CAPÍTULO IV

Aturdida com o indecoroso convite e o óbvio fato de que Edward soubera o tempo todo que ela estivera deitada no chão, do lado oposto de sua cama, Bella não conseguia encontrar as palavras:

— Eu... eu...

Lentamente, ergueu a cabeça, tão embaraçada que gostaria que o chão se abrisse a seus pés e a tragasse. Estava simplesmente aos pés de Edward, de penhoar e camisola, no quarto dele, tarde da noite! Ele estava com a camisa de linho aberta, pendendo sobre a calça creme de corte impecável, revelando um torso forte, de músculos bem-definidos e pêlos negros, a pele bronzeada. Diante daquele exemplo de perfeição masculina, ela engoliu em seco.

— Mesmo da porta, pude ver por cima da cama. Sou bem mais alto do que você — declarou Edward secamente.

Talvez o comentário sobre o chuveiro tivesse sido alguma piada típica da América Central, concluiu Bella, duvidando agora que ele pudesse ter falado a sério.

Quando Edward a pegou pela mão e a colocou de pé, Bella deparou com aqueles incríveis olhos verdes, delineados por espessos cílios negros. Céus, foi como ser atingida por uma corrente elétrica!

Qualquer desculpa que estivesse tentando arranjar evaporou-se de sua mente.

— Ora, ora... — disse Edward num tom de provocação, erguendo-lhe o queixo.

Ela sentiu de imediato uma sequência de arrepios percorrendo-lhe a espinha.

— Não me diga que perdeu a coragem — disse ele, estudando-lhe o rosto com intensidade.

— Não, eu...

— Você não estava me esperando tão cedo, es verdad?

Sob aquele olhar hipnótico, Bella não conseguia se concentrar, seu coração disparando. A tensão que pairava no ar era uma deliciosa sensação. A proximidade entre ambos deixava-a com a respiração em suspenso, sem ação.

— Eu...

No importa... — Erguendo a mão, ele desatou-lhe o laço na frente do penhoar e o fez cair até o chão.

— Edward, o que, afinal...

Em resposta, ele abriu-lhe um sorriso faminto e segurou-a pelos ombros. Bella sabia que seria beijada. Uma onda de expectativa dominou-a. Ansiava por aquilo! Ele, então, sentou-se na cama e, inesperadamente, colocou-a em seu colo.

— Não, isto não é... — começou ela, trêmula, o fato de se dar conta de que as coisas fugiam rapidamente ao seu controle quase a libertando daquela espécie de transe.

Despreocupado com seus murmúrios, Edward segurou-lhe o rosto entre as mãos, e ela sentiu-se mais uma vez hipnotizada por aqueles olhos verdes. Tudo o que queria era beijá-lo arrebatadoramente como na outra vez.

— Você entende... isto não tem nada a ver com Fidélio — avisou-a ele num tom grave.

— Beije-me... — sussurrou Bella, toda a inibição sobrepujada por aquele anseio irresistível que a dominava.

E ele a beijou. Lenta e sensualmente, entreabrindo-lhe os lábios e explorando-lhe a maciez da boca com a língua. Sem poder resistir, Bella retribuiu instintivamente, abraçando-o pelo pescoço.

— Feiticeira... — sussurrou ele num tom rouco de desejo, antes de tornar a tomar-lhe os lábios com os seus.

Bella sentiu o fogo da paixão se alastrando por suas veias numa combustão instantânea e, quando ele a deitou na cama, afagou-lhe os cabelos bronze, puxando-o mais para si. Enquanto a beijava, Edward acariciou-lhe os seios, estimulou-lhe os mamilos entre os dedos, fazendo-a soltar gemidos de prazer. A excitação que a percorria era tamanha que Bella não conseguia pensar em mais nada e entregava-se com abandono.

Quando uma batida soou à porta, não a ouviu, mas Edward afastou-se dela com chocante rapidez. Deixou-a ainda mais aturdida quando a colocou de volta no carpete sem cerimônia e a mandou ficar deitada ali.

Atordoada, ouviu Alice poucos metros além, falando em seu próprio idioma com o irmão.

Somente, então, Bella teve chance de pensar com clareza e ficar chocada com seu comportamento.

Enquanto uma discussão acontecia à porta entre os irmãos, Bella manteve-se deitada no carpete, os olhos chocados e fixos no vazio.

Ainda tremia, o poderoso anseio continuando em seu íntimo. Queria Edward, pensou, mortificada. Até o momento, nunca entendera como aquela necessidade física podia ser tão forte, sobrepujando a tudo. E como podia culpar Edward por tirar proveito de sua presença naqueles trajes íntimos em seu quarto? Na verdade, encorajara-o a fazer amor com ela.

Se não tivesse sido por aquela batida providencial à porta... O som de passos se afastando despertou-a dos pensamentos.

Edward voltou e ergueu-a do carpete pelo braço. No rosto, tinha uma expressão de desprezo agora, os olhos verdes faiscantes.

— Você vai voltar para a sua própria cama! — ordenou.

— É claro que vou — murmurou Bella, estremecendo diante daquela nova demonstração de hostilidade.

— É claro? — desdenhou ele. — Não posso acreditar que quase caí nessa sua armadilha barata de sedução!

— C-Como... disse?

— Céus... você sabe muito bem o que faz a um homem! Você me levou até bem perto do limite.

— Não se atreva a falar comigo dessa maneira!

Tendo feito o caminho de volta até o quarto dela em tempo recorde, Edward largou-a sobre o colchão macio.

— Não houve nenhuma armadilha de sedução!

— Você estava à minha espera. E com minha irmã caçula estando na mesma casa... você não tem um pingo de decência!

Sob aquele olhar acusador, Bella ficou perplexa em perceber que não sentia a vergonha que deveria. Ainda havia uma corrente de excitação entre ambos. Era impossível defender-se sem revelar que estivera no quarto para usar o telefone. Se admitisse aquilo, talvez ele verificasse o número e descobrisse que estivera telefonando para o que supostamente era o "seu" apartamento vazio na área de Docklands.

— É óbvio que não — ouviu-se confirmando, excitando-se da maneira mais estranha diante daquela inesperada imagem de si mesma como uma mulher sexualmente confiante e manipuladora.

Instigado pela resposta, Edward aproximou-se da cama.

— Então, você admite isso? — Ambos se entreolharam, faíscas parecendo se lançar no ar.

— Não admito nada.

Ele estendeu a mão, tocando-lhe os cabelos castanhos, deslizando os dedos lentamente por ele.

— Eu juro que não se beneficiará de meu desejo por você — assegurou-lhe num tom perigoso.

Mas até o perigo excitava Bella. Ser desejada era sentir-se como uma estranha sedutora em sua própria pele. Umedeceu os lábios em seu nervosismo, o silêncio se prolongando entre ambos como numa doce tortura.

— Oh, puxa... não me dei conta de que você ainda precisava que a colocassem na cama para dormir à noite, Bella — comentou Alice inesperadamente à porta.

Edward afastou-se de Bella de imediato e endireitou as costas. Os lábios curvaram-se com o que poderia ter sido divertimento contido. Com uma expressão velada nos olhos deixou o quarto, fazendo um frio comentário em espanhol à irmã.

Buenas noches, Bella — disse Alice, lançando-lhe um olhar de reprovação antes de se retirar.

Constrangida por ter sido surpreendida tão próxima a Edward, Bella meteu-se entre os lençóis e tentou dormir. Mas foi impossível conciliar o sono. Em seus vinte e dois anos, nunca se sentira tão viva como nos braços de Edward. Era uma admissão patética, disse a si mesma, levando em conta a sua escassa experiência com os homens.

Na escola, sempre fora tímida demais para despertar o interesse dos garotos. Tivera dezenove anos quando conhecera Eric. Ficara encantada pelo rapaz quando ele fora trabalhar na biblioteca, a seu lado. Haviam almoçado juntos com frequência e Eric parecera apreciar sua companhia. Mas ela interpretara erroneamente a natureza dos interesses dele e ficara arrasada quando, enfim, compreendera que Eric era homossexual. Considerara-a como uma amiga, nada mais, e presumira que ela soubera que o rapaz com quem ele dividia o apartamento era mais do que um amigo.

No ano seguinte, conhecera Taylor, um estudante de engenharia, que fora perspicaz o bastante para ignorar suas desculpas para não poder sair à noite e, enfim, aparecera à sua porta. Infelizmente, seu interesse não fora forte o bastante para impedi-lo de se ofender com o comportamento extremamente rude e o desprezo da mãe dela. E aquele fora o fim do que talvez tivesse sido um bom relacionamento.

Não era de admirar que, diante do ardor de um homem experiente e viril como Edward Del Castillo, estivesse ficando dolorosamente ciente de sua própria ingenuidade. Por tempo demais, fora-lhe negada a autonomia para tomar suas próprias decisões na vida, para ser independente. Era natural que, tendo cuidado da mãe, tivera que amadurecer além de sua idade, mas em vários outros aspectos, descobria agora, ainda era tão insegura quanto uma adolescente.

Não devia, portanto, se surpreender por não reconhecer a mulher passional que se tornara perto de Edward. Quando tivera a chance de expressar aquela parte de sua natureza? Era uma mulher normal de carne e osso e, portanto, era natural que sentisse desejo... Mas era normal sentir um desejo tão intenso por aquele homem que a fazia perder o bom senso, esquecer-se de tudo mais?

Onde estava sua razão?, perguntou-se, censurando o próprio comportamento. O que fizera até agora para tentar resolver aquela situação complicada que envolvia o dinheiro de Fidélio? Nada, disse a si mesma, a culpa e o constrangimento dominando-a. Naquele mesmo dia, vira Edward duas vezes e nem sequer tocara no assunto, não tentara convencê-lo a chegarem a um acordo razoável. No dia seguinte, prometeu a si mesma, faria o que já deveria ter feito desde o início...

Tão logo tomou o café da manhã na cama no dia seguinte, Bella se vestiu. O conteúdo da mala que fora deixada no bar em Santa Angelita estava agora pendurado no guarda-roupa, impecavelmente passado a ferro.

Escolheu um tailleur azul-claro. A saia era curta, o blazer ajustado demais ao corpo, mas era um conjunto elegante e infinitamente melhor do que ficar andando pela casa numa provocante camisola. Não era de admirar que Edward tivesse interpretado equivocadamente as suas intenções.

Mal podia condená-lo por ter presumido que era o tipo de mulher que usava o sexo para conseguir o que queria. Agora que estava adequadamente vestida, ele a levaria mais a sério.

Ao pé da magnífica escadaria, encontrou Alice, que lhe informou que o irmão estava em seu escritório particular, ao final do amplo corredor principal.

Seguindo na direção indicada, bateu à porta e, depois de esperar um momento, abriu-a. A sala era grande e imponente, parecendo mais uma biblioteca do que um escritório, com sua impressionante coleção de livros tomando estantes que iam do chão ao teto. A decoração sóbria indicava que era um ambiente masculino.

Edward já se levantara detrás da mesa impecavelmente organizada. Do outro lado da sala, o sol adentrava por portas-janelas abertas, que davam para os exuberantes jardins. Mesmo usando uma camisa branca de manga curta e calça caqui, roupas menos formais, ele continuava sendo a personificação da elegância. Observando-a, estreitou os olhos verdes, o rosto de traços marcantes adquirindo uma expressão impassível.

O pesado silêncio se prolongou, deixando Bella ainda mais tensa. Respirando fundo, disse, enfim:

— Precisamos conversar sobre o dinheiro de Fidélio.

— Eu já disse tudo o que tinha a dizer em relação a esse assunto — retrucou Edward num tom autoritário e definitivo. — Quando você assinar aquele documento, poderá ir para casa. Não tem outras opções.

— Mas tem que haver outra opção. Seria impossível reunir uma quantia dessas de uma só vez! — protestou Bella num acesso de desespero.

Edward não se deixou impressionar pelo tom de súplica. Ela mordeu o lábio inferior.

— Por certo, a oferta de um primeiro pagamento num valor substancial, seguido de parcelas, seria prova o bastante de boas intenções, não?

— Sem um acordo legal, você quebraria sua promessa tão logo voltasse a Londres — respondeu ele secamente.

— Não, eu não faria isso. Há, na verdade, um imóvel que pertence a... mim e que está à venda no momento...

— O único imóvel que você tem é o apartamento em Docklands, onde mora, e não está à venda.

Então, ele não sabia a respeito do pequeno apartamento que Any comprara para a mãe e ela.

Não, era evidente que não sabia! Se a ligação tivesse sido feita, Edward teria descoberto que Any tinha uma irmã gêmea. Portanto, persistir no assunto daquele imóvel poderia ser demasiado perigoso. Bella torceu as mãos em seu nervosismo, admitindo a si mesma quanto odiava a necessidade de se passar pela irmã. Mas o próprio Edward deixara claro que dizer a verdade estava fora de cogitação quando praticamente ameaçara contar a Roger Harkness como Any era de fato.

Ou, ao menos, o que achava que ela era, em seu julgamento cruel e injusto!

— Depois de um primeiro pagamento considerável, o restante poderia ser devolvido em parcelas — proferiu ela por uma segunda vez, endireitando os ombros.

— Na idade de Fidélio, um acordo desses não seria viável.

— Mas eu posso provar que tudo não passou de um horrível mal-entendido e que não houve a intenção de que alguém saísse lesado! Se eu tivesse sabido que Fidélio trabalhava como capataz de fazenda, por que teria ficado com a impressão de que era rico o bastante para dar grandes quantias em dinheiro?

— Simples — retrucou Edward, sardônico. — Naturalmente, Mike deve ter contado a você que meu falecido pai deixou uma pequena herança a Fidélio em seu testamento.

Ela empalideceu enquanto compreendia, finalmente, como Fidélio Paez conseguira reunir soma tão vultosa para os anos de sua aposentadoria. Herdara a maior parte daquela soma do pai de Edward, que certamente deixara quantia muito mais vultosa para os filhos. Graças aos Del Castillo, o conforto e a segurança financeira de Fidélio haviam estado garantidos em sua aposentadoria... mas aquilo lhe fora tirado por Any. Sua irmã, no entanto, fora culpada por seu oportunismo e ganância, não por extorsão! Havia uma grande diferença e tinha que fazer Edward enxergar aquilo.

Any não teria prejudicado o pai de Mike intencionalmente.

— Mas Mike nunca mencionou essa herança! Você parece se esquecer que ele e... — Bella hesitou, tendo quase cometido um deslize e dito o nome da irmã. — Que Mike e eu — prosseguiu, enfática — ficamos juntos por um período muito breve.

— Não foi de fato nem sequer longo o bastante para você bancar a viúva inconsolável — concordou Joaquim, estudando-a com ar imperturbável.

— Se houver outra dessas insinuações sórdidas destinadas a me desconcertarem, não estarei ouvindo! — exclamou Bella, indignada.

— Comece a encarar o fato de que conheço você pela vigarista que é.

— Não sabe do que está falando...

— Não? Esses seus cabelos castanhos, os grandes olhos castanhos e os rubores de adolescente podem ser convincentes para homens que só vêem o que querem ver... uma linda e delicada boneca de porcelana, a própria imagem da fragilidade feminina! — especificou Edward, desdenhoso. — Mas eu consigo enxergar o que há por trás de toda essa fachada.

— Oh, como ousa me comparar com uma boneca? Eu vim aqui para ter uma conversa séria com você e...

— É mesmo? — Edward recostou-se em sua mesa e percorreu-a com um olhar demorado que a fez corar. — É por isso que veio até aqui toda insinuante, usando essa saia curta, os saltos altos e apenas um blazer colado à pele?

Bella perdeu a fala e apenas o encarou, aturdida.

— Estou apreciando a vista. Sou um homem. De qualquer modo, já a avisei que aceitarei seus convites, mas que não pagarei pelo privilégio. Não acertarei a sua dívida com Fidélio Paez para você.

Ela baixou o olhar, tentando controlar sua raiva e ultraje antes que pudesse dizer algo de que se arrependeria.

— Oh, por favor, não me venha com outra daquelas encenações em que você fica toda corada, baixa os olhos e junta os joelhos — avisou-a Edward num tom de desprezo. — Você está lidando com um verdadeiro cínico. E vamos encarar os fatos, não houve nada de sutil em sua visita ao meu quarto ontem. Foi uma oferta bastante desinibida e...

— Se não se calar, serei capaz de esganá-lo! — explodiu Bella de repente. — Você não ouve uma palavra do que lhe digo. Simplesmente não pára de fazer comentários impróprios...

— Sabe, numa escala de um a dez, você ter ficado deitada na minha cama comigo ganhou no mínimo um nove. Ter-me deixado a noite inteira louco de desejo fez com que você ganhasse pelo menos a chance de eu a estar ouvindo aqui em meu escritório nesta manhã.

Como o homem podia ser tão grosseiro? Bella surpreendeu-se em perceber que olhava em torno do escritório à procura de algo com que atingi-lo. Contendo-se, então, levou as mãos trêmulas aos lábios, chocada com as fortes emoções que ele lhe despertava.

— Você me deixa transtornada! — disse, acusadora.

— Não sou paciente. As suas patéticas tentativas de se fazer de pura e inocente estão começando a me irritar. Até agora, tenho sido bastante razoável...

— Razoável? Você se recusa a aceitar qualquer tipo de acordo possível, apesar de eu estar disposta a devolver o dinheiro em parcelas e fazer o que for possível para assegurá-lo de minha credibilidade.

— Credibilidade? — repetiu ele, incrédulo. — Ora, que tipo de tolo acha que sou? Se, no momento, você nem sequer tem um emprego, em que pode basear tais promessas?

Mais uma vez, Bella censurou-se por não ter levado em conta o que Edward sabia sobre sua irmã. O contrato bem remunerado mas temporário de Any para trabalhar como maquiadora de televisão de fato terminara, poucas semanas antes. Mas a irmã recebera a promessa de um emprego permanente tão logo surgisse uma vaga.

— Na verdade, durante os últimos cinco anos, você passou apenas oito meses realmente trabalhando por um salário — informou-a Edward com menosprezo. — Duvido seriamente que você tenha alguma vontade de se sujeitar aos rigores de uma jornada diária de trabalho. Você é preguiçosa e frívola. Se pode encontrar um homem para sustentá-la, nem sequer se preocupa em trabalhar...

Bella estava estupefata com a acusação.

— Isso é um absurdo! Sempre trabalhei arduamente e, se eu tivesse um emprego no momento, poderia fazê-lo engolir cada palavra!

Um pesado silêncio seguiu-se.

Ofendida, Bella sustentou o olhar frio de Edward de cabeça erguida.

— Quando você gostaria de começar? — perguntou ele.