Mar de sentimentos

Por alguns segundos permaneceram estáticos, ambos os Weasley. Eu também. O rosto de Gui se contorcia de um sentimento ainda indefinido por mim e muito provavelmente por ele também. Naquela cena nada era definível, para ninguém. Os olhos de Gina demonstravam aquele espanto.

Era surpresa pra mim também estar ali. Impossível e estranho, mas eu havia falado aquilo? As palavras escaparam de minha boca numa velocidade que nada as conseguiria deter. Movidas por sabe-se qual sentimento, voaram, ganharam vida e foram para o ar gerando conseqüências catastróficas, mas ainda indefiníveis. Nada era certo, nem as batidas do meu coração, que eu podia ouvir tamanho silêncio.

Depois daqueles segundos que mais pareceram séculos alguma reação se esboçou no rosto da Weasley.

-Como assim? – parecia incrédula. – Do que você está falando?

-Malfoy, saia daqui agora!

-Está com medo do que? Que eu fale tudo pra sua irmãzinha? Weasley, já chega de enganação!

Ele não sabia o que responder, e a Weasley mal sabia o que estava acontecendo, totalmente confusa:

-Do que vocês estão falando?

-Sabe o que é, Weasleyzinha? Seu irmão querido vem te enganando.

-Eu não acredito em você.

-Pois deveria.

Fui pego pelo colarinho em atitude de desespero.

-Vá embora daqui, AGORA, Malfoy. Não temos tempo para gracinhas.

-Mas tem tempo para enganar sua irmã não é?

-Cale a boca, maldito!

O soco não doeu. Os outros socos também não doeram. O que doeu mais tarde foi o rosto de Gina ao me ouvir dizer "Pergunte por que estou aqui!". Rapidamente sua mente juntou informações, supôs algumas coisas, interpretou e concluiu justamente o que eu queria.

Minha inveja e meu ódio me fizeram querer que ela visse tudo. Foi por um lado bom para ela, mesmo que não fosse minha intenção salvar sua vida ou qualquer sentimento potteriano. Mas seu coração se partiu, eu podia ver.

Os sentimentos que nele haviam foram jogados fora. A confiança no irmão, talvez até o amor por ele. Eu era um monstro. Um monstro terrível, cruel e insensível. Senti vontade de morrer naquele momento, mas passou tão rápido quanto veio.

Expulso dali, aparatei para o hotel no intuito de fazer minhas malas e partir. Enquanto isso, o que acontecia na casa grega dos Weasley? Corroia-me uma cruel curiosidade, mas nada podia fazer a não ser fugir. Mas para onde? Voltar pra casa. Era hora de corrigir os erros. Muitos erros que havia cometido.

Cada segundo parecia uma eternidade. A mala acabava de ser fechada e alguém, que eu já sabia quem era, entrava no quarto. Ignorei-a, estava fora de mim ao ter feito aquela cena na casa de seu irmão, ignoraria a mim mesmo também.

-Me explique tudo, Malfoy – sua voz era de quem chorava, mas tentava se fazer de forte. Estranhamente semelhante a alguém que eu conhecia intimamente.

-Não te devo explicação nenhuma, Weasley. Pergunte a seu irmãozinho – porque pisava nos sentimentos dela?

No instante seguinte sua varinha estava em meu pescoço e tive que dizer.

-Nós somos colegas de profissão se é que você me entende.

-Não me provoque, Malfoy! Sua vida está em minhas mãos!

-Não estou provocando, Weasley. É a verdade, nua e crua.

-Então vocês dois são traficantes de armas.

-Surpresa, Weasley?

-Não... eu já sabia... –Mentira, mais uma vez

-Não sabia não. Admita!

A varinha afundou em meu pescoço, me impedindo de falar e me dando medo, pois a cara de quem a portava não era das melhores.

-Não, Malfoy, eu não sabia, mas tive uma idéia quando você disse aquilo lá na casa dele e não quis me explicar nada.

Saiu de perto como se eu tivesse uma doença contagiosa.

-EU SOU TÃO IDIOTA ASSIM, MALFOY? Sou tão idiota assim?

Não tinha resposta.

-Porque todos sempre me vêm como uma idiota fácil de enganar? Imbecil e não sei... não tem outra palavra, mas porque as pessoas me acham tão fácil de enganar? PORQUE, MALFOY? POR QUÊ?

Não me movi e fechei os olhos mas pude senti-la se locomovendo pelo quarto.

- Porque todos me enganam? Existe algum prazer sórdido e oculto em me enganar?

Abri meus olhos. Ela estava chorando, como já demonstrava sua voz. Os cabelos vermelhos estavam atrapalhados e seu rosto implorava piedade e era digno de dó.

Mulheres chorando realmente partiam meu coração, mas aquele não era um dos poucos casos em que eu poderia me comover.

-Eu não te enganei.

-Porque ainda não teve uma oportunidade... SÓ POR ISSO!

-Quem te disse que não, Weasley? Poderia ter te matado enquanto dormia, poderia ter te mandado pra fora desse hotel e na verdade deixei que você dormisse aqui, poderia ter mentido sobre seu irmão. Acredite ou não, devo ser a pessoa que mais preza sobre seu conhecimento da verdade.

Repentinamente se acalmou.

-E porque me disse a verdade?

-Não sei... talvez porque eu não quisesse que você passasse por tudo que eu passei.

-Não conheço esse seu lado altruísta... Você fez isso porque sabia que eu ia sofrer!

-Talvez tenha sido isso realmente. Acredite no que você quiser. Estou de partida.

-Você vai assim, Malfoy?

-Quer que eu pague a conta? Tudo bem, eu pago.

No quarto ficaram Gina e toda uma sorte de perguntas que ela ainda poderia formular em sua cabeça.

A viagem foi relativamente curta, se fosse levada em consideração a quantidade de pensamentos em minha mente. O que fazer primeiro? Eram tantos erros pra consertar, tantos lugares pra passar. Tantas coisas a fazer, tantas pessoas pra pedir perdão, tantos lugares a ir.

Mas um pedia pra ser o primeiro. Não por sua importância ou pelo que realizaria lá, mas pelo que representaria para mim, pela coragem que me daria. Fleming disse uma vez que a penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes. E mesmo que não fosse felicidade que eu desejasse ou procurasse, precisava do vinho, pois ao menos coragem me daria, para enxergar o mundo menos medroso e a mim também.

Hogsmead era o lugar que mais me inspirava felicidade, por isso o bar foi Três Vassouras. O vilarejo me lembrava da infância quase feliz onde de dia me aventurava com os amigos e vivia como uma criança normal, longe dos pensamentos, da influência e do comportamento doentio de meu pai. A infância e a adolescência eu passara inteira ali. Bebendo com os amigos, tomando porres típicos de um adolescente com um mundo a seus pés, tendo noitadas com a namorada de sempre. A que me abandonara quando mais precisava de seu apoio. Covarde, queria estar no lado que a favorecesse. Pior ainda do que eu, ela nem fora capaz de escolher um lado, de assumir as conseqüências de uma escolha. Embora muito covardemente e influenciado pela família houvesse escolhido um lado, sofri cada efeito de minha opção, e sem reclamar, embora sofresse. Por mais que não concordasse, tinha que passar por aquilo.

A sombra do passado feliz era o que me trazia de volta aquele lugar, e me agradava a idéia de que eu iria para mais perto dele.

O bar estava aberto e vazio, e numa área mais reservada dele me instalei discretamente e pedi firewhisky. A garrafa inteira de uma vez. Matar-me a beber era a solução para se não uma morte prática, pelo menos um adiamento de minhas missões pessoais ou no mínimo a coragem que buscava.

DEUS! Era boa demais a sensação de fogo pela garganta. Matava os anseios e ansiedades, calava os medos e libertava as vontades. Uma dose foi suficiente para acalmar todas as inquietações, até que uma inquietação personificada entrou no bar na posse de seus cabelos flamejantes como o álcool naquele copo.

Tantos bares na Inglaterra, mais ainda no mundo. Porque não estava ficara na Grécia com suas lágrimas inúteis e incapazes de consertar qualquer um de seus problemas? Pelo menos não interferiria nos meus complicados problemas

Insano eu estava quando disse a ela as verdades que ela iria ouvir algum dia. Agora estava são em não querê-la ali, mas só em mente, o corpo deixou que ela ficasse ali.

-Vou beber com você, Malfoy – E acenou para a garçonete para que trouxesse o copo.

-Dizem que beber cura um bocado de dores, mas não sei se vai curar a sua, Weasley. Afinal, deve doer ser traída pelo irmãozinho amado, não é?

-Não sei se tanto quanto não ter ninguém para chorar, a não ser um copo de whisky de fogo no qual as suas lágrimas vão se misturar.

Não iria responder. O Whisky já fazia efeito e tudo em mim era involuntário. A vontade de responder, involuntariamente não era saciada e quando devia calar, a vontade era de falar e se cumpria.

O copo chegou e ela serviu-se da garrafa sobre a mesa.

-Mais uma dose, Malfoy?

-É claro que estou afim.

N/A: Esse capítulo saiu super rápido, quase tudo de uma vez e o finalzinho também saiu muito rápido, apesar de eu ter tido um dia ou mais de intervalo entre um e outro . É um pouco curto esse capítulo, mas para o próximo prometo um pouco de ação individual do Draco, mas por enquanto nada de Gina. Só o castigo por ela ter tido aquele final no último livro. Quem não leu ainda não entende, mas ela merece, por aparentar personalidade e não ter absolutamente nenhuma :P É um personagem que eu odeio, tamanha promessa de personalidade que ela faz e não cumpre, mas tudo bem, eu supero, porque o Draco desperta nela o melhor que ela tem e vice-versa.

Miaka-ELA - Obrigada pela review, é muito bom quando alguém elogia, a gente se sente impulsionada e tem mais confiança pra escrever. Muito obrigada mesmo, foi um apoio e tanto. Ah, o Gui ser contrabandista foi um pouco apelação da minha parte, mas no fim achei legal o fato de ela se sentir "traída" por causa disso e no fim vai ter uma importância vital para a trama, aguarde! Depois de ter publicado os dois primeiros capítulos me arrependi de ter feito a fanfic em primeira pessoa e no ponto de vista do Draco, porque essa relação entre a Gina e o Gui e os outros irmãos também não vai ser muito bem descrita, mas calma que eu vou der um jeitinho e eu vou conseguir explicar os sentimentos dela também, tá? Mais uma vez obrigada e volte sempre

Thaty - ai, é tão bom ver que você está acompanhando a fanfic! Dá um estímulo imenso pra escrever. Muito bom, muito bom mesmo. Muito obrigada e continue acompanhando! Beijos!