CAPITULO III
Bella mexeu-se, inquieta. Um gesto de cabeça confirmou que o latejar insuportável que sentira felizmente passara. Mas ainda antes de abrir os olhos, sua mente foi tomada por poderosas imagens.
Edward observando-a, seus olhos incríveis, verdes como jade, sua preocupação evidente.
Edward murmurando-lhe num suave espanhol, enquanto ela se virara sem parar na cama, ardendo em febre. Edward rindo. Rindo? Mas apenas por um instante. Seu rosto másculo tornara a adquirir uma expressão fechada, deixando-a com uma acentuada sensação de perda. Eram tão confusas as imagens que passavam por sua mente que as bloqueou.
Abrindo os olhos, descobriu que não sonhara com o quarto fabuloso em que se deitara quando fora acometida por seu segundo acesso de gripe. O sol da tarde iluminava a refinada mobília antiga e as maravilhosas aquarelas nas paredes. Era um quarto imenso. Elegante e incrivelmente luxuoso, desde a decoração até os vinte centímetros de renda adornando o lençol. Ela correu os dedos pela delicada renda e deteve-se de repente, incerta, enquanto Edward voltava aos seus pensamentos.
Aquela era a casa dele? Se fosse, o homem era incrivelmente rico. Quem era ele?
Vinte e dois anos. A despeito de todos os seus esforços em contrário, ela chegara aos vinte e dois anos de idade sem deparar com um momento de séria tentação, admitiu a si mesma, irônica. E, então, o maior tirano da Guatemala, que infelizmente era dono de uma aparência espetacular e de máscula sensualidade, roubara-lhe um beijo. Estremeceu só em pensar naqueles momentos, as faces afogueadas ao lembrar que o beijo não fora roubado, que havia correspondido... e com uma paixão que até agora ainda a surpreendia.
Dando-se conta de que estava pensando naquele homem outra vez, sentou-se na cama e olhou em torno do quarto. Precisava ligar para Any, mas não havia telefone ali. Levantou-se, as pernas ainda trêmulas, e adiantou-se até o banheiro anexo. Fraca como estava, rumou direto para o chuveiro.
Pouco depois, observou seu reflexo no espelho e soltou um suspiro ao estudar o rosto pálido.
Correu a mão pela camisola de seda verde-clara que usava. Era bonita e, como tudo mais que levara para a Guatemala, pertencia à irmã. Leve e sofisticada, moldava cada curva de seu corpo, em nada lembrando as práticas camisolas de algodão que sempre usara.
O esforço do banho tornara a cansá-la. Adiantou-se devagar até as janelas do quarto. Ali, gelou de repente, pois a vista para além daquelas janelas desnorteou-a. Segurou-se ao babado da cortina para se equilibrar e fechou os olhos. Quando tornou a abri-los, porém, aquela vista espetacular de arvoredos verdejantes e exuberante vegetação tropical ainda confrontava seu olhar aturdido.
Embora os tivesse ouvido antes, apenas agora reconhecia os trinados de pássaros exóticos, que haviam sido constantes durante sua convalescença. Com certeza, paisagem tão fantástica não podia existir perto da pequena casa que Fidélio Paez destinara a sua aposentadoria. Onde, afinal, ela estava?
— Bem-vinda ao lugar mais entediante do mundo... — disse uma voz feminina secamente atrás dela.
Sobressaltada, Bella virou-se tão depressa que cambaleou. Uma baixinha, de beleza extraordinária, com cabelos lisos e negros e um rosto oval perfeito estudava-a da entrada do quarto.
O vestido curto, que parecia ter sido feito sob medida, e as jóias que usava irradiavam classe e sofisticação.
— Hacienda de Oro... o paraíso dos conservadores, um lugar de sonhos para um arqueólogo... mas uma verdadeira prisão para uma mulher jovem — completou, torcendo os lábios cheios com ar insatisfeito. — Sou Alice Del Castillo — apresentou-se, enfim. — A irmã de Edward.
— Você fala muito bem o meu idioma — notou Bella, sentindo-se pouco à vontade na presença de figura tão bela e exótica.
— Estudei numa escola britânica — disse a jovem, dando de ombros.
— Onde fica esta casa?
— Você ainda está em Petén, só que numa parte diferente da região.
— E como cheguei aqui?
— Edward providenciou para que você fosse trazida de helicóptero.
— De helicóptero? Quem são vocês, afinal?
— Você realmente não sabe, não é? — Alice revirou os olhos em teatral incredulidade, por um momento parecendo bem mais jovem do que os vinte dois ou vinte e três anos que Bella estimou que teria. Ela virou-se para a porta do quarto que deixara entreaberta. — Espere um minuto...
— Ouça, há um telefone que eu possa usar? — apressou-se Bella a perguntar antes que Alice desaparecesse.
O olhar da irmã de Alice foi atraído pelo espaço vazio no criado-mudo. Franziu o cenho, surpresa.
— Bem, não vejo por que você não deva ter um telefone! — comentou com instantânea simpatia. — Você pode ser uma vigarista, mas o fato de Edward ter mandado retirar o telefone do quarto já é um absurdo! Eu não poderia existir por cinco minutos sem um telefone!
Bella empalideceu.
— Você sabe... Quero dizer...
— Pensou que eu não soubesse, só por que vim até aqui para conversar? Morro de tédio aqui sem companhia. Mas é claro que sei o que você fez... e foi revoltante! Fidélio é um homem tão bom.
Sentindo-se péssima com mais aquela condenação e, ainda fraca, Bella sentou-se na beirada da cama. Numa questão de minutos, Alice reapareceu, colocando uma volumosa revista ao lado dela na cama.
— Fidélio Paez começou a trabalhar para minha família quando tinha quinze anos, señora — informou-a com frieza. — Fizemos uma grande festa de aposentadoria para ele. Imagine como nos sentimos quando, mais tarde, descobrimos que Fidélio tinha ido trabalhar para um vizinho. Fez isso
porque estava constrangido demais para perguntar a Edward se podia continuar trabalhando para nós!
— E, então, Fidélio contou ao seu irmão o que havia acontecido com suas economias — presumiu Bella, pouco à vontade.
— Não! Fidélio não faz idéia de que você o enganou para tirar-lhe seu dinheiro. Edward teve que fazer sua própria investigação para descobrir tudo.
Mortificada, Bella baixou a cabeça.
— E já que estamos falando sobre meu irmão, pare de me embaraçar fazendo papel de tola perto dele!
Perplexa com o inexplicável aviso, Bella ergueu a cabeça.
— Da maneira como você se comportou quando estava doente, eu cheguei a achar que Edward havia trazido sua mais recente namorada para casa! — admitiu Alice, exasperada.
— S-Sua... namorada?
— Todas as namoradas de Edward sempre foram estrangeiras como você. As mulheres da Guatemala não costumam dormir com ninguém antes do casamento. Sabemos nos resguardar — informou-a com ar de superioridade.
— E de que maneira eu estava... "fazendo papel de tola"? - Bella ergueu o queixo, negando a acusação.
— Está certo, você teve uma febre alta, mas não parava de gemer, dizendo como os olhos de Edward eram bonitos e pedindo que ele a beijasse... Céus, ouvindo atrás daquela porta, eu cheguei a corar de vergonha no seu lugar!
Um rubor de puro constrangimento tingindo-lhe as faces, Bella desviou o olhar, lágrimas inesperadas aflorando em seus olhos. Alice contornou a cama para observar melhor a sua vítima.
— Sabe, há algo em você que simplesmente não se encaixa... Está tão... lacrimejante!
— Só estou me sentindo assim porque estive doente...
— Não... você está sentindo algo pelo meu irmão — retrucou-a e sacudiu a cabeça com ar de compaixão. — Eu tenho problemas, mas você tem um problema ainda maior, Bella!
Alice retirou-se, então, e Bella respirou fundo. Com mãos trêmulas, pegou a revista deixada a seu lado. Ainda estava fraca, mas o pior de tudo era sentir-se tão humilhada. Uma vigarista que fizera papel de tola? Evidentemente, enquanto fora acometida pela febre, delirara, murmurando tolices feito uma adolescente apaixonada.
Na capa da revista, havia uma foto de Edward saindo de uma limusine com uma linda loira.
Folheando-a, descobriu que se tratava de uma revista norte-americana, dedicada à vida dos ricos e famosos. Correção, disse a si mesma, enquanto estudava as páginas de fotos, a vida dos muito ricos e famosos...
Edward Del Castillo parecia possuir uma porção de mansões ao redor do mundo. Nas várias páginas dedicadas a ele, havia fotos de imensas propriedades. Com o coração disparado no peito, ela leu o breve artigo em busca de fatos. Edward era repetidamente descrito como um "industrial bilionário" e um "playboy reformado", que agora passava boa parte de seu tempo aconselhando governos sobre a conservação de antiguidades e lugares arqueológicos. Tinha trinta anos, era solteiro e trocava de namorada como trocava de camisa.
Bella fechou a revista com um gesto brusco. Então, um bonito bilionário a beijara! Céus, de onde surgira aquele pensamento descabido? Aborrecida com sua mente rebelde, que se recusava a se concentrar no que era realmente importante, ponderou sobre o poder nas mãos de Edward. Seu sangue gelou. Any fizera um inimigo bastante perigoso, que tinha os meios para destruí-la se assim quisesse.
Uma vez que estava esgotada e sem condições de deixar o quarto para procurar um telefone, Bella voltou a deitar-se entre os lençóis e fechou os olhos com momentâneo alívio.
— Bella?
Ainda enquanto despertava, Bella sabia que a voz era de Joaquim, pois ninguém nunca conseguira fazer sou nome soar tão sensualmente. Aquela voz sexy e aveludada atormentava-a em seus sonhos e, portanto, decidiu manter os olhos fechados, protegendo-se da tentação da melhor maneira que podia.
— Vá embora — murmurou, sonolenta.
— Acorde, sim?
Com relutância, ela fixou o olhar no homem parado ao pé da cama. Mesmo na penumbra, seus cabelos, reluziam com reflexos bronze e os olhos verdes brilhavam como esmeraldas. Com um suspiro, ela espreguiçou-se para relaxar os músculos. Dando-se conta, então, da tensão no ar, encontrou-lhe o olhar intenso e viu onde estava concentrado.
Baixando o próprio olhar para seus seios, que se comprimiam contra a seda reveladora da camisola provocante, gelou, mortificada. Corando, cobriu-se com o lençol.
Edward fitou-a nos olhos, seus lábios se curvando com cinismo.
— É evidente que você está se sentindo bem melhor.
— Você se importaria em me dizer exatamente onde estou? — indagou ela um tanto ofegante e ansiosa para preencher o silêncio.
— Num dos meus quartos de hóspedes. Já se passaram três dias desde que você adoeceu.
— Você está usando um terno... — disse ela, notando como o paletó e a calça creme de corte impecável lhe caíam bem, o tom destacando-lhe o bronze da pele. Era, sem dúvida, dono de um magnetismo incrível, não importando o que usasse. Observou-lhe também o maxilar rijo, a expressão fechada. — E parece tão... tão contido. — Murmurou aquilo quase para si mesma, confusa, pois não podia deixar de comparar a preocupação dele, enquanto ela estivera doente, com seu atual comportamento frio.
Olhos verdes faiscaram em sua direção com súbita raiva.
— Deixe-me dizer o que estou contendo, señora — declarou Edward por entre os dentes. — Uma vontade quase incontrolável de tirar você dessa cama confortável e fazê-la cavar valas e suar com trabalho árduo e honesto, como merece!
Despertando, enfim, de toda a introspecção, Bella sobressaltou-se e empalideceu.
— Na verdade, é um grande desafio tratá-la com a consideração devida a uma inválida — prosseguiu ele, zangado. — Mas quero reafirmar que nunca pretendi expor você a perigo de qualquer natureza. O médico que esteve aqui para examiná-la acredita que você já estava com a resistência baixa. Se eu tivesse sabido que estava, de fato, tão fisicamente fraca como parecia, teria assegurado que a jornada que fez até a casa de Fidélio fosse menos cansativa.
O homem podia usar uma porção de palavras sem sequer chegar perto de um pedido de desculpas, percebeu Bella. Pois, obviamente, a longa e árdua cavalgada fora desnecessária para alguém tão rico. Até mesmo uma simples picape poderia ter atravessado aquelas planícies sem dificuldade.
— Deseja que eu entre em contato com seu noivo para informá-lo que você esteve doente? — perguntou Edward com extrema frieza.
— Mas eu não tenho noivo...
Ele franziu o cenho o, então, estudou-a com menosprezo.
— Quer dizer que já abandonou Roger Harkness! Notei que você não usava aliança e, sem dúvida, deveria ter imaginado. Ele era o único aspecto em seu estilo de vida que não se encaixava. Por que uma mulher tão extravagante iria se casar com um contador?
Lembrando-se tarde demais que deveria estar fingindo que era Any, além de abalada com o fato de Edward estar tão bem-informado, sabendo não só que sua irmã estava noiva, mas também a identidade e a ocupação de Roger, Bella não soube o que dizer.
— Eu... eu...
— Céus... Então, você só estava brincando com Harkness? Divertindo-se enquanto esperava que seu próximo protetor rico aparecesse? — presumiu Edward com desprezo. — Privou-me do prazer de contar a ele exatamente quem você é, pois nenhum homem deve levar tal noiva ao altar sem ser avisado!
Percebendo, então, que se exaltara, fez um visível esforço para se controlar.
— Tornaremos a falar sobre este assunto quando você estiver mais forte — informou-a num tom glacial e se retirou.
Tensa, Bella recostou-se de volta nos travesseiros. Uma hora mais tarde, enquanto jantava de uma bandeja arrumada com porcelana e cristais, compreendeu perfeitamente o ultraje de Edward Del Castillo.
Atraíra-a à Guatemala para confrontá-la e puni-la. Planejara coagi-la a assinar o documento de reembolso deixando-a na casa isolada de Fidélio, para que enfrentasse todo o tipo de desconforto.
No entanto, ali estava ela, deitada num quarto luxuoso e sendo servida como uma princesa. Aquilo só servira para enfurecê-lo ainda mais.
Tinha realmente que encontrar um telefone e alertar Any, pensou ela. Era uma questão de maior urgência agora. Nenhum homem deve levar tal noiva ao altar sem ser avisado. A lembrança das palavras indignadas de Edward a fez temer pela irmã. O casamento de Any seria realizado dali a poucas semanas. Era provável que Edward também soubesse a respeito daquela data. O fato de continuar acreditando que ela era Any, mas que não estava mais noiva, era atualmente a única proteção que sua irmã tinha de ato tão vingativo.
Decidida, Bella levantou-se da cama. Passava das dez da noite. Era provável que a maioria dos ocupantes da casa ainda estivesse no andar de baixo. Vestindo o penhoar, saiu para um corredor amplamente iluminado. Passou diante de portas fechadas em crescente nervosismo.
Era uma casa imensa. Na metade do corredor, próxima à majestosa escadaria, olhou para um impressionante vestíbulo abaixo, com teto muito alto e abobadado. Ouviu primeiro o eco distante de vozes e, depois, passos rápidos atravessando o corredor para além do vestíbulo. Continuando a seguir pelo corredor do andar de cima, em forma de mezanino, notou uma porta entreaberta.
Aproximou-se na ponta dos pés e, como não ouviu nada, abriu-a mais.
Vendo que o quarto, que era ainda mais grandioso do que o seu, estava vazio, verificou rapidamente que havia um telefone ali. Fechou a porta atrás de si para que ninguém a ouvisse. Com o coração aos saltos, acendeu o abajur atrás do telefone no criado-mudo.
Sem perda de tempo, discou o número da irmã em Londres, esperando que ela estivesse no apartamento. No instante em que ouviu sua voz, Any soltou um riso e disse com animação:
— Imagino que você esteve se divertindo tanto até agora que nem sequer teve tempo para telefonar!
— Bem que eu gostaria! — exclamou Bella e respirou fundo para se acalmar antes de prosseguir; — Estou numa situação bastante complicada aqui.
O mais sucintamente possível, contou-lhe sobre a situação de Fidélio Paez.
Foi, porém, um diálogo dos mais difíceis. Any não parava de interrompê-la; primeiro, com exclamações de incredulidade e argumentos e, enfim, com demonstrações de crescente raiva e ressentimento.
— Mike mostrou-me uma foto de uma incrível casa de fazenda, uma mansão... e estava hospedado num hotel cinco estrelas quando nos conhecemos. Ele estava mentindo para mim, deliberadamente, sobre suas origens? Explique-me isso!
— Ouça, não sei nada a respeito desse aspecto da questão — admitiu Bella e, enquanto repetia mais uma vez os duros fatos que Edward lhe apresentara, um pesado silêncio começou a se formar do outro lado da linha.
— Se Fidélio não tinha condições de me dar todo aquele dinheiro, não deveria tê-lo enviado — declarou Any, enfim, com frieza.
— Ouça, Edward Del Castillo quer que o dinheiro seja devolvido a Fidélio. Ao menos, haverá a quantia do apartamento que você comprou para mim e mamãe. Com sorte, será vendido em breve. Diga-me, restou alguma coisa daquele seguro que você recebeu quando tinha dezenove anos?
— Você espera mesmo que eu fique tão pobre quanto um rato de igreja por causa dessa bobagem? — perguntou Any secamente.
— O máximo possível do dinheiro de Fidélio deve-lhe ser devolvido...
— Eu não roubei o maldito dinheiro, nem o tomei emprestado! Eu o pedi, e Fidélio o deu. Lamento muito se ele está na ruína agora, mas isso não é culpa minha! — Any praticamente gritava agora, seu crescente pânico pelo que estava ouvindo evidente.
— Escute...
— Esse sujeito, o tal de Del Castillo, realmente influenciou você, não foi? Bem, você pode parar de falar em entregar a quantia da venda do apartamento porque Roger espera investir esse dinheiro na compra de uma casa, e eu não posso lhe contar sobre toda essa tolice... Eu não posso!
— Não é tolice alguma. Edward Del Castillo é um homem muito rico e poderoso, e acho que não esquecerá esse assunto...
— Se o homem é assim tão rico, deixe que ele devolva o dinheiro! Não é a toa que os ricos são tão ricos! — gritou Any, enraivecida. — Eles não abrem mão de absolutamente nada do que possuem!
Houve um ruído, como se o fone do outro lado tivesse sido largado no chão, mas a ligação não foi cortada. Ao fundo, Bella podia ouvir sua irmã entregando-se aos soluços de raiva. Aguardou, esperando que ela retomasse a ligação. Talvez chorar a ajudasse a se acalmar, disse a si mesma.
Mas não havia como negar que a reação ultrajada e desafiadora da irmã fora-lhe uma desagradável surpresa.
Talvez tivesse sido ingênua para esperar outro tipo de reação, pensou com culpa, esforçando-se para tentar se colocar no lugar da irmã. Any acabara de sofrer um terrível choque. A notícia sobre a verdadeira situação financeira de Fidélio a abalara, Any realmente acreditara que o sogro era rico. E para pagar-lhe o dinheiro de volta agora, teria que abrir mão da segurança financeira que se acostumara a ter como garantida nos anos mais recentes. E a irmã também não tinha a menor vontade de contar a verdade para o homem com quem iria se casar em breve.
Roger, que era correto e conservador, sempre pronto a dar à sua irmã sermões sobre a administração certa do dinheiro. Roger que, segundo a própria Any admitira, desconhecia certos aspectos de seu passado. Céus, que terrível confusão, pensou Bella, o coração apertado. Não era de admirar que Any estivesse em pânico! Por certo, a reação de Roger não seria das melhores diante da revelação de assunto tão escabroso...
Para seu alívio, a irmã voltou, então, ao telefone:
— Bella...? — perguntou Any, um quê de desespero em sua voz. — O que vou fazer?
Bella tentou tranquilizá-la da melhor maneira que pôde:
— Resolveremos isto de algum modo. Encontrarei um emprego e ajudarei a...
— Depois do casamento! — interrompeu-a a irmã numa voz trêmula. — Prometa-me que não vai contar nada sobre nossa farsa a esse Del Castillo e que o manterá ocupado até que eu esteja casada.
Bella empalideceu diante da exigência.
— Mas... Mas, Any...
— Roger me deixará se eu lhe contar sobre isso agora... qualquer homem o faria! Passei de ser um bom partido a um poço de dívidas e, se eu fosse Roger, fugiria em disparada, porque dependerei dele agora e sou péssima em orçamentos! — soluçou a irmã do outro lado da linha, ficando mais histérica a cada segundo. — Prometa, sim? Prometa!
Um instante depois, embora pudesse ver muitos riscos em potencial se continuasse com aquela farsa, Bella ouviu-se concordando com relutância. Como podia obrigar Any a contar ao futuro marido a verdade antes do casamento? E se Roger rompesse mesmo o noivado? Ela não queria carregar a culpa por um desfecho daqueles.
— O que quer que aconteça, não volte a me telefonar — pediu Any com nervosismo. — Oh, sim, e o que quer que faça, não assine o documento de reembolso do dinheiro no meu nome!
— Assinar no seu nome? — repetiu Bella, tensa, pois jamais teria sonhado em falsificar a assinatura de sua irmã gêmea em documento algum.
— É muita petulância desse Del Castillo esperar que eu arranje a soma total. O melhor que posso oferecer é um parcelamento de dez anos! — declarou Any, amarga.
— Tentarei chegar a algum acordo...
— Mas não corra o menor risco de que Del Castillo descubra que existem duas de nós — avisou-a Any, temerosa. — E se você não conseguir voltar a tempo para o casamento, não se preocupe com isso. Desde que meu noivo apareça na igreja, estarei bem!
Um segundo depois, a ligação com Londres foi encerrada.
Tendo recolocado o fone no gancho, Bella ainda respirava fundo para tentar dissipar parte de sua tensão quando a porta do quarto se abriu. Teve a impressão de que seu coração quase parou.
Pondo-se de joelhos rapidamente, ergueu a barra de franjas da sofisticada colcha que caía sobre o carpete, pretendendo se esconder debaixo da cama. Infelizmente, a estrutura lateral de mogno da cama que ficava quase rente ao chão.
Deitada no chão agora, olhou freneticamente ao redor em busca de algum possível esconderijo, mas não havia nenhum. Entrou em absoluto pânico quando ouviu a voz de Edward dirigindo-se a alguém que possivelmente estaria no corredor e, depois, fechando a porta atrás de si. Céus, de tantos quartos para ter entrado, estava justamente no dele!
Mas era cedo ainda, disse a si mesma. Talvez Edward tornasse a descer. Pela evidência das fotos daquela revista, o homem tinha uma vida social ativa e, por certo, não devia dormir antes das onze, certo?
Ouviu o ruído quase imperceptível de roupas sendo retiradas. Ele estava se despindo!
Bella manteve-se imóvel, quase mal se atrevendo a respirar. Céus, se fosse descoberta, como explicaria seu bizarro comportamento? Outra porta se abriu. Outra luz foi acesa. Sua esperança de escapar sem ser descoberta cresceu. Ele estava no banheiro da suíte!
No momento em que ela estava prestes a engatinhar até o canto da cama e sair correndo, um par de pés masculinos apareceu no seu raio de visão.
— Está planejando se juntar a mim no chuveiro? — perguntou Edward, com voz mais aveludada.
