O tempo passava lentamente e o tédio corroía Juliet por dentro. Ela definitivamente não era o tipo de pessoa que se satisfazia em passar o dia inteiro numa poltrona lendo livros.

Minutos depois de se acomodar, decidiu dar um passeio pelo famoso vilarejo de Hogsmeade. Os alunos só chegariam bem mais tarde, ainda havia tempo para umas comprinhas.

Subiu as escadas que levavam até corredor principal e caminhou lentamente pelo jardim, parando as vezes para contemplar a bela vista do Lago Negro. Foi desviando lentamente o olhar por toda a visão que tinha da propriedade, até que seu olhar se fixou em um ponto distante na orla da Floresta Negra.

— Hum, interessante... — Ela disse ao ver um pedaço de uma capa negra farfalhar e sumir por entre as árvores.

Foi andando o mais silenciosamente que pôde atrás de Snape, mas era difícil acompanhar suas passadas rápidas, e ele acabou por sumir de vista. Ela se virou na tentativa de fazer o caminho de volta ao castelo mas não tinha notado o quanto havia avançado floresta adentro.

— Droga! — Ela resmungou e começou a correr por todos os lados, desistindo ao ver que parara em frente ao mesmo riacho pela quinta vez.

— Bonito, Hemlock. Perseguindo colegas antes mesmo do início do ano letivo. — A voz com um tom satisfeito ressoava ainda mais sombria as suas costas.

Ela se virou e encarou intensamente os profundos olhos negros que a remetiam a infinitos túneis vazios.

— E eu posso saber o que faz na Floresta Negra, Severus?

— Não, não pode. Como uma pirralha como você tem a ousadia de falar assim comigo? — Ele se aproximou dela até estar próximo o suficiente para sentir sua respiração bater em seu rosto.

— Eu não sou uma pirralha, sou uma mulher adulta de 27 anos. — A reação indignada dela a fizera parecer uma criança pequena fazendo birra.

Os lábios rígidos de Snape se contorceram em algo que deveria ser um sorriso e ele começou a gargalhar. Irritada demais em ficar encarando o bruxo rindo da sua cara, ela se virou decidida a ir embora, mesmo que isso a fizesse se perder mais. Era melhor ser comida por uma criatura bizarra do que aguentar aquilo.

O movimento brusco a desiquilibrou e um movimento praticamente involuntário do braço de Snape a prendeu, pela cintura impedindo-a de sofrer a queda iminente. A distância entre os dois não existia mais e o rosto dela estava agora perdido por entre os cabelos negros dele, sentindo um delicioso cheiro de ervas emanando de sua macia pele alva.

Por um momento o tempo parecia ter parado e os dois mal conseguiam respirar. Ele não sabia se se sentia desconfortável ou não com a situação, estar perto dela não o deixava raciocinar direito, e por algum motivo ele se sentia atraído por ela, a se aproximar dela, como se ela fosse um maldito íma. Não poderia deixar as coisas continuarem assim.

Ele se afastou dela, a fazendo retirar as mãos com que ela, sem pensar, envolvera seu pescoço. A estranheza pelo que acabara de acontecer estava estampada no rosto dela e ele tinha parado de sorrir e vestido a usual máscara.

Ele conjurou um feitiço silencioso que fez uma chama azul disparar da sua varinha até um ponto relativamente distante no céu.

— É só seguir a chama que chegará ao castelo. — Ele disse e se virou, caminhando em direção a parte mais densa da floresta.

"Como eu não pensei nisso? Estou duvidando sériamente do fato de eu ser uma bruxa."

— Ei, espera! — Ela gritou o fazendo parar antes de sumir de vista. — Eu, ahn, estava pensando em conhecer o povoado, sabe eu nunca estive por aqui antes. E é claro, eu pagaria uma bebida para você como forma de te agradecer por ter me salvado da água fria. — Ela esboçou um sorriso amistoso mas ele manteve a expressão severa.

— Obrigado, mas acho que terei que recusar. — Ele voltou a caminhar e segundos depois não estava mais a vista.

Ela ficou fitando embasbacada o ponto em que ele desaparecera.

— Mas que diabos eu estou fazendo? — Ela sacudiu a cabeça e revirou os olhos, irritada com suas reações infantis. Seguia a passos largos a chama azul que pairava no céu.


O manto negro da noite finalmente caíra pelo lugar, e o salão principal já estava lotado de alunos, faltando apenas os alunos do primeiro ano, que aguardavam a cerimônia de seleção, a professora McGonagall, que os guiava, e Juliet, que por alguma razão sumira misteriosamente desde que voltara ao castelo.

— Por acaso você tem alguma noção de onde se encontra a senhorita Hemlock, Severus? — Dumbledore, que estava sentado ao seu lado na mesa dos docentes, o perguntou.

— Não, Albus, não tenho a menor ideia e não vejo porque teria. Já lhe disse que não sou babá dessa aurorzinha de quinta, que não sabe nem conjugar um simples feitiço para localizar o seu destino. — Dumbledore deu um sorrisinho satisfeito e Snape se deu conta que havia declarado acidentalmente que esteve na companhia dela.

"Idiota", pensou de si mesmo e tratou de beber todo o seu suco de abóbora, na esperança de esconder o constrangimento que sentia mas que não transparecia através da máscara.

Juliet surgiu por entre os primeiranistas, que agora atravessaram o salão. Depois de esbarrar em alguns alunos assustados e encarar o sorriso maldoso de Snape e seu balançar de cabeça, conseguiu chegar ao seu ao lado do Mestre de Poções.

— Mil desculpas, Albus, eu estava escrevendo uma carta para meu namorado e acabei perdendo a noção do tempo. — Ela disse esticando-se para vê-lo e ele balançou a cabeça, confimando que entendera que ela falava de Sirius.

O diálogo entre os dois teve um efeito estranho nele. Ao ouvir ela dizer "namorada", os dedos enrijeceram no copo, e se tal não fosse resistente teria se despedaçado em milhões de pedacinhos. Algo que não passou despercebido aos olhos atentos de Dumbledore.

A cerimônia de seleção foi rápida, e quando todos estavam esperançosos para atacar a deliciosa comida, uma mulher baixinha e com cara de sapo se levantou e interrompeu o discurso do diretor.

Todos a observavam chocados com a ousadia que ela teve ao interromper Dumbledore, mas alguns minutos depois o choque se transformou num tédio mortal. Juliet pôde observar Trewlaney numa das pontas da mesa, fechando lentamente os olhos e caindo de cara na sopa de legumes, provocando a risada de uns cinco alunos que continuavam acordados.

Depois do que pareceram milênios ela encerrou o seu discurso e todos começaram a lotar seus pratos com as mais deliciosas comidas.

Juliet comia desesperadamente seu frango assado com purê de batata, só agora tinha notado o quanto estava faminta. Snape brincava com a comida no prato, parando algumas vezes para lançá-la um olhar de desaprovação e murmurar para si mesmo algumas coisas ininteligíveis.

Assim que todos terminaram suas sobremesas Dumbledore deu boa noite e os alunos e professores seguiram para seus respectivos dormitórios.

Juliet tentava acompanhar o ritmo dele e manter uma conversa agradável, sabe-se lá porque ela tinha necessidade de uma conversa com ele, mas ele só a respondia com respostas monossilábicas, quando se dava ao trabalho de responder.

Chegando finalmente as masmorras ela arfava enquanto se rescostava a parede de pedra. Snape passou direto pelo corredor, como se ela fosse invisível. Mas antes de abrir a porta e entrar nos seus aposentos, disse:

— Acorde cedo amanhã. Venha a minha sala duas horas antes que as aulas comecem. Sei que não prestou atenção no discurso de Umbridge, mas as coisas que ela disse mudarão radicalmente e inevitávelmente as coisas em Hogwarts este ano. Boa noite, Hemlock. — Ele entrou na sala e fechou a porta com um baque suave.

Juliet se jogou na cama assim que esta apareceu em seu campo de visão. Não estava com sono, só queria pensar nos acontecimentos do dia enquanto fitava o teto. Pensar nele, Snape. Pensar em por que queria pensar nele. Era tudo tão estranho, estava tudo tão bagunçado. Por que se sentira tão bem perdida em seus cabelos negros? Porque não pensara sequer uma vez em Sirius, nem quando escrevia uma carta para ele? Sirius! Ela nunca se encontrou em tamanha desordem de sentimentos. Só se fazia milhões de perguntas mais não tinha nenhuma resposta para elas. Resolveu que deixaria as questões em brano. O tempo responderia para ela.

— É, o tempo sempre responde... — Ela fechou os olhos permitindo a confusão se dissipar dentro dela enquanto o sono preenchia o lugar recentemente vago.


N/A: Se tiver alguém que ainda esteja lendo, olá pessoa linda. Eu demorei anos para postar, eu sei, mas éque eu estou no meio de uma maratona de provas e tenho outras duas fics para escrever além dessa. Enfim, se você existir, deixa um comentário que a fofura da tia Amy larga tudo para postar outro capítulo logo. Mil beijos;*