Capítulo Cinco
Patrick Cary estava lendo avidamente um livro sobre aparições fantasmagóricas quando escutou batidas em sua porta. Deu um pulo da cadeira com o susto que levou, resmungou qualquer coisa e se levantou, indo até ela.
Abriu, mas não havia ninguém. Olhou para os dois lados, deu um passo para frente e olhou além da cerca de sua casa, mas ninguém o cumprimentou ou se pronunciou. Então ele a fechou novamente.
Voltou a sentar-se no sofá, pegando o livro. Virou a página e ouviu barulho de passos. Tirou os olhos do livro e prestou atenção. Nenhum ruído. Será que estava ficando louco? Levantou-se e foi até a cozinha, de onde o barulho parecia ter vindo.
Então ele viu: na janela da porta dos fundos uma garota, de cabelos negros e olhos vermelhos, o encarava, fazendo-o arrepiar-se todo. Correu para pegar uma faca, mas quando se virou novamente para a porta, não havia ninguém.
O seu peito subia e descia rapidamente, como se tivesse corrido uma maratona. O coração acelerado, como um piloto de fórmula um. Olhou para os lados, desesperado, mas não via nada. Correu até a porta e a trancou. Voltou para a sala lentamente e deu de cara com ela. Estava parada no meio do cômodo com o vestido branco balançando e os olhos brilhando com um ódio tão palpável que o fez sentir um calor repentino. Gritou e correu em direção ao escritório. Não foi tão rápido.
Ela o jogou em direção ao sofá e começou a andar lentamente em sua direção, enquanto ele gritava e tentava se soltar da força estranha que o impelia ao chão. Os olhos arregalados imploravam por misericórdia, mas ela não parecia disposta a atendê-los. Os dedos dele tentavam pegar a faca jogada a poucos metros, mas não conseguia, estava longe demais.
Ela se aproximava, cada vez mais perto. Mais alguns passos e seria o fim. Ela inclinou-se em direção a ele com a mão direita esticada quase encostada em seu peito, quando a porta abriu-se bruscamente e Dean Winchester deu um tiro no fantasma, que evaporou no ar.
O corpo de Patrick relaxou, e aquele peso saiu de cima dele. Ele arfava quando Lil chegou, e, de tão assustado, nem percebeu que ela ficava repetindo a mesma pergunta a ele.
- Sim, estou bem. – ele olhou os rapazes, admirado – Quem são vocês?
- Batman e Robin – Dean disse, mirando o cano da arma para todos os lados, procurando o espírito. – Viemos salvar seu dia.
- São dois amigos meus. – ela respondeu quando ele olhou-a, assustado – Patrick, quem era aquela moça?
- Não sei. Ela simplesmente apareceu aqui e...
- Patrick, sem mentiras aqui. Sua vida está em risco, e nós só poderemos lhe ajudar se você nos contar quem era ela, e o que lhe aconteceu para que viesse atrás de Rick e Robert Taylor, e de você. – ele arregalou os olhos – Sim, nós sabemos que as duas mortes estão interligadas, e só depende de você não virar a terceira vítima.
Ele engoliu em seco, e fechou os olhos por um momento, respirando bem fundo, parecendo tomar uma decisão. Por fim, encarou Lil e balançou a cabeça afirmativamente. Ela o ajudou a se levantar, e o encaminhou até a cozinha, onde sabia que ele se sentia mais confortável. Ele se sentou e ela pegou um pouco de café, tomando o cuidado de adicionar um pouco de conhaque dentro da xícara. Ele olhou-a agradecido e deu um generoso gole na mistura.
- Agora nos conte tudo, Patrick. – ela dizia em um tom amável, que não combinava muito com ela, Sam observou.
- O nome dela era Christina Lewellyn, estudávamos na mesma época em Minnesota. Rick, Robert e eu éramos muito amigos. Uma noite... Aconteceu um acidente... – os olhos marejaram – Não era pra ter acontecido nada... Era brincadeira, só, sabe? Não sabíamos que... – ele tomou um longo gole, e Lil ficou esperando, paciente – A menina morreu, e acabamos nos separando. Nunca mais voltamos a nos ver até Rick voltar à cidade para praticar medicina aqui. Combinamos de nunca contarmos nada... Não sabíamos que tudo isto poderia voltar.
- Onde ela foi enterrada? – Lil perguntou repentinamente.
- Desculpe? – Patrick a olhou sem compreender.
- Onde ela está enterrada? Ou ela foi cremada?
- Sim – ele hesitou um instante – foi cremada.
- Ok, isso dificulta as coisas. – Dean comentou - Vai ser mais difícil saber por quê ela continua aqui.
- Isso quer dizer que não tem jeito de fazê-la ir embora? – Patrick perguntou, visivelmente aterrorizado.
- Podemos tentar um feitiço de exorcismo à distância. – ela comentou, arrancando olhares surpresos dos três, em especial dos Winchesters – Assim, se o espírito estiver preso aqui por vingança, poderá ir embora, e deixará você em paz. – ela lançou um olhar a Dean, que já ia abrir a boca. – Certo, rapazes?
- Certo.
- Tem certeza que funciona? – Patrick olhou para Sam.
- Cem por cento. – disse ele, sorrindo enviesado.
- Ok, vamos lá então. – Dean abriu espaço pra ela.
Lil pegou uma vela que ele guardava no armário embaixo da pia. Colocou-a de pé em um pires, acesa. Fez uma estrela de cinco pontas com sal, envolta por um círculo e colocou a vela dentro dela. Começou a fazer uma pequena oração, e as luzes da cozinha começaram a apagar e acender. Patrick, tão ocupado em olhar Lil fixamente, não percebeu que era Dean que fazia aquilo com as luzes. De repente, a oração acabou e Lil reabriu os olhos, agora enevoados.
- Você não me contou tudo Patrick. – em um movimento rápido, ela puxou uma faca e apontou para a garganta dele, que estava encurralado contra a pia – Onde vocês a enterraram?
- O... O quê? Eu já te disse – ele olhou para os rapazes, suplicante – Ela foi... cremada.
- Não, não foi. Ela foi enterrada, depois que você e seus amiguinhos a atacaram de surpresa tarde da noite, ela me contou. Agora fale onde foi que vocês enterraram o corpo dela.
- Eu... Eu... – ele suspirou, cansado. – Ok, eu conto. Foi perto do salgueiro antigo que tem no campus da faculdade. Ela estava passando por aquele caminho quando a surpreendemos, e ela correu naquela direção. Quando vimos que ela tinha morrido, a enterramos ali.
Lil continuou com a faca no pescoço, os olhos cheios de uma raiva doentia, que a deixava com um aspecto aterrorizante, e ao mesmo tempo belo. Depois, pensando direito, retirou a lâmina afiada de onde ela estava, pegou o casaco da cadeira, e saiu porta afora, nem se dando o trabalho de falar nada com os dois irmãos, que a seguiram de perto.
- Muito esperta – Dean comentou, andando rapidamente atrás dela.
- Obrigada. Eu vi que ele não estava contando tudo. Obrigada pelas luzes, a propósito. – ela sorriu e atravessou a rua correndo, em direção ao Impala. Os meninos em seu encalço.
Lil debruçou-se pela janela e pegou o celular, que tinha ficado no banco traseiro do carro. Discou alguns números rapidamente, e esperou. Os dois pares de olhos na frente dela a encarando, um pouco confusos.
- Hey, Fred! Como vai, meu anjo? Lil. Sim, eu preciso de um favor. Está na universidade? Ótimo! Preciso que saia daí e me encontre no prédio principal, com uma pá na mão. Sim, espíritos, espertinho! Ok, beijo. – ela olhou Dean. – Eu preciso de uma carona. – ele assentiu. – É melhor você ficar Sam, para o caso dela voltar.
- Você acha que ela volta? – Sam franziu a testa, preocupado.
- Pode ser. Seja lá o que aconteceu com ela, não foi coisa boa. Vamos, Dean?
- Claro.
Os dois entraram no carro, partindo em uma arrancada silenciosa. Sam ficou para trás, pensando em como aquela garota era esperta. Voltou para a casa de Patrick, que não o recebeu de bom grado, mas ficou feliz por saber que ele estava ali para protegê-lo.
"Ótimo", pensou Sam, "Dean vai com a garota, e eu fico com esse idiota babão."
O Impala ronronava sob o comando de Dean, a estrada passando rapidamente por eles. Dean lanceou o olhar para a garota impaciente que tamborilava os dedos na porta do carro, metade do braço para fora. Parecia absorta em pensamentos, e o cenho franzido demonstrava profunda preocupação. Começou a mexer-se desconfortavelmente no banco do passageiro.
- Dá pra parar de me encarar? – ela disse, sem olhá-lo.
- Como sabe que eu estou te encarando?
- Posso sentir. – ela disse, ainda sem olhar para ele. – Se quer perguntar, pergunte. Não leio pensamentos.
- Tudo bem... Por que o nervosismo?
- Quero acabar logo com isso. – os dedos ainda tamborilavam, até que ela deu um soco na própria perna – Que droga! Por que eu não peguei a merda do meu MP3?
- Pra que?
- Música me acalma. – ela respondeu, comendo uma pele no canto da unha.
- Se é para o bem de seus delicados dedos... – ele apertou o botão do rádio e AC/DC encheu o ambiente com suas guitarras altas e a voz gritante.
Ela deu um gemido baixo, que Dean quase não percebeu pelo volume alto da música. Sorte dele que estava atento. Ela começou a balançar a cabeça com o ritmo da música, e um sorriso se formou em seus lábios. Os músculos começaram a relaxar, e ela se recostou direito no banco do carro.
- Você tem bom gosto. – ela comentou.
- Obrigado.
Seguiram em silêncio o resto do caminho. Chegando lá, o tal Fred estava à frente do prédio principal, de pá na mão, como havia prometido. Eles se abraçaram rapidamente, e ela lhe falou do salgueiro. Ele balançou a cabeça e indicou o caminho, os três andaram apressadamente. Chegando perto da árvore, começaram a procurar o provável lugar. Lil começou a bater a ponta do pé direito na terra, até que achou uma elevação estranha. Apontou o lugar e os dois rapazes começaram a cavar. Lil pediu a pá de Fred, mas esse se recusou terminantemente, e Dean passou a mesma mensagem, apenas dirigindo um olhar à moça.
Ela ficou andando de um lado a outro, até que eles acharam o primeiro osso. O esqueleto estava de boca aberta, a terra invadindo espaços não permitidos. Lil sufocou o palavrão que lhe subiu à boca. As costelas estavam quebradas, e alguns outros ossos fraturados. O que quer que tivesse acontecido, aquela garota tinha apanhado bastante.
Sam estava sentado na poltrona, à frente de Patrick, que olhava nervoso o relógio preso na parede. Sam se sentia entediado, mas alerta. Qualquer som ou movimento, e Sam levantaria atirando.
- Eles estão demorando muito – Patrick falou, finalmente, a voz trêmula.
- A Universidade fica longe, não fica? – o outro assentiu – Então é justificável a demora. O ritual de salgar e queimar não é tão rápido quanto você pensa. Cavar é outra coisa demorada, mas isso você já deve saber. – Sam lançou o veneno.
- Eu sei que você deve me achar um idiota. – Sam balançou a cabeça afirmativamente – Eu concordo. Fui um estúpido, mas eu era jovem, e me deixei levar pelos meus amigos igualmente estúpidos. Nós nos arrependemos muito daquele dia. Nunca mais nossa amizade foi a mesma.
- Que pena que a sua amizade não foi preservada. Teria sido melhor se a vida da garota fosse a prioridade aqui, e não os sentimentos de companheirismo que vocês sentiam um pelo outro.
- Eu sei, eu sei... – ele gemeu, e colocou as mãos na cabeça, fechando os olhos dolorosamente.
A porta se abriu com brusquidão, e Lil entrou com uma aura diferente, nem sequer lançou os olhos para Patrick, para saber se ele estava bem. Só olhou Sam e indicou a porta com a cabeça.
- Está acabado. Vamos embora. – Sam assentiu, e começou a sair.
- Espere... Vocês vão me deixar aqui sozinho?
- Não estará sozinho, Patrick. Estará com todo o peso de um assassinato nas costas. Mas ela não vai voltar, não se preocupe. Queimamos os restos dela, você está livre. – ela fez um careta – Infelizmente.
- Obrigado, Lil.
- É Lílian. – e saiu, batendo a porta atrás de si com força.
- Eu sinto muito... – ele fechou os olhos, deixando uma lágrima correr pela face.
