Covardia
Assim que os primeiros raios de sol se espreguiçaram tímidos através da janela me levantei. O dia que estava nascendo dava toda a impressão de que iria ser quente. Perfeito para uma pequena vingança contra Weasley.
Depois da conversa com o irmão, havia voltado tranquilamente para o quarto e cinicamente devolveu o endereço ao seu lugar inicial. Seu cinismo se misturou à coragem, e ela dormiu com um inimigo. Devia ser de insana para pior. Como é que alguém dorme no mesmo quarto com uma pessoa que investiga e que era ex-comensal? Ela estava me irritando profundamente. Sua coragem, sua hipocrisia, seu desleixo e desorganização, a maneira como ela dormia agitadamente, a maneira como ela dormia, com a consciência assim, limpa, depois de ter traído quem lhe havia feito uma gentileza.
Minha noite não havia sido nada boa. Remoendo a raiva e repassando os passos de algum plano indefinido, minha mente divagava tentando encontrar meios para puni-la ou pelo menos fazê-la esquecer-se de mim, do endereço, de investigar, de que estou ilegal. Eu tinha que encontrar uma maneira ao menos de desviá-la de onde eu iria.
Então me levantei e rumei para o número 21 da Rua Siokou. Se alguma coisa eu havia aprendido na Grécia é que gregos têm o hábito de tomar o café da manhã na rua. Talvez eu tivesse uma chance se chegasse mais cedo que ela ao comerciante, e poderia tirá-lo dali. Desse modo, Gina nunca chegaria a descobrir nada e logo eu estaria em paz.
Virgínia Weasley tinha se tornado um tormento em minha vida e nosso convívio fora de menos de vinte e quatro horas. Em pouquíssimo tempo ela já invadira minha vida, remexera em minhas coisas, havia me roubado, estava me investigando, contara ao seu irmãozinho querido quem eu era, estava tentando me ferrar e agora me fazia interromper um café da manhã grego.
Lá estava eu, Draco Malfoy na rua Siokou. O número 21 era tradicionalmente Grego, embora do novo vendedor só sabia que não era nascido na Grécia: A casa branca tinha janelas azuis e uma varanda simples, com colunas de madeira pintadas também de azul. Uma mesa com café estava sendo posta por uma familiar loira ali mesmo na varanda.
Olhando curioso para o visitante, gritou algo para alguém do lado de dentro da casa em uma língua que definitivamente não era grego, mas também não era inglês. Era Francês, eu sabia. E uma suspeita se fez em minhas idéias.
Logo a suspeita se confirmou. De dentro da casa um ruivo com uma caneca de café vinha. O irmão de Gina, tão surpreso como eu.
-Gina sabe de você, mas não sabe de mim.
-Foi o que imaginei.
-Entre, me diga o que quer, negociaremos rápido e depois eu falo com a Gina que você deve ter feito um feitiço de confusão nos seus segredos. E que foi exatamente por isso que ela achou que era esse o endereço.
-Será tão fácil assim enganar sua irmãzinha?
-Por favor, entre, depois conversamos. Se a Gina resolver vir antes não tem como te esconder, e ela não vai acredita nessas explicações assim tão fácilmente.
Entrei. Afinal, ele tinha razão.
-Você ainda não me respondeu.
-Malfoy, diga o que quer rápido, Gina pode chegar a qualquer hora. Ela não gosta de acordar cedo, mas ela pode muito bem fazer isso hoje. – dito isso, me conduziu por um corredor do lado de fora da casa, que levava para uma parte ao fundo da casa, como um galpão.
-Mas você ainda não me respondeu, Weasley.
-Gui, pode falar Gui. Você nunca mais vai me ver mesmo.
-Como assim?
-É, eu quero parar logo com isso, antes que isso se torne muito arriscado, agora que a Gina está trabalhando justamente com isso.
-E não quer decepcioná-la?
-Não, não quero. Não sei se você sabe Malfoy, mas quando a gente gosta de uma pessoa a gente faz tudo para ela se sentir bem.
Paramos diante da porta.
-Pense no que quer – ele disse
"Armas" E a porta se abriu. Atravessando-a, um reino decadente de armas. Havia armas, de fato, mas muito menos do que eu já havia visto antes com outros vendedores. Poucos revólveres, algumas metralhadoras, punhais e facas a um canto e duas espadas douradas com pedras vermelhas, cruzadas entre si ao fundo, penduradas num quadro de madeira.
-Escolha logo o que quer, por favor, ande rápido!
-Temos poucas opções aqui, não é?
-Sim, eu não estou renovando estoques. Depois que vender estas acaba.
-Não quero saber suas historinhas de fraternidade, Weasley – interrompi rudemente. Detestava ladainhas daquele tipo. – Quero todo este resto, pra te ajudar com sua [inova vida...[/i
-São seis mil galeões. – O tom irritado em sua voz e o vermelho do rosto estavam me assustando, mas desde quando tive medo de gentinha como os Wealey?
-Isso tudo?
-Malfoy, não dá pra você barganhar aqui, muito menos agora que estou com pressa, então pegue logo o que deseja, pague e vá embora.
-Está bem, Weasley – disse rispidamente – Seis mil galeões. Terá em dois dias o dinheiro em sua conta.
-Está bem, assine aqui.
Ele tirou de seu bolso um papel amassado e uma caneta e com um toque de varinha surgiram as letras formando os termos de um contrato de compromisso. Ao assinar, como de habitual, meu sangue escreveu meu nome. Se quebrasse ele me encontraria em qualquer lugar – estava escrito lá.
Os pactos bruxos eram sempre infalíveis e até hoje não consigo dizer se isso é bom ou mal. Haviam, como sempre, lendas sobre grandes bruxos, ou bruxos medíocres que haviam conseguido escapar de pactos e tratados, mas e o medo de sofrer mais uma vez numa tentativa dessas? Deus sabe o quanto eu já havia sofrido por conta de pactos inquebráveis. Dos mais infantis aos mais sérios e mortais, já havia sofrido por eles. Tanto por segredos ou por acordos, há sempre medo de que um pequeno detalhe possa valer sua vida ou algo mais importante. Os detalhes davam medo, mas às vezes é necessário lidar com o medo pra que tudo dê certo. Sem medo, às vezes a preguiça ou a indiferença dominam as ações e nem sempre o necessário é feito sem temor. Pra alguns, o medo é só um combustível. Pra mim não era, mas eu aprendi a usá-lo dessa maneira. Facilitava minha vida e era tudo que eu queria: vida fácil.
Num baú debaixo da mesa ele colocou todas as armas. Um artifício simples e rápido. Ali ele colocava as armas, elas apareceriam em um baú exatamente igual no local onde eu havia designado no contrato. Quando já estava colocando as últimas armas ouviu uma voz familiar. E correu dali, me mandando esconder.
Nada fiz, afinal, ela não entraria ali. Era Gina e eu queria ouvir se ela cairia naquela de feitiço de confusão. Ela parecia esperta de mais, apesar de algumas atitudes tolas e infantis em seus "métodos de trabalho". Alguma coisa em seus olhos dava a impressão incômoda de que ela desnudava tudo que via. Sabia dos sentimentos e sabia brincar com eles, mas felizmente eu era imune a ela e seus olhos só se mostravam sábios perante aos outros, nesse pouco tempo eu tinha visto, não a mim. Ou ao menos pensava que fosse.
Sua voz encontrava-se em diálogo com a de duas crianças, meninas que deviam ser filhas de Gui. A voz de Fleur também fazia perguntas a ela: perguntas cretinas e exatamente iguais às que eu tinha ouvido no dia anterior. "Como vai Harry?" "Porque está aqui na Grécia?". As respostas foram as mesmas que ela já havia respondido antes. O que havia (ou não havia) entre ela e Harry que tanto deixava sua voz triste[iMe encantava[/i a maneira que ela disfarçava bem, desviando de assunto e perguntando alguma coisa às meninas. Gênios da mentira não começavam assim.
A conversa de formalidades familiares não foi muito longe e logo as vozes femininas saíram de cena para dar lugar a um ato único entre as vozes ruivas.
-Quero que me explique agora como vim parar aqui.
-Aparatando? – ele parecia estar brincando.
-Não brinque comigo, Gui.
-Não estou brincando.
-Você sabe do que estou falando! Você leu o endereço! – sua voz demonstrava realmente que estava chateada.
-Não era esse o endereço! Eu li um endereço num bairro realmente suspeito daqui e pensei que estivesse certo.
Esperto, fez com que ela concluísse e não ele.
-Desgraçado! É óbvio que ele não era idiota o bastante para dormir comigo e deixar tudo à minha disposição!
O som de passos podia ser ouvido, tamanha força que usava.
-Foi um feitiço de confusão!
-Realmente, faz sentido, Gina - ele sim era um bom mentiroso.
-Todo o sentido. Ele pode até parecer estúpido, mas não é tão idiota quanto pensávamos.
-Realmente, faz muito sentido.
-Agora vamos à cozinha que Fleur deve estar preparando biscoitos deliciosos.
Diante da falta de resposta da Weasley caçula ele continuou a conversa.
-Vamos, Gina, é só o seu primeiro caso nessa área e garanto que tudo ainda dará certo algum dia.
-Mas porque tudo em que me envolvo tem que fracassar, Gui? – O tom de sua voz tinha passado do nervosismo inicial para derrota, quase um choro.
-Primeiro, Harry e eu. Faz meses que não nos falamos direito. Sempre estamos distantes por causa do emprego e quando estamos juntos, nada acontece em nossas vidas.
Uma gargalhada interna tão forte invadiu minha alma, e me sentia infantilmente feliz à custa da impotência sentimental e sabe-se lá qual mais do maldito testa rachada. A rivalidade infantil somada a uma ponta de inveja me fez rir, até mesmo por fora e parece que pro resto daquele dia nada podia me tirar o sorriso sarcástico do rosto.
-Mas ele está te tratando mal, Gina? – Gui disse genuinamente preocupado com a irmã mais nova.
-Não, não é isso... Ele nem sequer está me tratando... Nós mal conversamos e eu não sei o porquê. Tentei perguntar, mas ele está frio e seco comigo. Não entendo, não entendo.
O choro agora escorria de sua voz, sua garganta presa pela lágrima que não sabia se era certa em sair. Doía-lhe a causa e o choro. E era tão claro que mesmo através das paredes sua voz ecoava tristeza. Como não havia reparado antes? Nas oportunidades de conversa estivemos preocupados em desenterrar brigas infantis e estúpidas e nem em um momento sequer deixamos as máscaras de lado. Se ao menos soubéssemos o que se passava um com o outro. Mas meus sentimentos tão iguais aos delas eram ignorados por mim e, se é que era possível ignora-los mais, muito mais por ela.
Ela não entendia. Eu também não. Estávamos perdidos em um mundo, sem entender como ele funcionava, sem saber de suas estradas, perdidos naquele mundo tão pequeno por conta de sentimentos menores ainda. Nada do que se passava eu entendia. E de repente tudo pareceu claramente errado na minha vida. Tudo errado na minha vida. Claro como água.
Lá fora eles deviam estar se abraçando e palavras consoladoras estavam sendo ditas em seus ouvidos. Aqui dentro, só havia eu. Não havia nós, nem eles, nem tu. Só eu. Sozinho, vazio e carentemente independente. Queria um abraço também. De repente, uma vontade pueril de ver minha mãe, de abraçá-la e de ficar em seu colo enquanto ela mexia em meus cabelos, exatamente igual à maneira que fazíamos quando eu era pequeno, sem dizer palavra. Ouvindo os ruídos ao redor, conectados em universos diferentes e particulares, mas que de alguma maneira dependiam um do outro. Mas ela agora era incapaz de ver alguma coisa boa em mim. Sozinha, abandonada em uma cama de hospital sem o afeto ou uma presença que a consolasse. Havia sido incapaz de enfrentar meus medos para ajuda-la e essa covardia só não era menor que a covardia de não aparecer por medo de sua reação, do que ela veria em mim.
Um covarde sozinho e triste e lá fora a coragem apesar de triste, consolada, acompanhada e com promessas de felicidade.
Lágrimas não saíram de meus olhos, assim como a covardia não se esvaiu de todo de mim e mais uma vez a inveja que me havia ocorrido por toda a vida voltava com um toque de crueldade.
-Weasley, não se engane, seu irmão é igual ou pior que eu.
N/A:Perdão pela demora, além de falta de criatividade estava com falta de tempo, mas tudo se resolveu e estou com inspiração suficiente pra escrever bastante esse feriado então, brevemente, mais rápido do que esse capítulo, teremos capítulo novo!
No próximo capítulo uma pequena aproximação, mas nada de action ainda.
Thaty- muito obrigada pela review. Sim, a fanfic é no POV do Draco, foi até bom você ter prguntado, que eu já deixo claro. Continuem esperando!
