Capítulo Um
A paisagem corria a seu lado esquerdo, mas ele parecia não enxergar. Tudo e nada passavam na cabeça de Dean Winchester, que dirigia a uma velocidade incrível. O rock clássico num volume baixo que saía do toca-fitas era o fundo apropriado para se descansar a mente e relaxar atrás do volante.
A música também ajudava Sam Winchester a relaxar, afastando os pesadelos de sua cabeça enquanto dormia. Desde que tinham deixado o motel de beira de estrada, há dois dias atrás, ele e Dean se revezavam dirigindo. Precisavam chegar o mais rápido possível ao destino, em consideração à Ellen, que lhes pedira que passassem por lá para ver o que estava acontecendo.
Dean observou a paz em que seu irmão se encontrava. Dormindo, nem parecia ter aquele gênio difícil e aquela teimosia toda que ele conhecia bem. Sam estava tão irritado ultimamente que qualquer coisa que Dean fizesse era repreensível, e eles acabavam brigando feio. Da última vez, foi uma discussão besta sobre água quente.
Dean simplesmente deixou-o falando, e saiu pela porta, enfiando as malas no carro e dando partida, esperando pacientemente o irmão se juntar a ele, sem dizer palavra alguma. E agora estavam a caminho de uma cidade, para ajudar pessoas de que nunca ouvira falar, por um pedido de Ellen, nessa situação tensa em que se encontravam. Queria ele ter ficado no motel por mais uns dias pra esfriar a cabeça, tirar umas pequenas férias.
"Mas o mal não tira férias, afinal. Por que haveríamos nós de tirar?", pensou ele, enquanto enfiava o pé no acelerador. Sua garota ronronou suavemente e começou a flutuar pela estrada.
Chegaram três horas depois. Sam ainda dormia. Dean estacionou o carro na frente de uma lanchonete e cutucou seu irmão. Sam abriu os olhos devagar, deixando-os se acostumarem com a claridade e tentando se lembrar para onde estavam indo. Endireitou-se lentamente, e fixou os olhos nos de seu irmão.
- É aqui. Ellen disse para nos hospedarmos no Hotel Hummingbird, mas antes de irmos pra lá achei que devêssemos comer e sondar um pouco a história.
Sam apenas balançou a cabeça afirmativamente, e saiu do carro. Dean suspirou e abriu a porta, saindo também. Entraram na lanchonete movimentada, e quase foram atropelados por uma mulher de cabelos ruivos.
- Uou! Desculpem. – ela disse enquanto tentava não deixar os pratos caírem. Largou-os numa mesa próxima à porta – Aqui Sheila, ovos e bacon, com purê de batatas, e panquecas e mel para nossa garotinha favorita. – disse dando um beijo na testa de uma garota loira de olhos claros que lhe sorria abertamente.
- Obrigada Lílian.
- De nada. – voltou-se para os rapazes, que ainda estavam à porta, olhando a cena. – Bom dia, posso ajudá-los?
- Só viemos tomar café – Sam se apressou antes que Dean soltasse alguma piadinha sem graça, coisa que ele já estava a meio caminho de fazer.
- Ok, sigam-me. – ela os conduziu zigue-zagueando pelas mesas que enchiam o lugar, até chegarem próximos de uma vazia, perto da janela, que lhes deixava com uma vista panorâmica da cidade – Sente-se e escolham. Eu volto já. – ela disse entregando os cardápios, assim que se sentaram.
- Que gata! – Dean falou, sorrindo. Sorriso que desapareceu quando viu a cara de bravo que seu irmão fazia – Ah, qual é, Sammy, vai ficar brigado comigo por quanto tempo? Já disse que não fiz por mal. Só fiquei no banho um tempinho maior do que devia, mas nada grave o suficiente pra você ficar mal-humorado assim.
- Você acabou com a água quente! Não acha isso motivo suficiente?
- Não. – ele abanou a cabeça, a sobrancelha esquerda erguida. – Você ta parecendo mais com uma mulher a cada dia que passa – e mergulhou a cabeça no cardápio.
Sam bufou e enfiou o próprio nariz no cardápio, ignorando por completo o irmão. Após uns minutinhos, Dean abaixou o seu e ficou olhando Sam, com uma cara de cachorro caído do caminhão de mudança, sem saber exatamente o que fazer.
- Sam... – ignorado completamente, falou mais alto - Sam! – quando não recebeu resposta novamente puxou o cardápio do irmão em direção ao tampo da mesa – Me desculpe. Não foi de propósito.
- Eu sei. Está tudo bem. – Sam respondeu, cansado.
- Realmente, você é uma mulherzinha!
- Idiota.
- Puto!
Os dois sorriram, e voltaram os olhos ao cardápio.
- E aí, vai comer o que? – Sam quebrou o silêncio.
- Acho que panquecas, e você?
- Café e torta de maçã.
- Só isso? – a garota chegara tão de mansinho que os garotos nem perceberam sua presença. Só acenaram com a cabeça – Nada de café pra você, bonitinho? – disse se dirigindo a Dean, que abriu um sorriso gigante.
- Claro.
- Então, o que fazem na cidade? Turistas? – ela colocou o bloquinho que anotara os pedidos dentro de um bolso no jeans e tirou um paninho do bolso do avental.
- Tão óbvio assim? – Dean sorriu, baixando os olhos para o corpo da garota.
- Nunca vi vocês por aqui, por isso perguntei.
- Sim, somos turistas. Só passando. – Sam respondeu, enquanto dava um chute por baixo da mesa em Dean, para que ele parasse de tentar olhar o traseiro da garota enquanto ela limpava a mesa.
- Ai! – Dean fez cara feia pra ele.
- São irmãos, certo? – ela parou olhando de um para o outro.
- Como sabe? – Sam perguntou.
- A cena me é vagamente familiar... – ela sorriu – Eu já volto com seus pedidos, rapazes.
E saiu. Dean acompanhou todo o trajeto dela até a cozinha, parecendo um cachorro babando pelo rebolado da ruiva.
- Você viu que corpo? – os olhos brilhavam de malícia – Acho que a gente poderia passar uns dias a mais nessa cidade, aproveitar o ambiente calmo, conhecer gente nova, o que acha, Sammy? Bem que precisamos de férias.
- Você não presta mesmo.
À tarde foram dar uma investigada pela cidade. Falaram com o cara do mercado, e o dono da padaria local, para pegar mais detalhes do caso, mas nada de importante. A vítima, doutor Rick Conrad, era o médico local, foi encontrado morto na manhã de terça-feira pela enfermeira que trabalhava com ele, há dois dias atrás. Os policiais disseram que morreu asfixiado, mas não parecia ter sido estrangulado, e nem apresentava nenhuma marca.
A noite chegou e os garotos foram até o Hotel, alugar um quarto para poderem repousar e discutir mais sobre o caso. Estacionaram o carro na rua, logo em frente a uma casa de três andares, de madeira, que parecia um grande chalé. Caminharam até chegarem à escada de pedras, cujos cinco degraus levavam à varanda. As portas duplas eram de madeira escura, e os puxadores dourados. Uma delas estava entreaberta e os rapazes entraram.
Logo no lobby ficaram espantados com o ambiente aconchegante. Um tapete vermelho escuro cobria o chão quase por inteiro, alguns sofás e poltronas de couro estavam espalhados pelo grande salão, e atrás da bancada de madeira logo à frente, uma garota loira estava de costas, mexendo em uns papéis.
Aproximaram-se e pigarrearam. A garota virou-se, assustada, revelando olhos de um azul profundo. Sam parou de respirar por um momento, e seus olhos se analisaram longamente, até que Dean interveio.
- Queremos um quarto, por favor. Camas separadas.
- Oh, sim, claro. Nome e identidade, por favor.
Dean tirou da carteira os documentos falsos e os entregou à moça, que deu um sorriso na direção de Sam, e começou a digitar no computador. Logo que terminou o cadastro, deu uns papéis para Dean assinar e lhes entregou as chaves.
- Quarto 12, subindo a escada, segunda porta à esquerda. Se tiverem problemas em achar, é só chamar. E podem deixar as malas, eu já mando alguém levá-las lá pra cima.
- Não será necessário. Não estão pesadas. – Sam sorriu-lhe, e Dean ficou olhando de um para o outro.
- Ok, Romeu. Vamos subir.
Sam olhou feio para o irmão e sorriu sem graça para a garota. Subiram a escada de madeira e acharam logo a porta. O quarto era decorado com bom gosto também. Um tapete azul demarcava a pequena sala, abrigando uma mesa de centro, poltronas e um sofá sobre si. Mais ao fundo uma pequena mesa para refeições com duas cadeiras estofadas e um vaso baixo branco com flores amarelas. As duas camas eram grandes e cobertas por um cobre leito azul-mar, e uns quadros abstratos com cores vivas davam ao ambiente um ar descontraído. Uma porta branca levava ao banheiro num tom calmo de azul, que continha um espelho bem grande e duas pias de mármore branco.
- Legal. O melhor lugar que já ficamos, com certeza. – Dean falou, voltando para o quarto e se jogando na cama.
- Por que será que Ellen pediu especificamente pra nós virmos aqui?
- Sei lá. Talvez conheça o dono.
- É, talvez. – Sam pensou novamente na loira lá embaixo. Já não vira aquele sorriso antes?
- Hey, bonitinha a loirinha. Será que ela tem uma irmã? – Dean comentou, debochado.
- Pare. Vamos nos focar no caso.
- Ah, você precisa relaxar Sammy. – Dean levantou e foi até a porta – E eu preciso comer. Você vem?
Balançando a cabeça, Sam o seguiu até lá embaixo. Não havia ninguém atrás do balcão de madeira, então eles passaram por um portal logo ao lado, que levava à sala de jantar. Uma mesa grande de madeira estava ao centro, com uma toalha branca e vários pratos espalhados por ela. Algumas pequenas mesas também se encontravam espalhadas pela sala, também cobertas por toalhas brancas, mas decoradas com vasos, e não com pratos. Umas cinco pessoas estavam sentadas na grande mesa, e uma delas, uma senhora negra sorriu-lhes e acenou para que se juntassem a eles.
- Hoje nós temos companhia! – exclamou ela para a outra senhora de cabelos acinzentados ao lado – Veja Clarisse, como são bonitos! Sentem-se, sentem-se! Rose e Cathy já trarão a comida.
Os garotos sentaram-se à mesa, em frente às duas senhoras, que lhes bombardearam de perguntas. De onde vinham, quem eram, o que faziam ali na cidade, se eram solteiros...
- Sabe, aqui moram duas meninas muito bonitas. Não sei se já viram as duas. Uma é a Cathy, nosso pequeno tesouro dourado.
- Sim, já tivemos o prazer de conhecê-la, não é, Sam? – Dean o olhou malicioso.
- As duas estão solteiras, sabem? – Clarisse se pronunciou finalmente, piscando aos garotos.
- Agora, parem, as duas! Clarisse e Mary, onde já se viu? Não queremos que os rapazes fujam pela janela, não é mesmo? – uma outra senhora, morena, gordinha e com olhos e cabelos negros brilhantes apareceu trazendo uma panela grande com duas luvas térmicas. – Desculpem, queridos, essas duas ficam animadinhas quando aparecem pessoas novas.
Depositou a panela e se sentou, enquanto a loira, Cathy, e um rapaz traziam bandejas com panelas menores e cestas de pão. Comeram macarrão ao molho sugo e carne assada, com batatas douradas e suculentas, tudo regado a um molho de ervas que nunca tinham provado antes. Os pequenos pães de alho ficaram na mesa após o jantar, quando foi servido café e chá para a digestão, junto com pedaços de bolo de cenoura e fubá e geléia de morango.
Voltaram para o quarto se arrastando de tanta comida que tinham enfiado garganta abaixo. Voltaram trazendo informações sobre o caso também, e sobre as pessoas que ali moravam. Conheciam bem o Doutor Rick e nunca tinham ouvido falar de nenhum inimigo, ou ninguém que pudesse querer o mal dele. Era um homem respeitável, solteiro, que só tinha como companhia as pessoas da cidade. Principalmente as que freqüentavam o bar – lugar que ele ia toda noite após o expediente, e onde ocasionalmente jantava com o dono, Pete.
- Uh, eu to cheio! – Dean se jogou na cama, batendo a mão na barriga levemente estufada. – Acho que nunca comi algo tão gostoso na minha vida! – Se calou durante alguns minutos, os olhos fechados. – Acho que já vou dormir. Amanhã a gente checa isso do bar, e vamos falar com a enfermeira também.
- Tudo bem.
- Café da manhã naquela lanchonete de novo?
- Quer ver se encontra a ruiva novamente? – Sam sorriu.
- Claro. Ela era deliciosa.
- Boa noite, Dean. – Sam virou para o outro lado e se cobriu.
- Noite, Sam. – Dean sorriu, satisfeito, olhando pela janela do quarto a lua, lá fora.
