Conheci Gina na escola. Havia uma relação tempestuosa entre nós. Inimizade forte. Ela era namoradinha do meu maior inimigo na escola. Maldita hora em que o maldito Potter se meteu em meu caminho pela milésima vez. Ele tinha uma sina por se meter no meu caminho. E a sua então namoradinha também. E foi assim que nos conhecemos. Mas depois... depois de toda aquela confusão de lados na guerra e outras banalidades da qual me arrependo muito de ter participado, finalmente viemos a nos encontrar.
Nossos caminhos se cruzaram novamente da melhor maneira possível. Pode parecer um tanto romântico e de certa forma patético, mas não é fácil criar uma amizade com um Weasley, ainda mais sendo sonserino, ou ainda pior, um Malfoy e com um fator agravante: sendo i uma /i Weasley. E a única maneira que nos fez criar pelo menos uma simpatia um pelo outro foi a convivência forçada. E foi por um meio muito agradável.
Depois da guerra estávamos um tanto perdidos, todos nós. Ninguém sabia ao certo que rumo iria tomar em sua vida. Eu então, estava vagando sem direção. Com o dinheiro confiscado definitivamente por sermos uma família de comensais e sem nenhuma referência anterior de vida normal, me restou vagar de casa em casa dos poucos amigos que me restaram. Era insuportável estar na minha casa com todas aquelas lembranças. Meu pai preso, minha mãe insana, pelas lembranças, pelas perdas. Ela nunca iria se recuperar... E nesses lugares onde passava dias decidi que o normal a se fazer quando se precisa sobreviver é arrumar um emprego. A princípio não pareceu difícil, mas quem aceitaria um empregado com a marca negra no braço? Fui para o caminho mais simples e onde teria mais contatos. Tornei-me um contrabandista.
A vida de um contrabandista não é nada fácil, mas se você olha pelo ângulo da aventura, era o que não me faltava. Nunca tive esses delírios absurdos heróicos como o de Potter, mas pra conviver com as dificuldades só restava a opção de imaginar.
Contrabandear os produtos era teoricamente fácil. Você tinha basicamente que negociar com os fabricantes, providenciar transportes e arranjar compradores para os seus artigos. Para mim, que vendia armas trouxas com i sutis /i alterações, a aventura estava em negociar com aqueles malditos, que se achavam os donos do mundo só por serem a 'base do negócio'. Os caras queriam sempre mais dinheiro do que valia a carga, e sem muita chance, você barganhava por pequenas diminuições no preço final da negociação, afinal, se não comprássemos, certamente outros compradores apareceriam. Não há homem que não tema os outros, pois se conhecendo bem, sabe que todos os homens são iguais a ele: desumanos e medíocres.
Minha vida era tranqüila, fora a ilegalidade em que vivia. Mas era questão de sobrevivência. Se algum dia, na minha infância ou mesmo na época das batalhas me dissessem por uma profecia que aquele seria meu destino, certamente riria na cara daquela pessoa. Malfoys não se submetem a coisas ultrajantes como aquelas. Mas os tempos mudam, e mudaram. E além do mais já tinha mesmo muitos contatos interessados nos produtos antes mesmo de ir para esse meio.
Mas Gina veio parar no meio da história de uma maneira inusitada.
Estava eu voltando para o hotel onde me hospedava sempre que ia à Grécia quando avistei familiares cabelos ruivos entrando na portaria do hotel, mas não dei atenção. Era um hotel barato, por isso não estranhei a presença daquela pobretona ali. Por mais que odiasse aquele lugar, era ali o melhor lugar onde poderia ficar, não por falta de dinheiro, que apesar de confiscado eu já havia reconquistado, mas para evitar despertar a atenção de freqüentadores de grandes hotéis, os ministros e altos cargos do ministério.
Não sei até hoje o porquê, mas Gina Weasley estava na banheira vagabunda do meu quarto quando voltei pra lá.
Ela jura que foi uma coincidência, que apesar de tudo o quarto não deveria ser compartilhado por nenhum segundo sequer por nós dois. Mas foi, e isso é fato!
Indignado pelo erro, pela invasão e pelo sobrenome, mas não pelo corpo que estava enrolado na toalha e dentro de meu roupão, que gentilmente ofereci, fomos à recepção esclarecer alguns pontos. Porque diabos aquela mulher estava no meu quarto? Meu costumeiro quarto?
O maldito recepcionista jurou que não havia mais quartos.
-Pois a coloque em um outro quarto, não o meu!
Gina, meio vermelha de raiva, meio de vergonha por estar na recepção de um hotel vestindo trajes daquele tipo de outra pessoa, pois o dedo na cara do homem e fez questão:
-Exatamente. Eu pedi um quarto meu. Se não havia um, deveria ter me dito, assim eu ia para um outro lugar! E exijo meu dinheiro de volta.
-Mas senhora, já depositamos o dinheiro em conta bancária hoje de manhã quando a senhora passou por aqui, e agora o processo levará muito tempo, pois só executamos esse serviço pela manhã...
-Eu não divido nenhum ambiente com um Malfoy, senhor.
Apesar do estardalhaço que ela fez, meu tom foi, como habitual ironicamente educado.
-Eu também. Sou cliente de vocês há um bom tempo, e por isso, exijo que retirem essa... i dama /i do i meu /i quarto.
O recepcionista, confuso, exitou entre quem expulsar, mas infelizmente escolheu a ela. Só queria dinheiro, se tivesse o mínimo de noção de etiqueta deixaria o quarto para a Srta. Weasley. Mas eu, com minha profunda pena e caridade, permiti que ela ficasse no quarto. Mas só porque ela tinha bons dotes físicos...
Mas a Weasel era orgulhosa e disse que não ficaria no mesmo quarto que eu.
-Então, Weasley, fique com o quarto.
Seu olhar incrédulo era de quem conhecia bem a minha raça. Ela sabia que não estava certa toda aquela generosidade, educação e simpatia em um Malfoy, sonserino com orgulho.
-Mas preciso de um dia para encontrar um novo lugar para ficar. Será que poderia ficar aqui só essa noite, Weasley?
Era estranho pra mim pedir alguma coisa, e acho que o tom saiu errado. Só era acostumado a mandar e ordenar. Algumas raras vezes havia implorado em minha vida. Mas foram raras vezes, não deu pra acostumar.
De qualquer maneira, Weasley permitiu que eu dormisse lá aquela noite, mas só porque o quarto era um dos melhores daquele lugar, dos que possuíam duas camas. Duvido muito que se houvesse somente uma cama dividiríamos o mesmo ar por mais que três segundos.
-Mas eu fico com a cama de casal, Malfoy. Obviamente.
Rolou os olhos debilmente.
Bem, pra mim não importava. Minha intenção mais forte era mesmo sair dali depois daquela noite.
Ela retornou à banheira, batendo a porta com força, como quem diz "nem tente nada" enquanto eu passava minhas coisas para a mala e preparava minha cama para dormir. Era raro me ver fazendo alguma coisa por conta própria, sendo independente e arrumando minha própria cama para dormir. Sempre fora criado com empregados ao meu dispor, nenhum serviço era permitido as minhas mãos realizar. Tudo meu exigia uma cerimônia enorme. Mas não se pode escolher muito depois de uma guerra como aquelas e em uma profissão daquele tipo.
O que me chamou a atenção nas coisas dela jogadas sobre a cama era que ela não tinha o mínimo de organização, um contraste enorme para minha maníaca organização metódica. E resolvi bisbilhotar. Não que fosse de meu feitio.
No meio da mala aberta, as roupas estavam espalhadas e por cima passaporte Grego. Visivelmente falso porque era ainda nos padrões antigos e com a data recente, e a Grécia já havia modernizado a maior parte de seus documentos. Os emitidos naquela data já não eram mais naqueles moldes. Revirei mais sua mala, havia de achar alguma coisa que me interessasse. Uma carta no meio da bagunça. Não me cabia ler, mas li.
i Gina,
Não se esqueça de que tem que ser muito cuidadosa e acima de tudo discreta. Seu alvo é da pior espécie, não se deixe envolver.
Já falei sobre ser cuidadosa e discreta? Qualquer erro pode ser fatal em nosso plano.
Hermione Granger /i
Sobre que diabos estavam falando? Não devia me importar. Uma noite e estaria longe da Weasley, certo?
