Domingo de manhã, Sasuke está fazendo lição de casa e surpreendentemente, Naruto também.

A atmosfera em seu dormitório mudou completamente. Eles sentam em suas mesas, de costas um para o outro, inclinados sobre suas tarefas: Sasuke está rabiscando notas de Psicologia em uma muito pequena, muito arrumada, caligrafia muito Uchiha enquanto Naruto resmunga sobre um trabalho de Inglês. A quietude é interrompida pelas blasfêmias de Naruto, o arrastar de uma borracha em seu papel, o irritado taptaptap de um lápis na mesa que ameaça deixar Sasuke completamente insano.

Finalmente, Naruto joga seu lápis na parede e pega seu celular.

"Não adianta!" ele estoura. "Eu não entendo essa merda!"

"Tch," Sasuke zomba sem olhar para cima. Ele escuta sem prestar atenção enquanto Naruto disca o número de alguém, o telefone chama duas vezes, e então ele diz animado "E aí, Sakura-chan!"

Sasuke endurece perigosamente. Ele não tem visto a garota desde o café da manhã do dia anterior, mas dizer que ele não pensou nela seria uma mentira. Ela tem feito aparições frequentes em sua mente com seu falsosfalsos sorrisos e seus estúpidos e brilhantes olhos verdes. Ela é irritante e ele não sabe nenhuma mísera coisa sobre ela. Além de suas estúpidas escolhas alimentares e sua decisão de torcer para o mais chocante time de baseball, isso é.

"O que você tá fazendo?" Naruto pergunta a Sakura.

Sasuke finge que não está escutando enquanto continua a escrever. Não é da sua conta o que Naruto quer com a garota. Ele suspira de uma forma longa e sofrível e pensa que seu amigo é um idiota por se associar com alguém como a garota.

"Estudando? Ah, legal, eu também. Você se importaria se eu e Sasuke fôssemos pro seu quarto? Eu realmente poderia usar alguma ajuda em Inglês."

A cabeça de Sasuke gira e ele olha com raiva para Naruto, que sorri descaradamente de volta, como se ele soubesse um segredo escuro sobre alguém e não fosse contar.

"Ótimo! Valeu, Sakura-chan, você é a melhor!" Naruto desliga e agarra Sasuke pelo braço. "Vamos, babaca, nós vamos estudar com a Sakura-chan!"


Sakura tem um rígido regime de estudo. Ela põe seus estudos em primeiro lugar e sempre o fez.

Domingos são devotados aos estudos. Ela é pré medicina, o que significa que a maior parte de seu tempo livre está fechado com estudos, mesmo nesse, primeiro fim de semana de faculdade. Ela sabe que só vai ficar mais e mais difícil e consumidor de tempo, então ela percebe que pode muito bem se preparar mais cedo, e estabelecer uma rotina da qual não vai se afastar.

O grito desesperado de ajuda de Naruto não é tão surpreendente (ele não é a melhor ferramenta da oficina), mas a vinda de Sasuke com ele sim. Ela pondera enquanto destranca a porta para deixá-los entrar. Sasuke não é exatamente hostil com ela, mas ele não demonstrou nenhum desejo de querer conhecê-la melhor.

Dividir o café da manhã com ela foi um acaso feliz. Não é como se eles tivessem conversado de qualquer jeito, ela foi embora antes que ele olhasse para cima.

Ela quer conhecê-lo melhor, mesmo que seja unilateral. Sasuke é o tipo de garoto de quem ela tem que tomar cuidado ao redor porque ele é o tipo de garoto que ela poderia acabar amando. Ele é perigoso desse jeito.

Ela ainda, entretanto, quer saber quem ele é. Ele tem o mesmo olhar assombrado que ela, a mesma profundidade que mostra a qualquer um que encontre as pistas certas que aqui esta uma pessoa que esteve no inferno e voltou. Aqui está uma pessoa que deixou partes de seu coração e alma espalhados pelo mundo sem nenhum jeito de encontrá-los novamente. Aqui está uma pessoa que precisa de ajuda, mas não vai, não pode pedir ajuda.

Ela pode ver isso toda vez que olha em seus profundos, escuros olhos negros. Ela se pergunta pelo que ele passou.

Mas enquanto isso, ela os cumprimenta na porta com um sorriso e os apressa para dentro. Naruto se acomoda em sua cama e bate no espaço ao seu lado, que ela ocupa. Sasuke senta quietamente em sua mesa e abre seu livro e não diz nada enquanto começa a ler.

Sakura começa uma lição sobre ethos, pathos, logos, e o que poderia ser uma estranha atmosfera não é nada disso. Se qualquer coisa, parece natural e tão sem esforço quanto respirar, a conversa incessante de Naruto e a quieta mas calma presença de Sasuke e a risada genuína dela preenchendo os vazios.

Ela não sabe quando começa a pensar nos garotos como seus, mas pensa.

Seus garotos.


Horas passam, e a garota pede pizza.

Ela liga a televisão, e quando Sasuke lhe dá um olhar escandalizado (é hora de estudar), ela encolhe os ombros timidamente.

"Nós precisamos de uma pausa," ela diz, e tecnicamente, Sasuke não pode dizer o contrário por que esse é o quarto dela, então ele é forçado a a fechar seu livro (talvez ele precisasse de uma pausa) e se vira de frente para a televisão acabada que está passando um filme em preto e branco com atores que ele nunca viu antes.

Contra sua vontade, ele está aprendendo coisas sobre a garota. Que ela gosta de filmes antigos, que ela senta com uma perna dobrada debaixo dela e a outra perfeitamente estendida. Que ela tem o hábito de colocar sua franja atrás da orelha esquerda e que ela não gosta de silêncio, já que sempre que há um momento de calmaria, ela faz uma pergunta ou faz um comentário ou só dá risadinhas.

Sasuke não se importa o suficiente para saber por quê.

"Isso é uma droga, Sakura-chan," Naruto reclama, "Vamos assistir outra coisa. Eu chamo os outros!"

E eles aparecem, e em massa. Logo o quarto espaçoso da garota está cheio até quase explodir de pessoas: Ino, uma garota que ele conheceu no colégio, e sua colega de quarto ruiva escandalosa Karin; Kiba, Shikamaru, e Sai, que estão na suíte de três camas no segundo andar; Neji e Tenten, do terceiro ano que andam com calouros. O filme na TV muda para uma comédia de ação que todo mundo concorda, e Sasuke está irritado.

Ele está irritado porque sabe que Noites de Filme no quarto da garota vão virar tradição.

Ele está irritado que a garota se inseriu em cada faceta da sua vida.

Ele está irritado porque sabe que ela nem precisou tentar.


Sasuke cai no sono em sua cadeira, e Sakura não sabe o que fazer sobre isso.

Todo mundo já foi embora, rindo da falta de sorte de Sasuke, até Naruto. Então agora são apenas ela e ele e ela está confusa e ele está dormindo, braços dobrados na mesa, cabeça descansada em cima deles, ombros descendo e subindo sincronizados com sua respiração e o que é que supostamente deve fazer agora?

Ele é muito menos intimidante quando está dormindo, ela nota. Talvez seja porque seus braços estão fechados e quando seus olhos estão fechados, eles não podem ver diretamente através dela, todas as partes feias que ela tenta tanto esconder. Sua carranca é apagada no torpor do sono, sua face suave e jovem e Sakura tenta lutar contra o rubor que sobe fortemente em seu rosto.

Ele não pode dormir a noite toda ali, ela diz a si mesma. É visivelmente desconfortável, e eles não são exatamente amigos. Oscilar no mesmo círculo social não faz deles amigos. Tomar café da manhã na mesma mesa também não.

Mas Sakura se sente segura perto de Sasuke. Ela não sabe por quê. Ele particularmente nunca agiu de forma protetora em relação a ela. Inferno, ele nunca falou com ela. Ela está razoavelmente certa de que ele a odeia, até. Mas ela não pode evitar o jeito que ela se sente, e quando Sasuke está em seu quarto, de má vontade, mas ainda ali, ela sente como se o aperto em seus pulmões é um pouquinho mais frouxo.

Sakura não vai começar a empurrar para longe as coisas que a ancoram a ela mesma, e se um Sasuke adormecido é uma delas, então enquanto ela estiver preocupada, ele pode dormir em sua mesa todas as noites até o fim da faculdade.

Com essa mentalidade, ela lava seu rosto e escova os dentes e passa um lençol em volta dos ombros dele e sobe na cama e cai no sono.

Sem pesadelos.


Sasuke acorda na outra manhã com o som de um alarme desconhecido.

Ele abre os olhos e toma consciência de que todo o seu corpo está dolorido. Seus ombros doem como se ele estivesse levantando peso por horas. Suas costas estão duras, seu pescoço também. Um lado de seu rosto está dormente por deitar numa superfície plana. Ele demora um minuto para perceber que ele não só não está em seu quarto, mas no da garota.

Instantaneamente ele está com raiva. Um cobertor que ele não lembra de se cobrir cai no chão enquanto ele fica de pé, e , ignorando a tontura na cabeça, ele procura por ela para começar a gritar com ela por tê-lo deixado dormir em seu quarto.

Ela está sentada no chão olhando para o espelho na porta. Ela está pintando os lábios com algo rosa e parece estar nos estágios finais de ficando-pronta-para-o-dia, se seus perfeitos cachos e roupa perfeita servem de dica. Olhos verdes fortemente acentuados por excelentemente-aplicados cosméticos encontram os seus no espelho, e um pequeno mas sincero sorriso levantam seus perfeitos lábios cor de rosa.

"Bom dia," ela diz suavemente.

"Por quê você me deixou dormir aqui?," ele resmunga para ela. Ele está com raiva e ela é falsa e ela não a compreende e não quer nunca começar. Ele esfrega seu pescoço com torcicolo e a odeia um pouco mais por sua falta de interferência.

"Eu não queria te acordar," ela responde. Sua voz é calma, e é honesta. De má vontade ele a respeita um pouco mais, porque ele nunca pensaria que ela pudesse ser honesta.

"Irritante," ele diz a ela. Ele não se importa se fere os seus sentimentos porque ela é confusa de qualquer maneira. Ele tem uma palestra em vinte minutos e ele está bagunçado e despreparado e é culpa dela. Essa um metro e cinquenta e alguma coisa de garotinha, toda bonita e distrativa, está tornando sua vida tão difícil quanto pode e, ainda por cima, ele sabe que não é intencional da parte dela. Contra a vontade dele, dela, também, ela está se tornando mais e mais relevante para ele, e só se passaram alguns dias.

Ela é irritante. Tão irritante porque Sasuke sabe o que vai acontecer depois. Mal passou uma semana, e Sasuke já sabe mais sobre essa garota do que sabe sobre mais da metade das crianças com quem cresceu. Ele guarda coisas estúpidas sobre ela sem querer, e pensa nela quando ela não está ali. Ela irrita o inferno fora dele, porque ele já está tão consciente dela e ele odeia mentirosos, e essa garota é uma mentirosa.

Ela é um espetacular show de merda e uma bagunça e por quê ela não pode apenas admitir isso? Por quê ela se esconde atrás da sua perfeição e perfeição é uma mentira e mentirosos deveriam ser odiados? O que ela está tentando deixar para trás?

"Você me odeia," ela diz suavemente. Não é dito com raiva ou animosidade. Na verdade, Sasuke está surpreso por detectar uma nota de resignação, como se seu ódio por ela fosse uma coisa tão inevitável, que ocorreu a ela também. Como se ela esperasse seu ódio. Como se ela esperasse o de todos.

E isso faz tão pouco sentido pra ele, ele deixa escapar, "Quem é você?"

A pergunta é tão densa e carregada quando vem. Ela sabe que ele sabe seu nome. É mais do que apenas uma introdução. Sasuke quer saber quem é ela por trás da maquiagem e os sorrisos falsos e olhos bonitos. Ela não faz sentido, e se ele odeia alguma coisa mais do que uma mentira, é um mistério.

Ela não responde por um tempo. Há um silêncio entre eles no quarto. Um silêncio tão denso e tão alto que Sasuke quer ir embora então assim vai conseguir respirar. Não é fácil respirar corretamente perto da garota. Mas ele não vai embora porque de forma alguma uma garota como essa vai derrubá-lo em qualquer coisa, mesmo se for um concurso de encaradas.

Ela levanta e sacode seus cachos para fora para que eles caiam como água em suas costas. Ele está com raiva porque ela está tão calma e recolhida enquanto ele está tão amarrotado e esfarrapado e zangado; ele está irritado que ela aceite sua animosidade com tanta graça, quando ele quer que sua compostura quebre, quando ele quer que ela tão maluca quanto ele está ficando. Quando ele realmente quer ver um pedaço de emoção honesta brilhar em seus serenos e assombrados olhos.

Então ela olha para ele e sorri de forma falsa.

"Eu sou Haruno Sakura," ela murmura. "Eu sinto muito que você me odeie. Mas eu não posso te culpar por isso."

Sasuke observa quando ela pega uma bolsa tipo carteiro marrom cheia de livros, a escorrega em seus ombros, e passa por ele fora do seu quarto. Sasuke fica parado sozinho em seu quarto e o silêncio ensurdecedor retorna com força total.

Não há como correr dele agora.


Sakura quase não consegue chegar a tempo.

Ela tem uma palestra em meia hora mas essa é a última coisa em sua cabeça. Ao invés disso, o ar está úmido quando ela corre para fora, espesso e o céu escuro promete chuva. Ela sente um ataque de pânico chegando e ela sabe que não pode deixar ninguém ver. Muito menos Sasuke, deixe que ele a odeie ainda mais do que ele já faz, mais até do que ela. Ela encontra um canto isolado atrás de uma esmorecida cerejeira, e sua bolsa cai no chão e ela cai por último em cima dela.

Seus joelhos batem com força na sujeira, pedrinhas furando sua pele, mas ela mal nota a dor. Ela passa seus braços ao seu redor o mais apertado que consegue e tenta os mantras que levam embora o aperto agonizante. Você está bem. Está tudo bem. Ele não pode te achar. Ele não pode te machucar. Você está bem. Está tudo bem. Tudo vai ficar bem.

Eles não funcionam dessa vez. Como tudo pode ficar bem, quando ela tem provas? Provas de que aqueles que não se enganam por sua farsa, aqueles como Sasuke, que podem ver através dela, a odeiam tanto quanto ela temia?

Ela olhou dentro de seus olhos aquela manhã e não viu nada além de raiva, nada além de desprezo. Sasuke, ela sabe, ver através dela. Ele pode vê-la como ela é e não como ela quer ser, quem ela convence a todos que é. E vendo aquilo, ele a odeia. O ódio em seus olhos é honesto, visível, inescapável e incontestável.

É o pior ataque que ela teve, em muito tempo, e está ficando pior. Doze horas atrás ela dormiu com a segurança de que Sasuke estava com ela. Uma noite livre de pesadelos, uma noite dormindo pesado, sem acordar suando frio e olhando para a janela para se certificar de que ela está trancada. Uma noite passada sem imaginar quando os monstros do seu passado vão encontrá-la.

Agora, entretanto, Sasuke não é mais o silencioso, meditante guardião que ela nunca soube que queria que ele fosse. Agora ele é o juiz, o acusador cujos perfeitos olhos não perdem nada sobre ela, o mediador que a mediu e a julgou culpada.

E não há nada que ela possa fazer para contestar sua condenação porque ela é uma mentirosa. Uma bagunça e uma falsa e uma mentirosa e uma suja e uma usada e uma nojenta e toda outra coisa horrível que ela pode pensar.

Seu coração dispara. É como um trovão em seu peito, e está ficando tão rápido que ela teme ter um ataque cardíaco se continuar assim. Ela não consegue respirar, as curtas golfadas de ar que ela faz são inúteis. Suor explode em sua testa e o mundo está girando e então a seca, feia e marrom grama corre para encontrá-la.

Então não há nada.

Sakura perde seu primeiro período de palestra.


Ataques de pânico não são brincadeira. É importante tratar saúde mental com a devida importância e não menosprezá-la e tratar pessoas com depressão, pensamentos suicidas, ansiedade extrema (assim como a Sakura e infelizmente a tradutora que vos fala) com a devida atenção, muitas vezes um bom dia ilumina o dia dessas pessoas.

Obrigada a todos que deixaram reviews e poooor favor continuem a deixá-las por aqui. Reviews motivam a tradutora.

P.S.: Eu sei, é um processo longo, mas eu vou tentar continuar postando menos espaçadamente.

XOXO

Holly

XOXO