Título: A Mansão dos Esquecidos
Autora: Lady Anúbis.
Beta: Eri-Chan
Banda: Weiss Kreuz
Casal: Aya x Omi
Classificação: + 18
Gênero: Slash/ Angust/ Romance/Suspense/Sobrenatural
Status: em andamento
Direitos Autorais: Infelizmente Weiss Kreuz não me pertence.
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Essa fic é o meu presente para meu amigo secreto Omi, no primeiro AS do nosso amado Secrets Place.
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A MANSÃO DOS ESQUECIDOS
Cap. 1 – Vítima do Passado
O opressivo corredor na penumbra parece ainda menor, os ruídos da casa antiga se mesclando ao odor de mofo e medo, tudo misturado em torno de Omi, que corre por ele em busca de um lugar seguro. Esbarra em uma estátua, que lhe parece mais viva do que deveria, apesar do frio sorriso congelado pela pedra de que é feita.
– Eu preciso me acalmar! – Pensa alto enquanto recoloca a estátua sobre o pedestal em que estava originalmente. – Eles contam comigo.
Então novamente ouve os passos pesados sobre o assoalho de madeira, os mesmos passos que o seguem desde que deixou os amigos em busca de socorro. Volta a correr, vislumbrando uma luz tênue iluminando o final do corredor.
– Uma janela! – Esboça um leve sorriso de alívio. – Finalmente uma saída desse lugar!
Aperta o passo e chega a ela em um instante, tentando abri-la, mas percebendo que está emperrada e nem os quatro Weiss juntos conseguiriam movê-la. Os passos, então, continuam a caminhar devagar em sua direção, despertando o receio de que falhou com eles e que tudo está perdido, tentando ver na penumbra quem o segue, mas em vão. O ruído de alguém se aproximando continua, mesmo que seja impossível vê-lo.
– Omi... Você me esqueceu... – A voz acusadora ressoa por todo o ambiente, como se saíssem de todos os cantos, inclusive das paredes. – Eu só queria que você me amasse...
O chibi sente seu sangue gelar, desesperado para sair dessa armadilha que o corredor se tornou, seu algoz não é visível, apesar de sua presença ser nitidamente sentida por Omi.
– Não se aproxime! – Diz, tentando inutilmente conter seu nervosismo.
Ele então vê a porta junto da janela, talvez um quarto, mas com certeza uma saída desse corredor tenebroso. Abre-a e se depara com um armário, velhas vassouras e esfregões jogados dentro dele. Decepção... Não é uma escapatória, mas apenas mais uma armadilha. Assim mesmo é uma forma de colocar algo entre ele e seu perseguidor. Entra e fecha a porta, travando-a, colocando uma vassoura sob a maçaneta interna, a outra extremidade dela contra a parede.
Por pior que seja sua situação, estar ali lhe dá certa sensação de segurança. Permanece em silêncio, pensando em Aya e em como o colocou nessa enrascada. Tudo sua culpa... Não deveria ter deixado que Dan o atraísse para esta mansão, quando racionalmente sabia que ele estava morto há muito tempo. E em sua curiosidade, talvez mais uma esperança que o amigo não tivesse se matado de verdade, o fez vir com os Weiss... Com Aya... Até esse lugar amaldiçoado... Onde só conhecera a solidão.
Não ouve mais os passos, talvez tenha enganado quem o seguia e este foi em outra direção. Resolve olhar pela fechadura, ver se há alguém do lado de fora. Os orbes azuis piscam, tentando se acostumar com a escuridão do armário, seguindo a luz das frestas da porta e se colocando diante do buraco onde os instrutores antigamente introduziam a chave para mantê-lo trancado. Inicialmente nada vê, parecendo que o caminho está livre, mas Omi logo pula assustado para trás, a visão do olho castanho trazendo-lhe o terror.
– Eu sei que você está aí, Omi. – A voz parece divertir-se com seu medo. – E não vai mais me abandonar.
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Ken abre a porta de casa esbaforido, ainda com o braço pingando sangue, mas pouco se importando com isso. Seu pensamento apenas se concentrando em Omi, que vem carregado por Aya, entrando logo em seguida, os braços caídos, completamente sem sentidos. Yohji fecha a porta atrás de si, assim que se certifica que ninguém os seguiu. O ruivo sobe as escadas apressado, preocupado demais com o que pode ter acontecido, o sentimento de culpa que sempre acomete os líderes mortificando-o.
"Eu o enviei para aquele lugar... Eu pedi que fosse a isca..." – Esse pensamento fica martelando em sua mente.
Entra no quarto do adolescente, empurrando a porta entreaberta com o pé, colocando-o sobre a cama, procurando no garoto algum ferimento que explique sua inconsciência, mas nada encontra.
Ergue-se, tentando controlar sua adrenalina a fim de ter um pensamento lógico. Olha para si mesmo, o sobretudo sujo de sangue, não seu ou do chibi, mas do maldito pedófilo que seqüestrava meninos colegiais para suas orgias particulares. Ele enviou Omi para aquela loja de card games, exatamente onde os outros garotos haviam sido vistos pela última vez. E todos foram encontrados mortos, nenhuma marca aparente, apenas a de violência sexual. Assim mesmo tomou a difícil decisão de usá-lo como chamariz, mesmo que considerasse perigoso demais, mas como sempre Bombay aceitou a missão sem discutir.
Yohji entra visivelmente cansado, sangue escorrendo-lhe da testa sobre o olho, sua roupa marcada pela luta corporal que travou com o gigantesco segurança pessoal do bandido que procuravam.
– Aqui estão as gravações que o safado fazia com os garotos. – O loiro não consegue disfarçar a expressão de asco ao pensar no que poderia ter acontecido ao chibi.
– Coloca no computador do Omi... – Se aproxima do monitor enquanto Yohji liga o PC e coloca o DVD no drive. – Precisamos ver o que aconteceu com ele.
A missão se precipitou depressa demais, com um dos garotos atraindo Omi para fora da loja e o empurrando para dentro de um carro. Seguiram-nos por toda a cidade, até que pararam diante de uma antiga fábrica abandonada. A segurança não era muito reforçada, mas o prédio estava repleto de armadilhas, Ken quase tendo sido pregado à parede por estacas que saíram de dentro de um armário quando o moreno passou por um fio. Seguiram com muita cautela, o ex-jogador mais lento, o braço sangrando bastante. Ficou para os dois mais velhos a missão de resgatar o chibi e acabar com o miserável que o capturou. Depararam-se então com um homem de tamanho descomunal, guardando uma porta onde deveriam estar os outros.
– Você está bem, Kudou? – Aya percebe como o playboy se senta, quase caindo da cadeira.
– Ainda estou zonzo da pancada na cabeça. – Balança-a tentando despertar, ansioso demais para se dar ao luxo de desmaiar. – Aquele sujeito parecia o Golias... Mas não foi páreo para o meu fio.
O ruivo deixara Yohji encarregado do imenso homem e entrara pela porta, que levava a um corredor muito iluminado, em uma parte da fábrica que fora totalmente reformada e transformada em diversos quartos, provavelmente usados para as festinhas do pedófilo e de seus amigos. Seguiu então os ruídos, que vinham do final do corredor, vozes e gritos ecoando por todo ele, a voz de Omi pedindo por socorro. Mas logo ele se calou, apenas o som de dois homens conversando animados. Quando Aya se aproximou de uma porta aberta, percebeu ser ali a origem de tudo. Segurou com firmeza a katana, assumindo sua mais ameaçadora postura e surgindo de repente... A visão medonha de uma fera pronta para matar.
– Pronto... Deixa eu procurar o arquivo do ataque ao Omi. – Tem medo do que podem ver. – Eu não pretendo ver o que ele fez com os outros.
– Yohji... – Aya coloca a mão sobre seu ombro. – Não precisa ficar aqui. Vai ver o Ken... Ele está muito ferido.
– Pode deixar. – Sente-se agradecido por não ter que assistir qualquer coisa relacionada com este caso.
Vê o loiro sair e se recorda de como os dois homens assustaram-se ao encará-lo, a face da morte estampada nos olhos. Um deles era o colegial que atraía as vítimas, na verdadeum adulto com aparência jovem, pois sua voz real não negava ter pelo menos mais de 25 anos. Eles recuaram diante de tal visão, parando apenas quando a parede os conteve, rapidamente seus corpos caindo inertes no chão frio, os olhares aterrorizados fixos para sempre, seus gritos de horror ainda ecoando. Omi estava sobre a cama, desmaiado, meio despido, apesar de não ter nenhum sinal de que os malditos tivessem conseguido o que queriam. Aya o tomou então nos braços e carregou consigo, passando pelo corpo do homem gigante, ele e Yohji chegando até onde Ken havia ficado e todos voltando para casa.
Finalmente a imagem de Omi sendo colocado sobre a cama aparece no monitor, o garoto esperneando e socando os dois homens que tentam contê-lo. Um deles se afasta e pega algo dentro da gaveta do criado-mudo. É uma seringa, que ele espeta no braço do chibi enquanto o outro o segura. Quase que instantaneamente o pequeno desfalece, com os abutres começando a despi-lo, as risadas sádicas deles ecoando nos ouvidos do ruivo, olhos violeta presos à tela, desligando tudo quando sua própria imagem aparece na porta.
– Então eles injetaram alguma coisa para fazê-lo dormir. – Diz enquanto procura a marca da agulha no braço pequeno. – O negócio é esperar que passe o efeito.
Conclui que talvez a morte dos garotos tenha sido uma overdose disso que usavam para mantê-los calmos. Puxa a pequena poltrona onde Omi costuma ler para perto da cama e se acomoda, pois não pretende sair do lado dele até que acorde.
– Aya... – A voz de Yohji vem da porta aberta. – O que aconteceu com ele?
– Os fulanos o drogaram... Vou esperar que volte a si. – Fala sem olhar para trás, seus orbes fixos em Omi, respirando profundamente, mas tranqüilo. – Como está o Ken?
– Vou dar uns pontos no braço dele e aplicar antibiótico. – Nem pode contar as muitas vezes que fizeram esse tipo de curativo uns nos outros, demonstrando a vida dura que levam. – Quer alguma coisa?
– Não, obrigado. – Ele se acomoda melhor na poltrona. – Estou bem. Vou esperar.
Depois que Yohji sai, fechando a porta, o líder dos Weiss se perde em seus próprios pensamentos. Há muito tempo notara que o chibi era especial. Sempre amigo, um sorriso lindo sempre estampado no rosto, pronto a compreender até a mais negra faceta dos homens que vivem da morte. E ele se mantém incólume às conseqüências de seu trabalho, como se tivesse criado uma armadura que separa Bombay de Omi. Na verdade, o inveja por essa capacidade, pois Aya teme mais do que tudo perder o Ran que ainda teima em viver dentro de seu coração.
Percebe o quanto se preocupa com Omi em todas as missões, mas... Dessa vez a natureza do crime cometido e do perigo que representava ser uma isca deixou-o aflito, temendo perder o chibi quando corria em busca dele naquele corredor. E esse sentimento palpável agora lhe vem à mente, enquanto o observa deitado sobre a cama, a luz do sol nascendo iluminando-o. O cabelo loiro caindo sobre os olhos, como costuma estar, o rosto angelical que esconde o assassino frio que pode ser, a pele alva e macia, as pernas roliças e deliciosas...
"Deliciosas?!" – Aya percebe o que seu próprio pensamento lhe revela sem querer. – "Estou apaixonado por ele?!"
Aya se levanta de um pulo, ainda observando o garoto sobre a cama, mas encarando-o de outra forma, pensando que não pode se permitir sentir isso... Não é digno para amar... Não a pessoa em que se transformou. Caminha até a janela, abrindo de leve a cortina e observando as pessoas comuns apressadas, indo provavelmente para os seus trabalhos normais. Todas parecem tranqüilas e serenas, completamente alheias ao fato de que pessoas como ele e Omi existem.
– Ainda me lembro do dia em que nos conhecemos... Eu estava matando... Meu coração tão endurecido... – Pensa alto, falando para si mesmo, mas como se estivesse diante de Omi. – E você logo de início me aceitou, procurou me integrar ao grupo, sempre preocupado... Foi só por sua causa que os Weiss se tornaram uma família... Minha nova família.
Respira fundo, vendo as primeiras gotas de chuva cair no vidro da janela, as pessoas correndo, guarda-chuvas multicoloridos escondendo-as dos olhos que as observam do alto.
– E mesmo que eu tivesse prometido pra mim mesmo jamais me importar com alguém... Fui percebendo que me importava com vocês... Ainda mais com você. – Pensa em todas as missões e como sempre desejava que Bombay não fosse ou ficasse na retaguarda. – E cada dia em que eu perdia mais a vontade de viver... Você sorria pra mim e me mostrava que sempre existe uma razão... Mesmo que não a enxerguemos.
Os trovões cortam o céu, a escuridão tomando conta do dia, transformando-a em noite, mas com toda a eletricidade estática limpando o ar, purificando a atmosfera poluída de Tóquio.
– Nessa noite eu temi te perder... Como me senti na noite em que me tiraram tudo que amava... – Essa constatação lhe dói demais na alma ferida. – E somente assim percebi como tenho sido tolo. Não vi o óbvio... Não percebi que te amo... Mas...
A chuva aumenta, lavando o vidro torrencialmente, formando pequenos desenhos, escorrendo e sendo acompanhados pelos dedos finos do assassino.
– Como posso amar alguém? – Seus olhos se fecham. – Sou essa criatura fria e sanguinária... Todos me temem. As únicas pessoas que já me conheceram de outro modo, estão mortas ou em silêncio eterno. Como pedir que alguém seja capaz de me amar... Quando eu mesmo não me amo? Não posso perder mais ninguém... Por minha incapacidade de protegê-las!
– Tem razão... – A voz de Omi corta o silêncio, paralisando o ruivo. – Você não enxerga o óbvio!
Ele se volta assustado, encarando o garoto sentado na cama, ainda bastante pálido, mas com um dos seus mais belos sorrisos, contrastando com as lágrimas que correm por seu rosto.
– O-Omi?! – Fica completamente sem ação.
– Eu sempre te amei e... – Seca as lágrimas do rosto com as costas da mão. –Sempre vi o Ran Fujimiya que você esconde.
Levanta-se, ficando de pé sobre a cama. Aya se aproxima, parando diante dele, os olhos de ambos perdendo-se um no outro, um medo inconsciente de tomar o próximo passo. Mais uma vez Omi sorri, passando os braços pelo pescoço do ruivo, tocando seus lábios com delicadeza, ainda temeroso de sua reação, mas decidido a se arriscar. Os braços fortes de Aya o enlaçam com carinho, pegando-o no colo, o beijo se intensificando como se essas duas almas se encontrassem depois de caminharem por tanto tempo na escuridão.
– Então... Você me ama? – O líder dos Weiss custa a acreditar.
– Nossos destinos estão escritos... – Beija seu rosto, suas pálpebras, novamente os seus lábios. – E traçados para esse amor há muito tempo.
Mais uma vez suas bocas se unem, corações entrelaçados em um sentimento doloroso para homens que vivem da morte. Mas amor é vida e nada melhor do que tirar dessa existência obscura que tiveram até agora uma nova vida... Juntos.
Eles ficam ali por um bom tempo, alheios à escuridão que se forma no exterior, a casa envolta em névoa, trovões estourando furiosos, prenunciando a tempestade terrível que se abaterá em breve sobre eles.
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– Vou levar as papoulas, Omi. – A garota de vestido vermelho aponta, fazendo charme. – Você faz um buquê bem bonito?
– Eu faço. – Aya pega as flores das mãos da garota, expressão fechada. – O Omi tem mais o que fazer lá no depósito.
– Tenho? – O chibi não entende muito bem a atitude dele.
– Tem sim! Olha... – Pára uns instantes pensando no que dizer. – Se precisamos comprar mais fertilizante e vitaminas para repor no estoque.
A garota de vestido vermelho fica um tanto frustrada, pois sua paixão é o rapaz de olhos cor de safira, e desejava um arranjo feito por suas mãos. Mas não há mais como voltar atrás em seu pedido, então fica parada perto do balcão onde o ruivo prepara com pressa o seu buquê, vendo seu objeto de desejo entrar no depósito e desaparecer de sua vista. Fica intrigada com as risadinhas das demais garotas paradas na porta, fingindo que observam as flores, mas com os orbes fixos sobre os quatro floristas mais bonitos de Tóquio. Fica intrigada e ao sair desanimada, com o buquê na mão, pára diante das meninas.
– O que está acontecendo, Yoko? – Fala curiosa.
– Ah... Achamos que o Aya e o Omi estão juntos! – Diz toda empolgada com a idéia.
– Juntos como? – Ela se sente tola, pois não entende a malícia das palavras.
– Namorando... Sua boba! – Yoko e as amigas riem da inocência dela. – O Aya espanta todas as garotas que se aproximam do chibi.
–...! – Ela nem responde, ficando ainda mais frustrada, saindo devagar, o buquê voltado para baixo, quase arrastando no chão.
Alheios à controvérsia do lado de fora, os Weiss continuam a trabalhar, os olhos de Aya sobre a porta que leva ao depósito, sem conseguir se concentrar nos arranjos que está preparando para um casamento.
– Yohji... Toma conta do caixa. – Sequer olha para o loiro que está atendendo uma mulher de mãos ousadas. – Vou buscar mais fita no depósito.
– Ahhh... Manda o Ken. – Fica irritado com a interrupção de sua paquera.
– Falei pra você fazer isso. – A irritação flameja em seus olhos. – O Ken está carregando os arranjos para a entrega. E agora não é hora de ficar bolinando com as clientes.
– E você vai fazer o quê? – Perde a noção do perigo ao ser repreendido, a morena fabulosa saindo apressada. – Estou vendo um rolo de fita no balcão... Você vai é...
O ruivo fica diante dele, seus olhos fuzilando o playboy, que se arrepende e recua, se calando, assumindo o caixa sem mais nada dizer. Aya fica uns instantes ainda se acalmando e apenas ao se sentir melhor entra no depósito. Omi está ali, curvado diante de um armário, contando os pacotes de fertilizante.
– Você nesta posição é um pecado, sabia? – Fala com uma voz sensual, incomum para ele, sempre tão sério.
O loirinho se volta assustado, pois estava tão concentrado que sequer ouviu quando Aya entrou. Encosta-se no armário, abrindo um sorriso assim que toda a dimensão das palavras do ruivo passa pelo susto e chega à consciência das intenções dele.
– Então você tinha segundas intenções quando me mandou pra cá? – Um sorriso avassalador surge no rostinho angelical.
– Não tinha, mas... – A malícia carrega todas as suas palavras. – Depois pensei em você aqui sozinho... E resolvi fazer uma visitinha.
Ele se aproxima devagar, mas resoluto, cercando o chibi no canto do armário, encostando-se nele e o prensando contra os sacos de fertilizante. Os braços fortes o impedem de escapar, mesmo que não demonstre nenhuma intenção de fazê-lo. Os lábios do ruivo então tomam a boca pequena com ânsia, os braços de Omi se colocando em torno do seu pescoço, a mão de dedos longos e finos puxando uma das coxas roliças para cima, acomodando-se ainda mais no corpo menor.
– Alguém pode nos ver... – Omi se preocupa, mas logo se derrete ao ser calado por mais um beijo delicioso.
Mas um ruído os alarma, um vaso pesado de cerâmica voa do armário na outra extremidade do depósito e se estraçalha próximo deles.
– Nossa! – Aya usa o corpo pra proteger Omi dos cacos que voam por todo lado. – Como essa coisa caiu?
– Sei lá. – Omi fica intrigado, pois não é a primeira coisa estranha que presenciou nos últimos dias. – Melhor voltarmos ao trabalho.
Os dois saem, mas os olhos azuis olham mais uma vez para o vaso espatifado tão distante de onde estava originalmente. Sente uma coisa estranha... Certa presença que não consegue definir. Balança a cabeça e procura esquecer, pois sua imaginação deve estar lhe pregando peças.
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– Omitchi... Chegou uma carta pra você. – Yohji diz assim que o garoto entra na Koneko vindo da escola. – Deixei em cima da sua escrivaninha.
– Estranho... O carteiro sempre passa cedinho. – Omi pensa intrigado, pois sempre pega as cartas e as deixa sobre a mesa do café da manhã.
Mesmo com certa estranheza Omi procura não se concentrar nisso, entra na casa e sobe para o quarto. As sextas-feiras sempre são mais agitadas e precisa descer logo para ajudar os rapazes. Começa a se despir, colocando a roupa de escola no cesto, pensando em lavá-la à noite, pois ele e Aya planejaram sair pra namorar depois de fecharem a Koneko no sábado. Veste a bermuda jeans e procura sua camiseta do L'Arc en ciel na gaveta quando se lembra da carta. Aproxima-se da escrivaninha ainda vestindo-se e percebe que a carta não tem selo, nem carimbo do correio, então alguém a entregou, mas...
"Quem me entregaria uma carta?" – Segura o envelope sem remetente. – "Se fosse da escola... Teriam me entregado... Ah... Sei lá! Melhor abrir."
Os dedos pequenos passam pelo envelope de papel luxuoso, a letra parecendo-lhe conhecida, escrita com tinta levemente dourada. Abre-o com cuidado, temendo rasgar a carta em seu interior, tirando-a devagar, uma impressão ruim apertando-lhe o peito. Abre o papel meticulosamente dobrado, a mesma caligrafia rebuscada lhe chamando a atenção.
"Por acaso você já se esqueceu de mim, Omi? Eu ainda te amo, como sempre amei... Estou morto de saudades. Dan."
– DAN?! – As pernas de Omi fraquejam, precisando sentar-se ao reler a carta e a assinatura, que lhe parece autêntica. – É a letra dele! Reconheceria essa caligrafia em qualquer lugar. Mas... Não pode ser...
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Ao longoda semana Omi mantém-se aparentemente calmo, sorrindo e atendendo as garotas como sempre fez, a menina de vestido vermelho todos os dias atrás de flores de que não precisa, apenas para ser atendida com a gentileza que o chibi sempre tem para todas. Nada mais, nada menos. Apenas Aya nota um toque preocupado em sua expressão, as safiras evitando os orbes violeta.
As cartas tornam-se uma constante, sempre o mesmo papel raro, a mesma caligrafia tão conhecida pelo garoto. As palavras variam, mas sempre dizem o mesmo 'esqueceu de mim' ou 'ainda te amo', como se o tempo tivesse voltado e ainda estivesse no passado, quando as cartas o atormentavam dia após dia. Apesar disso, tenta levar sua vida normal, mas sabe que seu namorado já desconfia de algo, mesmo que evite intrometer-se, sempre calado e sério.
Mas uma tarde a carta não vem e Omi sobe a escada satisfeito, crente que finalmente o passado ficou para trás. Ao entrar em seu quarto o garoto paralisa, pois há uma carta sobre sua cama, uma que não foi colocada ali por seus amigos. Senta-se e a pega na mão, temendo abri-la, mas consciente de que precisa saber... Não que deva nada a Dan, mas porque ele representa mais uma nódoa de dor em sua curta existência.
"Triste estou porque você me esqueceu, Omi. Ainda te amo da mesma forma. Quero te ver na nossa data especial, onde nos conhecemos. Preciso muito te ver. Dan."
Levanta-se depressa e corre até sua escrivaninha, vendo no calendário que o aniversário de cinco anos daquele terrível dia será no final de semana, sentindo-se atropelado pelo sofrimento de sua vida antes de conhecer os Weiss. Mas precisa ir. Para acabar com essas cartas e... Saber o que realmente aconteceu com Dan.
Após um jantar tranqüilo a casa fica mais calma, Yohji sai para uma de suas baladas, depois de ouvir o sermão de todas as sextas, sobre a necessidade de acordar cedo no dia seguinte. Ken liga a televisão na sala, sintonizando o canal de esportes a fim de assistir à final de algum campeonato de futebol ao redor do mundo. Aya e Omi recolhem-se, certa estranheza entre eles, contrastando com o carinho que sempre reina.
– Aconteceu alguma coisa? – O ruivo se senta na cama, observando o garoto parado diante dele. – Você está esquisito.
– Nada... – Diz sem muita convicção.
– São aquelas cartas? – Aya se levanta e fica a frente dele, as mãos segurando seus braços e descendo até entrelaçar seus dedos com os dele. – Elas têm deixado uma sombra em seus olhos. Quem as envia?
– Um velho conhecido dos tempos do treinamento da Kritiker. – Pensa meticulosamente no que pode ou não contar sem envolver seu amado nessa história.
– Apenas isso? – Os olhos que evitam os seus aumentam sua desconfiança.
Omi afasta-se, sem saber mais disfarçar suas emoções sob os orbes violeta que o desnudam por inteiro, enxergando cada recanto onde esconde tudo que o faz sofrer. Volta-se, fingindo observar de forma casual o quadro que Aya comprou recentemente para alegrar seu quarto excessivamente espartano.
– Vou ter que resolver umas coisas pendentes com ele, mas... – Sente-se compelido pela necessidade de não deixar que Aya se envolva. – Preciso fazer isso sozinho.
– Por quê? – O ruivo fica ainda mais desconfiado da atitude evasiva do garoto.
Aproxima-se sério, puxando-o pelo braço e forçando que o encare. Ambos ficam assim, diante um do outro, os olhares se encontrando irremediavelmente.
– Confie em mim... Preciso resolver isso de uma vez por todas. – Sua voz sai temerosa e súplice. – Mas não quero que ninguém mais entre nessa história.
– Eu preciso saber... Quem é essa pessoa? – O líder dos Weiss deixa claro em seu tom que não está bravo, mas extremamente preocupado. – O que...
– Prometo te contar, mas... – Abraça-o, recostando a cabeça em seu peito. – Não agora.
Levanta os olhos, suas pupilas brilhando com o amor que sente por este homem misterioso e complexo, que pode ser um assassino frio, mas em seus braços se torna o mais doce dos amantes.
– Agora eu quero apenas estar em seus braços. – Fica na ponta dos pés para alcançar seus lábios e beijá-lo com delicadeza. – O seu amor é o melhor que já me aconteceu... Em toda a minha vida.
E esse beijo encerra a discussão, Aya perdendo-se nos braços e no corpo que o puxam para a cama, a noite se tornando dia enquanto os dois amantes ainda se amam deliciosamente. A exaustão cala os gemidos que cortam a madrugada, o ruivo apagando nos travesseiros macios, enquanto Omi arruma sua mochila com tudo o que pode precisar e parte sozinho para encontrar o seu destino.
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– Como assim... Você não o viu sair? – Aya pergunta pela segunda vez, sisudo e aflito.
– Já te falei... Quando eu levantei estranhei que o Omi não tinha feito o café. – Ken fica aflito com a expressão preocupada do amigo. – Fui ao quarto dele e... Percebi que levou todas as armas. Por isso te acordei.
Ouvem o som da porta da frente e ambos saem da cozinha, se deparando com Yohji, amarfanhado e levemente embriagado.
– Isso são horas de chegar? – Aya pergunta irritado. – Você nunca me ouve.
– Ahm?! – O loiro pára aturdido, pois estranha os dois o esperando e uma recepção tão hostil. – Vim direto pra trabalhar.
– E pra que me serve nesse estado? – O ruivo descarrega nele a frustração de se deixar enganar pelo lindo sorriso de Omi. – Nunca está aqui quando precisamos de você!
O playboy faz menção de reagir, cansado de ser agredido dessa forma, mas Ken o puxa pelo braço, fazendo-o entrar na cozinha e sentar.
– Vou fazer um café pra você. – Diz solícito, vendo Aya subir as escadas. – O Omi sumiu... Por isso ele está assim.
– Sumiu?! – Yohji levanta os olhos e o encara. – Mas como? Alguém o levou?
– Não... Ele fugiu. – O ex–jogador coloca diante dele a xícara de café instantâneo. – E levou as armas. O Aya sabe de algo, mas não me disse nada.
– Será que... – A mente do loiro, apesar de ainda embriagada, liga algumas coisas que percebeu. – Tem algo a ver com aquelas cartas?
– Melhor ajudarmos o Aya a vasculhar o quarto do chibi. – A mesma preocupação passando pela mente do ex-jogador.
Ambos sobem e entram, o ruivo vasculhando as gavetas em busca das cartas.
– São aquelas malditas cartas... – Fala sem olhar para os dois. – Ele foi atrás da pessoa que as mandou.
Ken procura pelos livros, folheando-os um a um, enquanto Yohji vai direto até a cama.
– Sei exatamente onde deve estar. – Diz com ar de sabedoria. – Onde todo adolescente guarda o que não quer que os pais encontrem?
– Nem todo mundo é como você... – Ken caçoa dele. – Que ainda esconde suas revistas pornográficas embaixo do colchão. Nem sei como você consegue dormir.
– Vocês dois parem com a brinca... – O espadachim fica ainda mais irritado.
– Voilá! – O loiro diz vitorioso, segurando o colchão levantado. – Aqui estão elas... E... Umas fotos.
Todos se colocam em torno da cama, o colchão jogado de lado, os segredos de Omi expostos ali, trazendo uma sensação ruim de intromissão, mas absolutamente necessária no momento. Aya pega as cartas, o teor delas o deixando ainda mais preocupado.
– O nome do sujeito é Dan... – Respira fundo com cada 'eu ainda te amo' que lê. – E com certeza é apaixonado por ele.
– Dan?! – Ken procura entre as poucas fotos que Omi tem de sua vida. – Aqui... É esse cara! O nome está escrito no verso.
Mostra a foto de um homem moreno, tristes olhos castanhos, sorriso sem graça... Ele e duas garotas estão diante de uma mansão, vestidos com uma espécie de uniforme.
– Ele marcou de se encontrarem no lugar onde se conheceram. – Aya observa a foto, estreitando os olhos e focando no rosto do homem bem mais velho que Omi. – Será que é nesta casa?
– Mas onde é isso? – Ken sente-se frustrado por saber tão pouco do passado do chibi.
O playboy se aproxima da janela, abrindo a cortina e observando o perímetro da casa, a desconfiança colocando seus sentidos em alerta.
– Espera um instante... – Yohji vislumbra aquilo de que suspeitava. – Eu sabia...
Sem nada dizer o loiro deixa o quarto as pressas, deixando para trás os amigos surpresos, saindo da casa e correndo até algumas árvores localizadas do outro lado da rua. Com habilidade segura o braço de seu alvo, puxando-o para fora das sombras, revelando sua identidade sob o sol nascente.
– Você?! – Fica intrigado com a garota de vestido vermelho diante dele. – Por que está vigiando a casa?
– Não sei do que está falando. – Ela tenta fugir, mas não conseguindo se soltar das mãos fortes que a seguram firme. – Me solta! Só estava esperando abrir.
– Não pense que me engana. Desconfiei que havia um cúmplice entregando as cartas. – O loiro sorri malicioso. – Você anda cercando o chibi e... As cartas começaram quando você apareceu.
A chegada dos demais apenas a deixa ainda mais apavorada, chutando-o e arranhando seu braço a fim de fugir. A presença de Aya a desespera, como se representasse a maior ameaça diante da qual já esteve.
– Leva ela pra dentro! – Aya diz sem qualquer emoção, um olhar frio sobre a jovem assustada. – Assim podemos interrogá–la sem chamar a atenção.
Yohji faz isso com muita satisfação, decidido a fazer essa fulaninha revelar tudo que sabe. Arrasta-a aos tropeções para a casa, descendo da mesma forma para o porão, onde joga a garota sobre o sofá.
– Muito bem... – Diz nervoso. – Fala tudo que sabe ou... Não vamos hesitar em acabar com você.
– Qual o seu nome? – Ken tenta ser o menos exaltado dos três, sentando ao lado dela.
– Mei... Esse é o meu nome. – Ela fala se acalmando um pouco, secando uma lágrima que teima em escorrer por seu rosto.
– O que você fazia lá fora tão cedo? – O moreno fala tranqüilo, apesar de não tirar os olhos do ruivo do outro lado da sala.
– Eu... Queria vê-lo... – Ela parece perdida em uma realidade apenas sua. – Sonho com ele... Preciso sempre estar perto dele.
– Mas... Por quê? – O interrogatório continua calmo, apesar da tensão no ambiente ser sufocante.
– Por quê?! – A pergunta lhe parece absurdamente idiota. – Eu o amo!
O ruivo avança, os olhos explodindo de raiva, percebendo que essa linha de perguntas não os está levando mais perto de onde o chibi está. Puxa-a pelo braço, forçando que fique de pé, os olhinhos esbugalhados de horror.
– Foi você quem entregou aquelas cartas? – Sua voz sai tão fria como os outros só ouvem ao vê-lo diante de alguém que está prestes a matar.
– Ele me pediu... – A garota fala trêmula. – Disse o que escrever... Quando entregar...
– Quem? – Dessa vez é Yohji quem se aproxima, ansioso demais para ficar calado. – Quem pediu que fizesse isso?
– FOI O HOMEM DO SONHO! – Ela está cada vez mais apavorada, pois a mão de Aya em seu braço parece queimar sua pele. – Ele me disse que amava o Omi tanto quanto eu... E me pediu pra dizer tudo que sentia...
– E você faz tudo que te pedem em sonho? – O loiro está descrente da história da garota.
– Ele te prometeu algo? – Aya mantém seu tom soturno. – Que você conseguiria ficar com ele... Não é?
– Ele me avisou sobre você... Disse que tentaria me impedir. – Há ressentimento demais em suas palavras. – O homem te odeia e... Disse que te mataria se tentasse impedi-lo.
Yohji a segura pelos cabelos, nervoso com uma história tão absurda que só pode ser a verdade.
– Você quer que acreditemos nessa história de sonho? – Ele quer a verdade, teme cada vez mais por Omi.
– Está dizendo a verdade... Está nos olhos dela. – Aya solta o braço delicado, marcado por seus dedos. – Mas a questão é... Quem está por trás disso?
– Você também está pensando no Schul? – Yohji vem pensando nessa possibilidade desde que a história do sonho surgiu.
– Como era esse homem? – A mão fina se fecha, as unhas quase se enterrando nas palmas. – Por acaso era alto e mais ruivo do que eu?
A garota o observa, ainda mais raivosa com o homem implacável, pensando no que Omi pode ter visto nele.
– Não... Era moreno. – Responde apenas pra terminar logo com esse interrogatório.
– Ken... Me passa aquela foto. – Aya estende a mão na direção do moreno, que a entrega sem demora, o ruivo mostrando-a para a garota. – Esse é o homem?
A moça cai no chão aos prantos, o desespero tomando conta de seu ser, percebendo que ter o Omi é apenas uma ilusão de sua cabeça e jamais poderá tê-lo.
– Sim... Era ele. – Fala sem muita vontade.
– Mas o Schul poderia ter visto ele na mente do Omi... – Yohji não consegue encontrar outra explicação lógica para toda essa história absurda. – E usado isso pra atrair o chibi.
– Pode sim. – O espadachim fica pensativo, seu olhar perdido no vazio. – E se for uma armadilha dos Schwarz... Ele vai cair direitinho.
– Mei... – Ken se senta no chão, ao lado dela. – Onde ele está? Esse homem vai feri- lo.
– Não... Não pode ser. – Ela levanta o rosto molhado.
Aya pára ao lado dela, sua atitude demonstrando mais compaixão por sua tolice do que raiva.
– Ele tem razão. – Novamente os olhos dos dois se encontram. – Por favor... Não posso perder o Omi...
A garota se levanta devagar, ficando diante do ruivo imensamente belo e perigoso, mas neste momento tão frágil e solitário... Ela se aproxima, tocando o rosto de traços finos.
– Ele não me disse... Apenas que era onde se conheceram. – Mei tenta sorrir. – Mas eu conheço o lugar... Passava férias naquela região e cheguei a ver a mansão. Mostro onde fica no mapa.
Os Weiss se afastam momentaneamente dela, Yohji e Aya conversando sobre a melhor forma de enfrentar os arquiinimigos e Ken pegando um mapa para que Mei possa ajudá–los. A moça sorri diante da visão dos rapazes ocupados, mas não é o mesmo sorriso simpático de antes. Sabe que conseguiu seu intento e que logo eles também estarão irremediavelmente perdidos... Para sempre.
ooOoo
O arqueiro observa a mansão a sua frente, as memórias dolorosas de sua infância vindo em uma torrente, o período que passou na dita casa parecendo tão distante, mas ao mesmo tempo próximo demais. A construção antiga e sólida parece não ter mudado, mesmo que tenha sido esquecida pela Kritiker desde aquele dia. As janelas com as persianas fechadas e sujas, algumas quebradas, lhe emprestam a aparência de seu verdadeiro estado de abandono. A porta sólida, ainda forte e pesada, como era quando escapulia a noite para observar as montanhas do precipício próximo, terminando em um majestoso lago de águas escuras. Ali a lua sempre parecia maior e mais bela, sua companheira na solidão que tanto o oprimia.
Ainda lembra da sensação ruim que teve ao chegar pela primeira vez neste lugar, saindo da supervisão da senhora que o criara e passando para o treinamento direto da Kritiker. Decretaram que sua infância terminara e estava pronto para aprender a matar. E era para isso que os rapazes e moças vinham até este lugar, onde os novos agentes eram treinados para servir nos quadros da organização. E em um ambiente de tanta competição, um pequeno prodígio de doze anos não é visto com bons olhos pelos colegas.
Mas se naquele dia a mansão lhe pareceu opressora, agora a sensação é diferente, mais assustadora. O lugar onde a grande casa se encaixa é de rara beleza, a natureza retomando aos poucos o espaço que lhe foi roubado, as montanhas refletindo nas plácidas águas do lago. Só que Omi sente que uma aura escura envolve-a, como se uma névoa a mantivesse no limiar entre o mundo real e o limbo onde estão aqueles que foram esquecidos.
– Dan... Não teria sido mais fácil me encontrar numa lanchonete? – Omi estremece. – Odeio esse lugar.
Sobe a pequena escadaria que leva até o pórtico de entrada, tocando a maçaneta da porta e vendo que está aberta, precisando apenas de um pequeno empurrão para dar-lhe passagem.
– Bom... Espero resolver isso de uma vez e dar o fora logo. – Pensa alto, respirando profundamente para conseguir coragem para entrar.
Adentra o hall amplo, o odor de mofo irritando-lhe imediatamente a garganta, uma sensação de estar sendo observado o incomodando. Sabe que essa impressão é algo criado por sua imaginação, mas nem essa certeza diminui o frio no estômago. Ouve então a música suave vindo dos quartos, no andar de cima. No dia em que chegou ali a primeira vez, ouviu essa mesma melodia, indo na direção dela antes de ir até seu quarto, conhecendo Dan. O homem moreno, com vinte e cinco anos, deitado na cama ouvindo um CD como se fosse um adolescente, mas se levantando de um pulo ao ver o garoto parado na porta.
– Stairway to Heaven... – Omi se recorda do nome da música. – Seus gostos ainda não mudaram...
Sobe a escadaria principal, subindo até os quartos, passando pela pequena porta que leva até o sótão, que foi seu pelo curto tempo em que esteve na mansão. Prefere não voltar lá, as lembranças dolorosas demais para suportar. Lembrando-se sempre dos seus gritos por socorro, a janela aberta e o salto para a morte. Apenas isso lhe sobrou daquela noite, sem nitidez, apagada da memória como fez com a noite em que esteve nas mãos de seus seqüestradores.
"Há coisas que é melhor esquecer!" – Pensa enquanto se afasta da pequena porta e caminha pelo corredor.
A música toca cada vez mais alta conforme se aproxima do quarto que fora de Dan. Depois daquele primeiro dia os dois eram inseparáveis, o homem que perdera todos que amava em um acidente e o garoto que não se recordava de um dia ter sido feliz. E quando não estavam nos treinamentos pesados, exploravam o lugar, encontrando no topo do precipício o seu refúgio... Onde apenas eles se aventuravam a ir.
Pára diante da porta entreaberta, segurando a respiração, como se revivesse o passado. A empurra devagar e lá está ele, de pé diante da janela aberta, a cortina esfarrapada esvoaçando. O homem se volta sorridente, exatamente igual como era, os cabelos desalinhados pelo vento.
– Você veio... – Há uma real emoção em sua voz. – Eu sabia.
– Precisava acabar de uma vez por todas com essa nossa história. – Omi também está emocionado, mas teme a reação dele.
– Na verdade... Você quis ver se eu estava vivo. – Dan se aproxima dele. – Você não me viu depois que pulei daquela janela.
– Isso também. – Ele recua, voltando ao corredor. – Ninguém me disse como você estava...
Dan avança mais um pouco, cada vez mais próximo, cada vez mais assustador, apesar da expressão amigável. Talvez o excesso de amabilidade fosse o mais aterrorizante em suas maneiras.
– Soube que você está apaixonado. – Sorri maldosamente. – E por um homem... Por que foi impossível pra você me amar?
– Você era meu único amigo... Eu o amava. – Sua voz treme ao encostar–se na parede do corredor.
– Não da forma que eu desejava. – Pisca insistentemente, o pequeno cacoete novamente presente, como sempre aparecia ao ficar nervoso. – Você me rejeitou.
– Eu... – A conversa toma um rumo perigoso demais, temendo que cheguem ao ponto que precipitou toda a tragédia.
O homem começa a rir, mudando sua expressão, voltando a parecer amável.
– Mas o passado não nos interessa. – Fica tão próximo do garoto a ponto de sentir o calor de sua respiração ofegante. – O que importa é que você está aqui... E eu ainda te amo.
Omi o empurra com força, fazendo o homem se desequilibrar e cair. Recua ainda mais, ameaçando sair correndo, mas suas pernas não obedecem seu comando.
– Eu ainda não te amo... Só vim pra acabar com tudo... Não quero que continuemos a nos magoar. – Quer se livrar dele de uma vez, mas ao mesmo tempo teme feri-lo como antes. – Você se salvou de uma queda daquelas... Por que não retoma sua vida e encontra alguém que o ame?
Dan levanta e o observa, uma expressão estranha marcando seu rosto comum, não mais com aquela tristeza no olhar, mas algo bem diferente. Mas o quê?
– Omi... Eu não me salvei! – Fala com um sorrisinho macabro nos lábios.
ooOoo
A respiração de Omi ainda está acelerada, o coração batendo forte, a adrenalina em altos níveis, oculto no armário sob a pia da cozinha. Depois da revelação da verdade correu escada abaixo, para apenas constatar que a porta da frente, antes aberta para qualquer um entrar, estava trancada. E enquanto procurava uma janela aberta, andando pela antiga sala de aula e pela biblioteca, a voz de Dan ressoava pelo ambiente, os passos pesados sobre o assoalho de madeira.
– Omi... Por que está fugindo de mim? – O tom sarcástico de sua voz é assustador. – Eu te amo... Não vou feri–lo. Aquela noite... Eu não ia te machucar.
O garoto tenta não fazer qualquer barulho, cada vez mais aterrorizado com a realidade. Sabe que Dan estar morto com certeza deve ser algo que está usando para assustá-lo, mas isso é ruim, a loucura podendo levá-lo a matar.
– Omi... Lembra da letra da música? – Dan parece apreciar esse jogo de gato e rato. – 'Porque você sabe que às vezes as palavras têm duplo sentido'... Eu disse que estava morto de saudades, não disse?
'Stairway to Heaven' começa a tocar novamente, a casa se tornando parte da melodia, cada cômodo repleto do som harmonioso e triste. O arqueiro fecha os olhos, convencendo a si mesmo de que essa conversa de fantasma é impossível, é apenas um engodo de um homem vingativo.
– Ele já mentiu pra mim... Me fez acreditar que era meu amigo. – Sussurra para si, pois precisa ouvir uma voz que não seja de Dan ou do vocalista do Led Zeppelin. – E depois traiu a minha confiança.
"Há algo que sinto
Quando olho para o oeste
E meu espírito chora ao partir
Em meus pensamentos tenho visto
Anéis de fumaça atravessando as árvores
E as vozes daqueles que ficam parados olhando."
– Eu nunca parti. Sabia que um dia você voltaria pra mim. – Há quase que um lamento em suas palavras. – Fiquei ligado ao seu coração, mas... Então notei que tudo mudou de repente. Ele se encheu de sentimentos deliciosos que deveriam ter sido meus, não daquele sujeito!
Omi nota a mudança drástica de tom, uma raiva fazendo a música se tornar mais aguda, o timbre da voz de Robert Plant se modificando, a guitarra de Jimmy Page invadindo cada reentrância da casa e a abalando. Continua de olhos fechados, imaginando como Dan pode ter montado esses truques tão bem, se quando eram amigos, o homem era o pior aluno de todos. Tenta ignorar a música, percebendo que ela é usada para abafar o som dos passos, concentrando-se na madeira do piso rangendo sob o peso do caminhar.
– Fantasmas não têm peso... – Tenta colocar seu pensamento lógico a frente do medo inconsciente que se apossa dele. – Teoricamente fantasmas não têm massa corporal, então não pesam... Que besteira! Fantasmas não existem! Estou me deixando levar... Ele é um homem, de carne e osso.
Pensa em sair de seu esconderijo e enfrentar o ex-amigo, pois é mais esperto e habilidoso do que o sujeito que foi expulso da academia por não ter qualquer talento para servir à Kritiker, mas o ouve entrar na cozinha e desiste.
"E um sussurro avisa que em breve
Se todos entoarmos a canção
O flautista nos levará à razão
E um novo dia irá nascer
Para aqueles que suportarem
E a floresta irá ecoar gargalhadas."
– Você sequer queria me ouvir... Ignorava minhas cartas... Só porque eu abri meu coração e confessei o meu amor. – O lamento é ainda mais triste, passando rapidamente para um tom raivoso e ressentido. – E aquele maldito te conquistou com poucas palavras... Sendo frio e desumano... Na verdade, você não é diferente dos outros... Se apaixonou pelo vencedor.
Omi sente raiva genuína nessa hora, como naquela noite, as lembranças do que sentia na época voltando a sua mente como aconteceu com o seqüestro. Ele ia embora, mas queria que Omi o aceitasse de qualquer jeito...
– Maldito é você, miserável! – Deixa escapar, repreendendo-se logo em seguida.
"Sim, há dois caminhos que você pode seguir
Mas na longa estrada
Há sempre tempo de mudar o caminho que você segue
E isso me faz pensar."
– Mas isso é passado. – Ele parece se animar, seus passos pesados passeando pela cozinha ampla de piso de cerâmica. – Agora você voltou pra mim e... Dessa vez não haverá ninguém entre nós.
O jovem Weiss engole em seco, pois o estado mental do homem é pior do que poderia imaginar. Apenas fica contente ao pensar em como acertou ao evitar que os amigos viessem com ele, assim seria um assunto em que apenas ele e Dan poderiam sair feridos.
"Sua cabeça lateja e não vai parar
Caso você não saiba
O flautista te chama para você se juntar a ele."
– Lembra como eu te dizia que queria ser um agente para ser como o flautista de Hamelin, trazendo todas as almas injustiçadas para se sentirem protegidas? – Novamente o tom macabro forte em sua voz. – Consegui algumas... Mas meu maior triunfo... Vai ser trazer seus amigos e 'ele' para brincarem com a gente.
– O que?! – Um desespero se apossa dele, de forma incontrolável.
Ouve o som de uma flauta e risadas ecoando como se trazidas pelo vento, as janelas da cozinha se abrindo em um estrondo, as panelas dependuradas sobre o fogão balançando e batendo umas contra as outras.
"Que brilha luz branca e quer mostrar
Como tudo ainda vira ouro
E se você ouvir com atenção
A canção irá finalmente chegar a você
Quando todos são um e um é o todo
Ser uma rocha e não rolar."
– Não vou deixar que machuque meus amigos! – Omi sai de seu esconderijo. – Não pense que me engana com esse papo de ser um fantasma.
– Mas eu sou... – A expressão mais inocente no rosto quase sem cor.
– Está usando isso apenas pra me assustar... – O arqueiro deixa claro que não se abala facilmente.
O homem sorri, a melodia da música tocando em um looping, ecoando até nos ossos, fazendo as velhas xícaras e copos vibrarem dentro dos armários de portas de vidro.
– Esqueci que você é um garoto altamente inteligente... Um gênio! – A ironia escorre. – Não se apavora fácil, mas...
De repente ele some no ar, reaparecendo do outro lado da cozinha, exatamente diante do pequeno Weiss, que dá um pulo para trás e se encosta a pia.
– Estou conseguindo? – Ele ri, divertindo-se com o pavor ainda desconfiado do seu amado. – E não pense que é como no desenho do Scooby-Doo, pois não há nenhum projetor holográfico.
– Você... – A face juvenil ainda pálida.
– Querido... Eu já comprei uma escadaria para o paraíso há cinco anos. – Sentencia orgulhoso por ter sido mais teatral e inesperado do que o pequeno prodígio poderia sequer imaginar. – Mas preferi ficar aqui a sua espera.
ooOoo
A noite já está alta quando os Weiss param o carro diante da mansão. Os três ficam alguns minutos observando a construção antiga, que na escuridão parece ainda mais opressiva e obscura, apenas a luz da lua cheia caindo sobre ela, emprestando-lhe um ar sobrenatural.
– Por que sempre vamos pra lugares como esse? – Yohji olha para as gárgulas que disfarçam os escoadouros da calha. – Nunca vamos pra uma praia ou um hotel de luxo.
– Deve ser carma... Só pode. – Ken emenda, engolindo em seco ao pensar em como parece estar diante de uma casa mal-assombrada.
Aya fica em silêncio, uma sensação ruim tomando conta dele, mas não querendo aumentar ainda mais a tensão que percebe nos outros. Seus olhos se voltam para as janelas do andar de cima e, na única aberta, tem a impressão de vislumbrar uma figura humana o encarando, mas que se desvanece logo em seguida.
– Precisamos entrar. – Diz com sua frieza habitual. – O Omi está na casa... Tenho certeza.
Eles sobem a escadaria da entrada, sempre com todos os sentidos alertas, o normal em qualquer missão. Chegam até a porta e notam que está aberta, apenas um pequeno empurrão e poderão entrar.
– Isso está fácil demais. – Ken sente um arrepio na nuca. – Só falta colocar um alvo no meio do peito.
– Precisamos ficar muito atentos, pois os Schwarz podem estar nos esperando. – Yohji até imagina os inimigos rindo da tolice deles terem seguido Omi. – Aqueles malditos não tiram férias!
O líder dos Weiss se coloca a frente, empurrando a porta com a mão, mas sem entrar, esperando uns segundos para que a existência de qualquer armadilha seja revelada. Entra devagar, tirando do sobretudo uma lanterna, observando o hall decadente, repleto de pó e teias de aranha. Os amigos o seguem, não menos cuidadosos, lanternas em punho.
O hall amplo é decorado de forma incomum, quadros de artes marciais, espadas e machados, mais parecendo a sala de armas de alguma caserna do exército, portas que levam a duas salas de aula e a uma grande biblioteca. E tudo isso visto rapidamente de relance e no escuro, emprestando ao local uma impressão de que ali o assunto central sempre fora 'matar'.
– Tem muita coisa que não sabemos sobre o passado do chibi. – Yohji se espanta com o quadro enorme que adorna a parede principal do hall, dois homens lutando, um degolando o outro. – Se eu tivesse crescido num lugar desses estaria num manicômio.
– Ele é mais forte do que podemos pensar. – Aya diz sem olhar para o loiro, mantendo a luz da lanterna na escadaria, tentando decidir o que fazer em seguida.
– Já falei pra vocês que acredito em fantasmas? – Ken sente o arrepio aumentar. – Esse lugar está repleto de energia negativa... Sinto isso.
– Fantasmas não existem... – O espadachim é categórico, tentando mantê-lo calmo.
Parados ali, as lanternas voltando-se para todos os cantos, começam a ouvir um gemido, quase um sussurro que começa a ganhar forma. Tentam definir a origem dele, mas sem sucesso, cientes de que não devem se separar, pois sua força vem de suas habilidades, muito maior quando estão unidas.
– Socorro... – O sussurro torna-se mais audível, formando a palavra desesperada.
– É a voz do Omi! – Ken diz aflito.
– Vem lá de cima... Vamos. – Yohji fala já subindo as escadas, nem notando quando Aya tenta segurá-lo.
Algo dentro do ruivo o alerta, sentindo nesse pedido uma possível armadilha, mas seguindo os dois que já sobem a escada correndo. Apressa o passo para alcançá-los, seguindo por um corredor, luz da lua vindo do final dele, de uma porta entreaberta. A voz do garoto ecoa, parecendo mais forte conforme se aproximam. Yohji pára diante da porta, esperando os outros, pela primeira vez se dando conta que pode ter jogado a todos em um embuste.
– Eu não... – Engole em seco ao ver o olhar reprovador do ruivo ao passar por ele.
– Já que chegamos até aqui... Vamos entrar. – Aya empurra a porta da mesma forma cautelosa, entrando em seguida.
A visão não poderia ser mais estranha, com Omi deitado sobre a cama, parecendo dormir, mas a voz dele continua a soar desesperada por todo o ambiente.
– O que é isso? – Yohji arregala os olhos realmente assustado.
– Nós precisamos sair dessa casa! – Ken fala apavorado, seu arrepio tomando todo o corpo. – Agora!
Aya corre até a cama, tomando o garoto em seus braços e saindo com os amigos do quarto, passando pelo corredor em meio à escuridão, cortada pela luz agitada das lanternas. Descem a escadaria, a voz de Omi se tornando cada vez mais alta, a palavra 'socorro' se tornando uma risada macabra e estridente.
– VOCÊS VÃO MORRER... HAHAHA... – Não mais a voz do chibi, mas uma que não reconhecem.
– Aya... O que é isso? – Yohji tenta manter a calma na desabalada corrida escadaria abaixo. – Não sabia que o Schul podia fazer isso!
– Não é ele! – Ken olha ocasionalmente para trás e acredita ver vislumbres de uma presença, como se alguém os perseguisse.
Ao chegarem à porta, a mão do ruivo toca a maçaneta, mas para sua surpresa nota que está trancada. Insiste, ajeitando melhor Omi junto ao seu peito, mas percebe que estão realmente presos e não sairão tão facilmente dessa ratoeira.
– Aya... Abre logo isso! – Yohji esbarra nele quando chega, olhando assustado para a expressão desanimada do amigo. – Não me diz que está trancada.
– Está trancada. – Por mais que não queira essa é a terrível realidade.
– Eu te pedi pra não me dizer isso. – Ele se desespera, tentando puxá-la com toda a sua força.
– Podemos sair daqui e procurar outra saída? – Ken vê o homem descer devagar a escada, um sorriso vitorioso no rosto pálido. – Ele está vindo.
– Ele quem? – O loiro se volta para olhar. – Não vejo ninguém.
– NÃO DISCUTE COMIGO! – O moreno arrepia-se ainda mais. – VAMOS SAIR DESSA MERDA DE PORTA.
Os Weiss correm mais uma vez, entrando por uma das portas que se abrem para o hall, uma sala ampla, com cadeiras de assentos puídos e um quadro negro em uma das paredes. Escondem-se detrás de uma pilha de caixas, cheias de livros cheirando a mofo. Sentam-se no chão, procurando recuperar a respiração ainda acelerada.
– O que está acontecendo aqui? – O playboy sussurra ainda vermelho.
– Caímos numa armadilha. – Aya acomoda o corpo inerte de Omi no chão. – Só não entendi ainda quem usaria todos esses efeitos sonoros para nos assustar.
– Será que vocês não entendem? – Ken sabe que só há uma explicação, mas que seus amigos se negam a aceitar. – Estamos sendo atacados por um Onryou... Um fantasma em busca de vingança.
– Ora... Ken... – Essa possibilidade parece absurda demais para Yohji.
– Eu o vi... – Fica indignado com a descrença deles. – Não estou ficando louco.
– Seria bom se vocês parassem de discutir... – O espadachim ouve o ruído de alguém caminhando pelo hall. – Não importa quem seja... É alguém muito poderoso.
O arqueiro começa a se mover langorosamente, como se despertasse de um longo sono, os olhos ainda fechados. A atenção deles se volta para o garoto, sem perder a presença cada vez mais próxima. Apenas a lanterna de Aya ainda acesa, disfarçada sob o sobretudo que tirou para a luminosidade não chamar a atenção. O ruivo se curva sobre ele, aproximando o rosto a ponto de sentir a respiração leve e tranqüila, os gemidinhos típicos de quando acorda de manhã lhe trazendo uma sensação boa de que está bem.
– Ahm... Quem... Aya! – O arqueiro ameaça se levantar, mas o ruivo se deita sobre ele, abafando sua voz, jogando o sobretudo sobre si.
Todos ficam em silêncio, os olhos tentando se acostumar com a escuridão, cientes da presença do homem misterioso na sala através do som de seus passos rangendo no assoalho.
– Se atacarmos todos ao mesmo tempo... Podemos rendê-lo. – Yohji sussurra encolhido detrás das caixas, mas com a melhor visão de todos, através de uma brecha entre elas, mas assim mesmo não conseguindo vê-lo, apenas ouvir seus passos.
– Não vai adiantar... Acredita em mim. – Ken insiste, mas sem sucesso.
– Quietos! – Aya ergue a cabeça levemente a fim de silenciá-los.
Quando volta a se colocar sob o sobretudo, seus olhos se encontram com as belas safiras ainda assustadas, abrindo um sorriso quase inconsciente por reencontrar Omi vivo e bem.
– Vou te tirar daqui. – O ruivo sussurra, aproximando-se do ouvido do garoto.
– Não... Não... Ele não vai deixar. – Há um medo real em sua voz.
– Ele pode ser poderoso, mas... – Não se lembra de já ter visto esta expressão nestes olhos acostumados com a morte.
– Aya... Ele está morto... Se matou há muito tempo. – Puxa o rosto bonito para bem perto do seu, olhos nos olhos para demonstrar que está sendo absolutamente sincero. – Ele é esta casa e a casa é ele. Não podemos vencê-lo.
Apesar de Aya ter se tornado uma pessoa prática, que não crê nestas superstições, sabe que Omi não acreditaria em algo com essa certeza sem analisar sob todos os pontos lógicos. E seus orbes brilhantes apenas revelam que estão lidando com algo que não pode ser explicado... Algo sobrenatural. Pensa então na sua avó paterna, nas histórias que lhe contava quando era um garotinho e como custava a dormir temendo que algum desses seres viesse assombrá-lo.
– Os passos... Ele saiu dessa sala. – Yohji suspira aliviado, sacando de seu celular, mas percebendo que não há sinal. – Que droga! Por que essa porcaria não está funcionando?
– É esse lugar... – Ken diz pensando sobre isso. – Deve haver muita energia negativa e interfere nos aparelhos eletrônicos.
– Lá vem você de novo com essa história! – Fica chacoalhando o aparelho de um lado para outro, tentando pegar o sinal novamente.
– Omi... – Aya se levanta, sentando ao lado do garoto ainda deitado no assoalho empoeirado. – Com quem estamos lidando?
Ele hesita, suas histórias do passado guardadas em um local de sua mente que não gosta de revisitar, mas se sente forçado pela situação. Senta-se também, os olhos de todos sobre ele.
– Eu fui mandado para esta mansão quando tinha doze anos... Era uma espécie de academia dos agentes da Kritiker. Dan era um dos alunos... O nome dele é esse. – Olha para eles, mas percebe que os três já sabem dessa informação. – Vejo que leram as cartas.
– Não tivemos outra escolha. – Aya diz um tanto reprovador.
– Ok... Nos tornamos amigos, praticamente inseparáveis, mas um dia ele revelou que me amava. – Pensa em como definir como se sentiu na época. – Eu tive medo... Me afastei.
– Claro... Você era uma criança! – Ken pensa assustado na pedofilia que isso representa. – Quantos anos tinha o cara? Uns trinta?
– Vinte e cinco anos. – Omi não se importava com a diferença quando eram apenas amigos. – Logo começaram as cartas... Todas as noites... Até que ele foi expulso da academia.
– Que feio, Omi! – A voz de Dan ecoa pela sala, como se saísse das paredes. – Falando mal de mim para os seus amiguinhos...
O som estridente de suas palavras, a raiva contida nelas, os alarma, deixando claro que ele sabe onde estão e brinca com eles... Uma brincadeira que pode terminar logo se deixarem-se levar pelo medo, mas pode ser prolongada se mantiverem um mínimo de calma.
– Ken... Você está vendo ele? – Aya começa a pensar em Dan como um Onryou, pois se Omi acredita nisso, ele também.
– Não... – O ex-jogador se levanta um pouco para ter uma visão ampla da sala. – Mas sabe que estamos aqui e está ouvindo o que dizemos.
– Vocês não... Aya... – Yohji não quer crer que isto seja verdade. – Fala sério! Estão realmente dizendo que esse cara é um espírito?
Não há o que dizer, pois a situação responde a todas as suas indagações, o loiro baixando a cabeça e a balançando de um lado para o outro, todas as suas crenças pessoais colocadas a prova, seu materialismo colidindo com a realidade do sobrenatural a sua frente.
– E eu que pensei que morreria nu na cama de alguém... – O playboy se irrita por não encontrar uma saída. – Ainda nem transei com o Ken!
– O que?! – O moreno fica roxo de vergonha, não entendendo se encara essa afirmação como uma proposta ou como o último recurso de um homem desesperado. – E quem disse que eu ia te querer?
Omi se levanta, observando a sala e lembrando-se de quando assistia as aulas de criminologia nesta sala. Olha pela escuridão, estudando o layout do lugar, tentando se lembrar como sair sem passar pelo hall.
– Me sigam. – Diz já caminhando na direção oposta da sala. – Há uma passagem secreta na estante.
Continua...
ooOoo
