Capítulo Dois

No outro dia voltaram na lanchonete pela hora do almoço, mas nem sinal da ruiva, o que fez Dean fechar a cara o dia todo. Foram até a casa da enfermeira à tarde, mas não ficaram sabendo nada de mais. Rick tinha se formado na Universidade de Minnesota, e voltado para Roseville, para exercer a profissão. Morava numa casa a algumas quadras do escritório, e sempre caminhava a pé até ela. Sempre ficava mais tarde mexendo em papéis, relatórios, ou simplesmente lendo velhas anotações ou revistas médicas. Saía, ia para o bar, e depois pra casa. Essa era sua rotina.

Quando anoiteceu, os rapazes foram para o bar encontrar Pete e sondar por mais informações. Entraram no ambiente escuro, iluminado fracamente por luzes amarelas e azuis. Um palco estava logo na parede oposta à entrada, e uma banda tocava alguma música country antiga. Casais dançavam na pista logo à frente, e outros simplesmente balançavam a cabeça ou os pés sentados nas mesas espalhadas pelo salão. Do lado esquerdo estava o bar, apinhado de gente, para onde os rapazes se dirigiram, arrumando um lugar para se sentarem.

Um só homem servia as pessoas que bradavam e agitavam os copos para ele, chamando: Pete! Pete! Os rapazes acenaram, e Pete sinalizou que já estava indo. Terminou de servir um freguês e foi até eles.

- O que vão querer rapazes?

- Duas cervejas e informações – disse Dean mostrando a identidade de policial falsa.

- Investigando o caso do doutor, hã?

- Sim, o que pode nos dizer sobre ele? – Sam perguntou, calmamente.

- Só o que já disse algumas vezes. O cara era honesto, gente boa, nunca fez nenhum erro de diagnóstico, nem nada ilegal. Era um profissional sério e uma pessoa bondosa, que foi atacado por um maníaco qualquer, sem miolos.

- Ficamos sabendo que ele vinha aqui toda noite.

- Sim, vinha. Era um cara solitário, então encostava aqui no bar, bebia uma cerveja ou um uísque, conversava um pouco comigo, ou às vezes com Lil, e ia embora. Pagava também, antes que perguntem.

- Lil? Quem é Lil?

- Ela já deve estar chegando. Já está atrasada, na verdade.

Nesse momento, uma porta escondida por uma cortina se abriu, e de dentro dela saiu a garota ruiva que Dean vira na lanchonete. Já não vestia uniforme nenhum, apenas uma calça jeans escura justa, e uma blusinha azul celeste, que deixava um pouco da pele branca de fora. O decote generoso por vezes mostrava o sutiã preto que estava escondido, e os cabelos ruivos estavam presos por um elástico.

- Desculpa o atraso, Pete, fiquei presa e... – ela olhou os rapazes. – Hey, turistas! Que fazem aqui?

- São tiras, Lil, e estão fazendo perguntas sobre o doutor.

- Ah – o sorriso dela desapareceu – Era um homem muito bom, o Rick. Excelente pessoa mesmo. Vinha aqui todos os dias, tomava uma cerveja, conversava, e ia embora.

- Vocês sabem se ele tinha algum inimigo? Alguém que não gostasse dele?

- Não, todos amavam Rick. Ele era um excelente médico, bom amigo, ótimo cozinheiro e um exímio carpinteiro. Quase um faz-tudo, na verdade. Ajudava todos por aqui. Até construiu um berço para o bebê de Michelle, quando ele nasceu. – os olhos dela brilharam pelas lembranças que afloravam.

- Eram bem próximos, pelo jeito. – Dean soou um pouco malicioso demais, e o tempo fechou rapidamente, antes mesmo que pudesse saber como aquela frieza toda foi parar no olhar da moça.

- Era como um pai pra mim, e se já terminaram aqui, preciso trabalhar. – e saiu antes mesmo de eles poderem balbuciar qualquer coisa.

- Não devia ter insinuado nada. – Pete resmungou.

- Desculpe, ele não teve intenção. – Sam cortou Dean antes que este tentasse se desculpar de um jeito desastroso – Ele não é muito bom com as palavras.

- É, bem... Se quiserem saber mais alguma coisa, me procurem depois. Agora eu tenho de trabalhar, nos finais de semana esse lugar lota.

- Obrigado.

Voltaram para o hotel. Cathy e Zack, o cara que trabalhava ali, estavam na recepção quando chegaram. Riam de alguma coisa e Cathy estava um tanto vermelha.

- Falando no diabo... – Zack riu, olhando Sam.

Cathy deu um cutucão e ficou mais vermelha ainda. Os dois encostaram-se ao balcão e perguntaram sobre o doutor.

- O que são vocês? Investigadores?

- Não, só curiosos. – Dean sorriu.

- Ninguém é tão curioso assim... Principalmente quando perguntam sobre coisas do passado e fatos estranhos. Parecem até que estão procurando um fantasma.

Cathy olhou severamente para Zack, que sustentou o olhar que Dean lançava para ele, aborrecido.

- Bem, na verdade estamos. Ouvimos boatos sobre a morte do doutor, e viemos aqui averiguar. Somos... é... jornalistas.

- Jornalistas? – Cathy perguntou desconfiada, enquanto Sam olhava para Dean de forma estranha também.

- É. Jornalistas. Estamos trabalhando em artigos sobre mortes violentas. As pessoas sempre acreditam que espíritos estejam por trás de coisas assim.

- Se estão atrás de fantasmas, acho melhor conversarem com Patrick. Ele é um dos jornalistas locais, e vive procurando informações de fantasmas, aparições e coisas desse tipo.

- E onde esse Patrick vive? – Dean perguntou interessado.

- Ah, fica um pouco longe daqui, perto da clínica do doutor Rick. Mas numa hora dessas, ele deve estar no bar, enchendo a cara, e tentando flertar com a Lil. – Zack riu bem alto – Aquele lá não desiste nunca, não é, Cathy?

- Chega Zack. Vamos lá pra dentro ajudar tia Rose com as coisas. Boa noite, rapazes.

- Boa noite. – os dois disseram em uníssono.

Subiram as escadas e entraram no quarto. Enquanto Dean se dirigia ao banheiro, para escovar os dentes e se trocar, Sam especulava:

- O que você acha desse Patrick? Procurando informações sobre aparições, fantasmas...? Parece que tem medo de alguma coisa.

- Será que ele está envolvido? – Dean saiu do banheiro, falando com a boca cheia de pasta. Sam fez uma careta.

- Pode ser. Nunca se sabe, não é mesmo?

- Uhm... – Dean voltou ao banheiro, enxaguou a boca e foi pra cama. – Amanhã a gente vê isso. Noite, Sammy.

- Hey, Dean? – o mais velho olhou-o – Parece que vai ter uma concorrência bem grande em relação à Lil, ham?

Sam gostava de provocar, de vez em quando. Às vezes intencionalmente, outras, de forma ingênua.

- Eu consigo quem eu quero, na hora que eu quiser, Sammy. Se tivesse aprendido alguma coisa com seu irmãozinho aqui, há essa hora estava no quarto da sua loirinha querida, e não me enchendo o saco!

- Ah, vai pro inferno! – tacou um travesseiro no irmão e virou-se pro outro lado, aborrecido.