Capítulo Sete
Matthew estava deitado em sua cama, quase adormecendo, quando escutou as fortes batidas na porta. Desceu praguejando e assim que a abriu, foi empurrado para dentro com toda a força bruta que uma mulher raivosa podia imprimir, o que, acreditem, não era pouca coisa.
- Como você pôde fazer uma coisa dessas?! – ela urrou.
- O que?! – ele parecia assustado, nunca tinha visto Lil tão brava daquele jeito. Nem quando ele a provocava com seus joguinhos e insinuações.
- Matar uma garota porque ela não queria transar com você!
Ele gelou. Tentou desconversar, mas ela o empurrou para o sofá e o ódio que ele viu nos olhos dela lhe disse que não poderia fazer nada, que ela desenterrara a história, e que nada a convenceria do contrário. Ele mudou de aspecto de repente, ficou frio, parecendo outra pessoa.
- Foi um acidente.
- O caralho! Você a atacou à força, Matt! Como pôde fazer uma coisa dessas?
- Ela era uma vadia! – ele explodiu, levantando-se bruscamente. – Ficava me provocando o tempo todo, e depois quando eu chegava perto demais, ela dizia que não queria nada! – ele a pegou pelos pulsos – Exatamente como você faz, Lil. Mas você ainda está viva, não?
- Você não se atreveria...
- Não? – os olhos brilharam de insanidade momentânea – Ela está morta, não está? E ninguém a encontrou. Ninguém saberia, se você não tivesse descoberto de alguma forma. Quem te contou? Patrick, aquele bunda-mole?
- Não. Ela me contou, Matt.
Ele ficou abalado por um momento, olhando para o rosto da ruiva à frente dele em dúvida. Depois riu, um riso insano, que encheu a sala com seu horrível som, e fez Lil ficar um pouco apreensiva pela primeira vez.
- Anda freqüentando mesas brancas, Lil?
- Não preciso dessas coisas, querido, quando tenho a prova de que preciso bem aqui. – e mostrou o porta-retratos com sua foto e dos os outros mortos – Todos eles morreram, Matt, sabia disso? E ela virá pegar você também, pra poder se vingar finalmente dos que enterraram-na viva, e a deixaram morrer sufocada.
- Não seja dramática, ela já estava morta quando a enterramos.
- Não, não estava. Ela estava viva, respirando. O coração ainda batia, fraco, mas batia. Foi enterrada viva, e acordou depois que já estava embaixo da terra. – Lil se libertou dos braços que a machucavam – Ela gritou Matt, gritou tanto que a terra entrou na garganta dela e a sufocou mais rapidamente. E tudo por quê? Por causa de um imbecil que não tinha capacidade de pegar garotas que não à força!
- Cala a boca! – e bateu nela, a jogando longe – Eu sou capaz de ter qualquer mulher que eu quiser. Até vadias como você e ela. – ele riu enquanto ela se sentava, atordoada – Devo dizer que você é bem esperta, pra descobrir essa história, que há tanto tempo está enterrada. Mas agora ela vai continuar do jeito que estava, não vou deixar você arruinar minha vida.
- Como você fez com a dela? Como destruiu uma garota doce, inocente e com um futuro brilhante pela frente? Como destruiu a família dela, que deram como desaparecida a única filha que tiveram?
- Bom, eu fiz um favor a eles. Ela não prestava mesmo.
- Ela era noiva, Matt. – Lil levantou-se e cuspiu o sangue no chão – Foi por isso que ela não saiu com você, ela amava outro homem. Foi isso que te deixou tão furioso? O fato de gostar de uma garota que nunca poderia ser sua, que outro homem já tinha conquistado? Foi o fato de saber que não tinha chegado primeiro, e que ela era tão fiel, que jamais o trairia com um idiota como você?
- Ela era uma vadia. Ficava olhando pra mim o tempo todo, me lançando olhares gulosos. Então, quando eu fui conversar com ela na biblioteca, veio com esse papo de noivo. Claro que eu tentei demovê-la dessa convicção de ser fiel, mas ela não quis me ouvir. Então eu fiz o que eu tinha que fazer. – ele chegou mais perto dela – Eu tentei estuprar aquela vadia, mas ela era teimosa. E me arranhou, e foi o fim pra ela. Nenhuma mulher me bate e sai impune.
- Por causa de sua mãe, que lhe espancava quando menino?
Ele arregalou os olhos, assustado. Depois gritou de raiva, e jogou ela em cima da mesa de centro na sala bem decorada. Chutou o estômago dela uma vez, e então ele ouviu passos. Olhou para os lados à procura de alguém, mas não havia ninguém. Olhou para Lil, mas ela continuava no chão, tossindo, sem ar. Ele virou-se mais uma vez, e então a viu: cabelos negros, olhos vermelhos, cheios de fúria. Gritou, negando que tivesse visto o que viu. Correu escadas acima. Trancou a porta do quarto, enquanto se lançava à caixa de madeira em cima da cômoda, tirando o revólver.
A porta do quarto escancarou, e ela entrou. Ele deu dois tiros, mas eles passaram direto por ela. O suor escorreu pela testa dele, e ele descarregou o revólver, mas nada a parava. Ele foi jogado na cama, e ela subiu em cima dele. O peso de um assassinato em cima do corpo musculoso e branco. A camisa foi rasgada, e ela esticou a mão e a colocou em cima de seu peito.
Ele gritou alto, e várias vezes. Os órgãos se dilacerando um a um, sangrando internamente. Sangue que escorreu pelo nariz, ouvidos e olhos. A garganta fechada por um punhado de terra invisível, a vida se esvaindo vagarosamente, mais devagar ainda que todos os outros, por todo o sofrimento que fez a família dela passar. Por toda a vida que ela teria pela frente, o sucesso, o casamento, os prováveis filhos e netos, que ele tirou dela por puro capricho machista. E por nunca ter se arrependido em nenhum momento de sua miserável existência. Por ter se aproveitado dos amigos e os ter chantageado, para conseguir o que queria.
Sua vida sem sentido passou diante de seus olhos, cada vez mais vidrados, e o horror que eles estampavam fazia o espírito da moça estremecer de prazer, por finalmente chegar a quem ela mais desejava machucar: o autor de seu sofrimento, o motivo de ter ficado no mundo dos vivos. Ele devia pagar com a vida dele, e ela se sentia bem por fazer isso. Ela iria pro inferno, mas ele também. Ela ficaria em paz agora sabendo que ele nunca poderia arruinar a vida de outra mulher como arruinou a dela.
Finalmente o resquício de vida que ele tinha se esvaiu, e sua alma foi direto para o inferno, onde ela certamente o encontraria mais tarde. Antes de ir, porém, tinha mais uma coisa a fazer. Pegou o colar prateado dentro da caixa aberta na cômoda, e se dirigiu para o andar de baixo.
Lil estava sentada no chão, ainda se recuperando do choque de ter um amigo tão violento e perigoso como aquele, principalmente perto de sua irmã. Ela viu o espírito chegando, mas não teve medo. Levantou-se devagar, olhando para a garota com uma ternura quase fraternal. Os Winchesters entraram de uma vez, olhando para todos os lados. Lil falou um "não" firme, e eles baixaram as armas. O espírito sorriu, agradecida, e lhe entregou a corrente prateada.
- Entregue para Chad, por favor. – a voz saiu rouca, como se a garganta ainda estivesse cheia de blocos de terra.
Lil balançou a cabeça, afirmativamente, pedindo que ela fosse descansar, que tudo estava acabado, e ela ficaria bem. Christina sorriu diante da frase ingênua, mas confirmou com a cabeça. Afastou-se um pouco e um clarão a sugou para um mundo desconhecido.
Lil olhou para o colar prateado: um pingente em forma de coração, gravado com os dizeres "Eu te amo" em letra trabalhada. Ela sorriu, e uma lágrima rolou pela sua face. Fechou a mão no cordão, e deu um sorriso para os garotos, saindo dali rapidamente, antes que alguém percebesse o movimento na casa. Voltaram para o hotel, em silêncio absoluto.
