22 de julho de 1994

O clima pesado combinava com seus sentimentos conflitantes, o céu coberto por nuvens e uma final garoa caía. Cokeworth era uma espécie de cidade industrial suja e poluída, as casas eram habitadas em sua grande parte por trabalhadores de uma fábrica. Aquele local não combinava com a mulher de passos rápidos e elegantes, Narcisa tentava passar despercebida, usava óculos escuros, sobretudo, sapatos de salto e um coque alto prendendo os fios loiros. A casa de quem procurava fazia parte de um lote de casas muito parecidas: de tijolos, janelas opacas, sem iluminação e em ruínas. Seus antepassados se revirariam em sua tumba por um sangue puro de sua classe estar se sujeitado a por seus pés em um antro imundo de trouxas.

Por fim, Narcisa precipitou se pela Rua da Fiação, sobre a qual pairava a alta chaminé fabril como um gigantesco dedo em riste. Seus passos ecoaram nas pedras do calçamento ao passar por janelas partidas e fechadas com tábuas, até chegar à última casa, onde uma luz fraca se filtrava pelas cortinas de um aposento térreo. Ela batera na porta e esperou ligeiramente ofegante, respirando o mau cheiro do rio sujo que a brisa do fim de tarde trazia às suas narinas. Passados alguns segundos, ouviu um movimento do lado de dentro da porta que se entreabriu, um homem com longos cabelos pretos repartidos ao meio que formavam cortinas emoldurando-lhe o rosto emaciado e os olhos pretos.

- Narcisa! Que surpresa agradável! - exclamou o homem, abrindo um pouco mais a porta, de modo que a luz incidisse sobre ela

- Severo - ela sussurrou tensa. - Posso falar com você? É urgente.

- Mas é claro. - Ele recuou para deixá-la entrar.

Assim que entrou não pode deixar de perceber que logo na entrada havia uma sala de visitas, que mais se parecia com uma cela acolchoada e escura, suas paredes eram todas cobertas de livros, havia também um sofá puído, uma poltrona velha e uma mesa bamba agrupados formando um círculo de luz que era projetado pelo candeeiro suspenso no teto.

- Espere um momento irei pegar um pouco de vinho dos elfos, irá tranqüilizar-la.

O lugar tinha um ar de abandono, como se não fosse normalmente habitado. Retirou o grosso, sobretudo e o enrolou nas mãos; notou que Snape a observava atentamente e fez um gesto para ela sentar-se no sofá, sentia-se nervosa e torcia o tecido que estava em suas mãos. Ele voltou segurando duas taças em uma mão e a garrafa de vinho na outra, ele poderia ter feito isso com magia, mas, parecia estar utilizando todo seu tempo para analisá-la antes de realmente iniciar aquela conversa.

- Então, em que posso lhe ser útil? – perguntou Snape, acomodando-se na poltrona defronte a ela.

- Nós... Nós estamos sozinhos? — perguntou Narcisa em voz baixa.

- Sabe que não moro com ninguém e tampouco recebo visitas com freqüência. -Snape serviu as duas taças com o vinho vermelho-sangue, ouvindo um baixo agradecimento da mulher.

- Severo, me desculpe vir aqui dessa maneira, mas precisava ver você. Acho que é o único que pode me ajudar... Meu marido não entenderia... - Ela fechou os olhos e duas grandes lágrimas escorreram por baixo de suas pálpebras.

- Lucius não ficará satisfeito se você ficar escondendo segredos dele, não fique rodando em círculos, só desconfio de um motivo para você vir me procurar, embora não entenda o porquê.

- A família Black é uma das mui nobre e antiga família sangue puro, sempre que um casal tinha três filhos o mais novo herdava o dom da vidência. – Ela parou de falar e respirou fundo, tentado controlar-se para não desabar perante o homem.

- Informação desnecessária, eu já sabia disso. Lucius contou-me de que você teve uma visão em que eu cairia em uma emboscada. Entretanto, você sempre optou por não interferir. Imagino que seja algo grave para que queira mudar os fios do destino. - Snape descansou seu copo na mesa e tornou a se acomodar, as mãos nos braços da poltrona.

- Você gosta de Draco?- a Loira falou subitamente. Surpreendendo o homem.

- Eu aprecio bastante o rapaz, ele é muito inteligente e leal. Um tanto mimado e egoísta é verdade, mas todos têm suas qualidades negativas.

- Eu sei que o Lorde vai voltar e não adianta negar, meu marido não me fala dos preparativos, mas sei que um grupo de comensais será responsável. Tentei dar a Draco uma boa educação, mimei demais porque o amo muito e para suprir a ausência de Lucius, isso fez com que ele se tornasse fraco. Em minha visão vi-o como um comensal. Ele é apenas um menino, meu menino! – Narcisa voltou a lembrar de sua visão e começou a chorar desesperadamente.

Snape levantou-se incomodado, as lagrimas dessa mulher eram como se fosse algo indecente, algo que ele não deveria ver, Narcisa estava "nua", sem máscaras.

- Ainda demorará que isso aconteça. Você deveria se sentir orgulhosa do Lorde das trevas querer o seu filho em seu círculo.

Narcisa então furiosa lançou a taça contra a parede, soltou um grito de desespero e agarrou os próprios cabelos com força. O homem a sua frente olhou-a surpresa ao vê-la perder a compostura, então tropegamente caminhou até ele, e agarrou-o pelas vestes. Com o rosto muito próximo ao dele, as lágrimas caindo no peito do bruxo, ela exclamou:

- Meu filho vai morrer!Será assassinado! Não consegui ver quem, ou talvez esteja recusando-me a descobrir a identidade. Draco te admira... Você é o professor favorito dele... Amigo de Lucius,meu amigo...padrinho do meu filho... - Ela desmoronou aos pés dele, soluçando e gemendo.

Snape se curvou, segurou a mulher pelos braços, levantou-a e sentou-a no sofá. Serviu mais um pouco de vinho e empurrou o copo na mão dela

- Narcisa, chega. Beba isso. E me fale o que exatamente aconteceu na sua visão. Ela se acalmou um pouco; deixando cair vinho nas vestes, tomou um golinho, trêmula

- Draco parecia mais velho e estava sujo, ferido, assustado, seus olhos não tinham mais vida, a marca negra estava em seu braço e ele sussurrava "Eu odeio ser um comensal, eu não queria esse destino" Então covardemente alguém lhe lançava a imperdoável da morte em suas costas e uma voz dizia que "o Lorde das trevas não precisava de inúteis ao seu lado". Severo, quando Voldemort voltar ele não será o líder em que eu acreditava que devesse ser seguido. Sua loucura e megalomania irão fazer com que ninguém estivesse a salvo, bruxos ou trouxas. Meu marido não acreditaria, não adiantaria. Ele pode acabar achando que... – Ela então mordeu o lábio inferior recusando-se a dizer o que realmente pensava.

— Talvez seja possível... Ajudar o Draco.

Ela se empertigou, o rosto branco como uma folha de papel, os olhos arregalados.

— Severo... Ah, Severo... Você o ajudaria? Você o protegeria, cuidaria para que não sofresse nenhum mal?

— Posso tentar. O que você tem em mente Narcisa?

Ela largou o copo, que deslizou pelo tampo da mesa, ao mesmo tempo em que, escorregando do sofá e se ajoelhando aos pés de Snape, segurou suas mãos e levou-as aos lábios.

- Primeiro preciso afastá-lo do foco da guerra, não irei abandonar meu marido apesar de tudo eu o amo e, além disso, se o Lorde interpretar nosso abandono a causa como traição todos nós seriamos sentenciados a morte. Precisarei ficar. Lucius não pode saber de nada. Minha idéia fará com que talvez meu filho me odeie. Precisarei de uma poção, de ter você como álibi, e do seu talento para apagar e adulterar memórias. Se algo acontecer comigo, levará Scorpius para Draco e guardará segredo da localização dos dois, ficará atento para que nada os falte.

Os olhos negros estavam fixos nos olhos azuis marejados de lágrimas de Narcisa, que ainda lhe apertava as mãos. Tudo lhe parecia muito vago Snape se ajoelhou à frente de Narcisa. E disse:

- Quando irá acontecer?Que tipo de poção precisa?E de quem você quer que as memórias sejam alteradas?

- Será no aniversário de Scorpius. Uma poção do amor, você irá alterar as memórias de Lucius, Draco e do noivo. – Dessa vez a voz de Narcisa soou determinada e segura.

- Noivo?- Falou Snape com uma sobrancelha arqueada

- Sim, Draco precisa ser desligado da Família Malfoy. Ficar com alguém neutro a guerra, que possa protegê-lo. Precisa que finjam que ele não exista, assim como fingimos sobre Andrômeda. Não posso confiar a guarda dele sob cuidados dos meus parentes, tanto o lado que é contra como o lado que é a favor de você sabe quem acabaria levando-o ao Lorde.

- Estarei pronto assim que me chamar. Mas, como fará para que o futuro companheiro de seu filho o proteja?Depois do efeito da poção ele pode querer matá-lo, fazê-lo sofrer, casamentos bruxos são feitos como uma ligação que só é quebrada com a morte.

- Não se preocupe. Faça a sua parte que eu faço a minha.

Narcisa o abraçou deixando-o bastante desconfortável com a demonstração de carinho. E assim que ela saiu de sua casa e desaparatou permitiu-se dar um suspiro. Melhor do que ninguém ele sabia como o destino poderia ser uma vadia brincalhona, o que estava predestinado a acontecer, aconteceria. Não é porque ela podia saber o que aconteceria que poderia manipular a situação ao seu bel prazer. Suas visões eram limitadas, e coisas assim tão curtas e subjetivas possuíam variáveis que poderiam trazer de felicidade a arrependimento.

Nota: Retirei algumas partes do capitulo do livro do enigma do prí poder descrever melhor a relação das personagens e o lugar onde Snape vive.