(Decisão séria)

Uma semana se passou sem que eu pudesse reclamar de não ter dormido. Nas vezes em que eu dormira, não fora um sono normal. Era um sono frágil, no qual eu era acordado quase sempre por Gina se remexendo na cama, mas se não fosse ela, seria outra coisa. E sempre que me acontecia de acordar, uma sucessão de pensamentos dolorosos e urgentes passava por minha mente. Primeiro, voltar para Londres (quase sempre, quando pensava nisso, escrevia mais recomendações e enviava para a enfermeira de minha mãe). Segundo, o casamento. Não havíamos tocado nesse assunto e meu medo maior é que ela estivesse o evitando por medo não só da minha reação, mas da reação dela também. Mal havíamos nos conhecido e já iríamos nos casar? Quando era tudo planejado friamente, tudo bem. Éramos adultos e sabíamos nos defender do que já prevíamos, mas talvez não fossemos capazes de nos defender emocionalmente. Seria mais simples se eu não tivesse sido tão apressado assim. Seria tão mais simples, mas eu não seria o que hoje sou, graças a ela, e talvez... Eu jamais conseguiria esperar, essa é a verdade. E finalmente o terceiro pensamento que me dava dores de cabeça era o destino daqueles papéis. Endereços e nomes úteis para Gina, mas que poderiam por em risco nossas vidas. Eu tinha sérias preocupações e as soluções para elas eram tão complicadas. Estava dividido entre querer ajudar e temer as conseqüências.

Nessa semana eu havia aprendido a cuidar de um furão com habilidade, e garanto que Amsterdã e eu até ficamos amigos. Gina o levava em sua gaiola para visitar Scraps, e na quinta feira havia me obrigado a ir junto a ela visitar o casal Lovegood e o cão e deixar que ele e Amsterdã fizessem amizade. A fé que ela tinha num mundo interligado e possivelmente feliz com trouxas, bruxos e a natureza mágica e não mágica era de se admirar. Ela era tão pura, com essa simples ambição de ver todos felizes...

Às vezes, confesso, me surpreendia mesmo olhando para ela e admirando qualquer qualidade que ela tinha. E acredite, tirando sua hiperatividade noturna, ela só tinha qualidades.

Gina não falava em outra coisa a não ser voltar para Londres. Fomos à praia duas vezes e tudo que ela dizia era que sentia falta da neblina de Londres, de poder usar botas e casacos. Pra ser sincero eu sempre lhe respondia que já estava acostumado e que por menos que gostasse de sol e todo esse clima quente, ali era um lugar agradável e com menos lembranças e pessoas conhecidas que Londres. Pelo menos nisso concordávamos, ela também não queria reencontrar algumas pessoas e eu temia a razão da demora em aparecer de certa pessoa que ela não queria rever. Algo me dizia que não era normal que pessoas com raiva demorarem tanto a resolver seus problemas. E eu não estava falando só de Gina e do irmão. Um super-herói também estava envolvido na história.

Na sexta feira ela saiu como tinha feito toda a semana para cuidar de Scraps, que estava com Lovegood e o namorado. Voltou estranha e a princípio não pude prever o porquê, mas observando seu comportamento e juntando os fatos que vinham me atormentando pude concluir que ela tinha tido notícias sobre o nosso objetivo inicial na Grécia: o casamento. Estava inquieta, remexia nas roupas guardadas e parecia procurar por alguma coisa que pelo jeito a salvaria. Talvez fosse calma o que procurava, talvez fosse o vestido.

Eu ainda estava em dúvida se a volta da idéia do casamento a atormentava quando sairam da sua boca as palavras para confirmar.

-Draco... Eu... Recebi notícias. Está tudo pronto para o casamento. Para amanhã.

Foi como um tapa na cara. E um dos bons, daqueles que deixam a marca dos dedos nos rosto. Por mais que eu esperasse que o assunto mais cedo ou mais tarde voltasse à tona, nunca havia esperado que seria tão rápido assim, e menos ainda de maneira tão direta. Nem nos meus piores pesadelos iríamos nos casar em um dia apenas. Eu sempre contava com a esperança de adiar um pouco mais, como sempre fizera com tudo na minha vida, mas parecia que especialmente esse assunto era inadiável. Afinal, o que iríamos fazer?

-Você ainda quer se vingar do seu irmão?

Perguntava como uma última esperança.

-Bem, Draco, me parece que mesmo que eu não quisesse mais me casar - isso significava que ela queria - já teria me vingado dele. E foi sem querer, não é mesmo? Não tem mais como consertar, isso seria só mais um passo definitivo, além de todos os outros que já demos sem perceber.

Certo. Ela estava decidida. Iríamos nos casar mesmo. Ela confiava em mim, mas nem eu mesmo confiava no que sentia por ela. Será que aquele era um sentimento tão forte assim que me permitisse um casamento com ela? Ela devia estar mesmo esperando que eu a amasse. Mas a culpa não era minha. Eu não nasci para o amor. Ou ao menos era aquela a sensação que eu tinha. Eu não estava pronto pra corresponder aos sentimentos e expectativas de Gina. Ela nunca me pedira nada e eu sabia que nunca pediria diretamente, mas eu podia ver nos seus olhos quanta confiança ela depositava em mim. E me doía perceber que meu desejo inconsciente era trai-la em sua maior vontade.Eu queria escapar e precisava contar a ela o que sentia. Seria traição maior enganá-la, fingir o que sentia. E ela tinha verdadeira repulsa por fingidores, eu sabia disso. Doeria demais para ela ver a si mesma sendo enganada por mim, que antes tão sincero havia provocado o surgimento de uma confiança que ela não queria quebrar. Nem eu. Era esse o meu destino infeliz e maldito. Trair confianças, quebrar juramentos e promessas subentendidas, fugir quando me achava mais fraco, ser egoísta e egocêntrico a ponto de deixar um medo inexplicável, infantil e insignificante destruir não só os sentimentos de uma outra pessoa, mas também a possível felicidade que poderia ser construída ao seu lado. Eu era mestre em fazer isso. E me fazia acreditar que o mais certo agora era não decepcionar esse destino imbecil e deixá-la, como tivera feito com tantas coisas.Tudo estava tão bem com ela, porque o mundo tinha que conspirar novamente contra mim depois de uma trégua, onde eu conseguira obter alguma felicidade? Eu não parava de me perguntar se eu conseguiria estragar tudo de novo. Ela estava incerta, mas tão feliz. E eu me perguntava milhares de vezes o que fazer. Mas não obtia respostas.

Ela estava à minha frente, e, numa fração de segundos, percebeu o vacilar dos meus olhos. Exigia respostas com seus olhos perscrutadores.

-Eu não vou dar mais um passo em falso, Gina. - Eu podia estar decepcionando-a, mas pelo menos estava tentando jogar o mais limpo possível - E preciso te explicar uma coisa - Seu olhar parecia compreensivo para um mero observador, mas eu era profundo conhecedor daqueles olhos: ela já estava preparada para qualquer coisa que a pudesse machucar. -: eu não estou preparado pra me casar, assim... de verdade.

-Você tem medo da responsabilidade e do compromisso que a palavra casamento significa?

-Exatamente.

Ela parecia hesitar em falar, mas acabou dizendo o que ficaria em sua garganta caso não dissesse:

-Vocês homens são uns fracos, e todos iguais.

-Não é isso, Gi...

-Não é isso? Draco, eu entendo que você tenha criado de maneira insegura e que tenha aprendido que nada é suficiente e que você tem que experimentar bastante de muitas mulheres até se decidir qual é a certa pra você. E eu sei que você acha que ainda não conhece mulheres suficientes. Eu sei disso. Fui criada com seis homens e entendo como o mundo é machista. Mas não compreendo. Você acha que eu não penso da mesma maneira? E você acha que eu estou certa de alguma coisa? Eu estou me arriscando Draco, é uma aposta. Em um jogo você aposta no seu pressentimento maior, não é assim? Você tem cinqüenta por cento de chances de acertar e cinqüenta por cento de chances de errar! Tudo na vida funciona assim. Eu também estou apostando, Draco, no meu pressentimento maior, o de que vai dar tudo certo e que tudo que passamos pode continuar assim. Estou apostando Draco, que o que sentimos é forte o suficiente para durar para sempre.

O discurso me atingira. Uma flecha rápida e certeira. Não entendi muito bem onde aquelas palavras me atingiram, se no cérebro ou no coração. O que sei é que foi fatal. E enquanto eu agonizava aquelas frases muito verdadeiras, ela me olhava com o rosto muito vermelho, esperando meu suspiro final que respondesse a seus anseios: que saísse logo de minha boca um sim ou um não, mesmo que traduzido em outras palavras. Ela esperava qualquer coisa de mim, e com toda a razão de não confiar em mim, um fraco e tolo. Mas não saiu dali, esperava resposta e parecia que esperaria até a morte.

-Você tem razão.

-Ótimo - exclamou nervosa.

Vi desesperado Gina saindo daquele quarto, batendo a porta atrás de si com firmeza. Eu precisava explicá-la tudo. Depois de alguns segundos de paralisia momentânea, devido ao choque da discussão, recobrei os sentidos e pus-me a segui-la.

Ela estava indo ao café onde Selene trabalhava. Sentou-se nos fundos e pediu um café a ela, mas em nenhum momento deixou transparecer a inquietação que eu sabia que morava em seu peito. Eu podia vê-la querendo contar a Selene, única pessoa conhecida e que não daria soluções estranhas (lê-se Luna Lovegood) para resolver os problemas, tudo o que aconteceria, mas era impedida pela barreira da língua. Ela não falava grego e pedira o café graças a algumas palavras que havia ensinado a ela. Por isso não demonstrava nada. Seria muito pior saber que Selene queria ouví-la - e ela certamente queria - mas não poderia entendê-la.

Ela me viu entrar pela porta e disse discretamente e de imediato:

-Não fale comigo.

Ainda com teimosia obedeci. Não lhe dirigi uma palavra sequer, mas sentei-me à sua frente e procurei uma caneta. Selene me emprestou uma, no fim e eu comecei a rabiscar apressadamente num guardanapo de papel

"Não me interprete mal, Gina. Eu estou com medo e você não precisa mesmo me entender, não precisa nem me compreender. Quero que saiba que vou assumir os riscos, não por mim ou por algum benefício que o casamento possa me trazer. Se vou assumir algum risco, é por você. Creio que valerá a pena, e espero que você entenda que eu posso me arrepender, mas estou certo que não vou me arrepender de não ter tentado."

Pareceu uma eternidade até que ela lesse e respondesse lentamente depois de tomar a caneta da minha mão. Ela relutava em entregar o guardanapo rabiscado. Só vi a bem escrita linha:

"Então você decidiu se arriscar?"

"Por você. Eu não quero que você sofra com a minha inconsequência ou com a minha falta de compromisso. Nem você nem nenhuma das pessoas que eu já prejudiquei dessa maneira merecem."

"Isso significa um 'Sim'?"

"Se eu decidi me jogar nesse abismo sem ter sequer uma idéia do que me espera? Sim."

"Bem, o que te espera somos eu, as testemunhas e um representante religioso. E além do mais você já sabe o que fazer amanhã. Já fez isso duas vezes por mim."

"Quando?"

"No casamento civil e agora. Você disse sim."

Ela sorriu quando meus olhos encontraram os dela por cima do guardanapo rabiscado.

"Já posso falar?"

"Uhn... Deixe eu pensar..."

Ela me fez esperar. Um castigo pela minha desconfiança. A brincadeira foi longe e só quando ela terminou de tomar seu café pude falar de novo: recebi um novo bilhete onde estava escrito "Agora pode." O bilhete foi entregue por ela e ela se pôs de pé para ir embora. Um jogo barato, mas que ela sabia jogar melhor que qualquer pessoa. Não a deixei passar.

Ainda sentado no fundo daquele café vazio, a puxei para mim e me agarrei a ela. Ela ficou sem jeito com o olhar de Selene, mas não deixou de reagir ao meu apelo sincero. Eu estava agarrado ao seu corpo como uma criança que não quer ficar na escola no primeiro dia de aula. Patético, mas talvez fosse mesmo aquilo que eu estivesse sentindo: medo de ficar sozinho e que ela nunca mais voltasse, mesmo que ela tivesse me prometido me buscar ao fim.

-Eu estou mesmo perdoado, Gina?

-Está, Draco. Você sempre terá meu perdão.

-Isso é sério?

-É Draco, eu não brincaria com uma coisa séria como casamento. Agora me largue e vamos embora daqui. Me espere lá fora, vou avisar a Selene que o casamento será amanhã e que será muito simples.

Ela praticamente me empurrou para fora dali. E enquanto isso, os pensamentos continuavam girando por minha cabeça.

Gina saia do pequeno café tranquilamente enquanto guardava alguma coisa nos bolsos.

-Mas se casaria por uma vingança boba.

-O quê?

-É, você não brincaria com uma coisa séria como o casamento, mas se casaria por uma vingança boba...

-Draco, não se faça de tonto. Você sabe muito bem que era impossível haver um sentimento qualquer entre nós dois, mas agora há, pelo menos da minha parte.

Eu não reagi, afinal, ela estava duvidando do que eu tinha dito a ela previamente e consequentemente duvidando dos meus sentimentos ou da verdade que eu lhe prometera. E eu odiava quando duvidavam de mim.

-Olhe aqui, Weasley. Eu te disse a verdade todo o tempo. Desde quando seu irmão te passou pra trás até esse momento, e olha que eu te disse que não me sentia seguro com a idéia de um casamento real. Eu te pedi desculpas pela minha insegurança e admiti que você tem razão, e olha que isso me custa muito! Eu realmente concordei com você, eu me pus no seu lugar. E você não se importou muito, se importou, Weasley?

Eu olhava para ela irritado. Meu pulso se fechara com a raiva, ela parecia que brincava comigo, mesmo que eu suspeitasse interiormente que isso fosse impossível vindo dela. A raiva tomou conta de mim e não dei ouvidos ao que eu pensava intimamente. Eu estava certo, mas ainda assim com muita raiva. Ela sorriu.

-Você pode até não saber disso, Draco, mas acho que o que você mais que é se casar comigo.

E eu suspeitava que ela estava certa.

Por algum tempo, nossas mentes só se ocuparam em pensar no mais imediato: a nossa felicidade.

N/A: Primeiro de tudo eu devo muitas explicações a todos vocês. E vou explicar, calma aí!

É o seguinte: primeiro veio o final de ano e a tensão pra não pegar recuperação no esquema mais louco que minha escola inventou. Depois vieram as trimestrais (isso mesmo, depois da recuperação, vê se isso é normal) e não que eu seja muito de estudar, mas também tive o vestibular, né? E graças a deus fui bem, por causa da semana entre as aulas e o vestibular que fiquei estudando. Aí adiantei bastante o capítulo e vieram as datas comemorativas. Primeiro fiquei a semana do natal na casa da minha vó sem internet ou computador! Depois veio o ano novo e a família veio pra cá, e confesso que até agora ta me dando trabalho, porque uma prima ficou pra trás na viagem e a gente tem que tratar a visita bem, né? Por isso mesmo, desde o ano novo até agora to tentando conciliar as coisas direito, entrar no ritmo do Draco de novo pra escrever bastante e aí nasceu esse capítulo! Pronto. Me perdoem, não me joguem na fogueira, eu fui uma pessoa má! Muito ruim e não mereço o perdão de vocês mesmo, mas mereço pelo menos a piedade, pra vocês poderem ler o último capítulo! Não percam! O próximo será o último, e talvez haja um epílogo!

Thaty – Coitadinho do Draco, né? Traumatizado! Beijos, brigada por comentar sempre e desculpa a demora do capítulo!

JuzinhaMalfoy – Muito obrigada, continue lendo e me perdoe pela demora!

Lilly Angel 88 – Ai, você é a melhor leitora! Eu adoro suas reviews, o que me faz até pensar que eu escrevo bem! Bem, eu também adoro novela mexicana (mas não conta pra ninguém!) e confesso que deve ter sido isso que me fez escrever todo aquele drama lá do Draco! Você sumiu completamente do msn! Cadê você? Aparece! E me perdoa por fazer todo mundo, mas vc principalmente que sempre comenta, esperar tanto assim, ta? Beijão!

Karen – Brigada! Era exatamente essa a intenção, e fico muito feliz que tenha dado pra entender que o que eu mais quero nessa fic é fazer as pessoas "serem" o Draco pra entender ele, tadinho! Beijos e muito obrigada pela review!

Casal Lovegood não parece um trocadilho engraçadinho?