Filosofias de bar

-Porque você tem que me esperar pra brindar, Weasley?

-Dizem que dá azar.

-Amoroso ou sexual?

-Não sei... Mas é bom não abusar da sorte, não é mesmo.

-Acho que sua sorte sexual não tem como piorar.

-O que você está insinuando, Malfoy?

-Que você está há meses sem nem chegar perto do Sr-namorado-quase-perfeito-potter. Não me diga que não é verdade.

-Bem, há muito tempo não o vejo e essa é a única razão pela qual não estamos nos dando bem. Você vai brindar ou não?

-Tudo bem, eu brindo. Mas você está mentindo.

-Como assim, Malfoy? Está louco? Eu e Har...

-Eu ouvi a conversa com seu irmão, esqueceu?

-Mas... Bem, isso é totalmente errado...

Ela admitiu derrota.

-Nossa! Isto me amedrontou. Quantos anos você tem, Weasley, 5?

Mais uma dose inteira de whisky para cada um.

-É uma idade seguramente maior que a sua.

Como é que duas pessoas dessa idade eram capazes de discutir tão infantilmente como nós? Mas não acordei naquele momento!

-Pelo menos eu tenho uma vida sexual ativa.

-Eu também! – parecia seriamente insultada, como se a honra e o nome de sua família estivessem sujos. – Não... Não é verdade.

Seus olhos repentinamente se tornaram brilhantes e perderam-se no horizonte. Outra dose do whisky desceu rapidamente e ela nem pareceu sentir o fogo quando passou por sua garganta, continuou a divagar no horizonte.

-Há muito não sei o que é ser desejada...

Existe um velho ditado que diz que quando há alguma revelação intima que pede pra sair deve-se conta-la a alguém com quem divide um quarto num lugar longe de casa ou há um desconhecido em um bar. De certa forma nos encaixávamos em ambos os perfis.

-Harry não olha pra mim... E eu nem sei por quê... Acredito que seja algum desencanto.

-Talvez você não seja mais a mesma...

Voltou os olhos para mim, como se eu a compreendesse intimamente, como se a tivesse interpretado. Como se tivesse traduzido em palavras, inesperadamente, o que ela tinha em sua mente há séculos, os hieróglifos de suas idéias.

-Também acho isso, Malfoy. Também acho... – outra dose, e dessa vez ela sentiu o calor da bebida, tirou o casaco e sua voz já parecia afetada pelo álcool – acho que o Harry se fascinou muito com o que eu era na escola.

Outra dose pra mim e minha fraqueza já se manifestava

-Eu lembro de você na escola! Você era muito... Não sei! Você... devorava homens!

-Bhhhh! Malfoy, eles só gostavam de mim e eu gostava deles, mas eu SEMPRE gostei do Harry! Seeeempre!

-Não sei o que há demais naquele quatro-olhos.

-Você nunca conseguiria entender... Harry é o herói que qualquer menina gostaria de ter!

-Mas você não é qualquer menina!

-É verdade... Eu tenho muuita personalidade, e eu tenho cabelo vermelho!

-Sim, sim! Cabelo vermelho! Eu nunca estive na cama com alguém de cabelos vermelhos!

-Não saaabe o QUE ESTÁ perdeeendo!

Ela deu uma risadinha infantil e continuou a beber, a garrafa estava quase no fim.

-Sei... Devo saber...

Um silêncio que provavelmente seria muito constrangedor se por um acaso não estivéssemos bêbados pairou sobre a mesa e permaneceu por muito tempo. Não havia mais nada para falar, embora houvesse tanto a ser dito, ainda que no silêncio dos olhares. Por mais insano que pudesse estar alguma consciência maior do que a de quando estava sóbria me invadiu e soube que ela sentia o mesmo que eu. Não éramos tão diferentes afinal... Só um pouco diferentes, mas era essencialmente por culpa do meio que habitávamos e pelo qual fomos criados e educados. No fundo éramos ambos seres humanos perdidos num mar de sentimentos e direções erradas que nos davam, contraditórios e infelizes, condição básica do ser humano.

Mas nem tudo é obrigatório, tínhamos que fazer alguma coisa por nós. Ao menos por mim. Precisava reparar muitos erros e estava só nessa tarefa. Tinha que fazer alguma coisa.

-Weasley?

-Bem, acho que pelo que nós bebemos você já pode me chamar pelo meu nome.

-Virgínia?

-Ginevra.

-Sempre achei que o fosse.

O assunto se desviou, ficaria para mais tarde, talvez quando estivéssemos sóbrios o suficiente para não nos chamarmos pelo primeiro nome.

-Mas a obsessão da minha família pela história do Rei Artur é muita...

-Você não gosta desse nome? É um nome nobre... Eu certamente colocaria em uma filha minha.

Mais um copo, dessa vez o conteúdo sorvido devagar.

-Você não parece ser o tipo de cara que planeja ter filhos.

-E não planejo mesmo. Só estou considerando a hipótese de algum dia eu ter filhos e se dentre eles houver uma menina, Ginevra é um bom nome para uma menina. Mas certamente eu não colocaria.

-Porque me lembra?

-Não, porque mulher nenhuma aceitaria um nome desses. Elas gostam de nomes comuns e sem significado.

-Minha mãe gosta desse nome.

-A sua mãe é uma excessão, eu quis dizer as mulheres que provavelmente se casariam comigo.

-Então já tem uma pretendente?

Ela também bebia mais uma vez do copo.

-Não, não tenho.

-Então como sabe o tipo de mulher com quem irá se casar?

-Ora, Weasley. Se caso algum dia eu me casar certamente será com uma mulher de elite. E eu sei que essas mulheres têm muitos defeitos.

-Mas se têm tantos defeitos, porque casar-se com elas?

Gina sentava-se informalmente com as pernas cruzadas de maneira infantil e as roupas um tanto quanto desleixadas, os cabelos vermelhos estavam ainda desgrenhados e em contraste com a aparência selvagem o rosto demonstrava infantilidade, estando levemente rosado por causa da bebida. Suas sardas estavam tão bonitas, parecendo terem sido colocadas uma a uma sobre o rosto de maneira que todo o ambiente ao redor parecesse o plano de fundo de uma pintura. Pintura renascentista. Detalhista e cheia de significados, maiores ainda com a genuína interrogação em seu rosto depois daquele pergunta que me deixara sem resposta.

Mas a bebida enche a boca das pessoas quando nada têm a falar, e o contrário também ocorre, sendo o fluxo desse rio de palavras inversamente proporcional à necessidade das palavras de saírem quando se está bêbado.

-Porque eu elas não tem personalidade como você.

-Então não casaria com uma mulher que tenha personalidade?

-Casaria.

Ela esperava explicações.

-Mas seria muito fácil controlar uma mulher que tenha sido educada para a submissão. Ainda mais que eu só tenha aprendido a lidar com esse tipo de mulher...

-Vocês ricos...

-Mas veja bem, Ginevra! Por exemplo... Nós somos completamente diferentes. E acha que daríamos certo? Acha? Não. Além de sermos diferentes, você ainda tem uma personalidade indomável, que eu jamais algum dia seria capaz de controlar. Imagine se daríamos certo casados?

-Não... nunca!

De repente deu em nós dois uma intimidade típica de quem está bêbado. E rimos incontrolavelmente (admito que ela bem mais do que eu) por imaginarmos nós dois casados...

-Nunca... daríamos... certo! - Ela disse.

-Quem sabe? Algum dia... Acho que se odiarmos alguém essa pessoa está perdida. Se quiséssemos nos vingar de alguém poderíamos dar certo. Nosso poder destrutivo é bem grande juntos, eu imagino. E um casamento assim...

Mas o comentário que tinha o objetivo de ser cômico e fazer-nos rir ainda mais da nossa própria desgraça teve efeito reverso, e ela calou-se imediatamente. Antes mesmo da frase terminar. Pegou sua bolsa e saiu, não sem antes deixar algumas moedas sobre a mesa e pegar a garrafa com nada mais que um dedo de líquido e o casaco. Quanta memória para alguém fora de si. E caminhou em direção a porta, determinada, ainda que fazendo curvas demasiado longas entre as mesas e dando alguns passos em falso.

Não entendia nada do que havia se passado. O que foi que eu disse de errado? As mulheres reagem de maneira completamente estranha a algumas situações e elas nunca podem ser consideradas seres previsíveis. E talvez isso seja o motivo de amá-las e de odiá-las. Mas o mais importante, era que acima do amor e do ódio que se conflitavam, o que nos encanta é o feitiço que há nessa imprevisão. Deus sabe o quanto é bom sorrir escondido quando uma mulher tem uma crise de manhã, cedo, quando acabamos de acordar. Pode até te causar raiva, mas vale a pena por ter te feito sorrir.

Mas há quanto tempo eu não conseguia amar ou odiar uma delas? Talvez a Weasley. No ódio, claro. Eu me vingara dela tão rapidamente que nem tivera tempo para sentir algo, ficar feliz por ter havido revanche talvez... Mas ela não contava. Nem ela nem as outras. Eram apenas corpos frios que por fora demonstravam emoção alguma. Somente um calor superficial que demonstrasse que ainda estavam vivas e prontas para obter algum prazer superficial e vazio. Um copo de bebida, um cigarro, talvez uma arma, para terem a ilusão de que eram melhores que todo o resto da humanidade. Mas eram todos iguais. Somos todos iguais. Exatamente iguais.

E talvez nesse ponto eu estivesse enganado. Ginevra, demonstrara algo mais de emoção. Ela sentira, ao contrário de muitos que estavam sempre ao meu redor. Ela sentira, um sentimento ao menos. Raiva, amor, raiva por ter esse amor se encontrado de frente a um muro, decepção. Ela era diferente e sentia, ao contrário de mim, ao contrário de muitos que conhecia. Ela sentia e não tinha medo de se entregar ao que sentia. Quando quis chorar, chorou e chorou na frente de um completo desconhecido que havia lhe contado uma verdade dolorosa. Quando quis se castigar tentou e conseguiu. Tentou me castigar também ou qualquer que tenha sido sua intenção ao vir para esse bar, provavelmente tendo me encontrado e falhou ao me castigar e eu acabei magoando-a mais uma vez. Uma segunda vez e dessa vez nem sabia qual era o erro que tinha que consertar. E ela, sozinha, foi embora, sem tentar camuflar o que sentia, mesmo que eu não entendesse o que era.

Ela sentia! E sentia plenamente. Todo o mundo se encontrava num universo gelado e medroso e ela, com sua força aqueceu por um segundo a tortura eterna, aqueceu um pouco do meu mundo e foi embora deixando um pedaço dela adormecido em minha alma, pois tinha uma vida pra recomeçar.

Acabou sua influência, naqueles segundos, a vida tem mesmo disso. E agora, só me restava esperar e desejar que algum dia nossas vidas pudessem se encontrar.

Outra garrafa para digerir essa filosofia de bar, os acontecimentos e as reações de uma certa ruiva e mais algumas decisões que eu tinha tomado, antes de vir pra cá. Tanta coisa pra pensar...

N/A: Sim, acho que a condição básica do ser humano é ser infeliz, é o que diferencia ele dos outros animais. Todos os outros simplesmente o são, enquanto nós ficamos questionando e não somos. Apesar de não me julgar infeliz, acho que sempre somos incompletos enquanto todos os outros seres se preocupam em viver completamente, bem com eles mesmos a não ser quando o homem se põe no caminho deles. Pobrezinhos.

Também quero falar que vocês estão me deixando muito segura para escrever, com todas essas reviews lindas que vocês me mandam, e a qualidade da escrita e da história pode cair, mas não deixem de falar se notarem que isso aconteceu. Eu quero dar o meu melhor e as vezes posso não envergar que aquele ainda não é o meu melhor por excesso de auto-confiança.

Outro aviso é sobre o tempo. Agora tô escrevendo muito rápido, porque tenho inspiração e tempo pra isso, mas quando não tiver, não se irritem! Estou fazendo sempre o meu melhor e não sou dessas de desistir não, então tenham paciencia, leiam, mandem reviews e sejam muito felizes!

Próximo capítulo:

Quando desejei tudo aquilo, não esperei que fosse tão rápido. E muito menos poderia imaginar que ela queria me ajudar, e ainda mais daquela forma!

Miaka-ELA - Obrigada por ter lido mais uma vez. Sim, ele merece. Uma das coisas que eu mais gosto de ler sobre o Draco é quando ele é tirado por alguém, quando alguém fala uma coisa que deixa ele com a cara no chão, e agora que eu estou escrevendo sobre ele, não pude deixar de fazer isso com ele! Obrigada por se dizer uma leitora fiel, me senti muito honrada!

Thaty - Não é que tratem ela assim por querer, é porque ela sempre foi a única menina no meio daquele monte de homem então sempre se acostumaram a defenderem a irmãzinha, a protegê-la e muitas vezes eles acham que esconder a verdade vai protegê-la, quando na verdade é temporário, porque a verdade sempre vem bater a porta, a gente tenha ou não vontade. O Harry foi outro que trata ela dessa maneira, mas de qualquer modo, pelo menos nessa fic eu farei justiça e ele terá o que merece! ;D