15 de agosto de 1994
Havia manhãs em que Draco achava que seu irmão na verdade foi adotado. Pensava nisso especialmente em manhãs de sábado quando era acordado por seu "sol" particular. Logo cedo sentia o pequeno sentando em cima de sua barriga, dando lhe um beijo babado e leves tapinhas dizendo "acoda daco". E então a primeira coisa que ele iria visualizar seria um menino de rosto de anjo com cabelos rebeldes e encaracolados tão loiros quanto os seus. E toda e qualquer raiva ou sintoma de mau humor desaparecia perante tal imagem sorridente e inocente.
– Quantas vezes tenho que te lembrar de que não se deve acordar as pessoas dessa maneira? – falava num tom calmo e sonolento tentando parecer com Lucius, mas falhando miseravelmente pela forma terna que as palavras lhe escapavam pelos lábios.
– Num fica bavo comigo não. Hoje é meu aniversário! - dizia o mais novo dando um pulo e depois deitando em seu peito.
Então abraçando o menino e cheirando os cachos dourados disse:
– Por mais que eu queira não consigo ficar bravo com você. Bem agora vamos levantar e tomar banho.
Draco colocou o irmãozinho no braço e foi em direção ao banheiro de seu quarto, encheu a banheira e colocou os sais de banhos, colocou o pequeno no chão e começou a se despir, o menor imitou o gesto do maior e pulou na banheira espalhando água por toda a parte e dando uma risada gostosa da careta que seu irmão fez. O maior entrou e começou a fazer bolhas com as mãos, lamentou estar de castigo e não poder usar a varinha. Era um fato que menores não podem usar magia fora da escola, mas certas regras não valem para a família Malfoy. Mas para seu irmãozinho não importava que os brinquedos estivessem "sem magia" sua imaginação infantil dava conta do recado enquanto mostrava para seu irmão a terrível batalha do pato de borracha contra um bonequinho de algum programa infantil aleatório.
– Aqui estão meus dois meninos bonitos. – Disse Narcisa abrindo a porta do banheiro sem cerimônia. Draco não se importava, era sua mãe e pelo barulho que Scorpius fazia era obvio que ele não estava em um momento "intimo" de adolescente.
– Mama! – Scorpius gritou e pulou em Narcisa que apenas riu e voltou a depositar o seu pequeno no colo do irmão. E com um gesto de varinha secou o vestido.
– Você não tem jeito Scorpius, dando trabalho e aprontando logo cedo!Nunca vi tanta falta de decoro! – nem parecia estar repreendendo o menino devido ao tom suave e doce de sua voz, mas a sutil firmeza no olhar fazia com que os seus garotos percebessem a advertência.
– O que é decolo mama?
– Decoro quer dizer: recato no comportamento; decência. Bem, isso não interessa agora, terminem o banho e desçam para o desjejum. Afinal hoje é o aniversário do nosso pequeno príncipe. – Fez um pequeno carinho na bochecha de seu filho mais novo, e retirou-se do ambiente.
Draco começou a lavar os cabelos do irmão e ficou pensativo, havia algo de errado acontecendo, sua mãe andava estranha, parecia muito preocupada. Inicialmente pensou que tivesse haver com o retorno do Lord das trevas, o rapaz não sabia como, seu pai falava somente o que achava necessário e ele não mentia para a família, talvez por isso falasse tão pouco com eles. Mas, Voldemort voltar era algo bom, não era?Era o que todos os sangues puros queriam, não era? Então o que justificaria tamanha tensão?Sempre que olhava nos olhos de sua mãe,sempre que ela o abraçava,era como uma despedida.
– Amo você! E não te quero tiste! – Surpreendeu - se com o abraço de seu irmão, nem percebera que ficara tanto tempo em silêncio.
– Não é nada pequeno, apenas estou com sono. Vamos sair daqui e descer para a mesa do café da manhã, papai não gosta de atrasos e lembre-se tenta não gritar muito, sabe que isso o irrita. – Scorpius fez um biquinho charmoso, mostrando sua insatisfação.
Quatro anos atrás quando descobriu que iria ganhar um irmãozinho não ficou muito satisfeito, teria que dividir a pouca atenção que recebia. Não seria mais o reizinho da mansão. Mas, tudo mudou com o nascimento do pequeno, sua mãe adoecera e não gostava que seres imundos como elfos domésticos tocassem em seus filhos, Draco resolveu deixar de birra e ajudar a mãe. E quando segurou o pequeno embrulho em seus braços sentiu o coração aquecer-se. Foi amor a primeira vista, se irmão tinha olhos de um azul claro como um céu sem nuvens em uma manhã de sol.
E todo seu amor era retribuído em uma intensidade maior, seu irmãozinho o idolatrava. O pai dos meninos era um pouco ausente devido aos negócios e a política, e quando estava junto da família não sabia demonstrar afeto, acabava sendo severo. Isso tornou mais forte a ligação entre os irmãos. Draco queria ser um homem importante como o pai, mas quando Scorpius surgiu em sua vida notou o quando sentia falta de um carinho do pai, e decidiu que quando tivesse filhos eles nunca sentiriam algo assim, assim como Scorpius ele seria presente na vida do irmão e o amaria muito para que ele nunca se sentisse solitário.
Enrolou o irmão na toalha e o colocou sentado na cama, então chamou um dos elfos da mansão.
– Mink!
Ploc!
– Chamou pequeno mestre Malfoy- falou o elfo fazendo uma reverência exagerada quase encostando o nariz no chão.
– Traga o traje que minha mãe comprou ontem para o aniversário do meu irmão.
–Sim Senhor!Mink irá trazer Senhor, senhor- Deu um estalo e desapareceu, e rapidamente reapareceu com a peça pedida em mãos, uma linda roupinha parecida com um traje de marinheiro azul com branco. Draco então fez um gesto com as mãos dispensando a criatura.
–Agora Scorp vamos arrumar esses lindos raios de sol – Chamava o cabelo do irmão desse jeito por ser algo indomável, pois, por mais que tentasse não conseguia arrumar os grossos cachos que ficavam sempre um apontando para cada lado. Seu irmão era cheio de energia, não adiantava arrumar muito, cinco minutos depois a roupa estaria suja e os cabelos mais rebeldes do que de costume. Se ele deixasse crescer um pouco mais, talvez desse jeito. O menino parecia à personificação de um cupido, bochechas coradas, gordinho, e o sorriso travesso que quase nunca abandonava aquele rostinho.
Terminou de arrumar o pequeno e pediu que ele ficasse quietinho enquanto ele terminava de se arrumar, e com seu irmão em seu quarto teria de ser rápido. Optou por uma camisa de linho branca, uma calça cáqui e um sapato abotinado marrom. De certa forma o estilo trouxa estava presente na sociedade bruxa, se quisessem passar despercebidos e sem chamar atenção era necessário ter peças de roupas dos dois mundos no guarda roupa. Por ser puro sangue Draco ainda mantinha peças do vestuário tradicional bruxo, mas a nova juventude bruxa preferia seguir a moda trouxa.
Pegou na mãozinha do irmão e juntos desceram as escadarias e foram para a sala onde seus pais os esperavam para tomar o desjejum. Seu pai lia o profeta diário e sua mãe olhava uma revista de moda.
– Bom dia pai, mãe. – disseram os dois irmãos ao mesmo tempo.
– Sentem-se, iremos ter um dia longo. Desmarquei todos os meus compromissos a pedido de vossa mãe para passarmos o aniversário de Scorpius juntos.
Silenciosamente tomaram o café da manhã, Scorpius sentou ao lado da mãe enquanto ela dedicava-se a dar atenção ao pequeno. Não queria que nada desse errado. Enquanto isso Draco não podia deixar de sentir algo errado no ar, e nem adiantava confrontar sua mãe que ela se esquivava. Pigarreou e comentou:
– Qual a programação para o aniversário de Scorpius?
– Usaremos uma chave de portal para ir à Romênia onde veremos um Show com dragões, assistiremos um amistoso de quadribol entre ballycastle bats e Abutres de vratsa. E jantaremos na casa de um amigo de seu pai. – falou Narcisa em um tom ligeramente cansado enquanto torcia um guardanapo de seda nas mãos, Draco sabia que quando sua mãe ficava ansiosa ou nervosa ela tinha a mania de torcer um lenço nas mãos para não perder a compostura.
– Será um dia inesquecível irmão! – Scorpius disse com um riso sardônico, e Draco não pode deixar de sentir um arrepio na espinha, algo lhe dizia que sua vida iria mudar de um jeito inesperado.
