CAPITULO VII
Bella viu-se de volta a seu quarto sem sequer se lembrar de ter subido as escadas.
Trêmula, afundou numa cadeira, o olhar fixo no vazio. Agira feito uma tola. Edward chamara a intimidade de ambos de completa loucura, mas nem sequer sabia da missa a metade, não era? Ainda acreditava que ela era Any Paez, golpista desalmada e garota leviana. Tornou a pôr-se de pé abruptamente, tomada por um súbito desespero para reassumir sua própria identidade, sua reputação, contando-lhe toda a verdade. Então, a razão e o constrangimento voltaram a dominá-la e tornou a sentar-se na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos num acesso de frustração.
Prometera que protegeria Any. Que jamais a trairia. A irmã precisava de tempo para resolver seus assuntos financeiros e para decidir como e quando contar a Roger sobre a situação complicada em que se encontrava. Bella prometera que lhe daria aquele tempo. Além do mais, apenas uma tola acharia que Edward receberia bem a confissão de uma farsa daquelas. Na certa, só teria ficado mais ultrajado e furioso.
De qualquer ângulo que analisasse a situação, ela via que sentenciara a si mesma à dor no exato dia em que conhecera Edward Del Castillo e o fizera acreditar que era a viúva de Mike Paez.
Desde o instante em que o vira pela primeira vez, já estivera mentindo como nunca em sua vida!
Fora, sem dúvida, uma ironia do destino que tivesse se apaixonado perdidamente pelo homem. E não precisava se iludir, imaginando que Edward a acharia mais atraente como Bella Swan. A realidade era uma só: ele a rejeitara.
Ela fora apenas uma aventura de uma noite. Nem sequer uma noite inteira, pois Edward removera-a de sua cama antes do amanhecer e agora queria vê-la fora de sua casa e de seu país também. Um homem não podia deixar seus sentimentos mais claros!
Mas era em grande parte culpada por seu próprio sofrimento, admitiu. Achara que o sexo seria um caminho mágico até o coração dele? Contraiu o rosto com amargura, zangada com sua própria fraqueza. Deixara que Edward a usasse. Mas como podia culpá-lo quando se oferecera de bandeja?
Ele nem sequer fingira que queria um relacionamento sério. Não lhe dissera uma única mentira. E ainda assim fora para a cama com ele! Como conseguiria lidar algum dia com a humilhante verdade?
Uma criada bateu à porta e entregou-lhe um grande envelope pardo antes de se retirar.
Abrindo-o, Bella viu que se tratava do acordo de reembolso do dinheiro a Fidélio. Céus, o que deveria fazer com o maldito documento se não podia assiná-lo?
Tinha que telefonar para a irmã outra vez; não havia escolha. Deixando o quarto, adiantou-se pelo corredor. Um dos quartos de hóspedes estava com a porta aberta, obviamente a fim de ser arejado. Fechando a porta atrás de si, Bella adiantou-se até o telefone sobre o criado-mudo e discou o número do apartamento de Any em Londres.
— Achei que você não fosse ligar mais! — exclamou a irmã, acusadora.
— Você comentou algo com Roger? — Bella franziu o cenho por um momento, distraída por um ruidoso clique na linha.
— Como posso fazer isso se ele está na Alemanha?
Bella esquecera-se por completo do fato. Somente agora se lembrava de a irmã ter-se queixado de que a empresa onde o noivo trabalhava o enviaria para Berlim por uma quinzena e que ele só retornaria às vésperas do casamento.
— Desculpe, eu...
— Ouça, Bella, houve uma boa oferta pelo seu apartamento e eu a aceitei. Pretendo dizer a Roger que darei o dinheiro a você.
Bella ficou tensa e incrédula com a notícia.
— Mas...
— Quando, na verdade, transferirei o dinheiro para o banco de Fidélio na Guatemala. Está bem? Está satisfeita agora?
— Você precisa contar a verdade a Roger, Any.
— Não, não preciso. Agora, você só tem que convencer Del Castillo de que isso é tudo o que tenho condições de devolver.
— Não creio que Edward aceitará.
— Como pode ser tão pouco cooperativa enquanto estou dependendo tanto de você? — retrucou Any num tom de condenação. — Na verdade, aposto que você já criou uma terrível confusão qualquer aí!
Bella empalideceu, o estômago em nós.
— Fiz tudo o que pude...
— Tudo exceto dizer a ela para parar de usar você! — A inesperada intervenção de uma outra voz feminina na linha causou tamanho choque em Bella que largou o fone como se estivesse em brasa. Alice?
Ela olhou petrificada enquanto a irmã de Edward entrava calmamente no quarto. Segurava um telefone sem fio junto ao ouvido, um telefone ao qual ainda estava falando!
— Você tem muita coragem, Any Paez... enviando Bella até aqui como um cordeiro para a mesa de sacrifício, para poder salvar a sua própria e preciosa pele!
— Alice! — exclamou Bella, apanhando o fone que deixara cair para ver se a irmã ainda estava na linha. — Any?
— Quem... quem era aquela? — murmurou Any, parecendo igualmente chocada.
Junto à porta do quarto, que fechara atrás de si, Alice baixou o telefone sem fio para demonstrar que já dissera tudo o que pretendera.
— Esqueça — disse Bella, trêmula. — Conversaremos depois — apressou-se a acrescentar e desligou.
— Vamos descer para conversar num lugar mais tranquilo — sugeriu Alice com um ar divertido, como se ter descoberto que ela era uma impostora não fosse algo de séria importância.
Atordoada, Bella seguiu-a até o andar de baixo. Alice adiantou-se até uma suntuosa sala de estar, fechou a porta atrás de ambas e sentou-se num sofá de brocado.
— Como você descobriu? — perguntou Bella, fitando-a com olhos ainda arregalados.
— Foi muito fácil. Antes de você ter subido, fui até seu quarto, abri sua mala à procura de seu passaporte e olhei. Então, abri sua carteira e encontrei duas fotos. Há uma de gêmeas com cerca de um ano e outra de você e de sua irmã já adultas. — Alice revirou os olhos com visível desdém diante de tamanho sentimentalismo.
— Então, agora você vai contar ao seu irmão...
— Não necessariamente...
— Mas...
— É evidente que Edward acabará descobrindo cedo ou tarde. Por que eu deveria me envolver? Quero dizer, de uma maneira ou de outra, sua tola irmã vai acabar pagando, porque ele não desiste.
— Any não é tola. Só está assustada!. — Vendo a expressão impassível de Alice, Bella soltou um suspiro. — Está certo, deixe-me contar-lhe a história toda e talvez, então, você compreenda.
Alice ouviu com interesse, mas não demonstrou a menor simpatia por Any.
— Ainda não entendo por que você teve que enfrentar toda essa situação desagradável no lugar dela.
— Minha irmã não planejou as coisas dessa maneira.
— Mas não está lamentando nem um pouco a forma como tudo acabou acontecendo. — Alice observou-lhe o rosto preocupado e sacudiu a cabeça, intrigada. — Você é altruísta demais. Bem, mas agora só precisa de um meio de escapar depressa de Edward e eu posso promovê-lo.
Bella fitou-a com uma expressão de incredulidade no olhar. A menina corou.
— Bem, qual é a finalidade de você continuar aqui? Você não pode assinar aquele acordo de reembolso, nem partir sem ajuda.
— Mas você é a irmã de Edward.
— Meia irmã, por parte de pai — corrigiu-a Alice, apertando os lábios. — Não estou sendo desleal. Estou apenas vendo o meu lado. Edward estará no encalço de sua irmã, não importando o que aconteça, e não há nada que você possa fazer a respeito.
Havia uma terrível verdade no comentário que fez Bella estremecer. Podia esperar que a transferência bancária de fundos que Any mencionara fosse o bastante para fazer com que Edward se mostrasse mais razoável. Mas ainda não entendia por que Alice estava lhe oferecendo ajuda.
— E de que maneira você estaria "vendo o seu lado" se me ajudasse a partir?
— Isso é um assunto meu. Mas você só tem algumas horas para se decidir. Edward está de partida para uma reunião de negócios em Nova York ao final desta tarde, mas estará de volta amanhã à noite. Eu certamente não poderia ajudar você a partir com ele por perto!
Alice levantou-se, adiantando-se até a porta.
— Assim, dependerá de você, E pelo que vejo, não tem muitas opções, porque se decidir não partir, eu provavelmente sentirei a necessidade de contar a Edward que está com a irmã gêmea boa, não com a malvada! — disse antes de se retirar do quarto.
Bella sentiu o estômago em nós diante da crua ameaça. Desorientada, decidiu voltar para o escritório. Enquanto a equipe fazia o longo horário de almoço adotado em climas quentes, estava vazio. Sentou-se à sua mesa e soltou um profundo suspiro, tentando se acalmar. Edward ficaria furioso com sua recusa em assinar o acordo, algo que ela não podia fazer, e achava que já bancara a tola o bastante sem ser forçada a continuar num lugar onde era indesejável.
Ao mesmo tempo, porém, se desaparecesse sem ter assinado o acordo, poderia acabar levando Edward até Any antes do casamento. Mas Roger não estava na Alemanha agora, onde poderia ser poupado de tudo aquilo? Se deixasse uma carta, prometendo aquela transferência de dinheiro que
Any mencionara, aquilo não satisfaria Edward ao menos por uma semana ou duas? Era um homem muito importante e ocupado. Quais eram as chances de que largasse tudo e fosse para Londres imediatamente?
A porta se abriu, e Edward entrou no escritório. Tão logo a viu, adquiriu uma expressão fria, distante.
— O que está fazendo aqui? — perguntou num tom cortante.
— Eu não estava com vontade de almoçar..,
— Céus, você é mesmo capaz de qualquer coisa para não abrir mão de seus lucros obtidos de maneira ilícita! Mas, se está determinada a continuar fingindo que quer trabalhar aqui, é melhor que se torne útil.
— Útil?
Edward colocou uma folha de papel sobre a mesa.
— Abra este arquivo e o imprima para mim.
Mordendo o lábio inferior, enquanto se esforçava para usar o que aprendera durante a manhã e realizar a tarefa, Bella perguntou-se por que estava se dando ao trabalho. A quem estava tentando impressionar? Onde estava seu orgulho? Edward comportava-se como um verdadeiro déspota.
— Está planejando levar o dia todo para executar essa simples tarefa? — perguntou ele, mordaz.
Bella ergueu as mãos subitamente, cerrando os punhos e bateu-os de encontro ao teclado.
Levantou-se, então, numa explosão de raiva.
— Pare de falar comigo desse jeito! Já entendi o recado, está bem?
— Você vai ter entendido o recado depois que tiver assinado aquele acordo.
— Pelos céus...
— Uma vez que o tiver assinado, talvez eu resolva lhe fazer uma visita na próxima vez em que for a Londres.
Desconcertada, Bella franziu o cenho.
— Eu não entendo...
— Não? — retrucou ele com um riso cínico. — Você desperta o pior lado da minha natureza. Se eu conseguir resistir à tentação, você nunca mais tornará a me ver.
Percorreu-a de alto a baixo com um olhar de pura apreciação masculina, notando como o vestido azul-marinho lhe acentuava cada curva do corpo bem-feíto. Bella sentiu as faces afogueadas, o coração disparando e soube que tinha que lutar contra si mesma. O fato de ele ter mencionado que poderia vê-la em Londres abalara-a, minando-lhe as defesas.
— Por outro lado — prosseguiu ele, um sorriso sensual nos lábios —, sou solteiro e posso ter você quando quiser. Por que deveria negar a mim mesmo uma indulgência ocasional?
Bella empalideceu, enquanto, enfim, compreendia. Edward estava totalmente a par do poder absoluto que exercia sobre ela, do fato de afetá-la de tal maneira que ela não tinha forças para resistir, não importando o que acontecesse. Aquela foi a derradeira humilhação.
— Você acha que... que eu sinto algo por você. E está disposto a usar isso para me forçar a fazer o que quer? — indagou, acusadora e inconformada com o fato de alguém ser capaz de ser tão manipulador.
Edward meneou a cabeça em confirmação.
Ela desviou o olhar, lutando contra a ameaça de lágrimas. Céus, não sabia fingir. Era evidente que, durante a paixão e a intimidade que haviam partilhado, deixara transparecer o que sentia por ele, e agora aquilo estava sendo usado contra ela. Engoliu em seco, chocada com a degradante proposta que estava lhe sendo apresentada.
— Entendo que esteja se sentindo injustiçada — disse Edward, seu ar satisfeito. — Quantas vezes você usou a seu bel-prazer homens que estavam loucos por você? Mas, desta vez, será diferente.
Bella saiu de detrás da mesa que os separava, o rubor da indignação tingindo-lhe as faces.
— Se acha que eu seria tola a ponto de deixar você me reduzir ao nível de uma ordinária qualquer com quem passa a noite quando tem vontade...
— Palavras tão acaloradas — interrompeu-a Edward, arrogante. — Ainda assim, você não impôs limites ontem à noite. Você me queria demais para ser sensata ou calculista e isso lhe trouxe vantagens, não é? Pois o que estou lhe oferecendo agora é um tipo de acordo para o qual você é perfeita.
— Não, não sou! — negou ela, tomada pelo ultraje.
— Muitas vezes na vida, todos acabamos nos conformando com o melhor que podemos conseguir. Assim, escolha entre mim e o dinheiro que praticamente extorquiu de Fidélio. Pode ter uma, mas não as duas coisas. E se escolher a mim, será apenas nos meus termos.
— Não posso acreditar que está falando comigo desse jeito!
— Não é maravilhoso que você ainda possua esse encantador traço de inocência quase infantil quando as coisas não saem exatamente como planejou? — Um sorriso mordaz surgiu no rosto dele quando se deteve por um momento à porta antes de sair. — Nenhum homem em seu juízo perfeito manteria você num escritório. Quando esmurrou o teclado, você desconectou o sistema inteiro. Terei que contactar meu escritório central em Londres para obter esses números agora.
Atordoada, Bella olhou para o monitor do computador, que apresentava uma mensagem de erro.
Fechou os olhos por um momento para tentar controlar o turbilhão de emoções. Mas Edward a desconcertara ao extremo. Ele tinha um escritório central de algum tipo em Londres? Com que frequência ia até lá? Mortificada pelos pensamentos que nem sequer deviam estar lhe ocorrendo, experimentou uma onda de desprezo por si mesma. Mesmo que Edward Del Castillo estivesse em
Londres a cada maldita semana nunca mais queria tornar a vê-lo! Estava tão seguro de si mesmo, tão certo de que a tinha à sua mercê! Bem, logo o prepotente homem descobriria que ela aprendera com seus erros!
Bella foi à procura de Alice e, através de uma criada, encontrou-a na sala de ginástica da mansão se exercitando.
— Pensei sobre o que você disse — anunciou tão logo a viu. — Aceitarei sua ajuda. Quero ir para casa!
Quando a última frase foi proferida, mas na forma de um desabafo emocional, Alice parou de pedalar na bicicleta ergometrica para estudá-la com atenção.
— Então, Edward já andou bancando o tirano com você também.
— Isto não tem nada a ver com seu arrogante irmão! — retrucou Bella de maneira um tanto impensada naquelas circunstâncias.
A atenção de Alice já fora desviada. Seus grandes olhos brilhavam com satisfação.
— Eu adoraria ver a cara de Edward quando perceber que nós duas desaparecemos!
