(Noite)

Como era de se imaginar pela minha vontade e pela muito rapidamente descoberta vontade igualmente tendenciosa de Gina, o beijo na praia não acabou por ali. No fim, fomos parar na cama e depois naquela velha banheira onde toda a história havia começado.

Ela era insaciável e ter experimentado seu veneno estava me fazendo tão insaciável quanto ela. Entretanto mais insaciável que nós dois era seu estômago e ela quis jantar, contra a minha vontade, que era de ficar junto a ela eternamente. Mais cedo ou mais tarde teríamos que nos separar, e mais cedo, infelizmente, fiz do seu desejo uma ordem. Eu era só um escravo seu, e a servia com prazer.

De certa forma, aquele jantar foi o meu plano se concluindo, mas não na ordem que eu imaginara. De acordo com o que tinha planejado, iríamos jantar primeiro e só depois eu conseguiria realizar minhas ambições, mas de qualquer maneira ela era a pessoa mais agradável do mundo.

Falava bem e tinha opinião, diferente das pessoas com que eu me relacionava e que pareciam seriamente intimidadas por tudo que eu literalmente representava, mesmo que nem eu acreditasse nessa tal coisa que eu representava. Eu era uma pessoa comum por trás do passado negro e presente duvidoso, e só ela sabia daquilo. Só ela podia ver, muito claramente que eu tinha um humor estranho e difícil de entender, mas era só mais um ser humano. Não era um monstro como até mesmo eu imaginava, e ela me mostrou isso, me respeitando e me tratando com igualdade, sem desconfiar de mim. Era um coração muito puro de uma Grifinória convicta. E só aquele coração me entendia.

Ela tinha o estranho hábito de cantarolar enquanto penteava os cabelos e ela me disse, adorava azul, por isso tinha muitas peças de roupas naquela cor.

-E ficam muito bem mesmo em você. - Murmurei da cama, vendo-a se arrumar para sairmos.

-Obrigada. - Ela olhou tímida, aquele simples elogio a deixando sem jeito.

-E você, porque ainda não se vestiu?

-Porque acho que fico melhor assim.

-Pelado?

-É, pelado.

-Também acho. - Sorriu marotamente. - Mas não quero que ninguém mais ache isso. Vá se vestir!

-Tudo bem.

Ainda pude observá-la sorrindo por mais um segundo, antes de me dirigir às minhas roupas. Ia vestir as calças quando vi, de relance alguns papéis. Estavam no bolso de uma outra calça. Eu sabia exatamente o que eram e o que significavam para outro alguém naquele quarto. Tirei-os do bolso e pus sobre as outras roupas. Os olhava fixamente enquanto e terminava de me vestir. Ao mesmo tempo em que abotoava a camisa considerava seriamente qual seria

o destino daqueles pedacinhos amassados de papel, que se por um lado, poderiam prejudicar muito minha vida, poderiam por outro lado significar muito na vida de Gina. Eu não sabia o que fazer, precisava pensar.

E dessa forma, o destino temporário daqueles papeizinhos foi o bolso da camisa. Perto do coração, onde eu poderia medir e pesar todo seu significado e tomar uma decisão que poderia interferir diretamente na minha vida.

Dei uma última olhada em Gina se arrumando. Mais uma vez, vestido azul, simples, mas que a deixava radiante. Antes de chamá-la para irmos, suspirei profundamente, se já não dormia antes, essa noite não o faria de modo algum. O conflito agora era interno.

Ela estava sentada ao meu lado, e já comia há bastante tempo quando eu nem sequer havia tocado na minha comida. Estava ficando nervoso em ter que tomar uma decisão tão importante. Talvez eu estivesse dando importância demais a ela, mas era impossível ignorar Gina Weasley. Talvez eu pudesse simplesmente entregar os papéis a ela e ajudá-la a encontrar o que queria, mas o mundo era tão complicado, eu ainda teria que fugir.

Certamente ligariam uma coisa à outra e então descobririam que era eu e aí eu estaria em apuros. E estava tudo tão bom agora, eu a queria perto de mim, não queria ter que ir embora ou protegê-la ou proteger a mim mesmo. Por muito tempo eu me protegera das conseqüências dos meus atos, e agora já era hora de encará-los, eu não iria me esconder, mas também não iria entregar nada a ninguém, pelo menos por enquanto. Parece que a velha covardia não conseguira me abandonar totalmente, ou eu é quem achava mais conveniente.

Ela estava começando a ficar inquieta com o fato de eu não ter ao menos olhado para a comida.

-Porque você não come?

-O quê? Ah, sim... Estava distraído.

-Pensando em quê?

-Em você - a verdade é um vício que tem várias faces a serem vistas. A face que ela pode ver ou que escolheu ver não era exatamente a minha e eu sabia disso. Eu achava melhor assim.

Ela se encabulou e voltou a comer. Resolvi comer antes que a comida esfriasse.

-Posso dormir com você hoje?

Ela perguntou tranquilamente, fingindo não se importar muito, mas eu sabia que assim como pra mim, também importava muito.

-Você não precisa perguntar.

Ela enrubesceu.

-É que eu achei que seria melhor...

-Você apareceu do nada em uma banheira quando a minha vida ia muito bem e vem me pedir licença para alguma coisa?

Ela então ficou da cor de seus cabelos.

Tirei uma mecha de cabelo que havia se separado do resto dos cabelos e seus sentimentos pareciam tão genuínos, ela estava dizendo e demonstrando tudo que sentia. Foi impossível não beijá-la. Um beijo rápido em sua bochecha e ela riu. Tomou um pouco de suco e me perguntou se dias atrás eu poderia imaginar nós dois tendo no mínimo uma conversa civilizada.

-Não. Mas acho que as ruivas sempre me atraíram mesmo.

-E eu acho que gosto de caras com uma queda para o heroísmo.

Não houve constrangimento nenhum em nos referirmos, ainda que indiretamente ao testa-rachada. Para ela era só um fato passado. Graças a Deus.

Eu tinha medo que ela não se acostumasse com o anti-herói aqui. Sorri em agradecimento a ela, por me aceitar apesar de todas as diferenças e defeitos. Já ela, ela era perfeita e eu não tinha nenhum defeito a reclamar. Por enquanto.

Gina estava deitada ao meu lado. Tinha buscado suas coisas e decidimos ficar no meu hotel. Nem sequer havíamos tocado no assunto casamento que dentro de algumas semanas ocorreria, pelo menos se tudo fosse continuar como planejado, e eu não havia encontrado resposta para minhas dúvidas.Desconhecia o amanhã e só tinha a certeza de que meu desejo maior era acordar ao seu lado no dia seguinte.

Enquanto ela se aninhava no meu peito, adormecendo embalada pelas batidas do meu coração hesitante, eu não conseguia fechar os olhos. Eram perguntas de mais para uma só pessoa responder, e envolviam muita coisa. Perguntas sobre minha mãe, sobre um futuro que jamais imaginaria pensar, sobre não estar mais sozinho e consequentemente por isso eu ter que me importar com outra pessoa para responder outras tantas perguntas, perguntas sobre Gina, que infelizmente nem ela poderia responder, afinal, se ela soubesse a pergunta, iria se julgar capaz de dar uma resposta. Eu queria saber a reposta sobre aqueles papéis. A camisa estava sobre uma cadeira, e em seu bolso os tais pedacinho de papel, que me deram tantas perguntas a mais para responder. A ignorância da existência daqueles papéis seria muito melhor, mas eles haviam tomado personalidade

própria, e ao olhar para a camisa, eu podia ver através do pano os olhos daqueles papéis sobre mim, esperando uma resposta, esperando e dando mais peso à minha consciência e mais leveza ao meu sono, e me trazendo perguntas, mais perguntas, perguntas que eu tinha medo de responder.

A medida que se aceleravam aqueles pensamentos, girando ininterruptamente na minha cabeça, se agitava mais o sono de Gina. Era o defeito que ela não tinha até o momento finalmente dando as caras.

Debatia-se, virava-se, e sempre forte. Os cabelos longos agora formavam uma moldura vermelha e emaranhada ao redor de seu rosto salpicado das sardas que eu quase sabia de cor onde deveriam estar. Se em algum momento quase caí no sono, ela me despertou, mas não fazia mal isso acontecer. Tinha medo de dormir e ter algum

pesadelo sobre qualquer uma das perguntas que pesavam tanto.

De qualquer maneira, enfrentar tantas perguntas sem resposta ou com respostas que eu não queria saber era mais fácil tendo-a ao meu lado. Se por um lado eu tinha que me controlar para não deixar transparecer a dúvida tão cruel dentro de mim (não que isso fosse ruim), por outro lado era ótimo saber que eu poderia contar com ela, mesmo que eu não quisesse, como não queria agora.

Já era quase manhã quando ela acordou com sede. E ainda assim não percebeu que dormia com um insone. Só teve consciência disso quando viu que eu me virara para ela e a observava na luz do quase amanhecer.

-Você não dorme nunca?

-Não.

-Meu deus, e como você conseguiu sobreviver assim? - sua voz demonstrava muito sono.

-Não sei.

-Mas você nunca sentiu falta de dormir?

-Lógico que sim, Weasley.

-É a sua cara levar as pessoas para a cama utilizando-se de métodos aproximativos e depois chamá-las pelo sobrenome.

-Eu só me irritei, Weasley.

-Porque eu te perguntei se sentia falta de dormir?

-É.

Tudo que fez foi levantar e abrir as cortinas. Agora uma claridade ofuscante cegava nossos olhos, mas acho que era uma medida preventiva, para que ela não voltasse a dormir e pudesse dedicar atenção a mim. Sorri internamente, e talvez externamente também. Era tão bom ser cuidado por alguém novamente depois de tanto tempo sozinho.

-Eu nunca tive muito sono.

-Mas...

-Mas nada, Weasley... - era fácil perceber a esperteza em sua voz. Ela sabia que tinha um agravante.

-Alguma coisa piorou o fato de você não gostar de dormir.

-Não, não piorou.

-É bom você me dizer, Malfoy.

-É melhor você ir dormir.

-Pois não durmo até você me dizer.

E diante disso sentou-se à minha frente, me olhando. Droga. Em poucos dias eu estava sendo facilmente dominado pelo inimigo. E o pior é que estava gostando, e infelizmente teria que me render, somente por olhar aquele naqueles olhos castanhos. Era crime e castigo.

N/A: Desculpem a demora, foi a falta de tempo.

Miaka-ELA - Quem está jogando com quem? Boa pergunta, nem eu sei... só eles é quem sabem e se entendem!

Thaty – Uhu! Valeu pela review! Sua empolgação faz parecer que tá bom, então vou confiar na empolgação:D

Lily Angel – AH!!!!!!!!!!! Sua review foi a que me deu mais força pra continuar a escrever quando tava sem inspiração! Foi linda! MUITO OBRIGADA MESMO! Minha filha, se eu tivesse encontrado um Scraps de verdade já tinha arrumado um bom namorado pra mim! Mas se eu encontrar eu te empresto, porque acho que namorada ta muito em falta, e emprestar cachorro pra isso é o mínimo que eu posso fazer!