CAPITULO I

— Eu jamais poderia fingir que sou você... —A voz trêmula de Bella morreu-lhe na garganta, sua incredulidade evidente.

— Por que não? — indagou Any com impaciência. — A Guatemala fica distante, e Fidélio Paez nunca me conheceu pessoalmente. Ele nem sequer sabe que eu tenho uma irmã, quanto mais que somos gêmeas idênticas!

— Mas por que você não pode simplesmente lhe escrever de volta e explicar que não tem disponibilidade para uma visita no momento? — argumentou Bella, inquieta, esforçando-se para entender por que a irmã teria sugerido farsa tão absurda em resposta a um simples convite.

— Eu gostaria que fosse tão simples!

— Você vai se casar daqui a um mês — lembrou-a Bella num tom brando. — A meu ver, isso torna uma recusa educada bastante simples.

— Você não entende. Não foi nem sequer Fidélio que me escreveu. Foi um certo vizinho dele, um maldito intrometido chamado Cullen Del Castillo! — Any torceu as mãos bem-cuidadas num gesto tenso. — O homem está exigindo que eu vá até lá e fique por algum tempo...

— E que direito ele tem de exigir alguma coisa?

Cindy lançou à irmã um olhar quase assustado.

— Ele acha que, como nora de Fidélio, sua única parenta viva... bem, que eu devo uma visita ao velho.

— Por quê? — Em outras circunstâncias, Bella teria entendido a exigência, mas parecia algo um tanto excessivo levando-se em conta o primeiro e breve casamento de sua irmã cinco anos antes.

Enquanto trabalhara em Los Angeles, Any tivera um tórrido romance com o filho de um rico fazendeiro guatemalteco. Entretanto, ela ficara viúva apenas dias depois de ter-se casado. Apesar de jovem e aparentemente saudável, Mike Newton Paez morrera de um súbito ataque do coração. Na época, a

Guatemala estivera sofrendo graves enchentes. O país inteiro estivera num grande caos, com o sistema de comunicações seriamente afetado. Com o pouco que soubera sobre as origens do falecido marido, Any achara impossível entrar em contato com o pai de Mike a tempo para o funeral. Daquele modo, fora realizado sem a presença do pai dele e, em seguida, ela voltara diretamente para Londres.

— Você nunca mencionou que ainda mantém contato com o pai de Mike — comentou Bella, nos olhos castanhos um brilho caloroso de aprovação.

Any corou visivelmente.

— Eu achei que manter contato era o mínimo que eu podia fazer, e agora que Fidélio está doente...

— Ele está doente? — interrompeu-a Bella, mortificada. — É algo grave?

— Sim. Desse modo, como posso responder a carta dizendo que não visitarei um homem moribundo porque vou me casar outra vez?

Bella contraiu o rosto. Teria sido uma resposta das mais insensíveis, sem dúvida. Na verdade, do ponto de vista de Fidélio, aquilo só serviria como uma cruel e horrível lembrança da morte prematura do único filho.

— Aquele homem, o vizinho dele, chegou a me enviar passagens de avião! Mas, mesmo que eu não estivesse prestes a me casar com Roger, não iria querer ir. — confessou Any numa súbita onda de ressentimento. — Odeio pessoas doentes! Não suporto estar perto delas. Eu seria totalmente inútil tentando demonstrar simpatia e todo esse tipo de coisa!

Baixando o olhar, Bella conteve um suspiro, lamentando por saber que a irmã dizia a verdade.

Quando a mãe de ambas ficara inválida, Any não se envolvera pessoalmente. Por outro lado, a ajuda financeira da irmã amenizara os problemas mais práticos daqueles longos e difíceis meses, quando a própria Bella fora obrigada a deixar seu emprego para cuidar da mãe. Any comprara-lhes um pequeno apartamento próximo ao hospital onde a mãe de ambas estivera recebendo tratamento. No momento, o apartamento estava à venda. Bella fazia questão de pagar a irmã de volta depois de seu gesto tão generoso.

— Mas você poderia lidar facilmente com Fidélio — argumentou Any, sua ansiedade em persuadir a irmã gêmea a tomar seu lugar evidente. — Você foi absolutamente maravilhosa com mamãe.

— Mas não seria certo enganar Fidélio Paez dessa maneira. Acho que você deveria conversar sobre isto com Roger...

— Roger? — Any gelou diante daquela menção ao homem que adorava e com quem logo iria se casar. — Ele é justamente a última pessoa que eu quero que saiba sobre isto! — Atravessando a sala, pegou as mãos da irmã, um ar de súplica em seus olhos. — Se ele soubesse quanto devo a Fidélio, provavelmente acharia que teríamos que cancelar o casamento para que eu pudesse ir até lá e... e eu não suportaria isso!

Bella fitou-a em completa perplexidade.

— O que você deve a Fidélio Paez?

— Ao longo dos anos, ele tem... bem, tem me enviado muito dinheiro — admitiu Any, constrangida.

Bella franziu a testa, pois a irmã vivia com bastante conforto e nunca, que tivesse sido de seu conhecimento, ficara sem dinheiro nos anos mais recentes.

— E por que o pai de Mike enviaria dinheiro a você?

— Bem, e por que não? — retrucou Any num tom quase agressivo. — É rico e não tem ninguém com quem gastar. Não fiquei com nada quando Mike morreu!

Bella corou diante do óbvio aborrecimento da irmã com o fato.

Any deixou os ombros caírem, então, e soltou um longo suspiro.

— Ainda assim, apesar de todos os convites de Fidélio, nunca fui visitá-lo. Quando ele tentou marcar uma data para vir até Londres para me ver, há uns dois anos, arranjei desculpas.

Bella estava chocada com tal confissão.

— Céus, mas por quê?

A irmã fez uma careta e estremeceu.

— Nunca fui a melhor pessoa do mundo, como você é! — disse, irritada, afastando furiosamente as lágrimas em seus olhos. — Por que eu iria até uma fazenda no meio do nada para visitar um velho? E por que eu iria querer o inconveniente de servir-lhe de cicerone aqui em Londres? Eu sempre tive algo melhor a fazer, mas realmente pretendi vê-lo algum dia... O problema é que agora seria um péssimo momento para isso!

— Sim. — Bella podia ver aquilo e não se perguntava mais por que a consciência da irmã a atormentava tanto.

— Roger não sabe nada a respeito de Fidélio, e eu não gostaria que ele soubesse sobre o dinheiro. Não pensaria muito bem a meu respeito por só ter recebido e nunca dado nada em troca — confidenciou Any a contragosto, os olhos tornando a ficar cheios de lágrimas. — Há uma porção de coisas que Roger não sabe sobre meu passado. Mas deixei tudo para trás. Eu mudei. Recomecei minha vida quando voltei a entrar em contato com você e mamãe no ano passado, e não peguei um níquel sequer de Fidélio desde então...

— Está tudo bem — sussurrou Bella, seus próprios olhos ficando marejados diante do desespero de sua irmã e de sua atípica franqueza.

— Ficará tudo bem se você for até a Guatemala para mim. Sei que estou pedindo muito, especialmente levando em conta que não tenho sido assim tão sincera em relação a certas coisas. Mas realmente preciso de sua ajuda nisto. E se puder me fazer este único favor, juro que serei sua melhor amiga para sempre!

— Ouça, eu... — Envolta num abraço apertado de gratidão, Bella sentiu-se tocada, pois a irmã raramente demonstrava sua afeição.

Separadas aos sete anos de idade pelos pais, durante o divórcio de ambos, as gêmeas haviam passado os quinze anos seguintes sem conviverem uma com a outra. Apenas recentemente Bella tivera a chance de reencontrar a irmã. E até agora, Any escondera-se atrás de uma reserva que destoava da natureza mais emotiva de Bella. Os estilos de vida e interesses de ambas eram tão diferentes que fora um desafio encontrar algo em comum para começarem a superar o abismo que se formara durante aqueles anos de separação.

Mas agora, pela primeira vez desde que haviam sido crianças, Any abrira seu coração para Bella outra vez e pedira-lhe sua ajuda. A idéia de que a irmã infinitamente mais sofisticada e bem-sucedida precisava dela a deixava pasma, mas orgulhosa também. Antes a gêmea mais tranqüila e dependente, Bella ficara arrasada quando a irmã mais impetuosa e dinâmica desaparecera de sua vida. Jamais superara em seu íntimo a dor da perda e da solidão, e o apelo de Any para que a ajudasse, o fato de estar precisando dela, tocava-a a fundo. Afastando incertezas mais práticas pairando num canto de sua mente, Bella sorriu, determinada a oferecer toda a ajuda a seu alcance.

Any recuou um pouco e estudou-a com o olho crítico de uma mulher que já trabalhara como consultora de moda e maquiadora e que se importava muito com a própria aparência.

Ironicamente, poucas gêmeas idênticas poderiam ter parecido mais diferentes uma da outra.

Bella nunca usava maquiagem e mantinha os rebeldes cabelos presos. A saia de lã ia até os tornozelos, a camisa xadrez era prática e os sapatos baixos e confortáveis.

— Enviei uma foto minha a Fidélio no ano passado e estava muito bem-vestida. Vou ter um bocado de trabalho para transformar você em mim — confessou Any com um sorriso irônico.

Bella apenas ficou sentada ali, ligeiramente atordoada, incerta de repente por ter concordado com algo tão absurdo quanto se passar pela irmã. Agora que eram adultas, simplesmente não podia se imaginar sendo como a irmã. Any tinha a aparência perfeita de uma modelo e, confiante, revelava mais do que escondia de seu corpo esguio e bem-feito. Os cabelos loiros, que havia alisado e clareado em dois tons, caíam-lhe feito um véu de seda pura pelas costas, impecáveis. Não havia um único centímetro em Any que não fosse perfeito, admitiu Bella, curvando as unhas roídas até o centro da palma da mão e endireitando os ombros.

Do lado de fora do bar, que não passava de um casebre com teto de zinco, um homem baixo, de chapéu e poncho, amarrou seu cavalo a uma estaca e entrou no recinto abafadiço. Reuniu-se aos camponeses e vaqueiros que estavam junto ao balcão e, numa questão de segundos, estava olhando boquiaberto para Bella com o restante deles. Num sofisticado tailleur rosa-claro, terrivelmente amarrotado, equilibrando-se nos sapatos de saltos altos, era uma visão raramente observada na remota região guatemalteca.

O calor e a umidade eram opressivos. Pressionando um lenço de papel de encontro à fronte para conter a camada de transpiração, Bella estudava a velha mesa à sua frente em silenciosa desolação.

Any insistira que ela teria que se vestir com impecável elegância para impressionar a todos durante sua estada no país. Mas sentia-se terrivelmente desconfortável em sua bela roupa emprestada. Além do mais, os malditos sapatos apertavam seus pés, como se fossem um instrumento de tortura. Usava os cabelos soltos agora, porém recusara-se a clareá-los ou alisá-los.

No dia anterior, chegara de avião à Cidade da Guatemala e fizera uma conexão num vôo doméstico até Flores, onde passara a noite num pequeno hotel. Esperara ser levada de lá até a fazenda Paez, mas, em vez daquilo, recebera a mensagem de que iriam buscá-la no vilarejo de Santa Angelita. Tão logo o táxi corroído pela ferrugem deixara a cidade de Flores, a paisagem ficara cada vez mais árida e a estrada se transformara rapidamente numa trilha de terra incrustada de raízes. A jornada incrivelmente longa em meio a uma nuvem constante de poeira levara-a, enfim, a um agrupamento de casebres, quase todos abandonados, no meio de uma vasta clareira sombreada pelo que se parecia bastante com um vulcão. De acordo com o guia que comprara no aeroporto, provavelmente era... Agora, Bella estava exausta e ansiava por um banho. Sem mencionar o temor que ia aumentando a cada minuto.

E se Fidélio percebesse que não era Any? E se, inadvertidamente, ela dissesse ou fizesse algo que acabasse expondo a farsa de ambas? Seria simplesmente imperdoável se a encenação fosse descoberta. Um homem velho e doente por certo não precisava de mais aborrecimentos. Mas qual teria sido a alternativa?, perguntou-se, pesarosa. Any não teria ido à Guatemala, e a idéia de Fidélio Paez morrendo sem um único parente para confortá-lo enchia seu coração de compaixão.

Percebendo que o grupo barulhento de camponeses junto ao balcão ficara em silêncio de repente, ela ergueu os olhos. Um homem bastante alto, que parecia ter saído direto de um western de produção italiana, no papel do frio assassino, estava parado agora na entrada do bar, os pés em botas de esporas um tanto separados. Intimidada por um olhar faiscante lançado de debaixo da aba do chapéu preto que sombreava os traços do rosto dele, Bella engoliu em seco e desviou os olhos.

O dono do bar não demorou a servir uma bebida gelada ao recém-chegado. Um murmúrio baixo de cumprimentos respeitosos rompeu o silêncio. O homem esvaziou o copo de um só gole e pousou-o no balcão. Adiantou-se, então, com perturbadora elegância felina até o canto mais afastado onde Bella estava sentada.

— Anabela Paez? — disse num tom inquiridor.

Bella fixou o olhar no cinto de couro com incrustações prateadas que lhe contornava os quadris estreitos. Então, não gostando do jeito ameaçador com que ele se aproximava em sua direção, empurrou sua cadeira para trás e levantou-se depressa. Nem mesmo os saltos altos ajudaram muito, levando em conta o seu metro e sessenta e cinco de altura. Ele, por sua vez, devia ter quase um metro e noventa, sua figura imponente. Perguntando-se se precisaria recorrer a seu livro de frases em espanhol para tentar se comunicar, ela observou-lhe o maxilar de ar agressivo e tornou a engolir em seco.

— Veio me buscar? — arriscou em seu próprio idioma. — Eu não ouvi um carro chegando.

— Isso deve ser porque eu cheguei a cavalo.

Por um instante, a maneira correta como o homem falou o idioma dela, apesar do sotaque, pegou-a de surpresa e, então, um riso nervoso escapou-lhe dos lábios. Ele só podia estar brincando.

Não se aparecia a cavalo para se buscar uma pessoa com bagagem. Jogando a cabeleira castanha para trás e lutando contra sua natural timidez com todas as forças, disse num tom de desculpas:

— Poderia me mostrar alguma identificação, por favor?

— Lamento não ter nenhuma a lhe oferecer. Sou Edward Cullen Del Castillo e não estou acostumado a que duvidem disso.

Bella esforçou-se para sustentar o olhar do homem arrogante, que a observava como se tivesse acabado de insultá-lo.

— Bem, senõr... Del Castillo, eu não estou acostumada a sair na companhia de homens estranhos e...

Es verdad? Você conheceu Mike num bar em Los Angeles e dormiu com ele na mesma noite. Saber disso não me leva a acreditar que você seja uma mulher particularmente cautelosa — declarou ele com um nítido tom de menosprezo na voz possante.

Bella gelou no lugar, o olhar fixo naqueles lábios bem-desenhados, de ar tão másculo.

Estava chocada. Não podia crer que o homem tivesse feito comentário tão ofensivo. O rubor espalhou-se imediatamente por suas faces.

— Como ousa? — retrucou num sussurro, os lábios trêmulos de indignação. — Isso é uma completa mentira!

— Mike e eu crescemos juntos. Está perdendo seu tempo bancando a santa para tentar me convencer. Guarde seu charme para Fidélio. Você vem comigo... ou vai ficar aqui?

— Não vou a lugar algum com você! Podem mandar outra pessoa qualquer da fazenda para vir me buscar — informou-os, por entre os dentes.

— Não há mais ninguém lá, señora. — E com aquela resposta ríspida, Edward Del Castillo simplesmente girou nos calcanhares e deixou o bar com o mesmo ar confiante com que entrara.

Mal tendo se recobrado do choque por ter sido tratada com tanta rudeza e com total falta de respeito, Bella lançou um olhar aos homens junto ao balcão, que, agora, conversavam entre si.

Mortificada com a suspeita de que um deles poderia saber o bastante de seu idioma para ter entendido os indelicados comentários que o outro homem fizera, apanhou a pesada mala, as faces afogueadas, e retirou-se do bar.

Edward Del Castillo estava à sua espera.

— Você é o homem mais rude e detestável que já conheci! Por favor, não torne a falar comigo, a menos que seja absolutamente necessário.

— Você não poderá levar essa mala. — Inesperadamente, ele tirou-lhe a mala e colocou-a no chão, onde a abriu.

— O que pensa que está fazendo?

— Será uma longa cavalgada e não quero perder tempo. Você não precisará de todas essas roupas pomposas na fazenda. Separe os itens que foram mais necessários e eu os colocarei nos alforjes. O dono do bar guardará sua mala até que você volte.

— Uma longa cavalgada... — repetiu Bella, mortificada. — Está realmente esperando que eu... monte num cavalo?

— Fidélio vendeu sua caminhonete.

— Mas... um c-cavalo?

— Dentro de poucas horas estará escurecendo. Sugiro que você vá até detrás do bar e troque essa roupa por outra mais prática para a jornada.

Fidélio vendera a caminhonete?, pensou Bella, sem entender a razão daquilo, já que se tratava de um homem rico. Sem mencionar que qualquer grande fazenda precisaria ao menos de um veículo, Mas o que entendia de fazendas, afinal?, perguntou-se, admitindo a si mesma seu completo desconhecimento sobre o assunto. Obviamente, Edward Del Castillo não possuía nenhum veículo motorizado tampouco, e vira por si mesma como eram precárias e escassas as estradas em Petén.

Soltou um suspiro trêmulo. Nunca estivera em cima de um cavalo em toda sua vida.

— Não sei montar...

Edward deu de ombros com um ar de impaciência. Afastou a aba do chapéu para trás, enquanto a observava sem o menor traço de compaixão, o sol iluminando-lhe o rosto pela primeira vez.

Bella descobriu-se com a respiração em suspenso. O homem era tão extraordinariamente bonito que não conseguiu parar de encará-lo, uma espécie de fascínio dominando-a.

Os olhos dele eram de um intenso tom do verde, delineados por cílios espessos de ébano, e totalmente inesperados naquele rosto bronzeado. As maçãs do rosto eram salientes, de ar altivo; o nariz reto, arrogante. Sobrancelhas espessas e negras encimavam os olhos brilhantes, o conjunto de traços marcantes realçado por lábios cheios com ar de pecado. Era tão bonito que ela teve a impressão de estar hipnotizada enquanto o observava.

Ambos se entreolharam. Bella sentiu um arrepio subindo-lhe pela espinha, o coração disparando. Ele, então, desviou o olhar, e um súbito constrangimento tomou-a quando se deu conta de como estivera se comportando. Deveria estar escolhendo algumas peças de roupa da mala, não encarando-o como se fosse uma adolescente embevecida. Mortificada por sua reação atípica, agachou-se ao lado da mala e esforçou-se para se concentrar.

— Não sei montar — tornou a dizer.

— A égua é dócil.

Bella percebeu que suas mãos tremiam enquanto remexia todas as roupas de grife que a irmã lhe emprestara. Corava a cada vez que pegava uma peça de lingerie. e voltava a escondê-la, sabendo que ele a observava. Parecia um astro de cinema, porém tinha as maneiras de um rufião. Mas, provavelmente, era o único modo como sabia se comportar, tendo nascido e sido criado naquela região remota, cercado de gado e mato, disse a si mesma. Tirou da mala uma calça azul-clara e uma blusa de seda branca, não exatamente práticas, mas o que Any tivera de mais informal para incluir. Ao menos o mocassim de couro que encontrou seria um bem-vindo alívio para seus pés.

— Não posso me trocar sem ter privacidade — anunciou num tom seco.

— Você não é inibida... por que fingir? Dois meses depois da morte de Mike você já estava mostrando tudo o que tinha no pôster central de uma revista masculina!

Bella fechou os olhos, horrorizada. Sabia tão pouco sobre a vida da irmã gêmea durante aqueles anos em que haviam estado separadas... E aquele homem odioso parecia ter grande satisfação em fazer alegações ofensivas. Como sabia tanto sobre Any? Sua irmã teria conhecido Mike num bar e dormido com ele na mesma noite? Bella estremeceu por dentro, sabendo que era uma puritana, mas incapaz de conter a vergonha que sentia pela irmã. Teria Any posado nua para uma revista antes de ter resolvido fazer o curso de maquiadora profissional?

Mas, de qualquer modo, despir-se diante das lentes de uma máquina fotográfica não era mais uma escolha tão chocante quanto costumara ser no passado, lembrou a si mesma, tentando se tranquilizar. Atrizes famosas faziam aquilo agora, desinibidas e orgulhosas de seus belos corpos.

Como aquele vaqueiro rude ousava difamar sua irmã?

— Acho que lhe pedi para me dirigir a palavra apenas quando for indispensável — declarou num tom glacial.

Atrás do bar, trocou-se rapidamente e, quando voltou, Edward Del Castillo submeteu-a ao tipo de olhar masculino que ela não estava acostumada. Mas Any gostava de atrair a atenção dos homens e se vestia de acordo. Portanto, a calça azul era justa, acentuando as curvas dos quadris e coxas, e a blusa branca era um tanto transparente e decotada. Sem ter a confiança da irmã, no entanto, ela corou instantaneamente diante daquele olhar insolente.

De repente, não conseguia pensar com clareza, o ar parecia quase lhe faltar, o coração disparando no peito. Baixou o olhar, então, e, grata por aquela distração bem-vinda, franziu o cenho para o lugar onde havia deixado sua mala antes.

— Onde está minha mala? — murmurou.

Sem o menor aviso, Edward deu um passo a frente e cobriu-a com um poncho de lã áspera.

— O que está fazendo? — gritou, contrariada. Ignorando-lhe a reação, ele colocou-lhe um chapéu de palha na cabeça.

— Respeite o sol, ou acabará com queimaduras na pele.

— Onde está minha mala? — repetiu ela com exasperação.

— Já a deixei aos cuidados do dono do bar, depois de ter colocado algumas peças para você nos alforjes. Não temos mais tempo a desperdiçar.

— Você mexeu nas minhas coisas pessoais? — Bella quase tremia de indignação agora.

— Vamos — disse ele, impaciente. Indicando a égua amarrada a uma árvore, instruiu: —Segure as rédeas de Chica, apoie o pé esquerdo no estribo e, depois, impulsione o corpo e suba até a sela.

Cerrando os dentes, Bella colocou o pé no estribo, movida por pura determinação, mas, quando tentou erguer a outra perna, a égua mudou de posição e ela acabou perdendo o equilíbrio, caindo de costas.

Uma mão forte pegou a sua e colocou-a de pé com espantosa facilidade.

— Gostaria de ajuda, señora?

A expressão sardônica nos olhos de Edward não passou despercebida a Bella, o que a deixou mais furiosa.

— Eu teria conseguido se a égua não tivesse se mexido! E montarei sem sua ajuda, nem que seja a última coisa que eu faça!

— Como quiser... mas eu não gostaria de vê-la machucada.

Tornando a segurar a rédea, ela sentiu-se tomada por tanta raiva agora que poderia ter impulsionado o corpo o bastante para subir no topo de uma colina. Segundos depois, viu-se no alto da sela e ergueu o queixo, triunfante.

— Atarei uma correia longa na égua para guiá-la. Você não estará em perigo algum — informou-a Edward num tom frio.

Bella limitou-se a menear a cabeça de leve, seu nervosismo voltando quando a égua se mexeu ligeiramente. Com o corpo tenso, segurou-se com força à sela, enquanto o observava atando a outra ponta da correia ao imenso garanhão negro que resfolegava poucos metros além.

— Espero que consiga controlar esse monstro... que ele não saia desgovernado com você na sela...

— Nunca um cavalo fugiu ao meu controle, señora — assegurou-lhe Edward Del Castillo com aquela exasperante expressão de arrogância no rosto.

Mas por que estava sendo tão hostil e rude? Afinal, ela estava ali para visitar Fidélio, como ele exigira. Apesar daquilo, a nítida impressão que tinha era de que Del Castillo a desprezava. Bem, desprezava Any, mas como estava se passando pela irmã... Aliás, mesmo não sabendo, ele tinha sorte pelo fato de ela não ser Any. Aquela altura, sua irmã já teria estado a meio caminho do aeroporto. Tinha um temperamento forte; sem mencionar que adorava conforto. Além do mais, acostumada como estava a ser objeto de admiração masculina, jamais teria tolerado a hostilidade com que ela própria fora tratada em seu lugar.

Ironicamente, previra que Bella seria tratada como uma princesa desde o momento em que chegasse na Guatemala. Ao que parecia, as cartas de Fidélio Paez haviam-no mostrado como um cavalheiro à moda antiga, dono de uma necessidade instintiva de ser protetor em relação a qualquer membro do sexo feminino. Mas Fidélio era décadas mais velho do que seu vizinho, Del Castillo, que não demonstrara um pingo sequer da antiga galanteria latina. E por quê? Evidentemente, via Any como uma mulher leviana só porque dormira com Mike no primeiro encontro de ambos. O que, afinal, o homem achava que era um romance tórrido? Ora, sua irmã deixara-se levar pelo ímpeto da paixão e do amor! Como ele ousava recriminá-la?

— Como está Fidélio? — perguntou Bella de repente.

Edward lançou-lhe um olhar, sua expressão fechada.

— Você finalmente se lembrou dele?

Ela corou.

— Fidélio está tão bem quanto se poderia esperar nessas circunstâncias. — Com aquela resposta evasiva, Del Castillo montou no garanhão, impossibilitando-a de lhe fazer mais perguntas.

Enquanto os animais deixavam o pequeno povoado a um trote lento, Bella observou o homem de costas, seus ombros largos, sua postura irretocável no cavalo. Ele montava como se fizesse parte do garanhão, altivo, imponente. Ela, por sua vez, esforçava-se para relaxar os músculos, mas o pavor de cair da égua tornava aquilo impossível.

— Vá mais devagar! — pediu freneticamente minutos depois, quando os animais começaram a trotar mais depressa e achou os movimentos bruscos de seus quadris de encontro à sela rústica incômodos demais.

Del Castillo puxou as rédeas e virou-se.

— Qual é o problema agora?

— Se eu cair e quebrar uma perna, não serei de muita ajuda a Fidélio!

— Logo vai escurecer...

— É o que você não pára de prometer — resmungou ela, convencida de que estava ardendo em chamas debaixo do poncho. — Mal posso esperar para que esse sol se ponha.

— Lamento muito que este meio de transporte não esteja sendo do seu agrado, señora.

— Oh, pelos céus, chame-me de Bella! Esse jeito formal de se dirigir a mim não tem cabimento já que o está aliando a péssimas maneiras!

Edward Del Castillo gelou no lugar, o maxilar enrijecendo.

— Já pude perceber que você não gosta de mim e nem me aprova, e eu detesto hipocrisia!

— O seu nome é Any. Por que eu a chamaria de Bella?

Horrorizada com seu deslize acidental, Bella baixou a cabeça, subitamente grata com o fato de os falecidos pais terem decidido colocar os nomes nas filhas gêmeas de Anabela e Isabella.

— A maioria das pessoas me chama de Bella agora. Any foi para a época da adolescência — mentiu ela, esforçando-se para não demonstrar o nervosismo.

— Anabela — disse ele com o rosto desprovido de emoção e pressionou os joelhos de encontro aos flancos do garanhão negro.

Bella lutou para manter-se na sela da égua enquanto percorriam a interminável planície coberta de relva. A vastidão era assustadora. Apenas o céu e aquela vegetação rasteira, e o calor opressivo e implacável do sol. A certa altura, perdeu a noção do tempo, sentindo-se sem energia até para um gesto simples como erguer o pulso debaixo poncho para consultar o relógio.

Durante uma pausa para beberem água, Bella sorveu um longo gole do cantil que Del Castillo lhe estendeu e, depois de devolvê-lo, deixou-se cair pesadamente sobre a crina sedosa de Chica, a exaustão dominando-a.

Com o que, por certo, foi um impropério qualquer em espanhol, Del Castillo desceu de sua montaria e colocou as mãos na cintura de Bella.

— Solte as rédeas.

Surpresa, ela abriu os dedos tensos e viu-se sendo tirada da égua por um par de braços fortes.

— O que, afinal...

— Você irá comigo em El Lobo — anunciou Edward, sentando-a na sela do garanhão. Juntou-se a ela tão ágil e rapidamente que nem sequer lhe deu chance de argumentar.

Abalada pelo íntimo contato de coxas fortes contornando as suas e do braço que a enlaçava pela cintura, Bella engoliu em seco. Mas, ao menos, sentia-se segura com ele. Sua tensão foi se dissipando, dando lugar a um estranho calor que a percorreu por inteiro, um calor que nada tinha a ver com o sol abrasador. Sobressaltou-se de repente com a chocante constatação de que seu corpo estava reagindo sexualmente e por vontade própria à máscula sensualidade de Edward Del Castillo.

— Relaxe, sim?

— Você está me apertando demais — queixou-se ela, horrorizada e constrangida com o efeito que o homem estava lhe exercendo.

— Você não está em perigo algum — declarou ele num tom manso. — Não sinto a menor atração por mulheres fúteis.

Bella sentiu a raiva e a indignação afogueando-lhe as faces.

— Oh, você é realmente o homem mais odioso que já conheci. Mal posso esperar para me livrar de você! Quando chegaremos à fazenda de Fidélio?

— Amanhã...

— Amanhã?— indagou Bella, estupefata.

— Dentro de uma hora, acamparemos para passar a noite.

— O quê? Mas... eu achei que íamos chegar logo...

— Perdemos tempo, señora.

— Eu não fazia idéia de que a fazenda ficava tão longe — confessou Bella num tom desolado.

Cavalgaram em silêncio até o pôr-do-sol. Quando, enfim, desmontaram perto de um córrego, ela sentia-se atordoada pela exaustão, cada músculo de seu corpo dolorido.

Olhando para Edward, que parecia inabalável feito uma rocha, amaldiçoou a própria fraqueza.

Perdera bastante peso enquanto sua mãe estivera doente, e ainda no mês anterior fora acometida por uma forte gripe. Depois de dois dias seguidos viajando, quase não lhe restavam forças e estava longe de se sentir bem. Não lhe ocorrera, nem a Any, que a fazenda de Fidélio pudesse se situar num local tão remoto e de difícil acesso.

As terras baixas guatemaltecas haviam parecido muito menos vastas no mapa do que eram na realidade e, afastada da familiaridade da vida na cidade grande e de sua cuidadosa rotina, ela sentia-se terrivelmente vulnerável. A irmã gêmea podia conhecer várias partes do mundo, mas aquela era a sua primeira viagem ao exterior. Liberdade fora a única coisa que sua mãe afetuosa mas possessiva recusara-se a dar-lhe.

Sentindo as pernas trêmulas, sentou-se na relva, enquanto Edward dava de beber aos animais no córrego. Ele, então, aproximou-se e atirou um cobertor a seu lado.

— Você deve estar com fome.

Bella sacudiu a cabeça, fatigada demais para sentir fome. Lentamente, como um brinquedo ficando sem pilha, ela deitou-se na relva.

— Estou com sono — murmurou com um bocejo. Surpreendendo-a mais uma vez, Edward estendeu-lhe o cobertor e, em seguida, ergueu-a nos braços, deitando-a sobre ele.

— Durma, então — disse, seco.

Edward Del Castillo era um homem de contradições fascinantes, pensou Bella, sonolenta. Dono de um orgulho ferrenho e de um frio controle, com o qual continha sua hostilidade em relação a ela.

Mas, ao mesmo tempo, era honrado demais, ao que parecia, para submetê-la a desconfortos desnecessários.

Com sua silhueta delineada pelos últimos vestígios do pôr-do-sol que ainda coloriam o céu, ele permaneceu parado diante dela, como uma grande e intimidante sombra negra.

— Você parece o diabo — sussurrou ela, em meio ao seu torpor, numa tentativa de fazer um gracejo.

— Não tomarei a sua alma, señora... mas tenho toda a intenção de destituí-la de tudo mais que você possui.

Palavras vagas pairaram no vazio que ia envolvendo a mente de Bella. Não faziam sentido. Com um breve suspiro de alívio, ela mergulhou num sono profundo e sem sonhos.