Capítulo 3: Revelação
Fui até ao meu quarto e sentei-me à escrivaninha que lá havia. Tirei um papel e uma caneta de uma gaveta. Resolvi escrever o nome dos outros. Donald, Raisa, Kate, Nero, Stella, Frederic, Lionna, Elli. Olhei para o papel. Quem é que podia ser excluído da lista de suspeitos?
Obviamente, o meu tio Frederic. Ele tinha morrido. Podia ter sido suicídio, mas o meu tio não era desse tipo. Ele não sabia que a bebida estava envenenada e agora estava morto. Risquei o nome dele da lista.
De seguida, risquei o nome do Donald. Ele estava a proteger-me e sei que não é um assassino. Sinto-o. Além disso, ele não tinha nada a ganhar com a morte da minha avó, pelo menos antes de ela alterar o testamento, senão não recebia nada.
Depois olhei para o nome da minha avó, Raisa. Ela não ia envenenar a sua própria bebida, não é? Se quisesse matar alguém, teria outra forma. Além de que, como ela era a única que bebia aquela o sumo de beterraba, era muito improvável que outra pessoa a bebesse. O meu tio teve muito azar. Risquei o nome da minha avó da lista.
Sobram cinco nomes. A Stella é muito suspeita. Não gosto dela, mas não sei porquê, acho que não foi ela. Os meus pais... não quero pensar que tenham sido eles. Porque o fariam? Quereriam matar a minha avó? Não me parece.
A minha mãe dá-se bem com a minha avó e o meu pai também. A minha tia Elli é uma boa suspeita. Ela está com problemas de dinheiro, mas eu sempre gostei muito da minha tia. Ela estava sempre animada, a fazer os outros rir. Não a imagino a matar ninguém.
E depois temos a Lionna. Desde pequenina que ela tratou de mim quando vim passar aqui as férias com a minha avó. A Lionna é uma querida e muito dedicada à minha avó. Porque é que ela a quereria matar? Não fazia sentido. Nada disto faz sentido!
Só consigo pensar que as únicas pessoas que poderiam ter algo a ganhar com a morte da minha avó seriam a minha tia Elli e a Stella, que receberia o dinheiro através do tio Frederic, mas sendo assim, a Stella teria avisado o meu tio. Acho eu...
Fiquei a pensar durante algum tempo e depois ocorreu-me uma coisa. A minha avó só costumava beber um copo do sumo de beterraba de cada vez. Só bebia de dias a dias, apesar de nesse dia ir beber duas vezes. Se a garrafa tinha realmente arsénico, mesmo que a minha avó bebesse um copo, talvez dois, não iria morrer. Iria sentir-me mal, é claro, mas não morreria.
Como é que o assassino esperava matá-la? Não me parece que a minha avó fosse beber a bebida todos os dias e ficar mal disposta de cada vez que a bebesse. Claro que o veneno podia ser usado por um longo prazo, para a matar lentamente, mas a minha avó iria aperceber-se, tenho a certeza. Qualquer um de nós sabe que a minha avó não é burra e perceberia logo o esquema.
Ou o assassino achou, sabe-se lá porquê, que a minha avó ia beber tudo de uma vez ou então não podia ter sido uma tentativa de homicídio. Mas então, porquê usar o arsénico? Para fazer a minha avó sentir-me mal?
Fiquei pensativa e depois surgiu-me uma ideia na cabeça. Sim, a minha avó sentir-me mal. Isso poderia fazer com que ela decidisse não alterar o testamento. Mas tinha sido roubado o meu frasco de arsénico. Quem é que sabia que eu o trouxera para a casa da minha avó? Só duas pessoas sabiam.
Mas só uma delas estava a par do que o arsénico fazia, pois essa pessoa conhecia o produto. Empalideci. Não podia ser...
Levantei-me e saí do quarto. Segundos depois, estava a entrar no quarto dos meus pais. A minha mãe continuava deitada na cama.
"Mãe, diz-me que não foste tu que roubaste o arsénico e o puseste na bebida da avó." pedi eu.
A minha mãe arregalou os olhos, ficando subitamente pálida.
"Mãe..."
"Sally..."
"Foste tu... foste mesmo tu?"
"Sally... fui eu, sim. Eu não queria matar ninguém, Sally. Eu sabia que tu tinhas trazido o frasco do arsénico na tua maleta. Fui ao teu quarto, quando não estavas lá e tirei-o. Depois fui à sala e despejei o conteúdo do frasco na garrafa com o sumo de beterraba. Eu só queria que ela ficasse indisposta. Eu iria fazer o Frederic estar ao lado dela para a apoiar até ela ficar bem e a tua avó ia mudar de ideias e não o ia excluir do testamento."
Abanei a cabeça. A minha mãe era uma assassina?
"Eu não sabia que o Frederic ia beber a o sumo todo de uma vez. Eu não queria que ele morresse. Só queria ajudá-lo e afinal acabei por ser a culpada da sua morte..."
A minha mãe começou a chorar. Aproximei-me e abracei-a.
"Mãe, não o fizeste com intenção, mas o tio morreu. E o Donald está preso. Tens de confessar tudo para o libertarem."
A minha mãe acenou afirmativamente.
"Sim... foi culpa minha. Desculpa filha. Eu fiquei assustada com a morte do Frederic e calei-me. Mas não posso deixar o Donald pagar por algo que eu fiz. Vou confessar tudo à polícia."
Eu e a minha mãe saímos da mansão, sem falar com ninguém, nem mesmo com o meu pai. Fui eu que conduzi até à esquadra da polícia. Parei o carro perto da esquadra e suspirei, olhando de seguida para a minha mãe.
"Mãe, não queria que isto fosse assim, mas se escreveres uma confissão e fugires, vais ser considerada uma fugitiva e é pior."
A minha mãe pousou uma das suas mãos na minha cabeça.
"Querida, vou ter de pagar pelo que fiz. É melhor assim. Vamos."
Entrámos na esquadra. A minha mãe falou com o inspector e eu estive sempre perto dela. O inspector ouviu tudo atentamente e depois a minha mãe assinou uma declaração, como prova do que tinha dito. Vi-a ser levada por um polícia e as lágrimas vieram-me aos olhos.
"Eu vou arranjar um bom advogado, mãe!"
Esperei alguns minutos e vi o Donald a ser finalmente libertado. Ele correu para mim e abraçou-me. Não sei bem o que senti. Por um lado, o Donald estava livre, mas por outro agora estava a minha mãe presa.
"Nunca pensei que a tua mãe fosse a responsável pela morte do meu pai." disse o Donald.
"Ela não o queria matar... mas suponho que estejas muito zangado. Foste preso por causa dela e ela matou o teu pai... não deves querer estar perto de mim."
"O que estás a dizer? O meu pai... ele era muito rígido e malvado. Não o queria ver morto, é claro, mas não guardo raiva à tia Kate. Eu não me quero afastar de ti."
Senti-me corar um pouco. Voltámos à mansão da minha avó e eu reuni toda a gente na sala.
"Para que é que estamos todos juntos aqui?" perguntou Stella.
"Porque eu descobri quem matou o tio Frederic. Vou explicar-vos."
Expliquei tudo a todos os outros. A minha avó ficou muito pálida, a Stella abriu a boca de indignação e o meu pai parecia chocado.
"A Kate... oh não." disse o meu pai. "E porque não me disseram nada antes de ela se ir entregar?"
"Desculpa pai, mas eu e a mãe achámos melhor assim."
"Ah, pois eu acho muito bem que vá presa." disse Stella. "É uma assassina."
"Stella, mal o Frederic esteja enterrado, quero-te fora desta casa." disse a minha avó.
"Com certeza. Eu não quero ficar aqui mais do que o tempo necessário."
Os meus familiares decidiram ir ver a minha mãe. No dia seguinte, deu-se o funeral do meu tio. Não compareceu muita gente, pois o meu tio não tinha muitas pessoas que se preocupassem ou gostassem dele.
"Espero que ele descanse em paz." disse a minha avó.
"Também espero o mesmo." murmurei eu.
Poucas horas depois, a Stella já tinha as suas malas prontas para ir embora. O Donald iria ficar a viver com a nossa avó.
"Adeus mãe. Eu depois vou visitar-te." disse o Donald.
"Adeus querido." disse Stella, beijando o filho de seguida.
Enfim, a Stella é uma pessoa detestável, mas pronto, o Donald gosta muito dela e pelo menos parece boa mãe. É pena que no resto não valha nada.
Todos se despediram da Stella sem entusiasmo. Eu ainda a acompanhei até ao jardim, só para ter a certeza que ela se metia no carro e ia embora de uma vez por todas.
"Nunca ninguém gostou de mim por aqui." disse Stella, virando-se para me encarar. "E eu também nunca gostei de nenhum de vocês."
"A sério? É que eu ainda não tinha percebido." disse eu sarcasticamente. "Adeus Stella. Não volte mais."
"Não vou precisar de voltar. Agora sou livre e vou ser muito, mas muito rica."
"O quê?"
"Tenho um homem milionário interessado em mim. Mas ele tem certos valores estúpidos... não aceitaria casar com uma mulher divorciada. Mas com uma viúva, já não há problema. Enfim, sabes, ainda bem que o Frederic morreu. Eu não teria coragem para o assassinar. Mas a tua querida mãe fez-me esse favor. Adeusinho."
Vi a Stella ir-se embora e ainda fiquei incrédula. Que mulher horrorosa! Mal enterrou o marido e já estava a pensar casar com outro. Meses mais tarde, ela casou-se mesmo com o milionário e ficou muito rica também. Afinal parece que nem sempre os maus se dão mal.
No dia seguinte, fui falar com a minha avó para a biblioteca. Tinha de esclarecer com ela uma situação. Pouco depois, a minha tia Elli foi chamada para ir ter connosco.
"O que querem?" perguntou ela.
"A Sally diz-me que ouviu que tu tens dívidas." respondeu a minha avó. "Que dívidas são essas?"
"Sally, não tinhas nada de ir contar sobre isso à tua avó!" exclamou a minha tia, irritada.
"É para o teu bem, tia." disse eu.
"Eu... vocês sabem que eu trabalho no ramo imobiliário. Comprei uma casa, para depois a vender a um preço mais alto, mas afinal a casa tinha imensos problemas que eu não vi e vendi-a. Mas deram-me muito pouco dinheiro por ela e eu tinha pedido um empréstimo para a comprar..."
"É uma divida muito grande?" perguntou a minha avó.
"Vinte e cinco mil euros." respondeu a minha tia.
"Estou a ver... muito bem. Eu pago a tua divida."
"O quê? Mãe, não posso aceitar."
"Eu pago a tua divida e depois tu vais-me pagando como puderes." disse a minha avó. "Está bem?"
"Sim, assim está bem. Eu aceito então."
E assim o problema da minha tia ficou resolvido ou pelo menos foi adiado e ela pagaria como podia. Nesse mesmo dia, ela foi-se embora, de volta à sua casa.
Eu e o meu pai decidimos ficar por mais algum tempo, até ao julgamento da minha mãe. Fui sentar-me com o meu pai na varanda.
"Estás bem, pai?"
"Não, não estou nada bem." respondeu ele. "A tua mãe, coitada, deve estar a detestar estar na prisão. Mas não se queixou."
"Eu sei que é mau. Também não a queria ver ali, mas o que ela fez acabou por ser a causa da morte do tio Frederic."
"Quem me dera que nunca tivéssemos vindo para aqui passar o Natal."
"Há-de correr tudo bem. O advogado que a avó contratou é muito bom e pode ser que a mãe apanhe uma pena pequena."
"Espero bem que sim. Não consigo imaginar ficar muito tempo longe dela." disse o meu pai, suspirando.
Mais tarde, quando estava no meu quarto, ouvi bater à porta e mandei entrar. Era o Donald.
"Olá Donald."
"Sally, queria saber se não querias ir jantar comigo esta noite. Só nós os dois."
Sorri-lhe.
"Claro que sim."
"A sério? A-ainda bem... estava com medo que não aceitasses." disse o Donald, atrapalhado.
Aproximei-me dele.
"Donald, não fiques envergonhado por estares perto de mim. Tu ias sacrificar-te por mim, dizendo que tinhas sido tu a matar o teu pai para me ilibares. Nunca me vou esquecer disso."
"Eu só fiz o que o meu coração me mandou."
Aproximei-me mais e beijei-o. Bem sei que normalmente são os rapazes a dar o primeiro passo, mas eu sou uma rapariga moderna e o Donald é muito tímido, por isso tomei eu a iniciativa. O Donald correspondeu ao beijo e quando o quebrámos, ficou muito vermelho.
"Vemo-nos logo então." disse eu, sorrindo.
"S-sim... até logo... Sally."
O Donald saiu do meu quarto e não pude evitar sorrir. É um querido e há poucos rapazes como ele. Merece ser feliz e talvez seja ao meu lado que isso aconteça.
Os dias foram-se passando. A minha mãe foi a julgamento e foi condenada a 5 anos de prisão, com três anos de pena suspensa. Quando cumprir um ano de prisão poderá pedir a liberdade condicional.
Eu e o meu pai mudámo-nos para a casa da minha avó. Fica mais perto da prisão onde está a minha mãe e sentimo-nos melhor ali. O Donald continua lá a viver e agora estamos a namorar. Ele é mesmo um querido. Não podia ter encontrado um namorado melhor.
A minha avó acabou por alterar mesmo o testamento e apesar da acção da minha mãe, não a excluiu.. A Lionna continua a ser a governanta atenciosa que sempre foi.
E assim termina o meu relato. Quem sabe não me deparo com outro homicídio na minha vida. Espero que pelo menos não tenha nada a ver com a minha família. Mas para já, quero paz para terminar os meus estudos, formar-me e quem sabe, um dia casar com o Donald. Obrigado por terem lido o meu relato.
Um bem-haja para todos,
Sally Goodwill.
Fim
E assim termina a história, com um romance entre a Sally e o Donald e a revelação de que a mãe da Sally é que tinha cometido o crime, apesar de ter sido uma morte acidental, uma vez que não era essa a intenção de Kate. Espero que tenham gostado. Se acharem que a história merece o vosso comentário, gostaria muito de ouvir o que têm para dizer. Obrigado.
