Capítulo 3. Hiato

Era tarde da noite agora, a sala de espera de uma das clínicas da família Ootori estava ocupada por todos os integrantes do Clube de Anfitriões.

As enfermeiras e recepcionistas os tratavam com cordialidade apesar do tumulto que faziam. Os gêmeos tinham olhos inchados de sono, mas exigiam alguma notícia. Mori e Honey permaneciam sentados, mas estavam impacientes. Kyoya, que passara os últimos dez minutos ao telefone, esperava olhando a entrada do prédio.

Tamaki permaneceu sentado, a cabeça apoiada nas mãos. Ao contrário dos outros, ele não dizia uma palavra. A mistura de culpa e medo passavam pela sua cabeça. A culpa de tê-la deixado sozinha, de ter demorado, de ter deixado ela se machucar. O terror, o medo de perdê-la por uma questão de segundos, o terror do rosto assustado dela, do corpo inconsciente dela nos seus braços, seu sangue em suas mãos.

Todos esperavam o médico vir dar-lhes alguma notícia, mas a porta que se abriu foi a que Kyoya mirava.

Um homem, fielmente vestido de mulher, adentrou a recepção ofegante. O Ootori mais jovem trocou um olhar significativo com ele.

- Onde está minha filha? – Ranka perguntou, tentando conter a voz. Ninguém respondeu, o momento era tenso. – Onde está Haruhi? – Dessa vez o tom foi mais grave.

- Ela está bem, o médico a está examinando. Ele deve vir aqui daqui há alguns minutos. – Kyoya finalmente respondeu.

O homem fechou os olhos por alguns segundos. Quando abriu, ele olhava tão sério que causou arrepios até no "senhor das trevas".

- Quem vai me contar exatamente o que houve?

Os olhares voltaram-se para Tamaki. O loiro pareceu sentir isso e resolveu olhar de volta. Ele ficou de pé e começou a contar o percurso que fez após sair da sala de estudo. Ele saíra em direção ao caminho que Haruhi costumava fazer. O motorista e um guarda-costas sempre o acompanhavam. Procurara em diversas ruas até encontrar um homem suspeito abordando a garota.

- Mas o que a minha filha fazia até tão tarde na escola? – Ranka perguntou.

- Estávamos fazendo um trabalho...

- E como você a deixou sair sozinha? – O pai estava nervoso, ele sempre vira Tamaki como uma ameaça potencial a tirar Haruhi da vida dele. Mesmo assim, ele confiava no loiro para cuidar dela, apesar de não demonstrar.

O rapaz foi poupado de responder. O médico entrou na sala e perguntou quem era da família da garota. Foi engraçado explicar ao médico que a única mulher do grupo era o pai da menina (que chegara ali vestida de menino).

O doutor Kotaro tinha uma aparência jovem, mas era um famoso e talentoso profissional.

- Vocês parecem muito agitados. – Ele disse calmamente. – Fiquem tranqüilos, e por favor, sentem-se.

Todos se acomodaram nas confortáveis poltronas espalhadas pela sala. O médico voltou sua atenção para Ranka e começou a falar.

- Sua filha está bem... – Pôde-se ouvir uma respiração aliviada em conjunto. – Avaliei o ferimento, foi superficial, levou dois discretos pontos, logo não será nem notado.

Tamaki ficou aliviado, desde que Haruhi desmaiara em seus braços, a visão do sangue da garota o tinha feito pensar que ela talvez estivesse gravemente ferida.

- Mas ela desmaiou... – O anfitrião disse.

- Ela ficou assustada, provavelmente foi o choque da situação que a fez desmaiar. – O homem explicou pacientemente. – Vocês demonstram se importar muito com ela, e isso será importante para ajudá-la a se recuperar de tudo isso.

- Podemos vê-la? – Hikaru se adiantou.

- Somente o pai poderá entrar, ela está dormindo, vocês poderão vê-la na escola, na próxima semana. Amanhã ela terá alta, mas vai para casa, depois do final de semana.

- Não poderemos mesmo vê-la? – Tamaki parecia miserável e o médico esclareceu.

- Se o pai concordar, sim. Mas somente por cinco minutos, não quero que a acordem.

Todos olharam para Ranka ao mesmo tempo, ele parecia aliviado. Ele encarou todos, mas parou o olhar no presidente do clube. Depois de um momento de silêncio, ele suspirou, um gesto que a filha tinha herdado.

- Tudo bem. – Ele concordou. – Mas depois, quero conversar com você. – O homem aponto para Tamaki, o rapaz sentiu um calafrio.

***

Eles entraram aos pares e se acalmaram ao ver Haruhi dormindo tranqüilamente. Perto dela, apenas uma mesa com água, nada de medicamentos complicados. Os anfitriões voltaram para casa aos poucos, todos tinham aula no dia seguinte e já era tarde. Tamaki esperou pelo pai da menina que ficou um pouco ao lado dela. Ele encontrou o rapaz e começou a falar.

- Eu sei que vai parecer estranho, mas eu tenho muito a agradecer. Haruhi é muito desatenta, digo isso em vários aspectos, estou feliz que você estivesse por perto para ajudá-la.

Tamaki ficou realmente aliviado ao escutar aquilo, mas ao perceber o olhar do homem a sua frente, ficou tenso novamente.

- Isso não quer dizer que você não tenha culpa nessa situação toda. – Ranka disse seriamente.

O coração de Tamaki disparou e ele não conseguiu disfarçar o nervosismo.

- Você deveria tê-la levado para casa, que tipo de cabeça oca você é? Não percebeu que já estava tarde? – O pai da garota bronqueou. – Se você, Ootori-kun ou qualquer um dos outros quer que a minha filha continue nesse seu clube, é melhor cuidarem melhor dela.

O rei do Clube de Anfitriões se sentiu extremamente pesado. O homem saiu e foi fazer companhia à filha, deixando-o com seus próprios pensamentos.

***

A sexta-feira em Ouran passou demoradamente. Durante as aulas, Hikaru e Kaoru sentiram-se extremamente entediados. Os colegas leram suas redações, alguns mais empolgados que os outros. Mas os gêmeos queriam mesmo era saber como Haruhi estava. Ela não atendera ao telefona nas cinco primeiras vezes que ligaram. Na sexta, Ranka atendeu e deu uma bronca neles, ele parecia ter acabado de acordar.

O Clube de Anfitriões tinha seu movimento mais fraco às sextas, a maioria das clientes costumava viajar nos fins de semana. Mesmo assim havia uma certa comoção naquele dia. Kyoya já havia explicado o ocorrido para as garotas curiosas, ainda assim muitas procuravam saber mais e mais detalhes.

Renge anotava e gravava tudo que ouvia para colocar no seu novo fanzine. Ela pretendia escrever todo o drama do resgate de Haruhi.

Tamaki parecia distante, mesmo paparicando suas clientes. Algumas delas tinha até aderido á sua expressão melancólica. O fato é que ele finalmente havia caído em si. Mesmo o mínimo contado com a garota tinha despertado um sentimento nada paterno nele. Algo que já estava lá, mas que ele não havia percebido. Ele estava apaixonado pela garota que havia salvado. O pior é que agora ele não sabia o que fazer.

Pela reação de Haruhi, ela parecia não corresponder ao sentimento. E o rapaz não queria assusta-la, afasta-la ou perde-la...

Então, o príncipe que sempre soube como agir com suas princesas, não imaginava como seria o próximo passo.

***

Haruhi acordou cedo de sua noite de sono sem sonhos. Ela sentiu-se um pouco estranha, mas mesmo assim, disposta. Olhou ao seu redor do quarto da clínica e viu o pai dormindo em uma poltrona reclinável. Moveu-se para sentar, mas foi rápido demais e sentiu uma fisgada de dor. Foi então que recordou completamente do que havia acontecido. Ficou um tanto perplexa pela velocidade dos acontecimentos e desejou saber se Tamaki estava bem.

"Tamaki-sempai..." Ela não tinha entendido exatamente o que havia acontecido entre eles, mas também não sabia se queria saber.

Remexeu-se na cama, a fim de ficar mais confortável, o que estava um pouco difícil. Ranka acordou assustado e olhou para ela.

- Filhinha! Está tudo bem? – Ele aproximou-se dela falando baixo.

- Estou bem. – Haruhi olhou para o pai que esticava as costas. "Ele deve ter dormido mal a noite".

- Que bom, meu docinho! O médico já vem falar com você e poderemos ir embora para casa. – A garota não sabia exatamente onde estava, mas tinha uma boa idéia.

- Ne, otousan, ainda tenho aula hoje.

O homem a mirou com o olhar orgulhoso da filha que tem.

- Não, hoje sou eu quem vai cuidar de você. – Ele sorriu enquanto ela olhava confusa. –Vou avisar que você acordou.

***

Haruhi voltou para casa ainda antes da hora do almoço. O taxi deixou-os em frente ao condomínio e a senhoria veio recebê-los. Tinha dois belíssimos buquês de flores para entregar.

A menina subiu para o pequeno apartamento enquanto o pai explicava para a senhora o que havia ocorrido. Haruhi sentiu um pouco de remorso por estar em casa num dia de aula. Pegou o livro na bolsa e verificou que n]ao tinha terminado a trabalho que lhe custara tamanho susto.

Apesar dos protestos do pai, ela resolveu estudar naquele tempo livre, para compensar que estava em casa. Iria pedir a Hikaru e Kaoru que passassem a matéria perdida depois.

O telefone celular estava com seu pai, que insistia em dar um gelo nos membros do clube. Ela não concordava com aquele tipo de jogo bobo, mas resolveu ficar de fora, tinha muito no que pensar.

Apesar da ansiedade de todos em saber como a garota estava, os anfitriões cumpriram com dificuldade a tarefa de não ir vê-la no fim de semana. Mesmo assim ela recebeu mais meia dúzia de buquês de flores (Tamaki e os gêmeos pareciam disputar), bolos e sobremesas (em nome de Honey e Mori) e até um cartão de melhoras assinado por Kyoya.

"Eles pensam que minha casa é um depósito". Haruhi suspirou, mas estava feliz com os amigos que tinha. Queria encontrá-los logo e cessar toda essa preocupação, sobretudo a preocupação dele.

Fim do Capítulo 3.