Capítulo Oito
- Você não devia ter nos despistado daquele jeito. Podia ter se machucado. – Dean falou, zangado.
- Eu estou bem. – ela suspirou, cansada, enquanto a irmã cuidava do corte em seu lábio inferior.
- Mas podia não estar! Podia estar com ela agora, sabia?! – Dean estava realmente nervoso, Sam nunca vira o irmão perder o controle daquele jeito.
- Então seriam duas mulheres vingativas, e ele ia se ferrar de qualquer jeito. Ai!
- Isso é pra aprender a parar de falar besteiras – disse Cathy também zangada.
- Sam, você também está zangado comigo? – ela o olhou com cara de cachorro sem dono.
- Não, eu entendo seus motivos.
- Aleluia! Uma alma bondosa que me entende. – ela levantou os braços para cima.
Dean lançou-lhe um olhar magoado, e saiu da cozinha pela porta dos fundos, indo para o jardim. Lil suspirou e levantou-se da cadeira. Cathy tentou protestar, mas Lil foi firme, e não deixou margem para reclamações.
Ela saiu para a luz do sol que brilhava majestoso e acolhedor. Dean estava sentado no banco de madeira perto da fonte que borbulhava agitada. Ele apenas olhou-a com mágoa, e baixou os olhos novamente. Ela caminhou lentamente até ele e sentou a seu lado. Não falou nada por uns instantes, mas acabou se pronunciando.
- Eu não quis dizer...
- Quis sim. Ninguém para entender as pessoas melhor do que meu irmão. Sou apenas um ignorante e insensível.
- Não se menospreze tanto, Dean. Você é mais precioso do que acredita ser.
Ele a encarou, espantado. Ela olhava para frente, para a janela da cozinha, onde um par de olhos azuis e outro verde os encaravam, tentando serem discretos, e passarem despercebidos. Ela sorriu.
- Péssimo lugar para se ter essa conversa. – ele seguiu o olhar dela – Somos observados vinte e quatro horas por dia, hein?
- Menos de madrugada.
- É, exceto de madrugada. – ela sorriu e olhou para ele. – Eu estava falando sério quando disse que você é mais especial do que acredita. E ontem... bem, acho que eu não preciso externar nada. Sei que você também sentiu, apesar de querer fingir que não. Nós nos entendemos muito bem, Dean, somos muito parecidos, em muitas coisas. Eu só estava fazendo graça lá dentro para quebrar o gelo. – ele abriu a boca, mas ela não o deixou falar – Eu sei que eu me arrisquei, mas era uma coisa que eu precisava fazer, e vocês só iam atrapalhar. Sinto muito se lhe deixei preocupado.
Ela pousou a mão na face direita dele e deu um beijo bem demorado do outro lado. Olhou uns momentos para os olhos verdes, ainda com a mão acariciando seu rosto. Sorriu-lhe e levantou-se, voltando para dentro da casa, onde os quatro olhos que antes os observavam sumiram misteriosamente.
Quando ela entrou, encontrou Cathy e Sam sorrindo bobamente.
- Vocês são péssimos espiões, sabiam?
No outro dia, de manhã, todos estavam um pouco agitados no hotel, já que os garotos iriam embora. As senhoras se entristeceram por perder uma companhia jovem agradável aos olhos como aqueles dois. Despediram-se com entusiasmo dos irmãos, dando beijos molhados em suas bochechas, que ficaram marcadas de batom. Rose abraçou os dois e entregou uma cesta com pães, bolos, biscoitos e potes de geléia para Sam, que agradeceu, sorridente. Dean abriu um sorriso enorme, já que se tratava de comida, e deu um abraço bem apertado na latina.
Cathy e Lil só riram das reações de todos, e acompanharam os dois até lá fora. O clima de repente ficou constrangedor. Ninguém parecia saber exatamente o que fazer. Cathy parecia ter murchado, e Sam olhava para ela constrangido. Dean e Lil só lançavam olhares, de um irmão para outro.
- Ahn... Dean... eu, é... tenho uma coisa para você. Pode ir lá dentro comigo?
- Claro. – Dean correu para dentro da casa junto de Lil, deixando Sam e Cathy ainda mais constrangidos.
- Sutil. – ela disse, rindo, ao passo que ele concordou.
- Então... Acho que a gente tem que se despedir, né?
- Não precisa ser definitivo. Vocês podem vir visitar a gente um dia, Sam. Quando se cansarem de ficar viajando por aí, venham aqui. Não temos muita coisa na cidade, mas Lil sempre arruma diversão onde quer que ela esteja. Podemos fazer uma festa, ou qualquer coisa parecida.
- Sim, claro. Viremos.
- Ah, ta bom. – Cathy de repente ficou emburrada, fazendo um bico um tanto infantil. – Todos dizem a mesma coisa, mas ninguém nunca volta. Vocês caçadores não tem palavra. – Sam ia retrucar, mas ela acrescentou rapidamente – Não se tratando disso, eu quis dizer.
- Quem sabe a gente não consiga dessa vez cumprir o que prometemos?
Ela sorriu, ele também. Caminharam em direção ao carro, e ele depositou com cuidado a cesta no banco de trás. Quando se virou, Cathy o empurrou contra o Impala, colando os lábios macios nos dele, a mão fazendo carícias e provocando arrepios em sua nuca.
Sam não perdeu tempo e correspondeu ao beijo, sua língua explorando cada centímetro daquela boca rosada. As mãos apertaram a cintura delicada, arrancando um suspiro sufocado. As bocas se separaram por um momento, e os olhos se encontraram com a mesma intensidade do beijo trocado. Encostaram as testas sorrindo, antes de se beijarem novamente.
Lá dentro, os dois irmãos olhavam pela janela, sorrindo, cúmplices.
- Bela jogada. Nada sutil, mas pelo menos funcionou. – Dean virou-se e deu de cara um embrulho retangular. Levantou uma sobrancelha, olhando no fundo da alma da garota à sua frente. – Por favor, me diz que isso é comida.
- Bem... não aconselho você a comer nada disso, pode ter uma indigestão ferrada. – ela estava constrangida, e isso a deixou mais irresistível, na visão de Dean – Mas é um presente pra você. Um pequeno agradecimento pela ajuda. – ele abriu a boca, mas ela não o deixou falar – Não é dinheiro, espertinho. Se quiser isso, vá trabalhar.
Ele riu, e pegou o embrulho. Ia desfazer o laço, quando ela cobriu suas mãos com as dela. Olhou profundamente para os olhos verdes e o rosto bonito à sua frente, fechando os olhos momentaneamente, como se quisesse se lembrar de todos os traços.
- Não abra agora, por favor, ou eu vou ter que cavar um buraco aqui mesmo para enfiar minha cabeça. – ela bateu com o pé no piso de madeira. – É a madeira original e ia me dar uma enxaqueca danada substituir isso.
- Obrigado, Lil.
- De nada, Dean.
Os dois se olharam demoradamente por um instante, e então ela abraçou-o de novo, com mais intensidade ainda do que daquela vez na cozinha. Ele sentiu todos os sentimentos que ela queria passar, mas que, pelo mesmo motivo que ele, não conseguia exprimir em palavras. Sentiram-se conectados durante aqueles poucos dias em que conviveram, e isso é uma coisa que não se apaga facilmente.
Ela segurou o rosto dele e o beijou bem pertinho da boca. Ele viu a promessa que passou pelos olhos castanhos rapidamente, naquele momento, mais claros que nunca. Saíram sorrindo para encontrar os dois lá fora abraçados.
- Hey, hey. Larga a minha irmã, ou vou ser obrigada a cortar esse seu braço forte e musculoso, Sammy.
Ele fez uma careta diante do apelido, e Dean soltou uma risada alta. O embrulho que segurava chamou a atenção de Sam, mas o irmão o calou com um olhar. Dean abraçou Cathy rapidamente, caçoando que se demorasse mais, o caçula ia comer a cabeça dele enquanto estivesse dirigindo.
Lil olhou para dentro dos olhos de Sam, e viu ali mais do que gostaria de ter visto: viu o sofrimento dele em cair na estrada de novo. Não por causa de Cathy, mas porque não agüentava mais essas viagens cansativas e sem parada para descanso. Ela sabia como ele se sentia, era o mesmo modo que ela e Dean se sentiam, mas que guardavam para si com tanta convicção. Sam era um livro aberto, não guardava emoções, assim como Cathy, e ela se impressionou em como eles quatro tinham coisas em comum.
Pegou Sam pela cabeça, fazendo carinho no cabelo dele, e o abraçando mais apertado do que ele esperava. Ficou um tempo sem saber o que fazer, até que correspondeu à força do abraço, se sentindo protegido por uma presença feminina pela segunda vez na sua vida.
- Se cuida, Sam. – ela se afastou e olhou bem dentro dos seus olhos – E cuida do seu irmão cabeça-dura.
- Hey, eu ouvi isso! – Dean reclamou de dentro do carro, atrás do volante.
- Era pra ouvir mesmo. – ela lhe mostrou a língua.
Os quatro riram, e Sam foi para o lado do passageiro. Dean ligou o Impala e ela reclamou levemente. Ele pisou no acelerador e foram embora, caindo na estrada e mergulhando no desconhecido destino que tinham pela frente. Quantos monstros, espíritos e coisas ruins mais iriam ver eles não sabiam. A única coisa que tinham certeza era que as pessoas que eles conheciam e salvavam no meio do caminho faziam toda a dor e toda a angústia valerem a pena.
