Capítulo Seis

Lil não falou nada durante todo o caminho, ou mesmo quando chegou. Simplesmente subiu para seu quarto direto, Cathy lançou um olhar preocupado e cansado à sua irmã. Foi até onde os meninos tinham se sentado na sala de estar, conversando sobre o comportamento estranho de Lil.

- Vocês estão bem? – ela parecia preocupada.

- Sim, estamos. – Dean respondeu, massageando as têmporas – E acho que o jornalista vai ficar bem, também. Queimamos os restos da garota. Eu vou subir, tomar um banho e relaxar um pouco. Boa noite.

- Boa noite – disseram em uníssono Cathy e Sam.

- Noite difícil, hã?

- Eles me contaram que o esqueleto estava fraturado, vários ossos quebrados. – Sam suspirou e recostou na poltrona, olhando Cathy enquanto ela se sentava.

- Eu detesto esse trabalho da minha irmã, ela sempre volta arrasada para casa. – Cathy lançou os olhos azuis sobre Sam – Vocês dois também ficam, né?

- Sim. Eu pelo menos. Dean parece não ligar muito pra coisa toda, às vezes eu até acho que ele gosta do que fazemos.

- Não, dá pra ver no rosto dele que ele estava tão perturbado quanto você. – Cathy sorriu, triste – Ele é igual Lil, esconde os sentimentos do irmão mais novo para não lhe preocupar. – ela deu uma risadinha – Deve ser síndrome do irmão mais velho.

Sam sorriu, e os dois ficaram se olhando por muito tempo. Os olhos azuis esquadrinhavam a alma de Sam, e os castanhos dele passavam um calor humano e gentil que Cathy há muito tempo não via em uma pessoa.

- Vamos pra cozinha, você está precisando de um chá.


Dean abriu os olhos. A escuridão era dona do quarto. O silêncio reinava soberano ao seu lado, cortado apenas pela leve respiração de seu irmãozinho na cama ao lado. Virou a cabeça em direção a este, e quando viu a expressão serena no rosto dele, sorriu. No fim, tudo estava bem. Sam estava dormindo tranqüilo, sem pesadelos. Enquanto Dean estivesse ali para proteger seu irmão dos males do mundo, estaria tudo bem. Enquanto tivesse Sam para manter sua sanidade, Dean estaria bem.

Suspirou e levantou-se, sedento. Desceu as escadas em direção à cozinha e encontrou, surpreso, as luzes ligadas. Entrou cautelosamente. Velhos hábitos... Observou Lil encostada na pia, os olhos fitando o chão. Mesmo sem fazer nenhum barulho ao parar no portal, ela levantou os olhos para ele, e lhe lançou um sorriso cansado.

- Hey!

- Sem sono? – ela perguntou.

- Sede.

Ela se virou e pegou um copo de dentro do armário acima de sua cabeça, e estendeu a ele.

- Quer chá? Estou fazendo um pouco para mim.

- Claro.

Ela pegou uma segunda xícara do armário de copos e colocou um saquinho dentro dela. Virou-se de frente pra ele, ainda encostada na pia. Ele estava próximo demais, ela observou. Os olhos cansados de ambos se encararam por um momento. Ele levantou a mão e a colocou no ombro da garota, apertando um pouco, transmitindo um pouco de paz que ela tanto parecia querer. Ela suspirou, e lhe lançou um sorriso cansado.

- Você não cansa dessa vida?

- Às vezes. Mas se eu não fizer esse trabalho, quem vai?

- Eu queria não ter conhecimento sobre essas coisas. Ficar na completa ignorância às vezes é a melhor coisa.

- Eu sei como se sente. Mas pensa que é melhor saber, assim você pode se defender, e defender sua irmã também.

- Sim. – ela fechou os olhos – Tem razão.

Os olhos castanhos se abriram lentamente, um brilho diferente depositado neles. Pareciam lhe sorrir. Dean ficava à vontade com ela, ela lhe dava um tipo de paz que ele nunca tinha experimentado antes. Era como se ela soubesse exatamente o que ele passava, e ele podia enxergar suas próprias dúvidas e sofrimentos naqueles olhos bonitos. "O peso do mundo em costas tão delicadas."

Ela lhe lançou um sorriso de divertimento. Ele olhou-a confuso, e então ela passou os braços ao redor do pescoço dele, alojando as mãos em suas costas e o apertando bem ao corpo. Um abraço quente, que fez seus músculos relaxarem, e corresponderem ao abraço. Ficaram assim por um bom tempo, sentindo a respiração um do outro, dividindo as dores, trocando energias e experiências através do abraço. Aliviando toda a tensão de uma vida de preocupações em instantes preciosos, que ficariam guardados na mente dos dois por muito tempo.

A chaleira começou a chiar, e só então ela o soltou, com certa relutância. Apontou a cadeira com a cabeça e virou-se para terminar o chá. Ele sentou e ficou observando os cabelos vermelhos agitando de um lado para outro enquanto ela se movia através da cozinha. Deu o chá a ele, depositou sua xícara na mesa e pegou um pote de cookies que estava dentro de um armário.

- Um lanchinho noturno. Pra ver se a gente pega no sono. – ela sorriu e deu uma dentada no seu biscoito. – Delícia de biscoitos caseiros!

- Caseiros? – ele comeu o dele em duas dentadas.

- Tia Rose quem fez.

- Ela é sua tia de verdade? – ele falou, pegando outro.

- Não, só de consideração.

Ele queria saber mais da vida dela. Como cresceram, como os pais morreram, o que acontecera em Nova York, como tinha conhecido o seu pai... mas não queria estragar o bom humor que tinha se instalado momentaneamente nela. Tinha medo daquele brilho no olhar apagar se perguntasse sobre seu passado, então deixou estar.

Conversaram sobre músicas, shows, instrumentos prediletos, bandas novas que ela jurava de pés juntos que não eram ruins, e sobre modernos aparelhos eletrônicos, que podiam melhorar a vida musical de Dean. Ele se recusava a usar qualquer tipo de IPod ou qualquer coisa parecida, nada melhor do que um toca-fitas original no carro para dar um toque de classe a mais.

Ela acabou desistindo de convencê-lo, e depois dele lavar as xícaras sob protestos dela, foram dormir. Deitaram nas camas e simplesmente adormeceram, sorrindo, felizes por terem encontrado alguém no mundo que os compreendesse, afinal.


Sam e Dean acordaram com um grito estranho, que fez os dois se arrepiarem, e pularem da cama, alertas. Correram para o andar de cima, de onde os gritos tinham vindo, e foram parar do outro lado do corredor, em que uma porta azul estava aberta. Lil estava lá dentro, chamando sua irmã sem parar, abraçada a ela com força, enquanto tentava fazê-la voltar à consciência.

Cathy estava se debatendo loucamente, como se estivesse presa em alguma coisa, e tentasse desesperadamente sair. Lil olhou os rapazes com os olhos de uma águia protetora, pronta para mandá-los embora dali a gritos, mas o olhar que Dean lançou a desmontou e seus olhos se encheram d'água.

Ela abraçou Cathy com mais força e começou a cantar uma canção, baixinho, para a irmã, que começou a se acalmar lentamente. Cathy parou de gritar e espernear e abriu os olhos azuis devagar, como se tentasse se lembrar onde estava ou quem era. Então olhou sua irmã, que estava sorrindo para ela, apesar de seu rosto estar com uma aparência quase doente.

- Eu sonhei com ela. – Cathy disse num sussurro, quase inaudível.

- Quem? Mamãe? – a voz de Lil estava doce.

- Não. A garota. Eles... Ele... – e estremeceu. – Ele a atacou, e quando ela revidou o ataque e bateu nele, ele a espancou, chutou, e depois a sufocou. – ela começou a chorar silenciosamente – E então, eles acharam que ela tinha morrido... E a enterraram viva.

- Shh... Está tudo bem agora. Ela descansa em paz. Eles não podem machucá-la agora.

- Eu acho que não, Lil. Acho que ela ainda está aqui. – ela estremeceu novamente. – Ela olhou pra mim, direto pra mim, através da terra. Ela era tão bonita... E tinha um colar... Alguém a amava muito...

- Colar? – Lil retesou os músculos, e lançou um olhar para Dean, que balançou a cabeça negativamente – Está tudo bem querida. Tudo vai ficar bem, tente descansar agora.

- Mas, Lil...

- Durma, pequena. Eu trago seu café daqui a pouco, tudo bem?

- Sim. – ela se enrolou nas cobertas e fechou os olhos. Parecia uma criança.

Lil saiu silenciosamente da cama, e conduziu os rapazes para fora do quarto, as mãos nas costas bem definidas dos dois. Fechou a porta atrás de si, e com um gesto da mão, pediu para os dois a seguirem em silêncio. Atravessaram o corredor e entraram novamente pela porta lilás, que tinha um desenho de lua acima da maçaneta, detalhe que tinha passado despercebido aos rapazes na primeira visita. Eles entraram e ela fechou a porta.

- Por favor, me diz que eu não reparei num colar, mas que ele estava lá. – ela se dirigiu a Dean, passando a mãos nos cabelos cor de fogo.

- Eu não vi nada.

- Droga. – ela foi até a cama, sentou-se e pegou o telefone. Discou um número e aguardou. – Atende, Patrick... – Nada, o telefone só chamava. Ela tentou de novo, e o resultado foi o mesmo. Ela desligou e olhou os garotos – E agora?

- Tente a redação. – Sam sugeriu.

Ela discou novamente, e quando atenderam do outro lado, Lil já foi perguntando por Patrick. Ninguém o tinha visto aquele dia, havia faltado no trabalho de novo. Ela xingou e levantou-se, correndo ao guarda-roupa, escolhendo uma calça qualquer e uma blusinha preta.

- É melhor verificar a casa dele.

- Nós vamos também. – Dean falou.

- Ok, me encontrem lá embaixo. – ela olhou pra eles – A não ser que vocês estejam acostumados a andar pelas cidades de pijamas.

Os dois assentiram e saíram. Passaram pelo quarto rapidamente, para se trocarem e desceram. Cinco minutos e ela descia as escadas com urgência, pulando os últimos três degraus e se dirigindo apressada à cozinha. Voltou correndo e saiu pela porta, os garotos na cola dela. Entraram no Impala e voaram em direção à cidade.

Entraram na casa de Patrick pela porta dos fundos, com as armas empunhadas. Passaram rapidamente pela cozinha, que parecia do mesmo jeito que deixaram na noite anterior. A sala estava vazia, assim como o escritório. Subiram as escadas silenciosamente, e foram para o quarto que havia lá em cima. O cheiro já denunciou a situação antes mesmo de entrarem.

Lá estava Patrick, deitado no chão, perto da janela, o corpo começando a se decompor, um pouco inchado por causa da asfixia, os olhos sem vida, vidrados. Lil fez sinal para que descessem, e assim eles fizeram. Passando pela lareira na sala, Lil demorou seu olhar para um porta-retratos em cima do console de madeira. Pegou-o e estreitou os olhos para ver se estava vendo direito.

- Filho da mãe!

Saiu correndo com o porta-retratos na mão.