Capítulo Quatro
Ao fim da tarde, os dois foram até o jornal procurar por Patrick, mas ele não tinha aparecido no trabalho. Ligara pra falar que estava doente, de manhã. Os rapazes resolveram dar um pulinho na casa dele, só por garantia de que ele ainda tivesse os órgãos inteiros, mas ninguém atendeu. A vizinha avisou que Patrick tinha saído cedo de carro, e eles resolveram voltar ao Hotel.
Cathy estava atrás do balcão com fones no ouvido, dançando ao som de uma música que os garotos não conseguiam identificar, apesar de escutarem o som vindo do aparelho, tão alto que estava. Ficaram olhando a garota se mexendo, Dean lançando olhares maliciosos e levantadas de sobrancelha a Sam, que simplesmente girava os olhos.
Até que ela os viu e ficou vermelha. Tirou os fones e os encarou, com aqueles olhos azuis brilhantes.
- Oi, já voltaram?
- Ele não estava – Sam falou, se aproximando.
- Não? – ela se espantou – Isso é novo. Lil anda preocupada, apesar de não gostar muito dele.
- Ah é? E por quê? – Dean se aproximou também, curioso.
- Ela diz que ele é um porco. – Cathy riu com malícia – Ultimamente todo homem é um porco pra ela, menos o Matt, claro.
- Quem é Matt? – Dean sentiu uma fisgada no estômago.
- O cara que trabalha no bar do Pete como garçom. Acho que ela tem uma quedinha por ele, apesar de nunca me confessar e querer me matar toda vez que eu trago o assunto à tona.
- Onde ela está? Quero falar com ela.
- Ah, Dean, nem sei. Ela disse que ia descansar, e até agora não levantou. – Cathy franziu o cenho – Vamos ver. – saiu de trás do balcão e subiu as escadas, acompanhada pelos irmãos.
No terceiro andar, seguiram até o fim do corredor e Cathy bateu na antepenúltima porta lilás, que nada condizia com o resto do lugar. Cathy insistiu, mas não ouviu nenhum ruído, então ela entrou. Os rapazes ficaram chocados com o lugar. As paredes eram salmão, e a parede onde a cama estava encostada era de um vermelho intenso. A cama era de madeira também avermelhada, e um corpo estava todo largado por cima dela, coberto por um lençol branco. Lílian dormia de bruços, abraçada a um travesseiro, os olhos fechados e a respiração calma. Cathy chegou na irmã e a balançou gentilmente, chamando seu nome quase num sopro.
Os olhos castanhos se abriram devagar, acostumando-se à claridade. Respirando profundamente, ela virou-se e olhou a irmã, sorrindo.
- Já é a hora do jantar?
- Não. Ainda não chegamos nem ao fim da tarde,
- Ah, então me deixa dormir, Cathy. – resmungou ela se virando novamente em direção ao travesseiro. – Eu estava tendo um sonho tão bom...
- Com o Matt?
- Deus! Você precisa parar de implicar com ele. É só um amigo, como tantos outros são, e como tantos outros vão ser. Agora me deixa em paz, e vai fazer alguma coisa de útil lá embaixo.
- Os meninos querem falar com você. – ela deu uma risadinha – Bem, o Dean pelo menos quer. – e ela piscou para Sam, que riu da cara do irmão mais velho.
- É bom que seja a respeito da cura definitiva da Aids, porque eu não saio da cama por menos do que isso. – ela resmungou, abraçando fortemente o travesseiro.
- Na verdade, é sobre o espírito. – Dean chegou mais perto da cama, as mãos no bolso.
- Ah droga, não dá pra ser depois? Eu nem comi ainda e já quer deixar o meu estômago inoperante? – ela o olhou, manhosa.
- Vai, Lil, levanta. Eu vou descer e ajudar a Rose com o café da tarde. Levanta e fala com ele. – ela levantou da cama e puxou Sam pra fora do quarto, fechando a porta atrás de si, sorrindo alegremente.
Sam apenas a seguiu, rindo. Aquela garota ainda ia dar o que falar.
- E aí, o que quer? – ela sentou-se na cama, esfregando os olhos. O cabelo todo desalinhado tirou a concentração de Dean por um instante. Ela estava mais bonita ainda do que quando a vira de manhã. Ele só queria que estivesse desalinhada daquele jeito por causa dele, e não por ter dormido a tarde inteira.
- Bem... – ele sorriu malicioso, e recebeu um travesseiro na cara. – Hey! Eu estava só brincando.
Ela sorriu, analisando o rosto à sua frente. Correu os olhos pelo cabelo loiro bagunçado, os olhos verdes, o nariz bem feitinho, e os lábios deliciosamente rosados. Desceu para o pescoço, adornado por um cordão preto. Afastou as vontades que aquele rosto despertou, e olhou para o relógio na mesa-de-cabeceira. Gemeu de raiva por não ter dormido quase nada e levantou-se, jogando as cobertas para o lado.
- E então? O que é tão importante que não pôde esperar eu acordar? – ela foi até o guarda-roupa.
Mas Dean não prestava atenção em mais nada, somente em uma coisa: o corpo perfeitamente trabalhado da moça à sua frente, que mexia em alguns cabides, procurando a roupa certa para passar o fim de tarde.
- Já pode parar de babar e responder. – ela virou, rindo de forma debochada, que o fez voltar à realidade na hora.
- Não se empolgue, não é assim tão bonita. – mentiu ele, descaradamente – Eu queria perguntar sobre o espírito. Por acaso você sabe a história por trás de tudo isso?
- Algumas coisas. Pesquisei assim que Rick morreu. – ela foi até o banheiro com uma muda de roupa na mão, fechou a porta e continuou a falar - Dias antes de sua morte, ele recebeu a notícia de que um amigo havia morrido em Nova York. Ficou estranho a partir dali, não falava coisa com coisa. Três dias depois, estava morto.
- Que amigo era esse? – ele franziu a testa.
- Um escritor... – ela saiu do banheiro vestindo uma calça jeans e uma blusinha preta justa - de histórias de terror. Conheceram-se na faculdade. Estudaram ao mesmo tempo, só que cursos diferentes. Um jornalismo, outro Medicina, mas eram bem amigos. Descobri também que uma menina desapareceu na época em que eles estudavam na Universidade de Minnesota. Meu palpite? Alguma coisa muito errada aconteceu e envolvia essa menina, e agora eles estão mortos.
- Como sabe que tem ligação com essa menina?
- Ahn... – ela retirou um papel da gaveta do criado mudo e entregou pra ele, sentando-se ao seu lado – Encontrei isso em sua casa, quando fui lá investigar.
Era um pedaço de papel, arrancado de um diário talvez. Dean leu: "É preocupante para um médico formado se deparar com a fantástica conclusão de que enlouqueceu. É mais preocupante ainda saber que tem visões com coisas que deviam ter ficado para trás, no passado longínquo de sua vida como estudante. Incrível como a idade prejudica o cérebro. O mais engraçado é que sou perfeitamente saudável. Como eu queria ter feito as coisas diferentes... Como queria que aquilo não tivesse acontecido. Agora eu a vejo em todo lugar, com seu cabelo escuro ondulado e seu vestido branco, onde quer que eu vá... Será que Patrick tem razão, afinal? Espíritos existem realmente, e estão entre nós? Não cabe a mim julgar isso. Se eles existem, só queria ter uma oportunidade de lhe pedir perdão pelo mal que lhe fiz. Se pudesse, consertaria tudo, mas a tecnologia não nos contemplou com um carro parecido com o que o jovem McFly dirigia."
- McFly? – Dean olhou intrigado.
- De volta para o futuro? Nunca assistiu a esse filme?
- Não. – ela o olhou, boquiaberta.
- Cara, em que planeta você vive?
Desceram e encontraram os outros já à mesa, comendo. Sentaram-se e Lil começou a conversar com todos gentilmente. Os olhos castanhos pareciam cansados, mas aparentava entusiasmo enquanto respondia as perguntas de todos. Dean ficou observando seus movimentos, enquanto mastigava um pãozinho. "Ela é diferente de todas as garotas que já conheci", pensou, "é forte e determinada. Queria saber como foi que ela conheceu meu pai."
Sam observava o irmão e recebia olhares significativos de Cathy, que sorria, enquanto passava geléia em um pedaço de bolo. Ficaram nisso até umas cinco da tarde, quando todos levantaram e saíram, cada um tomando um rumo. Cathy e Lil foram para a cozinha, assim como Rose, e os garotos as seguiram.
Era o único cômodo que não parecia pertencer à atmosfera acolhedora do resto da casa. Era toda moderna e prateada, com balcões de madeira branca e mármore negro. Moderna demais.
- Nossa! – Dean falou – Eu não entendo muito de decoração, mas isso aqui não parece combinar com o resto do hotel.
- Bem, não dá pra cozinhar direito só usando forno a lenha. Quer dizer, Rose consegue – e lançou um sorriso à senhora, que o retribuiu – Mas eu não. Acho que é complexo nova-iorquino.
- Nova-iorquino? – Sam repetiu, levantando as sobrancelhas.
- Sim, viemos de lá. – Lil falava enquanto colocava as travessas e pratos na pia e ligava a torneira. – Nova York, a cidade que nunca dorme. – e deu um suspiro profundo, saudoso.
- Nossa, eu nunca imaginaria... – Dean comentou, espantado. – E por que sair de lá e vir parar em uma cidadezinha tão pequena?
Um copo tilintou e se espatifou. Lil soltou um palavrão quando cacos de vidro cortaram sua mão, e começou a procurar um pano pra limpar o sangue. Cathy veio em seu socorro, com um pequeno lenço, que ela enrolou no corte para que parasse de sangrar. Ela olhou cuidadosamente para a irmã, que balançou minimamente a cabeça.
- Desculpa, não deveria ter perguntado. – respondeu Dean, sacando o clima estranho que ficou no ar. Olhou para Sam – Acho que é melhor irmos até a casa do jornalista, ver o que conseguimos, hã?
- É melhor esperarem por mim. Aquele imbecil não vai querer falar com vocês, e eu tenho a arma certa para fazê-lo falar.
- O quê? Uma espingarda? Metralhadora, talvez? – Dean riu, debochando.
- Não. Cromossomo X.
