Depois de jantar retornei ao quarto e voltei ao quarto para tomar banho. Weasley estava com calça e blusa azuis. Não pareciam pijamas, mas eu sabia que ela dormiria daquela maneira, pois as roupas estavam desleixadas demais até para uma Weasley. Estava sobre a cama lendo um livro que tentei muito descobrir o título, mas não consegui porque ela pousou o livro sobre o colo e esperou silenciosamente até que eu saísse para retornar à sua leitura.

O banheiro ainda tinha cheiro de xampu barato. O xampu dela. Era barato, mas agradável, e pelo banheiro parecia haver passado um furacão, tamanha a desorganização da Weasley.

Ela estava me irritando com sua onipresença.

Depois do banho, usando o roupão verde que mais tarde estivera sobre Gina Weasley e pijamas voltei ao quarto e reparei que minhas coisas estavam não reviradas, mas fora do lugar e Weasley fazia cara de santa, lia seu livro e não tirava os olhos dali.

-Mexeu nas minhas coisas, Weasley?

-...

-Sua mãe não ensinou que é feio?

-Eu não mexi nas suas coisas, nem teria motivo.

-Pois não é o que parece. Como explica então minhas coisas fora do lugar?

Com cara de garota que tinha feito uma travessura, juntou toda sua cara de pau e disse:

-Não fui eu.

-Então quem foi, Weasley?

-Foi o Amsterdã.

-O qu... Quem?

-Amsterdã, meu furão. Ele estava um pouco estressado por causa da viagem, então resolvi deixá-lo solto.

-Não brinque comigo, Weasley! Onde diabos está esse animal então?

Sua risadinha foi ainda mais travessa que sua cara ao negar autoria no delito.

-Onde, Weasel?

-Bem, ele está tentando subir em você, mas se você quiser, posso chamá-lo.

-O que?

-Chamá-lo. Mas você tem que pedir com educação.

-Está bem, Weasley i por favor /i , chame este animal maldito dos meus pés.

O animal, depois de ser chamado pelo nome refugiou-se nas mãos da dona, que se abaixara para pegá-lo, i pobrezinho /i .

-Então Malfoy, já achou outro lugar para ficar?

-Ainda não.

-Como não, Malfoy? Não conte com minha piedade por nem um dia a mais! – Suas bochechas estavam ligeiramente mais rosadas

-Tenho cidadania Grega e Inglesa, amanhã procuro na embaixada algum lugar que eles recomendem.

-Por que então fica num lugar como esses?

-Bem, minha família perdeu todo o dinheiro com a Guerra. Parte confiscada, parte gasta com coisas necessárias numa Guerra. Mas por favor, não vamos insistir nesse assunto, é humilhante demais pra mim – E era. Mas esse texto havia sido habilmente planejado e ensaiado. Sabia que perguntas desse tipo seriam feitas algum dia, mais cedo ou mais tarde. Assim como também tinha respostas preparadas para as viagens e para minha sobrevivência.

-Que mal lhe pergunte, Malfoy, está na Grécia por quê?

-Não que lhe interesse, mas estou aqui pra ver se consigo achar alguns parentes que possam liberar a fortuna do cofre do governo.

Enquanto ela pensava com cara de quem não sabe muito bem se acreditava ou não, me acomodei na cama. Droga! Era de longe muito menos confortável que a outra. Mas não havia escolha.

-Você mesmo disse na recepção que você é um cliente de longa data. O que vem fazer aqui tantas vezes? – uma expressão de satisfação se estampou no rosto sardento.

-Bem... Er... Eu não consigo ter sucesso na minha investigação, e tenho que voltar várias vezes.

-Ah, sim... E porque então não compra uma casa?

Tantas perguntas dão nos nervos de um Malfoy.

-Já disse, Weasley, não tenho dinheiro.

-Mas tem para vir pra cá de transporte comum, sem aparatar.

Tudo bem, estava sem resposta para aquela.

-Como é que você sabe que vim até aqui de trem?

Uma risadinha irritantemente satisfeita precedeu o "eu não sabia até agora, estava só te testando"

-Merda, Weasley!

Mais risadinhas se seguiram até que eu realmente me irritei e gritei:

-Weasley, COMO É QUE VOCÊ SOUBE QUE EU NÃO VIM APARATANDO?

-Bem, Malfoy, eu sou do ministério. - Vendo meu rosto naquela semi-escuridão insatisfeito e ainda mais irritado continuou – Tenho direito a fazer isso.

-Tem o direito de bisbilhotar a vida das pessoas?

-Não, mas tenho direito de investigar a vida das pessoas que vão dormir comigo. Eu quis dizer no mesmo quarto que eu!

-N... – Interrompido pela primeira vez.

-E por um acaso essa pessoa é ex-comesal, de uma família de comensais com amigos comensais... E eu não quero morrer, sabia? Sou jovem demais pra isso! Você entende o que isso quer dizer, Malfoy?

- Não, Weasley, vou dormir. E colocar um feitiço anti-intrusos nas minhas coisas.

Dei as costas a ela, me levantando e lancei o feitiço anti-intrusos. Como se não tivesse aprendido nada nesses anos de vida, dei as costas ao inimigo.

Dar as costas a um inimigo pode ser um erro fatal em uma guerra. Em caso de guerras particulares como aquela, as proporções eram sem dúvida menores, mas ainda assim catastróficas: um travesseiro cortou o ar do quarto e pousou em minha cabeça.

Uma ousadia daquela Weasley Maldita, mas não reagi. A educação que minha mãe me deu não permitia falta de cavalheirismo. Um outro travesseiro voou através do quarto. Me virei doentiamente e joguei-lhe os cobertores da sua própria cama e então dentro de pouco tempo ela se viu bombardeada por todos os travesseiros ao alcance de minha mão, até que ela implorasse pra eu parar.

Uma risada maligna e perversa, mas também extremamente infantil então brotou de minha garganta, obter uma vitória daquela Weasel era muito satisfatório. Era questão de honra, orgulho.

E com a guerra vencida, pude finalmente me deitar, não sem antes dar uma última olhada no rosto sardento tomado de sabe-se lá de qual sentimento que estava naquele quarto.

Mas enganou-se ao pensar que dormi. Passei a noite em claro, vigiando Gina Weasley, movido pela desconfiança ou alguma outra coisa que não me deixava pregar os olhos. Além é claro da constante insônia que me perseguia desde que me entendia por gente.

A doença ou inquietude sempre havia me acompanhado. Em toda a minha memória, não havia uma recordação sequer de uma noite bem dormida. Sempre tivera pouco sono, só mesmo muito cansaço conseguia me fazer dormir mais que quatro horas por noite. Mas à medida que cresci, a angústia de envelhecer e todos os outros sentimentos só me tiravam ainda mais o sono. Já havia me acostumado a passar noites em claro, tanto como fechar os olhos e descansar, mas não dormir. Os pensamentos ainda tinham uma ordem lógica e mudavam de direção sob meu comando, estava sempre alerta, todo e qualquer movimento fora ou dentro da casa eram percebidos e por menor que fossem, me tiravam ainda mais o pouco sono que tinha. Diziam ser consciência pesada, ou talvez remorso que eu ficava remoendo, mas é que não havia nada que me desse o prazer de dormir, relaxar os músculos profundamente, descansar e sonhar.

Durante a madrugada, observando o nada como de costume e tentando decifrar o que se passava na escuridão daquele quarto onde somente alguma luz vinda do lado de fora permitia alguma claridade, pude perceber que Gina também passou acordada grande parte daquela noite, porém contra sua vontade. Pensei ser desconfiança, afinal, admito, minha família não tem a melhor fama do mundo, e dormir ao lado de um extranho Malfoy é algo que exige atenção, mas o brilho dos olhos castanhos estavam em mim e não pude deixar de ficar curioso. Ela podia muito bem estar atenta sem me olhar.

Então fechei meus olhos e dei-lha as costas pela segunda vez no dia e não muito surpreendentemente depois de algum tempo levantou-se da cama, pelo barulho e o som dos passos soube que sua direção era minhas bagagens e meu armário. Ela soube desfazer o feitiço anti-intruso como pude ouvir pelo som da porta rangendo e revirou por muito tempo ali. Não emitiu nenhum som, mas pude ver sua sombra quando passou por mim para verificar se eu realmente dormia e saiu pela porta, provavelmente com algo meu.

Não parei para verificar nada, mas sabia que ela tinha pego algo. Só não sabia o que, só não sabia o porquê, mas sabia que se parasse perderia muito tempo e não teria como segui-la.

Ainda de pijamas, desci as escadas e pude ver uma chama, cabelos vermelhos reluzindo, e segui-os com cuidado. Se há uma coisa que aprendi é a ser discreto, mesmo que não seja de minha personalidade.

Tive de esperar atrás de uma palmeira gigantesca que ficava na recepção, já que ela havia se sentado no sofá, e na recepção vazia olhava impaciente o relógio. Esperava alguém. Que em alguns minutos soube ser seu irmão.

-E aí, como vai?

-Vou bem! –Ela o abraçou forte – E você?

-Ah, vou bem. Vou te levar pra conhecer a cidade amanhã, certo? Hoje estou com um pouco de pressa

-Ah, sim! Mal posso esperar.

Eles se sentaram lado a lado, ela de frente a ele.

-Você ainda não me disse por que está aqui, Gina.

-Ah sim! – Ela olhou cuidadosamente ao redor – e me abaixei mais ali no meio dos ramos da planta – O ministério me mandou aqui pra investigar Draco Malfoy.

-Malfoy? – Por uma fração de segundo, podia jurar que houve uma sombra de medo em seus olhos.

-Ele é suspeito de fazer contrabando já que sua fortuna foi confiscada pelo ministério e ele está fazendo muitas viagens pra cá, e nós sabemos muito bem que aqui é um lugar onde há facilidades para todo o tipo de comércio.

Desgraçada! Ela sabia.

Alguma coisa estranha foi percebida por ela, que a fez olhar pra trás e procurar algo estranho, mas fui mais rápido, me abaixei e ela felizmente não me viu.

-Aqui está, veja!

Apurei meus ouvidos então.

-O que é isso, Gina?

-Bem, é um endereço que encontrei com ele, vou procurar amanhã cedo. Não se importa de sairmos mais tarde, não é?

-Claro que não. Mas como você conseguiu isso?

-Bem, essa é a pior parte da história – ela baixou seu tom de voz – O idiota do hotel nos colocou no mesmo quarto, não sei o porque!

-Como assim, Gina? Aquele babaca fez alguma coisa a você?

-O Malfoy? Nah... O problema é que eu teria meios de descobrir isso de qualquer maneira, foi desnecessário.

-Mas veja pelo lado bom, você já descobriu o que quer e vai poder ir embora logo!

-Sim, é verdade!

-Como vai Fleur e as crianças?

-Ah, vão bem. As meninas estão ansiosas pra ver a Tia Gina.

-Muito amável da parte delas! Devem estar enormes, não é mesmo?

A conversa tinha passado para o ramo das banalidades, mas eu teria que esperar. Um movimento errado e ela saberia que eu sabia que ela sabia sobre mim.

-E Harry, como vai?

-Oh, estamos indo bem – o desânimo em sua voz era evidente, o desgraçado devia ser obcecado por heroísmos, e heróis não têm o tempo de que necessitam suas donzelas inocentes.

A conversa terminou repentinamente, e enquanto ela o abraçava em despedida encontrei minha brecha para voltar ao quarto correndo e fingir novamente que estava dormindo.

Por enquanto, eu fingiria não saber de nada, mas ela iria me pagar.