(Um caminho, um motivo, um lugar)
Ela esperava pacientemente, lutava contra o sono, e isso era o que me fazia demorar a falar. Eu queria sentir de novo a sensação de alguém se preocupando, ou no mínimo se importando comigo verdadeiramente.
Apoiada em um cotovelo e deitada de frente para mim (tinha se rendido um pouco ao cansaço e enfim deitara-se) seus olhos pacientes eram também compreensivos, e aquilo me fazia ter toda a vontade de dizer a ela o que queria dizer. E diria, se ela sorrisse pra mim mais uma vez.
Eu não sou normal nesse ponto. Estabeleço metas para que os outros cumpram, sem que eles saibam, para que enfim eu possa fazer o que querem. É uma maneira de ganhar tempo e de me acovardar um pouco mais, quando estou prestes a fazer o que tenho que fazer. É também, convenhamos, um certo charme. Quem resiste a essa demora e não acaba perdendo a razão? É a melhor sensação do mundo: fazer alguém perder a razão.
E tudo indicava que ela acabaria perdendo também, naquela guerra muda, só eu sabia das regras. Mas ela era ótima jogadora, sempre um passo a frente. Pela segunda vez em um curtíssimo espaço de tempo ela parecia ter adivinhado o jogo (e eu nunca saberei se só parecia ou se realmente o tinha feito) e depois de um certo momento qual ato vejo-a realizar? Sorrir.
Um sorriso lindo, de quem tinha descoberto as regras do jogo antes de seu adversário desonesto. Porque ela tinha de ser tão esperta?
-Tudo bem.
-Vai me contar?
-Vou.
-Então deita no meu colo.
-O quê?
Não é que eu não quisesse. Eu só não entendia porque.
-Deita no meu colo, fica tudo mais fácil.
Eu estava incrédulo. Eu só queria contar a ela uma coisa simples e direta, que não mudaria sua vida.
Passou os cabelos por trás das orelhas e puxou-me para perto de mim. Eu sabia como ela podia ter força. E me deitou sobre suas pernas cruzadas. Eu podia ver seus olhos me apoiando, mas eu procurava algo mais ali. Algo que só consegui encontrar quando ela, tendo visto que eu precisava de uma certa coragem, se abaixou e beijou-me ternamente. Quando ela se separou murmurou "Sou toda ouvidos" e continuou a me olhar. Ainda sentia na boca a pressão dos doces lábios. Um doce incentivo.
-Eu tenho insônia. E não consigo dormir bem desde que me entendo por gente. - Percebi seu olhar impaciente sobre mim, essa parte ela já sabia - Mas tudo piorou quando eu tinha quatorze anos. Eu tinha o mundo aos meus pés. O mundo. E quase sempre alguém pra me defender. Eu nunca soube perder, mesmo que perdesse todo dia, eu só não percebia isso.
Ela parecia compreender o fôlego que eu precisava tomar.
"Acontece que um dia eu estava sozinho. E me meti numa briga. Era por malditos galeões, uma aposta de jogo qualquer, não daria em nada. Bateríamos no garoto e ele não mexeria conosco ou tudo sairia das proporções e meu pai mandaria alguém lhe dar alguma coisa para que ele me deixasse em paz.
"Mas dessa vez, tudo passou dos limites. Eu estava sozinho e poderia simplesmente brigar com o garoto, que por sorte era mais fraco que eu, ganhar a briga, deixá-lo em paz e somente provocá-lo o resto da vida, como fazia com todos."
Seu rosto se virou para outro lugar. Ela queria me ajudar, mas não podia conter a mágoa que eu tinha lhe causado por tanto tempo, por isso tentou esconder o rosto de mim, mas eu vi. Eu também a provocava e a humilhava, por coisas tão banais e que só mais tarde, depois da crise finalmente ter me atingido, eu aprendera que eram coisas que não valiam a pena. Eu me arrependia amargamente, depois de tê-la conhecido, disso que fazia. Ela era tão melhor que eu. Eu não merecia nem estar em sua presença.
"Mas acontece que Crabbe e Goyle chegaram tarde, e eu apesar de estar em vantagem já estava bastante machucado e eles me ajudaram, bateram no menino, o que convenhamos, quase o matou, e me tiraram dali. Tudo estava bem, mas meu pai insistiu em me visitar aquele fim de semana, por mais que eu tenha lhe dito nas cartas que não precisava vir, que não era necessário, mas ele veio, e descobriu algumas marcas da briga, me perguntou o que era e então ele tomou conhecimento de tudo. Ele está preso hoje não fiz questão de o defender ou visitar, ele arruinou minha vida com a sua doença obsessiva. Se houve alguém que realmente se preocupou comigo foi a minha mãe, que mesmo depois do que aconteceu não me julgou ou me condenou, e também procurou me proteger. Mas também não reagiu ou me ajudou. Acho que a doença mental já começava ali, por culpa do meu pai, que sempre fora louco.
"Quando soube da briga, disse que eu tinha que aprender a me defender, que eu tinha que dar uma lição no garoto, como se já não bastasse a surra que ele tinha levado de Crabbe e Goyle, e que eu tinha que fazer aquilo sozinho e como um homem. A noção de todos os valores que meu pai tinha sempre foram bastante distorcidas e foram esses valores que ele tentou me passar e alguns eu até mesmo cheguei a captar, e você não sabe, minha vida não foi fácil por eu ter escolhido segui-los. Mas a honra para ele era pra ser lavada com sangue, e pra ele eu já era um homem."
Sua boca abriu-se em espanto e eu agora havia me sentado de frente para ela, de costas para o sol claro que já havia nascido lá fora.
-Céus, eu era uma criança, tinha só quatorze anos e meu pai me fez...
-Não precisa dizer se não quiser...
-Não, agora eu faço questão, Gina. Eu já comecei a revirar esse assunto doloroso quando ele estava quieto e quase mudo em algum lugar da minha consciência. E agora vou falar.
"A questão é que o garoto estava fraco. Estávamos de férias e não sei como Crabbe e Goyle a mando do meu pai conseguiram achar o garoto. O fato é que o trouxeram para mim e o deixaram lá em casa. Então meu pai me deixou lá dentro do calabouço com ele e disse que eu precisava aprender a ser um homem, que eu estava sendo fraco esse tempo todo, especialmente quando dizia que não era necessário fazer o que ele queria que eu fizesse.
"Comecei a torturá-lo. Quantos anos eu tinha? Quatorze apenas, e muito a perder. E o que meu pai me obrigou? A pronunciar uma maldição imperdoável. Eu não o culpo totalmente. Eu era fraco também em ter aceitado sua ordem e ter feito aquilo sem medo das consequências ou de matá-lo, e ter me deixado convencer que aquilo era o certo. Já no terceiro Cruciatus, que fora ganhando força à medida que eu perdia o medo e me achava superior a tudo que acontecia, o menino já estava muito fraco. Qualquer um sensato o suficiente veria que ele estava prestes a morrer, e até eu via aquilo, mas fingia não ver. Julgava suficiente e queria ir embora, mesmo que agora uma sensação de poder estivesse me tomando. Mas ele insistiu. Insistiu e eu cedia à sua pressão. Eu acabei o matando com um último Cruciatus."
Fez-se silêncio no quarto. Um silêncio tão forte, que podíamos sentir o peso dele sobre nossos ombros. A história ainda não havia terminado, mas ela precisava digerir aquilo que por anos eu havia engolido silenciosamente e sem protestos, e que me mantinha acordado cada noite, ainda que indiretamente. Podia ver lágrimas se formando em seus olhos, mas não queria que ela chorasse por mim. Não, ela não podia! Aquelas lágrimas deviam ser minhas, não delas! Ela não podia chorar por um crime que não cometera. Tinha que fazê-la parar! Parar de chorar lágrimas que ela não precisaria derramar caso não me conhecesse. Eu detestava ver aquela mulher chorando, mas que as outras. E como fazê-la parar?
Beijei-a. Com selvageria. Ela não entendia, então beijei-a com mais intensidade, quase implorando-a entendimento, e tinha feito-a deitar sobre a cama. Então ela conseguiu deixar sua boca escapar da minha, entre lágrimas e me abraçou, somente.
-Termine de contar, Draco.
Ela se levantou e foi beber um copo d'água. Parecia não conseguir olhar nos meus olhos e eu entendia, mas não compreendia.
-Eu não sei. Eu não sei o que aconteceu com o corpo, ou como não descobriram que eu matei uma pessoa, ou como foi que eu consegui lidar com isso. Eu não sei, eu não sei.
Seus olhos vermelhos repousaram sobre os meus.
-Eu me arrependo disso, Gina. Me arrependo profundamente cada dia da minha vida.
-E você fez alguma coisa pra reparar ou pelo menos pra compensar o que você fez?
Não, eu não havia feito nada. E não iria responder, ela já sabia.
-Eu me arrependo profundamente disso, Gina. E eu estou tentando reparar os erros com a minha mãe. Você não vê?
-Eu sei... Mas é que pra mim isso é imperdoável.
-Pra mim também. Você acha que eu me perdoei? Eu posso até fingir que sim, mas eu não consigo me perdoar. Não dormir é uma maneira de me castigar pelo que fiz.
-Eu sei. É que...
-Gina, esqueça o que passou, vamos em frente tentar compensar, como você disse, tudo que eu fiz de errado.
-Certo, Draco. Você está certo. Não tem mais como consertar.
-Não, não tem mais como consertar. Mas tem como mudar as coisas, Gina.
Ela então ela veio junto a mim. Se abrigou no meu abraço e derramou as últimas lágrimas.
-Confie em mim, Gina, eu estou tentando mudar.
Silenciosamente ela confiou em mim, olhando fixamente em meus olhos. Ela sabia que eu queria mesmo mudar.
Ela não sabia, ou talvez até soubesse que o motivo de querer mudar era ela, e só com ela eu podia recomeçar e dessa vez ao menos tentar fazer as coisas certas. Ela confiou em mim e eu confiaria nela. Só ela podia me salvar de tudo que eu já fui um dia.
Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais porque
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor
Finalmente adormeci. Tanto tempo depois daquele trauma do passado, dormi. O sono dos justos, dos merecedores. O sono dos condenados arrependidos. O sono que eu não podia esperar para domir, mas que telvez estivesse em meu destino. Eu só conseguiria ao lado dela. Junto a seu carinho, junto a seu aninho.
Adormeci com aquelas mãos de anjo passando pelos meus cabelos. Repousei meu rosto cansado em seu peito e ali adormeci como há muito não fazia.
O que não me permitia dormir durante todo aquele tempo era minha consciência. Até aquele momento, não sabia que ela existia. Somente depois de aliviá-la é que descobri que ela existia e depois desse alívio me ter permitido dormir novamente, tranquilamente, quase como fazia quando criança é que soube que minha consciência era mais pesada do que eu imaginava. E somente uma pessoa me fez me arrepender verdadeiramente daquilo.
N/A: Gente, só mais dois capítulos e muitas emoções no próximo capítulo, eu prometo! Espero que tenham gostado do drama quase mexicano que eu fiz! O trecho de música "Pois eu, eu só penso em você..." é da música do Los Hermanos Fingi na Hora Rir, vale a pena ouvir. Se quiserem, releiam o capítulo ao som dessa música, apesar do quê, não acho necessário reler, é só fechar os olhos, relembrar o capítulo e ouvir com a alma essa música dos hermanos.
Thaty – Que bom que você gostou! Beijos!
Lilly Angel88 – Mais uma vez amei sua review, e tudo que você comentou deu a maior força pra continuar escrevendo. A sua perguntinha sobre os papéis não posso responder agora. Eles ficaram meio esquecidos nesse capítulo, mas próximo capítulo tudo vai se resolver! E ah, muito muito obrigada pela review e por me avisar aquilo das reviews anônimas, agora já resolvi tudo. Brigada! Beijos!
