(Manhã)

Cada minuto, cada segundo era um a mais de ansiedade. Dormir já era impossível, agora então, a hipótese sequer foi cogitada, seria inútil tentar, eu já me conformara. Só o que não sabia era o porque de tanto nervosismo simplesmente por uma mulher.

Talvez ela fosse diferente - e era. Mas era só mais uma. Talvez uma mais difícil e que tivesse me encantado de maneira diferente de todas as outras, que não pensasse em mim como um pedaço de carne ou fonte ouro, mas sim como outro ser humano. Definitivamente ela não era só mais uma. Mas eu mal sabia que poderia existir algo mais que corpo ou maneira de agir em uma mulher.

Inicialmente tudo que sabia dela, era o que eu podia ver. Só o corpo, começando pela banheira naquele hotel, há dias atrás. Depois veio seu comportamento: mostrar seus sentimentos mesmo tentando escondê-los, ela nem sabia mentir, se embebedar, fazer uma proposta estranha a um cara que achava há poucos dias inimigo mortal. Casar-se com ele, beijá-lo, deixar-se seduzir por ele sem perceber, sem reagir, confiar nele, olhar nos olhos e ver a verdade sem ver a mentira. Ela existia de verdade?

E agora, depois de vê-la com dois sentidos iniciais um terceiro começava a despertar, mas na minha cegueira repentina e falta de tato habitual, sentia tudo aquilo devagar, sem compreender bem o que acontecia comigo, com ela, com tudo ao redor.

De início, o plano seria tentar depois do casamento religioso, ou ela poderia desistir de toda aquela vingança. Eu não sabia como cabia sede se revanche num ser tão doce, mas eu tinha que aceitar, já que havia concordado em lhe ajudar. Mas agora as coisas se tornavam urgentes e desde a noite passada, uma eternidade pra um impaciente como eu, já havia me decidido, seria hoje e de hoje não passava, eu já não podia mais agüentar.

Era uma pressão imensa que eu mesmo fazia sobre mim. Eu não podia dar um passo em falso sequer e estragaria tudo, e se desse alguma coisa errada, eu não me perdoaria, e nem podia imaginar o que seria de mim depois daquilo. Eu não tinha planos pra depois, e realmente precisava dela para ajudar minha mãe. É impossível agüentar tanto sozinho como eu teria que fazer sem ela. Eu precisava dela ao meu lado, nem que fosse como amiga. Eu me agarrava a ela porque eu não tinha mais ninguém. E não pretendia me soltar dela tão cedo, era necessidade vital, e eu não sabia um nome pra isso e tinha medo de descobri-lo.

Estava pronto para atacá-la e dominá-la, mas seria tudo tão sutil que ela se entregaria.

Isso é, se tudo desse certo.

Eram oito da manhã e eu havia jurado a mim mesmo que não a deixaria esquecer nunca mais daquele dia, como tentava fazer com toda e qualquer mulher que desejasse, antes do auto-exílio, é claro. Mas com ela, meu empenho era muito maior. Se com as outras eu tinha alguma certeza que iriam querer algo de mim, eu apenas me empenhava em deixá-las felizes, mas com Gina, como tudo mais que lhe condizia, eu não tinha certeza nenhuma. Só entendia que tinha que fazê-la feliz, e desejando mais, como já desejara noite passada. Eu teria de seduzi-la devagar e delicadamente, e ela é quem teria que mostrar-se comandando toda a situação. Estaria em minhas mãos e ela teria que pensar que era o contrário que acontecia.

-Bom dia, Ginevra.

-Bom dia...

Ela estava terrivelmente amarrotada, os cabelos desgrenhados e o rosto amassado, devia ter acabado de acordar, muito provavelmente com minhas batidas à porta de seu quarto. Ela estava mais uma usando azul, um robe azul celeste por cima do pijama infantil e curto.

-O que veio fazer?

-Vista-se, eu tenho uma surpresa.

Ela fechou a porta na minha cara e cerca de meia hora depois saiu dali ainda com sono, praguejando, reclamando da minha falta de sensibilidade e compreensão de acordá-la num horário que ela julgava cedo mas ao menos estava vestida. Os trajes que usava antes não eram muito adequados para se conversar com um cara que a cobiçava.

-Espero que seja algo realmente bom.

-Não vou deixar que se arrependa de ter dormido menos que gosta...

-Melhor que seja assim!

Era notável sua doce irritação e, no fundo, eu sabia que ela confiava no meu desejo de alegrá-la, mesmo que ela não soubesse que existisse essa vontade.

Quando chegamos à rua, um táxi estava à espera, para não estragar nada da surpresa. Entreguei ao motorista o endereço, para que não estragasse a surpresa. Quando nos aproximávamos do local, pedi que ela fechasse os olhos. Com isso acendi, sem querer, sua impaciência. Foram só uns cinco minutos, mas ela ficava cada vez mais impaciente e reclamava, mas ainda sim, confiava em mim e na minha surpresa e não abria os olhos. Definitivamente sua impaciência era maior que a minha, e eu só podia me contentar em conter minha ansiedade e o desejo de saber realmente se tudo daria certo, ou se só no papel aquele plano daria certo.

A mesa estava posta à nossa espera e havia uma tenda ao redor da mesa. Com a ajuda de Selene tudo havia sido preparado e ela deixara o lugar à hora combinada para que eu supostamente pudesse ter um café-da-manhã romântico com Gina no qual eu lhe mostraria as alianças do casamento. A praia era a mesma onde, desajeitadamente, havíamos nos encontrado e começado toda aquela farsa que agora estávamos praticando. Mas não tinha a menor idéia se aquilo tudo aquilo lhe comoveria ou se ela seria indiferente ou que fosse reagir de qualquer outra maneira. Graças aos céus, ela era diferente das outras, e tão imprevisível quanto o mar que ela já havia percebido.

-Isso é cheiro de mar, e o barulho também. Você me trousse à uma praia?

-Seja paciente, Gina. E não abra os olhos. -Ela queria abris os olhos, mas minhas mãos os mantinham fechados.

-Tudo bem... - bufou

Realmente, estava tudo piorando e saindo completamente do meu controle, e isso porque mal havia começado. Agora eu já tinha minhas dúvidas sobre a conclusão dos planos.

Acomodei-a na cadeira. Estava tudo muito simples, com uma flor branca flutuante ao centro da mesa em uma espécie de aquário pequeno e delicado e tudo que eu conseguira notar em nossa curta convivência que ela gostava de comer ou beber.

Respirei fundo e baixei à altura de seu pescoço, falando em sua orelha e a deixando vermelha. Era um bom sinal? O importante é que já havia ganhado o dia em sentir o perfume de seus cabelos e roçar sua orelha.

-Vir a Grécia e não tomar um legítimo café-da-manhã grego é o mesmo que não vir à Grécia, por isso nada mais justo que fazer com que você o faça, pra não deixar que a viagem se torne só uma passagem por aqui.

Sua impaciencia parecia ter chegado ao auge quando me afastei dela, então julguei que estava mais do que na hora de descobrir seus olhos.

-E qual é a grande diferença desse café para o café que já tomamos?

Aquela foi uma frase insensível, e ela parecia agir na defensiva, mesmo que agora fôssemos o que se pode chamar de 'bons amigos'.

Ela começou a se servir sem cerimônia, murmurando apenas um "obrigada" em minha direção, como que agradecendo por ter matado sua fome.

-Qual é, exatamente a diferença entre o café da manhã grego e o inglês?

Aquela pergunta era insensível demais para ela, ela realmente estava na defensiva. Podia ser minha imaginação, mas para mim aquilo soava como uma tentativa de ficar longe de certos assuntos.

-No grego, o café é gelado e as pessoas costumam comer na rua, sentados tranquilamente, e no inglês, temos também chá.

-Interessante... - Fez uma pausa para tomar um pouco de café grego e evitava me olhar. Seria aquilo um sinal? -Que outras peculiaridades sobre a cultura grega você tem para me contar?

Minha boca se abriu involuntariamente. Ela estava pretendendo me fazer de palhaço ou o quê? Céus! Foram duas frases e ela conseguira reavivar um pedaço, ainda que mínimo do ódio que alguns dias atrás diríamos perfeitamente normal. Ela estava me dando nos nervos. Porque não agia previsivelmente? Era por isso que eu tanto a desejava. Todas as outras eram tão fáceis, eu tinha tudo sempre às minhas, mãos, e com ela a vontade e a dificuldade de alcançá-la me tornavam ainda mais determinado e obcecado por ela. Era a raiva que fazia a vontade ficar ainda maior.

-Ei, você vai demorar?

Certo. Foi olhar para seus olhos e ceder aos seus apelos. Eu já não me importava em ficar distraindo-a, uma vez que tivesse minha recompensa mais tarde. Afinal, tudo tem seu preço.

Ela terminava seu café e eu minha fala:

-... e à tarde também é costume tomar café nos passeios das casas e dos bares. E é sempre café gelado. Se quiser podemos fazer também...

-Eu adoraria. - ela olhava para mim, tomando o resto do suco - Pelo que você sabe, parece ter passado muito tempo por aqui...

-É verdade... Era necessidade.

-Não gostaria de me ajudar, Draco?

Até podia imaginar o que ela queria, mas fechei os olhos transparecendo impaciência, mas disse a ela para prosseguir com a fala, ainda de olhos fechados, esperanto que as palavras confirmassem o que eu já pressentia.

-Porque não me diz outras pessoas que também...

Era o que eu pensava.

-Não... Eu não posso. É muito perigoso, seria um risco muito grande, pra mim e pra você -e ela enrubescera levemente - Isso envolve muito dinheiro e poder, Gina. Mesmo depois de ter pago e entregado o que devia, o medo ainda me persegue. Tudo envolve dinheiro e poder, as vaidades... É muito perigoso tocar em coisas assim.

-Eu sei, não é tão simples pra você...

-Sinto muito, Gina, eu realmente gostaria de poder ajudá-la...

-Tudo bem - ela parecia realmente decepcionada comigo. Eu havia quebrado a confiança que ela gentilmente havia depositado em mim e a ajudaria não fosse minha enorme covardia, mas aquele dia estava reservado para outro tipo de jogo de confiança.

-Eu prometo que algum dia vou retribuir por tudo que você está me fazendo, Gina

O que ela não imaginava é que se dependesse de mim, seria ainda hoje. Ela pareceu se animar, sorrindo fracamente e olhando para a flor no meio da mesa.

-Você sabia que essa flor tem o nome da sua mãe?

-Tem?

-É, narciso.

-Flor bonita...

-Tem um motivo pra essa flor ter esse nome. Narciso era um cara que se amava demais e morreu ao ver seu reflexo no lago, tentando alcançá-lo.

-Trágico...

-É uma lenda grega, senhor especialista em Grécia.

-Eu não me interesso em lendas. Elas só servem pra aplicar lições do que não se deve fazer que pode prejudicar aos outros, mesmo que te faça um bem enorme.

-Eu diria que essa é uma visão bastante pessimista.

-Eu sou bastante pessimista em alguns aspectos. Você nem me conhece para dizer que sou completamente pessimista.

-E em que aspectos não é pessimista, Malfoy?

-Muitos.

-Diga logo.

Eu não queria dizer que eram mulheres, sexo, quadribol e Potter - sim, eu tenho certeza que sou melhor que ele.

-Sou melhor que Potter e sempre estou certo que posso ser melhor que ele, não importa em quê estejamos discutindo.

-Qualquer um é melhor que ele. Ele só liga pras malditas outras pessoas, nunca pra quem está logo ao lado dele.

-O que é estupidez...

-Ele vai ser uma pessoa que com certeza vai acabar sozinho e infeliz. Ele não consegue dar a atenção que as pessoas merecem.

-E com certeza tem uma síndrome de super herói.

-Exatamente!

-Ele pensa tanto nos outros, nunca em si mesmo e sempre está disposto a sacrificar sua vida pelo bem do todo.

-Mas ele se esquece que na vida dele há outras pessoas.

Toquei suas mãos por sobre a mesa, e a melhor parte é que ela não recuou. Continuou com as mãos sobre as minhas, chegando ao ponto de observar por alguns segundos como elas se contrastavam, coisa que também fiz e admirei o fato de que se encaixariam perfeitamente caso estivessem entrelaçadas.

Acordada de seu pequeno devaneio pousou seus olhos sobre o mar, ainda com as mãos sobre as minhas e ficou em silêncio. Tudo que tínhamos de dizer um ao outro parecia ter sido dito naquele silêncio repentino e comum entre nós.

Levantou-se e rumou para as águas do mar, que naquele dia estava um pouco mais rebelde eu a segui. Era tudo que eu tinha que fazer. Tirou os sapatos, deixou sobre a areia. Tirou a blusa e calça, o que me fez parar por um segundo e pensar se aquilo não era imaginação minha. Ela só podia não ter percebido meu desejo. Que espécie de mulher tira a roupa na frente de um cara que ela não confia? Não seria confiável tirar a roupa nem na frente de um cara que se confia, porque somos uma raça traiçoeira e escravos da carne.

Então prossegui, mas só até a beira do mar. Não me atrevi a entrar na água com ela. Contentei-me com o desejo ali do lado de fora, por cautela. Segundo verdadeiras lendas gregas, era perigoso entrar em águas gregas com mulher tão bela e quase nua sem poder tocá-la. Ainda.

Ela voltava da água mais viva, e o cavalheirismo e os bons modos me fizeram entregar a ela minha camisa. Agora estava sem camisa e vendo a mulher mais linda do mundo (conclusão à qual eu acabara de chegar) apenas de lingerie com minha camisa branca, o que se resumia em transparências. Ela estava brincando com fogo.

-É revitalizante. - indicou a água com a cabeça, enquanto se abraçava para se secar. - E foi pra esquecer o assunto de que falávamos.

Que assunto? Só conseguia ver suas pernas, suas costas... Ah sim! Potter. Melhor ainda se ela queria esquecê-lo depois de ela mesma ter concluído que não gostava dele. Olhando a situação, parecia que tudo estava dando errado, mas na verdade era uma conspiração à meu favor, meio às avessas, é verdade, mas a meu favor.

-Sabe, Draco, você foi uma espécie de exemplo pra mim.

-Sério?

-Sério. Eu vi você acordar pra vida e mudar. Eu acho que é a minha vez agora, e tem uma coisa que eu quero muito fazer e você vai ter que me ajudar.

-Eu tinha planos para o dia todo...

-Vai ser rápido, eu prometo!

Foi mais uma vez olhar em seus olhos e ceder. Ela tinha um feitiço.

-Não vá me meter em enrascadas, Gina!

-Tudo bem, não é nada de mais...

Revirei os olhos, e foi o máximo inteligível que podia me expressar.

-Vamos buscar aquele cachorro que você viu com meu irmão. Scraps é meu, e eu pedi pra ele tomar conta pra mim.

-E como você pretende seqüestrá-lo, mestre do crime?

-Entrando na casa. Ele vive solto, é só eu chamá-lo e ele vem.

-E em que parte eu entro?

-Na parte que você vai ver se tem alguém em casa, e se tiver você vai ter que distrai-los...

-Você está louca? - ela implorou com os olhos - Tudo bem... Mas todos os seus planos acabam me ferrando, Weasley. E você me paga!

E ia pagar mesmo, ela só não sabia como.

N/A: Oh, Deus, to alongando mais do que queria, mas prometo que to tentando terminar rápido com a trama, porque ta ficando meio demorado de mais, vocês não acham não?

LilyAngel88 – Amei sua review. Me deu a maior força pra escrever, mesmo quando eu não estava com muita inspiração e não só a sua, mas todas as outras. É muito bom saber que alguém gosta dos detalhisinhos que você escreve com carinho!

Miaka-ELA – Pois é. Onde já se viu? A mãe? Meu deus! Um absurdo, mas a cara dele, e o pior de tudo foi ele ter achado isso natural e justo e necessário. Dá pra sacar que ele não entende muito de sentimentos, muito menos os que ele tem em relação à Ginoca.

Thaty – Muito obrigada! Bem, se eu escrevo é graças à vocês que deixam reviews. Pra falar a verdade, quando eu comecei a escrever a fic tava disposta a continuar escrevendo mesmo que não recebesse nenhuma review, mas depois de ter recebido algumas que eu vi como é bom e como isso faz diferença no modo que você encara as coisas e no modo que você se dedica ao que está escrevendo, e como se esforça pra tudo sair melhor, dá uma diferença danada na qualidade do texto. Por isso sempre agradeço. Obrigada!

Ter Star – Hey! Muito obrigada pela review e não se preocupe, eu gosto de reviews, mas gosto muito mais que todos leiam! E é isso que é importante. Fico muito feliz que você ache isso da minha fanfic e tenho o maior gosto de escrever pra vcs que mandam reviews, mesmo que não seja sempre, o importante é aparecer de vez em quando. Se tiver achando ruim alguma coisa não faça cerimônia, pode meter o pau, porque se não vou me achar a JK Rowling do sertão de minas e na verdade tudo vai estar uma porcaria... Mas então, isso sobre descrever os sentimentos e descrever bem o interior dos personagens é uma coisa que gosto muito de ler, por isso ponho no que escrevo também, porque é uma coisa que eu, como leitora gostaria de ver.