CAPÍTULO VIII
Ao final da noite daquele mesmo dia, Bella descobrira quanto podia ser difícil e embaraçoso "desaparecer" com Alice Del Castillo no comando da situação. Notando com alívio que a temperamental menina estava agora adormecida, ela tornou a se acomodar em sua própria poltrona no avião. Tendo se passado apenas uma hora desde a decolagem com destino a Londres, ela já estava sentindo os efeitos de sua fuga: seus nervos estavam em frangalhos e sentia-se exausta.
Ainda assim, Alice planejara a partida de ambas da Hacienda de Oro com notável eficiência.
Enquanto Bella escrevera uma carta a Edward para explicar sobre a transferência de dinheiro que Any prometera fazer a Fídélio, ainda sem revelar sua farsa, a criada de Alice arrumara suas coisas e tirara sua mala da casa. Fora conduzida, em seguida, a uma saída nos fundos. Houvera um grande automóvel à espera, com Alice sentada no banco de trás.
— Bella, sente-se logo na direção antes que alguém nos veja! — exclamara ela em tom de urgência.
Fora quando Bella descobrira por que havia sido tão essencial aos planos de Alice. Ela vira sua carteira de motorista em sua bolsa.
— É claro que eu nunca dirijo — respondera com altivez quando ela manifestara sua surpresa. — Há sempre um chofer à minha disposição, mas se eu pedir a um dos empregados que me leve ao aeroporto, Edward descobrirá muito antes de eu ter chegado lá!
Bella achara o longo percurso um pesadelo. Nunca dirigira um carro tão grande antes, nem de um lado diferente da estrada. Depois, houvera os horrores do tráfego congestionado da Cidade da Guatemala, os desvios errados que fizera, os outros motoristas que haviam buzinado furiosamente em sua direção. Estivera com os nervos em frangalhos quando, enfim, haviam chegado ao aeroporto. Mas o pior ainda estivera por vir...
Mesmo duas horas depois, Bella ainda corava ao se lembrar das cenas constrangedoras de Alice, exigindo tratamento diferenciado da companhia aérea por ser uma Del Castillo, mesmo em detrimento a outros passageiros. Não se surpreendia mais com o fato de Edward ter agido como um severo irmão mais velho com sua mimada irmã. Alice era imatura, incontrolável quando sofria a menor contrariedade e inescrupulosa. Parecia-se mais como uma adolescente problemática do que como uma mulher adulta, pensou Bella. Riqueza e indulgência demais tinham-na deixado daquele jeito? Edward estivera tentando endireitar a irmã?
— Gosto realmente de você — confiara-lhe ela antes de ter adormecido. — Quando eu tiver montado meu próprio apartamento em Londres, poderá ir me visitar se quiser.
Bella não entendia por que, de repente, sentia-se tão responsável pela outra jovem. Mas parecia-lhe que, apesar de sua beleza estonteante e aparente sofisticação, Alice ainda não estava preparada para a independência e a liberdade pelas quais ansiava.
A cada minuto de vôo que a afastava da Guatemala e de Edward, Bella sentia-se mais preocupada. O que Any acharia de seu retorno sem ter-lhe resolvido os problemas da maneira que esperara? Edward ficaria ainda mais furioso com o fato de ter partido levando sua temperamental irmã consigo. Parecia que, não importando o que fizesse, nunca agia da maneira certa...
— Telefonarei para você quando tiver tempo — prometeu Alice enquanto suas malas eram colocadas no táxi que Bella lhe providenciara na saída do Aeroporto de Heathrow. — Mas não espere um contato meu tão cedo. Estarei ocupada demais socialmente.
Bella rumou direto para o apartamento da irmã em Docklands. Any ficou perplexa em vê-la à porta, mas, enfim, abraçou-a com alívio.
— Que bom que você voltou! Resolveu tudo?
— Não exatamente...
— Você não assinou aquele acordo, certo?
Bella sacudiu a cabeça e explicou a situação que deixara para trás. Enquanto se ocupava em fazer um chá para a irmã, Any ouvia ansiosamente e, então, começou a parecer aturdida.
— Por que você fica dizendo o nome dele dessa maneira?
— O nome do quem?
— Edward.
Bella corou.
— Não o estou dizendo de nenhuma maneira específica. Ele é a parte central de toda essa situação, apenas isso.
A irmã não se deixou convencer.
— Não me diga que perdeu a cabeça por causa do sujeito que está tentando arruinar minha vida?
— Com um pouco de sorte, isso não acontecerá, se você resolver esse assunto com o pai de Mike de uma vez por todas.
— Resolverei. Falei com um advogado ontem e ele cuidará de tudo. Mas, no momento, é em ouvir o que aconteceu com você que estou mais interessada.
— Eu apenas quero esquecer que estive na Guatemala — disse Bella com sinceridade.
O silêncio prolongou-se por um momento ou dois. Any, então, deu de ombros.
— Bem, se Del Castillo vier até aqui a fim de causar mais problemas, não me encontrará. Fui contratada como maquiadora por uma produtora de filmes que começará a gravar na Escócia neste fim de semana e tenho que estar nos estúdios dentro de uma hora!
— Parece divertido... — Bella ocultou seu desapontamento com o fato de a irmã estar de partida logo após sua chegada.
— Mas isso significa que não estarei aqui para ajudar você a tirar suas coisas de seu apartamento. O comprador quer se mudar para lá o mais rápido possível. E quanto mais depressa ficar com o apartamento, mais depressa Fidélio receberá seu dinheiro. Apenas ainda não decidi o que vou dizer a Roger.
— Sabe... eu achei que você ficaria furiosa comigo por eu ter voltado.
Any fez uma careta, as faces corando.
— Alice me colocou no meu devido lugar com o que me disse ao telefone. Por que você deveria enfrentar tudo no meu lugar? Lamento muito ter colocado você nessa confusão, para início de conversa — admitiu. — Meus pecados voltaram para me assombrar e terei que lidar com tudo isso da melhor maneira que puder.
Bella apenas meneou a cabeça, ainda ansiosa pelo desfecho daquela situação e, trinta minutos depois, sentada no táxi que a levaria ao pequeno apartamento em que morara com a mãe, soltou um profundo suspiro. As apinhadas ruas da cidade e o clima frio de inverno pareceram-lhe um desolador contraste com a beleza exuberante de um país colorido como a Guatemala...
Duas atarefadas semanas depois, Bella mudou-se para o apartamento da irmã. Any ainda estava ausente. Terminara o trabalho com a equipe de filmagem, mas retornara da Escócia diretamente para Oxford, encontrando-se lá no momento, na casa dos pais de Roger, para onde ele regressaria da Alemanha, O casamento de ambos seria dali a apenas três dias em Londres e, graças à eficiência da futura sogra, que fizera questão de organizar tudo, Any nem sequer teria detalhes de último minuto para resolver.
Enquanto abria as caixas com seus pertences no quarto de hóspedes e os arrumava, esperava não ter que prolongar sua estada demais ali. Conseguira encontrar um emprego temporário numa loja de brinquedos durante a época de Natal e começaria a trabalhar no dia seguinte ao casamento da irmã, mas ainda precisava arranjar trabalho definitivo e seu próprio lugar para viver.
Notando que precisava de uma pausa para descansar durante a arrumação, acabou adormecendo.
Quando acordou, ficou exasperada consigo mesma. Por que se sentia tão cansada o tempo todo? E, além daquilo, andava um tanto nauseada e com ligeiras tonturas. Tivera alguma infecção que ainda não vencera por completo? Dois dias antes estivera em seu médico apenas por precaução e fizera a bateria de exames que ele recomendara. Deveria telefonar para a clínica mais tarde e obter os resultados, lembrou a si mesma.
O interfone tocou, enquanto acabava de colocar suas roupas no armário.
— Sim? — disse ao atendê-lo no corredor.
— Abra a porta para eu subir — ordenou Edward Del Castillo em seu tom mais intimidante.
Bella gelou.
— M-Mas...
— Agora, Bella!
Atordoada, ela apertou o botão do interfone. Não havia como conter a onda de euforia que a tomou. Ele estava ali em Londres! Certo, o homem não parecia estar com um humor dos melhores, mas, numa questão de segundos, iria vê-lo! Adiantou-se até a porta e abriu-a, mas foi tomada de repente por um acesso de culpa.
Tornar a vê-lo significaria regredir ao primeiro estágio de sua recuperação. Não que estivesse fazendo muito progresso, admitiu, pois ainda não conseguia tirá-lo dos pensamentos. Mas, gostasse ou não, Edward não se sentia da mesma maneira a seu respeito e o melhor a fazer era tentar esquecê-lo.
Enquanto o elevador se abria no corredor, começou a fechar a porta do apartamento.
— Desculpe, mas acho que isto não é uma boa idéia. Telefone-me se quiser e...
Edward surpreendeu-a adentrando pelo apartamento apesar de suas palavras.
— Onde está Alice? — perguntou com impaciência.
Desconcertada por aquela atitude agressiva, ela apenas o encarou. Edward parecia ter passado maus bocados desde a última vez em que o vira. Havia sombras escuras sobre os olhos verdes e uma visível tensão em seu rosto.
Alice! Bella ficou desapontada e achou que deveria ter se preparado melhor para lidar com aquilo. Era natural que ele estivesse furioso com o fato de a irmã tê-lo contrariado saindo de casa.
Ainda assim, não pôde evitar a dor da rejeição em saber que aquela visita nada tinha a ver consigo mesma.
— Acho que não posso lhe dizer onde sua irmã está sem a permissão dela...
— Ou você diz a mim, ou dirá à polícia!
— A p-polícia? — repetiu Bella, pálida.
— Estou furioso com o seu comportamento! Como pôde ajudar Alice a fugir de casa! Ela me deixou uma carta, dizendo que estava voltando para a escola. Tolo como sou, fiquei tão aliviado que nem sequer verifiquei a veracidade da história! Assim, esperei uma semana para deixar a poeira baixar antes de tentar telefonar para ela.
— Para a escola? — repetiu Bella, perplexa.
Mas Edward continuou falando, seu olhar cheio de condenação.
— Quando descobri que ela não havia voltado para a escola, presumi que estava com você. Este apartamento está sendo vigiado desde então. Estive esperando você retornar.
— Para a escola? — disse Bella uma segunda vez em crescente aturdimento. — Por que está falando sobre Alice ter voltado para a escola?
— Onde mais uma garota de dezesseis anos deveria estar? — retrucou Edward, irado.
— Uma garota de dezesseis anos? Ela não pode ter... não, não é possível que tenha apenas dezesseis anos! — protestou Bella, fitando-o com incredulidade.
— Onde, diabos, ela está?
O choque e a culpa tomavam Bella de assalto. Fora enganada por uma adolescente assumindo um papel desempenhado facilmente por uma jovem criada com tanto luxo e indulgência. Ciente de que Bella se deixara levar por sua encenação, Alice certificara-se de que continuasse equivocada.
Quando ela, enfim, perguntara-lhe a idade a caminho do aeroporto, a ela mentira, dizendo que tinha vinte e um anos. Mas por que, tendo testemunhado quanto a garota era imatura e exigente, não somara dois mais dois e ao menos não desconfiara da verdade?
— Eu não sabia a idade dela. Oh, céus, que idiota eu fui!
Visivelmente ansioso e preocupado com a irmã, Edward segurou-a pelos ombros.
— Tudo o que eu preciso saber é onde minha irmã está. Muito será perdoado se estiver sã e salva.
— Ela me telefona com frequência. — Bella afastou as lágrimas dos olhos. — Ontem mesmo, Alice passou a maior parte do dia comigo! Disse-me que estava num hotel, mas não comentou onde e nem pensei em perguntar. Parecia um tanto solitária, e eu a teria convidado a ficar aqui comigo, mas...
— Mas isso poderia ter atrapalhado o seu... dia-a-dia? — interrompeu-a Edward, mordaz.
Bella empalideceu. Mas não podia explicar que o apartamento não era seu sem confessar que não era Any Paez e, no momento, havia coisas mais importantes com que se preocupar. Agitada pelo que acabara de saber e sentindo-se responsável, afundou pesadamente numa poltrona da sala.
— Você tem um número de contato com minha irmã?
— Não. Foi sempre ela quem me ligou. Ouça, eu juro que não fazia idéia a respeito da verdadeira idade dela!
Mas Edward não estava mais ouvindo. Falava ao celular num ansioso espanhol. Enquanto o observava, foi inevitável para Bella pensar em quanto sentira sua falta, apesar de todo o óbvio ressentimento daquele homem por ela.
— Que número de telefone minha irmã usará para falar com você... o daqui? — perguntou ele depois que encerrou a ligação.
— Não. — Bella respirou fundo para explicar, um súbito rubor afastando-lhe a palidez anterior do rosto. — Ontem foi meu aniversário e ela me deu um telefone celular de presente. Disse que estava farta de não conseguir me encontrar no exato instante em que queria falar comigo. Mas ainda não me ligou nesse celular.
— Então, você e o seu celular podem ir comigo até a minha casa em Londres agora mesmo! Oh, e nem se atreva a tentar discutir comigo! — avisou-a um impiedoso Edward ao ver-lhe a expressão mortificada no rosto. — Não vou tirar os olhos de você até ter encontrado minha irmã. É a única pista que tenho!
Sentindo-se culpada por uma situação que ajudara a criar, Bella levantou-se sem argumentar.
Adiantou-se depressa até o quarto da irmã, onde pegou emprestado uma saia preta de comprimento acima dos joelhos, uma blusa justa de lã azul-clara e sapatos de salto alto.
Quando voltou à sala, ficou com a respiração em suspenso e o rosto corado ao deparar com aqueles arrogantes olhos verdes. Edward observava-a, avaliando a maneira como a fina lã moldava-lhe os seios e a saia expunha-lhe as pernas.
Uma limusine os aguardava diante do prédio.
— Você tem sorte por eu não ter envolvido a polícia nisto — declarou Edward, lançando-lhe um olhar hostil que a fez deslizar até a extremidade oposta do confortável assento. — Minha irmã é uma jovem muito rica. Se você não a tivesse acompanhado até Londres, eu teria temido um seqüestro quando soube que não apareceu na escola. Mas, embora eu não tenha muita fé nos seus princípios morais, não acreditei que coloraria Alice em perigo.
— Pela última vez, eu não me dei conta de que ela tinha apenas dezesseis anos! — exclamou Bella, irritada. — A propósito, Alice comentou que vocês só são irmãos por parte de pai. A mãe dela está aqui com você?
— Não, Beatriz não se interessa pelo que a filha adolescente faz.
— Ora, por quê?
— Beatriz foi a segunda esposa de meu pai e muito mais jovem do que ele — disse Edward secamente. — Quando ele morreu, tornou minha irmã sua herdeira, assim como eu, mas em seu testamento, decretou que Beatriz perderia boa parte de sua renda se tornasse a se casar.
— E foi o que aconteceu?
— Sim. Beatriz e o novo marido tiveram, na época, a responsabilidade de cuidar do fundo deixado para minha irmã. Porém, irregularidades financeiras levaram os representantes legais a adotarem outras medidas para a administração do fundo, quando Alice tinha nove anos de idade.
Quando Beatriz perdeu a chance de roubar a filha sem o menor drama de consciência, decidiu enviá-la a uma escola interna britânica e praticamente se esqueceu dela. Ressentiu-se do fato de ter uma filha tão mais rica do que ela. — Edward não fez esforço para ocultar seu desprezo. — Ainda assim, o atual marido possui uma grande e bem-sucedida construtora e estão muito bem financeiramente.
— Você teve bastante contato com sua irmã enquanto ela cresceu?
— Não o suficiente para estabelecer o relacionamento que a mãe de Alice estava determinada a desencorajar. Mas quando a escola de minha irmã a suspendeu como punição...
— O que ela fez?
— Escapuliu para ir a um clube noturno e sua foto saiu em todos os tablóides. Beatriz alegou que não conseguia mais lidar com a filha e a enviou a mim. Quando a suspensão terminou, Alice recusou-se a voltar à escola.
— Então, esse era o motivo das discussões entre vocês dois, certo? — disse Bella com um suspiro. — Interpretei mal a situação.
O motorista abriu-lhe a porta, e ela desceu um tanto desorientada. Estivera tão absorta na conversa que nem se dera conta de que a limusine parara diante de uma imponente mansão georgiana, numa tranquila e nobre área residencial londrina.
O espaçoso vestíbulo era magnífico, revestido de mármore e decorado com objetos de arte e algumas elegantes peças de mobília. O mordomo abriu a porta que dava para uma sala de estar não menos luxuosa.
— Onde está o celular que Alice lhe deu?
Bella tirou um minúsculo aparelho da bolsa, e Edward colocou-o na mesa de centro.
— Você sabe que não pode dizer à minha irmã que estou aqui quando ela telefonar, não é?
— Claro.
— Que tem que descobrir onde está hospedada e combinar um encontro? Não quero que ela desapareça outra vez.
Bella meneou a cabeça, estudando-lhe o semblante frio e distante, sabendo que, na opinião de Edward, aquela noite de paixão entre ambos na Hacienda de Oro não passara de um erro. E agora, mais de duas semanas depois? Pela maneira como ele se comportava era como se aquela noite nem sequer tivesse existido!
E por que aquilo devia aborrecê-la?, perguntou-se, recriminando a si mesma. Aquele era o homem que sugerira que talvez quisesse uma casual aventura de uma noite em seus braços quando estivesse em Londres. Devia odiá-lo!
— Onde você esteve nas últimas duas semanas? — perguntou ele com ar grave.
— Eu lhe disse em minha carta... no pequeno apartamento, o que você falou que não existia. Foi vendido e teve que ser desocupado logo para o novo dono.
— Nenhuma propriedade como essa que você descreve apareceu na lista de seus bens.
— Alguém deve ter cometido um deslize...
— É o que parece.
Bella não conseguia manter o antagonismo que gostaria. Edward a fitava agora com uma intensidade que a desconcertava. Estendeu a mão inesperadamente para tocar seu rosto, um calor instantâneo percorrendo-a. Havia uma incrível tensão no ar e um anseio tão forte dominando-a que lhe roubava por completo a razão, o bom senso.
A mão continuou afagando-lhe o rosto, os olhos verdes estudando-a longamente.
— Faz idéia de como foi difícil colocar você na sua própria cama naquela manhã? Não gostei daquilo... Não gostei de estar tão louco de desejo. Nem de ansiar por mais uma chance de ter você se contorcendo de prazer nos meus braços...
— Não? — Foi um mero sussurro que escapou dos lábios da Bella, pois estava numa espécie de transe com o que ouvia.
— Não. Apenas um fraco deixa o desejo tirar-lhe a razão. Mas duas semanas foram o bastante para me fazerem entender que não há como escapar do inevitável.
— Você sentiu minha falta...
— A cada minuto do dia... — Edward deslizou as mãos até os quadris dela, puxando-a para si. — Tomei mais banhos frios do que pude suportar. Mas sei agora o que é que me atrai tanto. É como se você tivesse dupla personalidade. Fico fascinado. Como poderia evitar?
Beijou-a, então, invadindo-lhe a maciez da boca com sua língua cálida, estimulando-lhe os lábios com seu toque sensual. Bella estremeceu, sucumbindo, não encontrando forças para lutar, enquanto o fogo que a consumia se alastrava.
— É claro, eu sei como você é, sei exatamente do que é capaz — murmurou-lhe ele, enfim. — Mas aperfeiçoou sua habilidade de dissimular ao nível de uma forma de arte.
— Não sei do que está falando...
Segurando-a, Edward sentou-se num sofá próximo, mantendo-a em seu colo e percorrendo-lhe o pescoço com lábios experientes.
— Não mesmo? Você é como um camaleão e bastante esperta. Dá a qualquer homem o que ele quer. Na verdade, você se torna o que ele quer.
— M-Mas...
— Esse é o segredo do seu sucesso, doçura. Onde aprendeu sobre ruínas maias só para me impressionar? Na minha própria biblioteca? E aquele seu mergulho sensual na lagoa da floresta, sabendo que eu estava seguindo você...
— Não, está enganado!
— E aquela noite, na minha cama, você se fez passar pela virgem tímida mas cheia de paixão com a qual todo latino-americano fantasia. Foi uma ilusão, naturalmente, mas foi uma brilhante performance.
Bella estava trêmula de excitação enquanto as mãos dele percorriam seu corpo, mas, ao mesmo tempo, estava abalada com a convicção com que Edward falava, como se a julgasse mesmo capaz de ter planejado tudo o que acontecera entre ambos a fim de atraí-lo.
— Se eu não a enlouquecesse tanto de desejo, você estaria pálida de choque com minhas palavras — previu ele com um brilho divertido no olhar. — Esqueci de mencionar que você pode continuar se moldando exatamente no que eu quero com meu total apoio?
— Está me acusando de farsante! — protestou Bella e, então, gelou, dando-se conta de que era exatamente aquilo.
— Veja só... olhos cheios de mágoa, ameaça de lágrimas... E, embora eu saiba que isso não passa de uma excelente encenação, não consigo deixar de me sentir como um canalha por estar ferindo seus sentimentos.
— Solte-me!
— Não... — sussurrou Edward, tomando-lhe os lábios com um beijo tão carregado de paixão que a surpreendeu.
Ela pensara em empurrá-lo pelos ombros, mas, quando os tocou, esqueceu-se de sua intenção, o momento de resistência se dissipando. Seu desejo... e seu amor... por aquele homem eram tão intensos que sobrepujavam a tudo mais. Numa questão de segundos, correspondia ao beijo com todo seu ardor.
— Céus, você me enlouquece com apenas um beijo — sussurrou-lhe Edward ao ouvido, interrompendo o beijo apenas por um instante para deitá-la abaixo de si no sofá.
Inebriada de paixão, Bella continuou a beijá-lo, então, puxando-o mais para si até que, de repente, ouviu vagamente o que lhe pareceu um telefone celular tocando.
De imediato, Edward soltou-a e levantou-se do sofá. Apanhou o celular da mesa de centro e entregou-o a ela.
— Deve ser... Alice. Faça com que as mentiras... sejam convincentes — disse, ofegante.
Mas Bella acabou não tendo que dizer uma só mentira. Durante a breve conversa, descobriu que Alice tivera a carteira roubada de sua bolsa numa loja e estava aos prantos.
— Fiquei sem nenhum dinheiro... o que eu faço? — perguntou-lhe soluçante.
— Estaremos aí logo, sim? — prometeu ela, tranqüilizando-a.
A caminho da limusine, Edward disse num tom de pura incredulidade:
— Você falou apenas quatro palavras e, ainda assim, denunciou a minha presença...
— Ela está agitada demais para se preocupar a quem me referi — retrucou Bella, trêmula, ainda em choque com seu próprio comportamento... e com o dele, suas emoções num turbilhão.
Alice apenas empalideceu por um segundo quando viu o irmão se aproximando com Bella.
Apesar de seu alívio em vê-la, deixou evidente que a chegada de um homem forte e seguro naquelas circunstâncias foi ainda mais bem-vinda depois do choque que havia sofrido. Alice recorreu instintivamente ao irmão mais velho em busca de apoio.
Uma vez que havia pouca esperança de que a carteira fosse recuperada, Edward sugeriu que o roubo fosse comunicado à polícia, os cartões de crédito cancelados e que, mais tarde, fossem direto ao hotel de Alice para buscarem suas malas.
— Pode vir comigo, Bella — disse a jovem um pouco mais animada.
— Eu gostaria, mas receio ter um compromisso nesta tarde — respondeu Bella, precisando se distanciar o máximo que pudesse de Edward. Nem sequer conseguira fitá-lo nos olhos ainda depois do que acabara de acontecer em sua casa.
— Sim, venha conosco e, depois, fique para o jantar em nossa casa — acrescentou Edward num tom persuasivo.
— Obrigada, mas tenho mesmo que voltar agora — recusou Bella com firmeza. Já era tempo de cortar qualquer ligação com os Del Castillo. Afinal, mesmo desconhecendo os fatos, Edward já não a considerava uma farsante? Era perspicaz e, mesmo sem saber de sua farsa, já percebera, de algum modo, que, no fundo, ela não era exatamente o que aparentava ser. Era evidente que só queria usá-la a seu bel-prazer. Além do mais, teria convidado até um chimpanzé para jantar em sua casa se tivesse achado que aquilo alegraria a temperamental irmã, pensou ela com amargura.
E, considerando suas próprias reações ao homem, a despeito de tudo, o melhor era não tornar a vê-lo. Any encarregara um advogado de quaisquer comunicações posteriores com Edward a respeito da devolução do dinheiro a Fídélio. Não havia mais a necessidade de Bella se passar por ela, nem de que esclarecesse que era, na verdade, a irmã de Any Paez. De qualquer modo, cedo ou tarde, a própria Alice informaria o irmão do fato.
Contrariada, Alice despediu-se com certa frieza, e o olhar de censura que Edward lhe lançou foi igualmente reservado. Fazendo questão de se encaminhar até o ponto de ônibus mais próximo, Bella desculpou-se, murmurando algo sobre estar com pressa e afastou-se. Pegou seu ônibus e foi comprar algumas coisas no mercado. Em sua caminhada de volta ao apartamento, deu-se conta de que passava a poucos metros do consultório de seu médico e decidiu entrar para saber os resultados dos exames pessoalmente.
A recepcionista verificou a ficha, à qual fora anexada um papel com uma anotação.
— Você precisa marcar outra consulta.
— Outra? — perguntou Bella, ansiosa. — Isso significa que meus exames acusaram algo?
— Acredito que tudo esteja normal para uma primeira gravidez — disse a mulher jovialmente.
— Vou verificar com o doutor agora mesmo. Nunca consigo entender a letra dele.
