai paralisar por inteiro. Se encostar naquele líquido você derreterá até a morte. Use isso para se proteger e tape o rosto com ele. – ele apontou o kimono branco sobre ela – Ele é muito resistente. Ainda assim não se arrisque.

Ela se sentiu feliz com a preocupação dele, mas começava a duvidar se realmente seria capaz de ajudar em alguma coisa ou se seria um estorvo para Inuyasha.

- Parece que eu não vou conseguir acabar com você rapidamente. – Naraku disse à Sesshoumaru. Estranhamente ele tinha um sorriso no rosto. Sesshoumaru estreitou os olhos vermelhos e num segundo já estava bem em frente ao youkai. Numa patada rápida lançou Naraku contra o chão abaixo deles (uma vez que estavam em pleno ar). Uma pequena cratera se formou onde o youkai caiu. Mas Naraku logo se recompôs e ergueu-se solene, os tentáculos, agora imensos, se mexiam e batiam com violência no chão e ricocheteavam no ar.

Inuyasha aproveitou a distração de Naraku, que olhava fixamente para Sesshoumaru e desembainhou sua Tessaiga. Ergueu a espada e concentrou-se um segundo antes de lançar o ataque ensinado por seu pai pouco antes de sair em sua jornada:
- Kaze no Kizu! – e uma onda de energia foi em direção ao inimigo. Naraku desviou o olhar para o lado ao ouvir o estrondo do 'Kaze no Kizu' vindo em sua direção, porém não teve tempo de desviar. Seu corpo foi dividido ao meio e alguns pedaços ficaram a flutuar no ar.

- He, tome isso, maldito! – exclamou o hanyou, aparentemente contente com seu feito. A cabeça de Naraku partida em dois abriu um 'meio sorriso' e logo os pedacinhos começaram a se juntar novamente.
- Veio ajudar o irmão? Que vergonha para o grande príncipe Sesshoumaru ser ajudado por seu irmãozinho hanyou. – zombou o youkai – Porém isso não me matará. – finalizou. Inuyasha estreitou os olhos.