(Depois de ter vivido o óbvio utópico, te beijar)

-Eu quero te ajudar. - Ela disse calmamente depois que lhe expliquei toda a história - Por incrível que pareça, eu trabalhei ajudando os feridos depois da guerra. Tenho alguma experiência com doentes, inclusive com pessoas que ficaram, você sabe, com problemas para ordenar os pensamentos.

-Obrigada, Gina, mas não acho que você vá ajudar. Já tenho uma enfermeira que contratei logo no início da doença.

-Eu não sei, eu quero ajudar! Eu não sei por qual motivo, mas você não topou toda essa farsa só pelo dinheiro.

-Pra salvar a minha pele, quem sabe?

-Sim, talvez tenha sido, mas o dinheiro você poderia ter arranjado, e você não está tão enrascado assim.

-Pra ser sincero, piorou depois do que aconteceu na praia.

-Pois então, Draco! Não creio que tenha se arriscado tanto sem um outro motivo.

-Eu nem pensei nessa possibilidade. - E estava sendo sincero.

-Pensei que fosse mais esperto.

-Eu também...

Ela riu genuinamente, eu também.

-Eu quero ajudar, mesmo. Mas não sei como.

-Nem eu.

-Quem sabe eu poderia te ajudar a ajudar a ela, ao invés de me ajudar.

Toda aquela cumplicidade e compreensão mútua, sem contar a proximidade estavam me provocando e mais cedo ou mais tarde aquilo ia chegar a um fim caso as coisas continuassem daquela maneira.

-Escute, Gina. Eu sei que você quer me ajudar e se sente culpada por ter me posto em risco, mas agora já é tarde e depois de ter dado o primeiro passo, temos que ir até o fim.

-Tudo bem... Eu entendo você.

-Não entende... eu preciso fazer isso tudo sozinho. Afinal, foi minha culpa e ninguém me ajudou a errar, então tenho que refazer as coisas sozinho.

-Tudo bem.

O silêncio predominou no quarto. Parece que aquela temporada na Grécia seria cheia de silêncios pensativos no meio de conversas reveladoras entre dois (quase) estranhos. Tudo que podíamos dizer um ao outro agora cabia apenas em nossos olhares. Se fosse transformado em palavras, talvez corrêssemos o risco de sermos mal interpretados.

Ela queria realmente me ajudar, mas eu não. E ainda àquela tarde nos casaríamos formalmente. Droga! Teríamos que nos casar, já! Indiscutivelmente aquilo não poderia ser passado para trás, ainda precisávamos de uma testemunha.

-Precisamos de uma testemunha.

-Sim! Mas eu tenho uma idéia, e vou resolver isso em algum tempo. Depois volto para almoçarmos e depois vamos direto ao cartório.

-Certo. Mas você não pode me dizer quem é essa pessoa?

-Luna.

-Lovegood?

-Sim, Luna Lovegood.

-Mas... ela saiu em viagem pelo mundo, como vai saber o paradeiro dela?

-Bem, nós temos nossos meios de comunicação.

-Certo, mas... ela não vai contar aos seus outros irmãos, vai?

-Não... ela é de total confiança. É a única pessoa em quem confio plenamente, e além do mais, ela estava aqui perto quando falei a ela sobre tudo, e desde o princípio ela aceitou me ajudar, mesmo que ela ache muito arriscado, porque sua família fazia parte do Clube dos 8. - E revirou os olhos à ultima afirmação.

-Clube dos 8?

-É, alguma coisa sobre oito famílias de sangue puro que pretendiam fugir da Inglaterra miscigenada para fundarem uma comunidade totalmente sangue puro numa ilha congelada perto da Groelândia...

-Céus! Não é uma má idéia... Mas ela só pode ser louca!

-Ela tem alguns delírios desse jeito, mas ela é completamente normal. Também a convidarei pra ser madrinha da cerimônia religiosa. Ela e o namorado.

-Meu Deus! Depois que Di-Lua Lovegood tem namorado seus problemas sentimentais serão resolvidos facilmente!

-Eu não tenho problemas sentimentais.

-Com seu garoto-cicatriz!?

-Não tenho problemas com ele, porque não temos mais nada um com o outro.

-Assim é que se diz! Estou orgulhoso de você, Gina Weasley!

-Não seja irônico.

-Você disse que não se importava...

-Mas agora me importo.

Como se tivesse se lembrado de alguma coisa importante, levantou-se da cama e saiu pela porta, não sem antes dizer que voltava às onze. Mas uma vez eu estava sozinho naquele quarto. Sozinho não, acompanhado dos meus pensamentos.

Ninguém nunca me perguntou, e justamente por isso nunca precisei responder que durante toda a minha vida eu havia tido várias namoradas e todas elas eram mulheres completamente sem personalidade, quando não eram simplesmente crianças em corpo de mulher, mas uma em especial resolveu mudar seu comportamento acerebrado justamente no momento em que eu mais precisava dela.

Na verdade, Pansy havia agido de maneira completamente animal, utilizando-se apenas de seu instinto de sobrevivência e uma pequena astúcia e crueldade sonserina. Eu não a culpo por tudo o que sofri, mas assumo que ela deveria no mínimo ter me apoiado. Ou no mínimo ter tentado me convencer a não me tornar um comensal com apenas dezesseis anos, me dizendo que era arriscado e que ela não queria que eu me arriscasse, que gostava de mim e não queria me perder. Mas eu era tão inocente que julgava que no jogo de interesses eu era o único jogador, e só, jogava por todos ao meu redor, tentando defender a honra e o nome de meu pai, proteger minha mãe e ainda por cima garantir a sobrevivência de Pansy. Não me dei conta que ela também era jogadora e das boas daquele jogo sujo e cruel.

Não posso dizer que a amava, quando na verdade era só uma brincadeira de vontade atendida que nós jogávamos, mas me afeiçoei a ela, mesmo que nem sua amizade fosse possível, já que ela sempre estava a meus pés, concordando, obedecendo, ajudando, menos na hora em que precisei dela.

Depois de ter falhado já previsivelmente na primeira e mais importante missão que me havia sido destinada a mim, eu ainda tinha que defender meus pais, especialmente minha mãe, que estava sozinha e ainda tinha que defender a honra de meu pai, uma vez que ela já estava abalada quando me arrisquei na tentativa de matar o diretor e as coisas só pioraram diante do meu fracasso. O único alívio que tinha para toda aquela pressão sobre os ombros de um menino (na época eu não diria que era uma criança, mas sim um homem, mas nem hoje posso dizer que seja) inexperiente e desesperado eram os carinhos da a namorada, e nisso, não se pode negar, Pansy era boa. Sua falta de palavras e seu olhar vazio davam a impressão de que ela me entendia e compreendia, mas quando meu pai fora preso, para se defender de uma possível investigação em sua família, Pansy negara qualquer relação comigo e fora embora, sozinha com a irmã mais velha para outro país, França talvez. Desde então, quando voltava à Inglaterra e por um acaso nos encontrávamos, ela desviava o olhar, parecendo, de certa forma, envergonhada do que havia feito, mas não arrependida. Parecia que a vergonha era de mim, e eu tinha a ligeira impressão que ela dava graças por ter terminado comigo, e agora, feliz e casada com um francês milionário, estava longe da miséria e do nome Malfoy.

Desde então, nenhuma outra mulher em minha vida teve alguma importancia intelectual (não que Pansy tivesse) e eu as usava, como trocava de roupa. Quando já não as agüentava e seus defeitos começavam a se mostrar, as descartava, pois pra mim, eram mera diversão. Também não dava oportunidade para mostrarem alguma possível inteligência ou vida própria, pois a mim só me importava o que faziam na cama, de resto, não era importante.

Eu queria ser sozinho, completamente sozinho e fazia questão de não manter laços com ninguém, com exceção de Blaise, o único amigo, com quem minha interação baseava-se estritamente em nos reunir para beber, falar do passado e conseguir mais mulheres, embora ele fosse duplamente pior do que eu em matéria de partir corações.

Por isso eu sempre voltava ao Três Vassouras quando queria beber sozinho. Ver aquele local e recordar um passado feliz e inocente, da amizade verdadeira que um dia houve entre Blaise e eu, da turma da escola, de tudo que aprontava, dos porres que tomávamos escondidos, das garrafas de uísque de fogo que levávamos às escondidas ao castelo... Lembrar de quando eu achava que era o dono da verdade.

Mas quem é dono da verdade não é dono de ninguém.

Exatamente quando o ponteiro dos segundos do relógio de pulso marcou onze horas, ela bateu à porta. Era um passatempo desenvolvido durante noites e noites sem dormir acompanhar os ponteiros do relógio, até que formassem minutos, horas. O passatempo parecia interessantíssimo, mas eu tinha que atender a visita, que resolvera ser educada e esperar à porta, mesmo sabendo perfeitamente que a porta estaria aberta, exatamente do jeito que ela deixara.

Lá estava a dona dos cabelos ruivos e trazia ao seu lado um rosto conhecido, embora mudado pelo tempo. Os olhos azuis de Luna Lovegood continuavam enormes e seus cabelos estavam menos maltratados, presos em uma trança comprida e suas roupas continuavam desajeitadas e estranhas, mas parecia que ela agora usava algum sentido para escolhê-las. Mas seu olhar... embora ainda tivesse aquele olhar sonhador e distante, parecia mais maduro, lúcido, de quem havia perdido a inocência e com ela um par de ilusões das quais mais se tinham certeza de serem a verdade essencial.

-Bom dia, Malfoy! - disse Luna com alegria me abraçando inesperadamente, como se fôssemos velhos amigos.

-Bom dia - disse cordialmente

-Porque não vamos almoçar de uma vez? - Perguntou Gina

-Tudo bem, vamos - aceitei de bom grado, ficar naquele quarto com Di-Lua não daria muito certo.

-Recomende-nos um bom restaurante, Draco - Gina pediu, meio que tentando administrar o diálogo entre Lovegood e Malfoy.

Fomos a um restaurante de comida grega, onde o almoço se passou bem e terminamos de assegurar a Luna que ela não podia falar à Selene que o casamento era falso, completamente de fachada e que teria de confirmar a história que tínhamos inventado e no fim ela acabou se convencendo de que nutríamos uma paixonite incurável um pelo outro e não queríamos admitir a nós mesmos. Sim, com toda a certeza. Eu nunca fora de me apaixonar em segredo, e muito menos de me apaixonar. Eu queria ou não, era diferente. E eu não queria Gina Weasley. Talvez não ainda.

O cartório era pequeno e abafado, e como tudo naquela cidade, dava a impressão de estar derretendo sob o sol. Selene já esperava com sua câmera de fotografia trouxa. Nem sequer sabíamos se ela era bruxa ou trouxa, até que Lovegoode resolveu se enturmar e disse, enquanto esperávamos que ela era trouxa, mas sabia dos bruxos, porque uma prima muito próxima que fora criada quase como irmã também era bruxa, e recebera uma carta para uma escola de bruxaria. Melhor que fosse assim, daria muito trabalho explicar a ela caso algo acontecesse, e ainda havia o risco de perder a madrinha normal.

Madrinha normal? Quem disse isso? Selene não parava de fotografar a mim, a Gina, a nós dois juntos. E insistíamos que ao menos déssemos as mãos, mesmo com as desculpas que inventávamos, de que éramos muito tímidos, que não era costume no nosso país, mas nada a convencia.

"Eu acredito na felicidade, não deixem de o ser" disse, e era de partir o coração desiludir mais uma pessoa. Já bastavam a mim e a Gina no mundo. Sem contar os outros milhares de desiludidos mundo afora, do lado de fora daquela janela que mostrava a cidade antiga e algumas partes da cidade nova. Talvez ela fosse a última, e não cabia a nós a triste missão de mostrar a ela que não existe felicidade, no fim das contas.

Tiramos as fotos. Até mesmo abraçados, e fingíamos bem felicidade. Até Luna entrou na farça e quis tirar uma foto com os "noivos". Que fosse.

Na hora certa estávamos lado a lado e no cartório nos mandaram repetir palavras, quase como os votos matrimoniais, só que menos idiotas e em um tom mais contratual do que outra coisa qualquer. Não tinha nada que lembrasse a um casamento. Todos ouviam a leitura dos papéis, dos termos e cláusulas que haviam sido feitos às pressas, a pedido da noiva, em inglês e em seguida assinavam. Noivos, depois testemunhas, Luna e Selene. Até que chegou uma parte com a qual não imaginávamos ter de lidar tão cedo.

"O noivo pode beijar a noiva"

Os olhos de Gina transpareciam desespero, ela também não imaginava que aquilo fosse ser pedido a nós. Mas não poderíamos negar agora. Não iria doer. Era como mergulhar num mar, sem saber de que as ondas eram feitas. Tomávamos fôlego e apenas podíamos esperar que fosse algo bom. Mas eu não esperava que seria tão bom assim. Fechar os olhos, aguçar todos os sentidos e senti-la: Tocar seu corpo pela primeira vez, beijá-la, ouvi-la, sentir seu cheiro suave mais marcante de mulher. O beijo foi rápido e simples, suficiente para provar a mim mesmo que me dizia não me surpreender com mais nada, que eu podia me surpreender, e de forma positiva.

Aquele beijo fora pouco, um beijo era pouco, pedia mais e mais.

Juro que tentava ouvir o que as três conversavam e não era só pelo fato de que eram todas mulheres e estavam todas em um universo diferente do meu, mas foi impossível me concentrar no que diziam. Não conseguia desviar os olhos de seu rosto, por mais que tentasse não havia nada na paisagem da cidade vista da janela que atraísse tanto meus olhos quanto um par de olhos que tanto pareciam chocolate, nada nem ninguém naquele bar cheio que me fizesse tirar os olhos daquelas centenas de sardas espalhadas em suas bochechas e sobre o nariz. Eu não conseguia esquecer aquela boca, mesmo quando, com esforço, conseguia olhar para outro ponto qualquer daquele ambiente completamente sem graça, era nela que pensava. E queria tanto senti-la mais uma vez. Aquela prova fora simples, rápida de mais, eu precisava de mais, eu queria mais. Eu necessitava de mais.

E pela primeira vez não tinha planos, não sabia como fazer acontecer o que eu desejava. Ela era imprevisível, e eu não podia me envolver, pois precisava voltar pra Londres. Droga, ela levaria muito tempo! Ela era impossível de domar tão rápido assim... Seria mais fácil desistir. Mas desde quando eu desistia fácil assim dos desafios mais difíceis? Nunca. Adorava desafios, dificuldades, perigos, competições... Faziam o desejo se tornar mais impossível de se conquistar e por isso mesmo mais ambicionado. Ela era o desejo e eu queria tê-la para mim. Não me importava o depois, eu queria agora. E mesmo que o agora fosse demorar a chegar, eu a queria e a teria, custe o que custasse.

Mas não estava tão cego assim, sabia do que precisava. Tempo. Tudo só poderia ocorrer depois do casamento, ou ela hesitaria, e pensaria que certamente estava confundindo as coisas, e como boa grifinória, teríamos que nos separar em nome da honra e de nós mesmos e todas aquelas ladainhas típicas. E eu também tinha a consciência de que tinha minha mãe para cuidar.

Eu tinha que conseguir um jeito. Alguma maneira para unir a necessidade de voltar para Londres em no máximo um mês e a necessidade de tê-la em meus braços.

E não há nada que um Malfoy determinado queira que não possa ter.

N/A: O título do capítulo é um trecho de 'Retrato pra Iaiá' de Los Hermanos. Olha, gente! Primeiro beijo! UHU! Mas sosseguem a periquita ai, galera! Porque só vai ter mais daqui a uns 2 ou 3 capítulos! Prometo que mais tarde vou esclarecer os sentimentos da Gina sobre esse beijo também, tá?

Thaty- Brigada pela review, brigada mesmo! E olha, eles se deram bem mesmo:D Volte sempre!