CAPÍTULO II

Bella abriu os olhos devagar. Havia uma pequena fogueira acesa. Não era de admirar que tivesse acordado, pensou, atônita. A noite estava quente e úmida, mas, ainda assim, Edward Del Castillo a estava submetendo ao calor de uma fogueira! Recuou do fogo, seus olhos se acostumando apenas gradualmente à silhueta grande e escura do homem do outro lado das chamas.

Passando a mão com nervosismo pelos cabelos um tanto desgrenhados, sentou-se. Naquele instante, um grito apavorante soou de algum lugar na vasta escuridão. Sobressaltou-se, movendo a cabeça num gesto brusco enquanto olhava assustada por sobre o ombro.

— O que foi isso?

— Um Jaguar. Eles caçam à noite.

Ela se aproximou mais do fogo e de seu acompanhante e estremeceu. Fechou as mãos em torno da caneca de café que ele lhe estendeu e sorveu a bebida quente gratificada, embora estivesse amarga e não contivesse nem açúcar, nem leite.

— A que horas chegaremos à fazenda de Fidélio amanhã? — quis saber.

Sob a luz bruxuleante da fogueira, o rosto de máscula e extraordinária beleza dele contraiu-se, o maxilar forte se enrijecendo.

— Cedo.

— Imagino que teríamos chegado lá ainda nesta noite se eu tivesse habilidade para cavalgar — admitiu Bella, oferecendo uma trégua com seu tom apaziguador. Del Castillo podia desprezá-la, mas ela lembrou-se das passagens de avião que lhe enviara, tendo ele próprio arcado com o custo.

Não parecia ser rico, ainda assim fora capaz de um gesto bastante generoso. Sem sombra de dúvida, Fidélio tinha um vizinho zeloso e preocupado com seu bem-estar, disposto a se desdobrar em esforços para ajudá-lo. Ela podia detestar Edward e cada músculo de seu corpo podia estar latejando em protesto à longa cavalgada, mas ainda era capaz de respeitar os motivos que o haviam levado a exigir que Any visitasse o sogro.

Edward deu de ombros e entregou-lhe um prato.

Bella inspecionou um pão grosseiramente fatiado e queijo, além de uma fruta que nem sequer reconhecia e, então, começou a comer com um apetite que a surpreendeu.

Limpando o prato e bebendo o restante do café quente, sentiu o silêncio contínuo pesando acima de sua cabeça.

— Talvez agora você me diga como Fidélio realmente está.

— Você verá a situação muito em breve.

A frieza naqueles olhos verdes fez Bella estremecer. Mas tão logo se descobriu apreensiva, disse a si mesma para ignorar tal reação. Ter sido criada por uma mãe que odiava e desconfiava de todos os homens a tornara uma mulher excessivamente cautelosa.

Bella contava sete anos de idade quando o pai se envolvera com outra mulher e exigira o divórcio. Any, sempre a favorita dele, tornara-se rebelde e incontrolável depois que o pai saíra de casa. Enfurecida pelo crescente comportamento difícil da filha, a mãe queixara-se, alegando que não era justo que tivesse que criar as duas meninas sozinha. Ao final, Renée e Charlie Swan haviam dividido as filhas gêmeas entre ambos praticamente da mesma maneira que haviam dividido seus bens.

O pai de ambas se mudara com Any para a Escócia, onde havia montado um novo negócio.

Prometera que as filhas poderiam visitar uma a outra, mas aquilo nunca acontecera. E, amargurada pelo abandono do marido, que a trocara por uma mulher mais jovem e bonita, Renée Swan dedicara-se à filha que lhe restara com excessivo apego. Um romance posterior em que fora novamente traída e humilhada selara-lhe definitivamente os preconceitos. O ódio da mãe pelos homens envenenara os anos da adolescência de Bella. As intermináveis restrições a que fora submetida haviam-na impossibilitado até de ter amizades duradouras.

Quando, enfim, Bella estivera pronta para começar a conquistar sua independência e exigir uma vida social própria, a saúde da mãe estivera em declínio, e o seu aprisionamento fora das horas de trabalho fora completo. Quando tentara sair, mesmo ocasionalmente, vira-se diante de acusações histéricas de negligência e egoísmo e ameaças de suicídio por parte da mãe.

Entretanto, sua pobre irmã sofrera infinitamente mais sob a custódia do pai, lembrou-se, constrangida por ter sentido pena de si mesma por um momento. A mãe a amara e cuidara dela.

Mas, quando o novo negócio do pai fracassara e a namorada o deixara, Charlie Swan tornara-se um alcoólatra, sempre endividado e incapaz de se manter num emprego. Any fora franca no assunto relativo às experiências de sua infância ao menos. Enfrentara muitas dificuldades. Na verdade, quando a ouvira contando suas dolorosas lembranças, relatando o sofrimento e as privações da infância e adolescência, Bella sentira-se terrivelmente culpada em relação à segurança que sempre tivera e à qual não dera o devido valor.

Tornando a ajeitar o cobertor em torno de si, ela deitou-se de costas e olhou para o céu salpicado de estrelas. Poderia lidar com o frio antagonismo de Edward Del Castillo por mais algumas horas. Não se importaria com o homem, disse a si mesma. Estava ali por causa de Fidélio e, em vez de se sentir ameaçada pelo que era estranho e diferente na Guatemala, aproveitaria a oportunidade para desfrutar o que pudesse daquela nova experiência.

Bella estava em verdadeira agonia quando tentou se mover na manhã seguinte. Seu corpo inteiro latejava, a noite passada no chão duro não contribuíra em nada para atenuar-lhe a dor nos músculos.

Sentindo-se fraca, aceitou o pouco de água e a sua frasqueira com artigos de toalete, que Edward lhe estendeu silenciosamente, e recolheu-se ao relativo abrigo de um grupo de palmeiras, onde teria um pouco de privacidade.

Mal podia caminhar. Sentia-se pior do que na noite anterior, e o ar estava surpreendentemente frio. Tremendo, voltou até a fogueira e vestiu o velho poncho sem que lhe mandassem, grata por seu calor.

Edward entregou-lhe uma caneca de café e mais pão e queijo.

Depois que comeram, ajudou-a a montar em Chica e Bella cerrou os dentes, enquanto seus músculos doloridos protestavam. Mais umas duas horas, no máximo, disse a si mesma, mas não demorou para que a cavalgada se tornasse outro teste de resistência.

Quando a égua, enfim, parou sem motivo aparente, Bella, sentido-se esgotada até para erguer a cabeça que latejava, murmurou:

— Por que paramos?

Edward tirou-a da sela da égua. Enquanto a descia até o chão, Bella sentiu os seios roçando-lhe o peito forte por alguns segundos. Mas foi o bastante para que seus mamilos se enrijecessem e ficou constrangida, o rubor tingindo-lhe as faces.

Ele segurou-a pelos ombros e virou-a devagar. Ela arregalou os olhos cansados com certo espanto. Havia uma pequena casa de paredes rachadas e pintura descascada poucos metros além.

Barracões toscos, de madeira apodrecida, e uma velha cerca quebrada à volta acentuavam o aspecto de desmazelo e decadência do lugar.

— Onde estamos? — sussurrou, confusa.

— Esta é a "fazenda" de Fidélio, señora. — Edward Del Castillo estudou-lhe a expressão de perplexidade no rosto com um olhar duro. — Espero que você aprecie a sua estada aqui.

— Esta é a fazenda de Fidélio?

— Sem dúvida, você estava esperando uma casa mais luxuosa...

Bella contraiu o rosto quando ele avaliou corretamente a sua reação. Sentiu-Se envergonhada.

Fidélio estava doente, sozinho e, ao que tudo indicava, entrara em declínio financeiro durante os cinco anos anteriores. Parecia estar enfrentando sérias dificuldades. Tomada pela compaixão, entendeu naquele momento exatamente por que Edward Del Castillo achara necessário enviar aquelas passagens de avião. Era evidente que o sogro de Any não poderia ter arcado com a despesa.

— Vejo que esta humilde moradia está lhe sendo uma surpresa das mais desagradáveis, señora.Ambos sabemos que você não teria se dado ao trabalho de fazer esta jornada se não tivesse acreditado que obteria alguma compensação visitando o homem em seu leito de morte — declarou

Edward com cortante frieza.

Bella encarou aquele rosto hostil em crescente confusão, o cenho franzido.

— Do que está falando? Por que ainda não entramos? Eu quero ver Fidélio e...

Ele soltou um riso de incredulidade.

— Felizmente para ele, Fidélio não está aqui.

— Não está aqui? Quer dizer que foi levado a um hospital?

— Não. Apenas os doentes vão para o hospital, e Fidélio não está doente.

Um homem baixo, de descendência indígena, saiu de repente das sombras projetadas por um dos barracões, deixando-a ainda mais confusa.

— Quem é aquele homem, então?

— Jacob trabalha para mim.

Edward adiantou-se para cumprimentar o empregado, e ambos trocaram breves palavras num idioma que ela nem sequer reconheceu. O homem mais velho, então, voltou ao barracão sem sequer lançar um único olhar de curiosidade em sua direção.

Tornando a se aproximar, Edward conduziu-a até a pequena casa, abrindo a porta de madeira lascada.

— Fidélio não está em seu leito de morte — informou-a com satisfação. —Atualmente, está trabalhando a muitos quilômetros daqui e nem sequer faz idéia de você está na Guatemala.

— Não entendo...

— Imagino que esteja chocada. — Edward segurou-a pelo ombro e a fez entrar no interior escuro da casa, que continha apenas algumas peças de mobília gasta e empoeirada. Era evidente que estava desocupada havia tempo. — Você achou que escaparia impune com os seus truques. Na verdade, acreditou que iria enriquecer ainda mais à custa de Fidélio...

— Não sei do que você está falando!

— Então, ouça e descobrirá. Eu resolvi trazê-la até aqui e é onde você ficará enquanto eu quiser.

Pálida em sua apreensão, a mente rodopiando, Bella aproximou-se de uma cadeira rústica antes que as pernas tivessem fraquejado.

— Fidélio não está aqui — repetiu numa voz trêmula. — E não está doente... e você está falando que pretende me manter aqui... O que, afinal, está tentando dizer? — Levou a mão à têmpora que latejava. — Devo tê-lo entendido mal...

— Não, você não entendeu mal. Mas está naturalmente relutante em aceitar a realidade de que a galinha dos ovos de ouro não vai pôr mais nenhum — declarou Edward, sombrio. — Enquanto suas cartas patéticas e suplicantes eram o bastante para impressionar Fidélio, deixaram uma impressão muito diferente ern mim!

— Cartas suplicantes?

Lançando-lhe um olhar de puro desprezo, Edward Del Castillo virou-se num gesto abrupto para pegar uma pequena caixa de madeira de cima da lareira de pedra. Abrindo-a, colocou-a sobre a mesa.

— Aqui estão as suas próprias cartas, señora. Em cada uma delas, você fala de sua pobreza, de sua terrível luta para sobreviver... sua desesperadora necessidade de ajuda financeira!

Como se estivesse em meio a um horrível pesadelo, Edward tirou um envelope da caixa e, de imediato, reconheceu a letra da irmã. Seu estômago contraiu-se em nós. Pobreza... luta para sobreviver... Any? Any, que, aos dezenove anos de idade, herdara uma grande soma em dinheiro de um seguro do pai, quando ele morrera? Any, que gastava como se não houvesse amanhã e que comprava somente o que havia de melhor?

— E, ainda assim, o tempo todo você esteve vivendo com luxo e segurança — declarou Edward num tom de veemente condenação.

— Como você sabe disso? — perguntou Bella, ainda tentando se recobrar do choque.

— Andei me informando através de contatos em Londres. Você mora num caro apartamento na área de Docklands e faz viagens frequentes ao exterior — disse ele, torcendo os lábios com menosprezo. — Você tem desfrutado um estilo de vida luxuoso à custa de Fidélio. Tirou proveito da compaixão e do cavalheirismo de um homem velho e ingênuo e levou apenas cinco anos para lhe tirar absolutamente todas as economias!

— Oh, céus... — murmurou Bella, aturdida; enfim, compreendendo.

— As suas constantes exigências de dinheiro levaram-no à ruína. Esta deveria ter sido a casa em que Fidélio desfrutaria sua aposentadoria. Antes de você ter começado a praticamente extorqui-lo, ele tinha condições de reformar este lugar e esperar uma aposentadoria tranquila após uma vida inteira de trabalho árduo. Mas, agora, quando deveria estar descansando, na sua velhice, foi obrigado a arranjar outro emprego para se sustentar.

— Pensei que Fídélio fosse rico...

— Como poderia pensar que um ex-capataz de fazenda fosse rico, señora? — indagou Edward num tom glacial,

— Um ex-capataz! Acho que houve um t-terrível mal-en-tendido — balbuciou Bella, uma expressão de crescente horror em seus olhos.

Edward agachou-se num movimento ágil, segurando os braços da cadeira dela, fazendo-a sentir-se acuada. Faiscantes olhos verdes fitavam-na ameaçadoramente.

— Não se faça de tola. Não sou um homem paciente. Não houve mal-entendido algum. Aceite agora que não haverá escapatória fácil para você desta sua prisão...

— Prisão? Pelos céus.,, você está me ameaçando?

— Até o momento em que você decidir assinar um documento legal, comprometendo-se a devolver o dinheiro que roubou de Fidélio, vai permanecer aqui — declarou Edward. — Mas não está correndo perigo algum e não sofrerá nenhum tipo de violência. Eu não sujaria minhas mãos com você!

— Isso é para me tranquilizar? — indagou Bella num fio de voz, enquanto se perguntava o que estava errado com sua mente. Por um lado, queria se esquivar ao máximo daquele homem hostil; por outro, sentia-se fascinada pelos incríveis olhos verdes que a fitavam e por sua máscula beleza.

— Você ousa sugerir que eu seria capaz de usar força física com uma mulher? — disse Edward, ultrajado. — Eu... um Del Castillo, prestando-me a ato tão vergonhoso?

Com a garganta seca, Bella apenas encarou-o, admirando-se com o controle com que o homem ocultara aquele forte temperamento durante toda a jornada.

Ele levantou-se de repente.

— Jacob permanecerá lá fora, unicamente para garantir a sua segurança. Não há nada a sua volta aqui, exceto quilômetros após quilômetros de planícies. É uma região das mais perigosas e inóspitas para os inexperientes.

— Você não pode me obrigar a ficar aqui — disse-lhe ela, ainda aturdida.

Ele entregou-lhe um documento que apanhou da mesa.

— Se assinar isto, poderá sair imediatamente. Sem uma assinatura, você fica.

Bella apanhou o papel. Felizmente, fora redigido em seu idioma, mas estava repleto de termos jurídicos. Lentamente e de cenho franzido, leu toda a página até que chegou a uma soma em dinheiro tão alta que só a deixou ainda mais chocada. Segundo o que estava lendo, Any recebera uma imensa quantia de Fidélio Paez ao longo dos cinco anos anteriores. E o documento era um acordo de reembolso da soma completa imediatamente.

Uma camada de suor frio cobriu-lhe a fronte. Quer aquele homem odioso aceitasse ou não o fato, houvera um terrível mal-entendido. Any acreditara realmente que o sogro era rico e, se lhe escrevera pedindo dinheiro, aquilo, sem dúvida, só podia ter sido feito com base na certeza equivocada de que Fidélio Paez estivera em condições de ser generoso.

Ele tinha quase setenta anos. Com um salário de capataz, deveria ter levado a vida inteira para guardar todas aquelas economias. Duas vidas, pensou Bella, admirando-se com o fato de um capataz ter conseguido reunir tamanha quantia. Mas agora todo o dinheiro se fora e, com ele, a segurança do homem. Como era possível pagar de volta soma tão vultosa?

O pequeno apartamento que Any comprara para ela e a falecida mãe de ambas já estava à venda, lembrou a si mesma numa onda de alívio. Mas, mesmo que conseguissem vendê-lo pelo preço pedido, ainda cobriria apenas cerca de metade da dívida pendente. E Any era a proprietária do luxuoso apartamento em que vivia em Docklands, ou era apenas alugado? E ainda lhe restaria algo do dinheiro que herdara aos dezenove anos?

A irmã gracejara, comentando que comprar o apartamento para ela e a mãe fora uma boa maneira de impedi-la de gastar todo o seu dinheiro.

— Sei que sou muito extravagante — dissera-lhe Any. — Mas por que não devo dar a mim mesma o que há de melhor? — perguntara na defensiva. — Simplesmente não consigo resistir a coisas boas. Roger fica furioso comigo, mas sempre teve tudo à mão. Como poderia entender o que passei, vivendo com papai? Roger nunca teve que ficar sem comida ou roupas decentes porque o pai gastava até seu último níquel em bebida!

A lembrança da reveladora conversa reavivou a culpa de Bella. Fora protegida quando criança, ao passo que sua irmã gêmea fora traída por um adulto dominado por um vício que lhe fugira ao controle. E, sem dúvida, ela ainda guardava as marcas,

— Vai assinar o documento, señora? — perguntou Edward Del Castillo, desafiador.

Bella engoliu em seco, lutando contra a tremenda vontade de informá-lo que havia aprisionado a irmã errada. Não ainda, avisou-a uma voz em seu íntimo. Uma atitude impulsiva seria loucura, levando em conta que estava no poder de um homem que chegara a assustadores extremos para prender numa cilada uma mulher que acreditava ser uma insensível aproveitadora. Além do mais, uma confissão de sua verdadeira identidade naquele momento só o enfureceria ainda mais. E não estava mais sob a ingênua convicção de que lidava com um roceiro ignorante.

O contrato de reembolso que ainda segurava fora redigido por uma conceituada e, sem dúvida, cara firma de advocacia de Londres. Edward Del Castillo também admitira que se informara a respeito de sua irmã através de contatos na capital inglesa. Aquele tipo de coisa custava muito dinheiro. Ele também estava usando o que se parecia bastante com um relógio Rolex. Notara-o na noite anterior, mas achara tratar-se de uma imitação barata. Agora, não tinha mais tanta certeza, Os vaqueiros naquele bar de aspecto decadente tinham se mostrado extremamente respeitosos em relação ao homem no dia anterior.

— Quem é você? — perguntou-lhe, tensa.

— Você sabe quem sou, señora.

— Não sei nada a seu respeito, exceto seu nome.

— Não é necessário que saiba mais — retrucou Edward, desdenhoso. — E então? Vai assinar o documento?

Ela ergueu o queixo e declarou numa voz trêmula:

— Não estou preparada para assinar nada sob coação.

Olhos verdes e faiscantes percorreram-lhe o rosto pálido, assustado.

— Nesse caso, voltarei na próxima semana e verei como se sente até lá.

— Na próxima semana? — disse Bella, incrédula. — Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto,..

— E por que eu estaria brincando?

— Não pode estar realmente pretendendo me manter presa aqui até a próxima semana!

— Por que não?

— Por que não? Porque não quero ficar neste lugar e você não tem o direito de manter aqui contra a minha vontade. Eu poderia dar queixa na polícia contra você por isto!

— E de que crime me acusaria? Você nem sequer está nas minhas terras. Veio até aqui por vontade própria e agora vai residir na casa de seu sogro. O que qualquer uma dessas coisas tem a ver comigo?

Abalada com a resposta sardônica, e com a premeditação com que devia ter sido elaborada, Bella encarou-o com desespero.

— É provável que eu jamais conseguiria encontrar o caminho de volta até Santa Angelita sem a sua ajuda!

Edward deu de ombros sem sinal de remorso.

— E não a terá enquanto não tiver assinado esse documento. — Adiantou-se até a porta e deteve-se por um momento, virando-se para fitá-la com casualidade: — A propósito, não perca seu tempo tentando subornar Jacob. Ele não fala uma palavra do seu idioma e, a exemplo de todos os amigos de Fidélio, está revoltado com o que você fez!

Numa onda de pânico, Bella levantou-se e, apesar da tontura que sentiu, seguiu-o até a porta.

— Não posso assinar esse acordo. Eu... não tenho essa quantia. Por favor, temos que conversar a respeito. Com certeza, deve haver algum outro meio de resolvermos este lamentável assunto...

Edward fitou-a com aqueles olhos intensos, perscrutadores, deixando-a subitamente sem fôlego.

— Esse algum outro meio seria naturalmente o único que você conhece de resolver as coisas. O sexo é a sua moeda corrente e posso ver, pela expressão em seu rosto, que você não acharia uma punição deitar-se comigo.

Bella lançou-lhe um olhar de puro choque diante do insulto. Ele arqueou uma sobrancelha negra enquanto a fitava, os lábios se curvando com ar sardônico.

— Sabe, esse seu ar de indignação e fragilidade feminina é espantosamente convincente... ou seria se eu não soubesse que você foi amante de pelos menos dois homens casados e ricos!

— Como você se atreve? — exclamou Bella, as faces afogueadas pela raiva.

— Como deve ter sido fácil para você iludir Mike, levando-o a acreditar que havia encontrado o amor de sua vida!

Any adorara Mike Paez e ficara totalmente arrasada com sua morte. Ultrajada, Bella avançou para a frente numa tentativa de agredir uma pessoa pela primeira vez em sua vida. Edward, porém, esquivou-se de sua bofetada com tamanha rapidez e agilidade que a fez perder o equilíbrio. Só não sofreu uma queda porque um par de braços fortes a amparou, erguendo-a pela cintura.

— Coloque-me no chão, seu monstro! — Frustrada e furiosa, Bella debateu-se no ar, tentando a todo custo atingi-lo com os punhos cerrados. Mas não estava perto o bastante para alcançá-lo.

— Que tigresa você deve ser entre os lençóis... com suas garras, dentes e ímpeto.

De repente, Bella sentiu a raiva se dissipando, dando lugar a uma espécie de fascínio diante da falsa imagem sua que ele criara. Nenhum homem nunca se referira a ela naqueles termos e sentia-se mais surpresa do que insultada. Fitando-lhe os intensos olhos verdes, sentiu-se quase em transe e engoliu em seco. Ele parecia um grande felino selvagem, prestes a avançar sobre sua presa.

— Não...

— A palavra que deve usar comigo é . Significa sim e gosto de ouvi-la — disse Joaquim numa voz aveludada que a arrepiou por inteiro. Ainda segurando-a no ar sem o menor esforço, puxou-a para si, envolvendo-a com seus braços fortes. — Diga-a para mim...

O calor que aquele corpo másculo emanava tomava conta de Bella, impedindo-a de raciocinar com clareza.

— Não...

— instruiu-a ele, pressionando-lhe os seios de encontro a seu peito sólido, as mãos estreitando-a junto a si pelos quadris, enquanto a fitava com hipnótica intensidade. — Não vai dizê-la para me agradar?

— Agradar você... — repetiu ela, o corpo inteiro parecendo vibrar com aquele contato inesperado, o coração batendo alucinadamente no peito. Movida por uma tentação forte demais para resistir, ergueu a mão e contornou-lhe o rosto de perfeitos traços masculinos com a ponta dos dedos.

Edward capturou-lhe um dedo entre os lábios quentes, e ela sentiu o corpo traiçoeiro reagindo instantaneamente, dominado por um anseio tão poderoso e inédito que sobrepujou suas defesas.

Sí... — disse Edward, rouco.

Sí... — repetiu Bella, sem sequer prestar atenção ao que estava dizendo, dominada pela onda de pura sensualidade que a envolvia.

Edward tomou-lhe os lábios com os seus, e Bella sentia a mente rodopiando, enquanto sensações abrasadoras a percorriam. Nunca acreditara realmente, apenas em suas fantasias românticas, que um beijo pudesse evocar-lhe reação tão intensa. Mas o calor dos lábios famintos de Edward nos seus era como uma revelação. A paixão que lhe despertou tomou-a por completo, minando-lhe as forças. Não conseguia parar de beijá-lo, nem mesmo para recobrar o fôlego.

— O rosto de um doce anjo de Botticelli, o cérebro de uma calculadora e o apetite sexual de uma meretriz nata — disse Edward num tom frio, interrompendo o beijo e afastando-a de si. — Eu gostaria muito de deitar você no chão e possuí-la aqui mesmo... de usá-la como você uma vez usou o pobre Mike. Mas acredito que posso resistir à tentação.

Bella estava atordoada, o ar quase lhe faltando. Cada pedacinho de seu corpo ainda vibrava em reação àquele beijo arrebatador. Sem entender por que agira como uma completa estranha, movida por uma paixão que sequer julgara possuir, apoiou-se na parede da sala, agora que tinha que se sustentar nas próprias pernas, a mente rodopiando.

— Parecer confusa também não dará certo comigo.

O desdém naquela voz fez com que ela voltasse à realidade. De repente, sentiu-se grata com o fato de não terem ido além daquele tórrido beijo.

— Eu me sinto... mal... — confiou ela, sem poder evitar, cambaleando de leve e perguntando-se por que sua pele parecia queimar se ele não a estava mais tocando.

— Desista de tentar me enganar para que eu a tire daqui — declarou Edward num tom frio, O rosto impassível. — Quero que você sofra as privações às quais sentenciou Fidélio a suportar quando não tiver mais forças para trabalhar.

Ela não estava se sentindo bem; aquele era o problema com seu estranho comportamento. Na verdade, sentia-se de maneira semelhante a quando tivera aquela forte gripe, um mês antes; só que pior, pensou Bella, desnorteada. Imaginara Edward Del Castillo beijando-a? Por que a teria beijado? Que sentido aquilo fazia?

Oh, de repente, nada parecia fazer sentido. Ela soltou um gemido, passando uma mão trêmula pelo fronte banhada de suor frio, incapaz de se concentrar, as pernas fraquejando.

— Eu... me sinto... péssima... Eu...

As botas de couro de Edward Del Castillo apareceram no seu raio de visão.

— Não vou me deixar convencer por essa sua ridícula encenação, señora.

Bella tentou se erguer, apoiando-se num cotovelo. Com um gemido fraco, então, enquanto tudo parecia rodopiar a sua volta, perdeu os sentidos.