Capítulo Três
- Mas de novo! – Zack exclamou – A gente já falou tudo o que podia pra vocês. Não conhecíamos tão bem o doutor. – Rose gritou pelo nome de Zack e ele foi correndo, deixando os garotos sozinhos, com Cathy.
- Minha irmã conhecia bem o Rick, ela pode falar com vocês quando chegar. Ele já fez uns trabalhos manuais aqui pra gente, sabem? Pequenos consertos, carpintaria...
- Eles parecem bem... ligados. – completou Dean cautelosamente, quando recebeu uma olhada feia do irmão.
- É, bem, ele ajudou muito quando começamos a montar esse negócio. – os garotos olharam-na espantados – O hotel é nosso, meu e da minha irmã. Mudamos pra cá já faz uns anos, e ela comprou isso aqui, reformou e desde então vivemos dele. Achei que soubessem. – os garotos balançaram a cabeça – Somos só eu e ela. Mas recebemos ajuda de todos da cidade. A começar pelo doutor Rick. Ele achava minha irmã muito parecida com uma garota que ele tinha conhecido há uns anos atrás, e ele a ajudava em tudo, ensinava um monte de coisas. Foi quase um pai pra ela.
- E pra você não? – Dean levou um cutucão tão forte no estômago, que teve que se curvar ligeiramente.
- Desculpa, o Dean aqui, ele não é muito sensível. Não precisa responder.
- Não, tudo bem. Não é nada doloroso falar nisso. Eu não o conhecia muito bem. Ele vinha aqui em casa e ficava o tempo todo com minha irmã ou com tia Rose. Conversávamos, nos cumprimentávamos, ele fazia gracinhas, me chamava de criança, então, eu nunca gostei realmente dele. Alguma coisa não parecia certa.
- Tipo o quê?
- Não sei. Simplesmente... ele me assustava às vezes. Ele era um cara legal, nunca destratou ninguém, mas eu me sentia estranha quando ficava perto dele. Era como se ele tivesse feito alguma coisa horrível, mas que eu não soubesse o quê.
Dean e Sam trocaram olhares nervosos. Cathy parecia absorta em pensamentos, tão absorta que nem reparou que os irmãos travavam uma batalha silenciosa ali na sua frente, para lhe fazerem perguntas mais íntimas. Sam acabou por perguntar:
- Cathy, o que aconteceu com seus pais?
- Morreram, há muito tempo atrás.
- E do que exatamente eles morreram? – Dean perguntou, com a voz mais doce que conseguiu fazer.
Cathy olhou os dois estranhamente. Apertou os olhos. E quando abriu a boca pra dizer qualquer coisa que fosse, Rose a chamou e ela caminhou em direção à porta, desculpando-se com os rapazes.
- Muito bem, Dean. – Sam rosnou.
- O que? Eu tinha que perguntar. A menina parece ser sensitiva, os pais morreram há muito tempo... não lembra nada, Sammy?
- Mas não precisava perguntar tão diretamente assim!
- Ahh! – Dean resmungou e subiu para o quarto, seguido de perto por Sam.
Lá em cima puseram-se a pesquisar nos jornais e na Internet mais informações. Visitariam o jornalista mais tarde, um pouco antes de o jornal fechar. Tinham esperança de pegá-lo sozinho, como Cathy disse que ele ficava todo dia, antes de se dirigir ao bar.
Ouviram uma batida na porta.
- Quem é? – Dean gritou de lá de dentro.
- A irmã de Cathy, ela disse que vocês queriam falar comigo. – ouviu-se uma voz abafada do lado de fora da porta.
- Ah, claro, só um minuto. – eles esconderam como puderam os papéis. Sam fechou o computador, antes de Dean finalmente falar - Pode entrar.
- Desculpem incomodar, mas... – Dean quase caiu pra trás ao ver a ruiva entrando pela porta. Quantas profissões aquela pessoa possuía? – Mas o que...?
- Você é a irmã da Cathy? – Sam perguntou, e recebeu uma olhada maliciosa de Dean.
- Sim, sou. Mas ela me disse que vocês eram jornalistas... – seu semblante fechou, e ela encostou a porta, ficando na frente dela, de braços cruzados. – O que está acontecendo aqui? Quem são vocês? E o que querem com a gente?
- Nós somos jornalistas...
- E policiais? – ela arqueou a sobrancelha.
- Jornalistas investigadores, por assim dizer. – Dean colocou o sorriso mais cara-de-pau que possuía.
Lil sorriu para eles, e os irmãos respirariam aliviados se ela não tivesse tirado da parte de trás da calça um revólver, e o tivesse engatilhado, mirando, pronta para atirar.
- Boa tentativa, mas não vai colar. Quem são vocês e o que querem?
Dean se mexeu, tentando pegar a arma que tinha colocado embaixo da mesa, mas ela previu seus movimentos, e apontou direto para seu coração. Ele ficou paralisado, enquanto ela mandava Sam sair da mesa, e ficar ao lado do seu irmão, no centro do quarto.
- E então? Quem vai me dizer? – ela apontou a arma para Dean, sustentando o olhar de Sam. – Eu vou atirar se você não contar, garoto. E saiba que ninguém vai achar os corpos de vocês, eu posso garantir isso.
Dean tentou fazer um movimento, mas ela estava atenta a ele, apesar de não desgrudar os olhos de Sam. Este encarou o irmão, num gesto como se dissesse: "Não tem jeito", e começou a contar.
- Nós viemos investigar a morte do doutor Rick, mas não somos policiais, nem jornalistas. Uma amiga aparentemente conhece alguém aqui que lhe pediu ajuda, e ela nos enviou, por assim dizer.
- Ajuda? Que amiga? – ela enrugou a testa, assimilando a história, ainda apontando a arma para o peito de Dean. Sam não queria responder, então ficou quieto. – Que amiga?! – ela repetiu, começando a apertar o gatilho.
- Ellen! O nome dela é Ellen! – Sam gritou.
Ela ainda os olhou por instantes, antes de abaixar a arma. Olhava de um para outro, ainda não acreditando no que via.
- Ellen mandou vocês?
- Você a conhece? – Sam perguntou, enquanto Dean sentava na cadeira, aliviado por ter saído ileso da mira de um revólver.
- Sim, conheço. Cruzamos com ela algumas vezes. – ela travou a arma e guardou-a novamente. – Desculpem por isso, temos que ter cuidado nesse mundo louco em que vivemos.
- Imagina! Estamos acostumados a ser ameaçados de morte por mulheres. – Dean resmungou.
- É... Bem... Desculpem. Meu nome é Lílian, mas todo mundo me conhece por aqui como Lil, como vocês puderam ver no bar.
- Meu nome é Sam Winchester – "Sammy, sempre fazendo o social!", pensou Dean – E este é meu irmão Dean.
- Winchester? – ela pareceu parar de respirar um momento quando Sam balançou a cabeça. – Vocês são filhos de John Winchester?
- Não vai apontar a arma pra gente de novo não, né? – Dean falou com um tom de desespero na voz.
- Não, claro que não! Conheci John. Ele me ajudou uma vez. – ela sorria agora, o que a deixava com o semblante mais leve.
- Com os monstros embaixo da sua cama? – Dean resmungou novamente – Quando aparece alguma coisa sobrenatural, corre chamar socorro? Achei que pra portar uma arma tinha que ter um cérebro, além de boa mira.
Ela estreitou perigosamente os olhos, e ia responder, quando Cathy irrompeu no quarto.
- O que está acontecendo aqui? – Cathy perguntou, lançando um olhar assustado à irmã. – Ouvi gritos lá de baixo.
- Esse panaca é filho do John. – disse se referindo ao mais velho. – E o Sam também.
- Ah, então foram vocês que vieram ajudar? Achei que Ellen tivesse esquecido da gente. – ela pareceu bem animada agora.
- Esquecido da gente? – Lil a olhava curiosa.
- Ah, bem... – Cathy estava sem ação.
- Você ligou pra Ellen? – Quando Cathy não respondeu, falou mais alto - Você ligou pra Ellen?!
- Eu estava preocupada.
- Preocupada com o quê? – Lil agitou as mãos, exasperada. – Você não tinha o direito de incomodar a Ellen com uma coisa tão insignificante...
- Eu estava preocupada com você! – Cathy gritou. – Eu odeio quando você sai pra essas caçadas. E as coisas estão tão bem ultimamente, sem nenhum espírito incomodando...
- Cathy! – Lil pôs as mãos na cintura – Eu não sou uma criança, sei me cuidar!
- Eu sei, mas eu fiquei com medo de que pudesse se machucar...
- Cathy...
- Não! Eu estou cansada disso! – Cathy andava de um lado pro outro, agitada. – Eu só queria que fôssemos normais uma vez que fosse! E você está tão ocupada substituindo a Michelle no restaurante e no bar... Eu fiquei preocupada com você. Por isso pedi ajuda à Ellen. – Lil abriu a boca pra responder, mas Cathy não deixou – Eu tenho medo de algo acontecer com você e eu ficar sozinha de vez.
Lil fechou a boca e fitou os olhos marejados da irmã por um bom tempo, antes de suspirar, resignada.
- Ok, mas não podia ter feito isso sem me avisar. E se ela tivesse mandado o porco do Luke – fez uma careta, desgostosa – Eu não seria capaz de me segurar e descer chumbo nele, em vez de atirar no fantasma, você sabe.
- Sim, eu sei. Desculpe-me não ter avisado. – Cathy olhou para os meninos, que pareciam perdidos ali no meio – E desculpem a ceninha.
- Sem problemas. – Dean riu – Agora eu sei o que você quis dizer com cena familiar...
Lil deu uma risada, mas fechou a cara para Dean novamente.
- Eu ainda não esqueci o que você disse pra mim.
- Mas eles nem chegaram, e você já está brigando com os dois?
- Com os dois, não. Com ele! – e apontou para Dean com o dedo indicador em riste.
- Você não muda mesmo, hein? Sempre esquentada!
- É você, a boazinha da família, já devia ter acostumado. – ela encarou Sam. – Desculpe o transtorno. Eu vou me retirar agora, tomar um banho e descansar... Aqueles bêbados acabaram comigo esta noite. A gente conversa depois, ok?
Deu um beijo na testa da irmã e saiu porta afora. Cathy suspirou e virou-se para Dean:
- Você está bem? Ela não te machucou não, né?
- Não, estou bem.
- Ótimo! – ela ficou mais alegre novamente – Rose está montando a mesa do café, desçam e comam com a gente.
- Claro, nós iremos. – Sam falou.
Ela sorriu abertamente e saiu, quase saltitando. Dean ficou encarando Sam boquiaberto.
- O que foi?
- Como é que podem ser irmãs?
Sam riu. Dean reclamava, sem se dar conta de que os dois também eram bem diferentes.
