Um barulho na lareira ao lado assustou e acordou o homem que dormia pesado de cara na mesa de madeira. Jurou que ouviu um pio distante de uma coruja e imediatamente virou-se para a lareira, a procura do que a coruja possa ter deixado. E lá estava ela, um pouco suja em meio as cinzas.

Pegou a carta e, quase que instantâneamente, um sorriso iluminou todo o seu rosto. Acabara de ler a carta de Harry e havia ficado muito feliz, mas esperava ansioso a carta dela. Imaginava que ela iria dar detalhes dos seus primeiros dias em Hogwarts, que seria um pergaminho de mil metros, mas ao ler o seu conteúdo seu sorriso sumiu e o rosto tomou uma expressão de desapontamento. Ela parecia séria, distante, e ele percebia isso só de olhar para aquelas letrinhas levemente borradas.

Não se permitiu pensar muito, correu para a biblioteca da casa, apoiou um pedaço de pergaminho na escrivaninha escura e escreveu o mais rápido que conseguiu. Estava ficando louco de ficar preso naquela maldita casa, e qualquer notícia do mundo de fora o deixava agitado. Mas o que Juliet queria dizer devia ser muito importante, já que ela não deixou nem claro do que se tratava na carta. E ele se preocupava com ela, demais. Não havia parado de pensar nela nem por um minuto desde que essa se fora. O sorriso, os cabelos negros, os olhos verdes... Selou a carta e enviou a resposta numa corujinha pequena, e ao vê-la voar e pensar que logo a veria o coração bateu mais rápido.


Juliet virava de um lado para o outro na cama, fazendo uma confusão nos lençóis impecávelmente brancos. Procurava uma posição mais agradável que a ajudasse a dormir, mas nada funcionava. O problema não estava no modo como ela estava deitada, nem em nada que estava ao seu redor naquele quarto, estava nela mesma. Quando se concentrava e fechava os olhos tudo que vinha à mente era aquela maldita tarde em Hogsmeade, aquele maldito beijo. Tinha pensando muito no assunto e decidiu que Snape era uma pedra gigante no seu caminho, e que teria que ser eliminado de certo modo. Ele apareceu tão de repente, interferindo tanto em seus planos. Ele devia ter seu ponto fraco... Todos têm. E ela descobriria qual era dele, custasse o que custar.

Levantou e afastou os lençóis do caminho, calçou as pantufas com formato de ursinho e abriu a porta do quarto. Caminhou silenciosamente pelo corredor frio e escuro, soltando um pequeno urro de dor quando deu um chute em uma das grossas paredes de pedra, agradecendo a si mesma por ter colocado as pantufas. Abriu devagar a porta, não apenas para ser silenciosa, mas porque esta era pesada demais e seu corpo muito pequenininho para abrí-la de uma vez só.

- Problemas para dormir, Hemlock? - Uma voz de barítono veio do fundo da sala.

Ela fechou a porta e caminhou até a bancada de pedra, onde Snape fazia uma poção para dormir, aparentemente.

- Vejo que teve a mesma ideia que eu. Por que não consegue dormir? - Ela sentou num banquinho em frente a um caldeirão de cobre vazio.

Ele parou de cortar raízes e a encarou por um tempo. Revirou os olhos e voltou a cortá-las, ignorando a mulher.

- Vamos lá, Severus. Ninguém vai contar seu segredinho. - Ela riu. - Agora, me diga-me, o que anda tirando o seu sono?

- Quer mesmo saber? Pois eu direi. O fato da sua existência me tira o sono. O fato de que Albus não acredita em mim quando eu digo o que você é. Você pode enganar a eles, Hemlock, mas não a mim. - Ele falou baixinho enquanto mexia o caldeirão, duas para direita, cinco para esquerda.

- Minha intenção nunca foi enganar você, Severus. Na verdade, o seu jeito me lembra muito a mim, e eu gosto disso. Gosto de você, por mais que não acredite. Mas você tem se metido demais no meu caminho e, por mais que eu vá com a sua cara, eu não posso permitir isso. - Ela fez menção de pegar uma das raízes mas ele tirou a mão dela.

- Eu não sei o que você é, ou o que você planeja, mas eu vou descobrir. E eu vou acabar com você, pode ter certeza. Não vai ser uma bruxinha como você que vai me vencer. Acho que foi um dia bastante produtivo, não concorda? As coisas ficaram bem claras agora. Se me der licença, eu vou para o meu quarto. - Ele foi andando com um frasquinho na mão, parando logo antes de fechar a porta - Pegue o resto da poção se quiser. Boa noite, Hemlock.

Ele saiu deixando a bruxa sozinha, fitando o lugar onde antes ele esteve. Pegou o resto de poção e foi para o quarto, bebeu tudo de uma vez e caiu inerte na cama, pegando no sono imediatamente.


Ele batia, batia, e nada. Alguns sonserinos que passavam no corredor olhavam um pouco assustado para o professor. Não que nunca o tivessem visto com raiva, o que era bem comum, mas parecia que desde que aquela professora nova tinha chegado as coisas pioraram mil vezes.

Desistiu de bater e abriu a porta com um alohomora, e viu a morena jogada na cama, aparentemente em sono profundo.

- Mas o que você está fazendo? Hemlock! - Ele a sacudia mas ela não reagia.

Viu de relance um vidrinho caido no chão e voltou a olhar mais atentamente.

- Mas qual é o seu problema? Não sabe fazer um feitiço para se localizar, agora não sabe que não se pode tomar muito de uma poção para adormecer, não acredito como te consideram uma bruxa. - Ele falou e percebeu que ela não o ouvia, pegou ela no colo e foi correndo para a enfermaria.

- Olhe, Harry! - Rony apontou como a metade dos alunos que estavam no corredor principal.

- Mas o que será que aconteceu com ela? Por que Snape está... - Harry não chegou a terminar a frase e saiu correndo atrás do professor.

- Professor Snape! - Harry gritou já no corredor da enfermaria, quando finalmente tinha chegado perto dos dois.

- Mas o que é agora, Potter? Não vê que é uma emergência? - Snape bufou, irritado.

- Ela é a namorada do meu padrinho, acho que eu tenho direito de ao menos saber o que ela tem... - Snape o cortou.

- Então visite-a mais tarde, agora saia da minha frente. - Ele empurrou Harry com o corpo e voltou a caminhada.

- Merlin! Mas o que foi que aconteceu, professor? - Madame Pomfrey surgiu assim que ele entrou e colocou Juliet na cama mais próxima.

Ele apenas ergueu a mão com o frasquinho vazio, sem nada dizer.

- Poção para dormir, entendo. - Ela cheirou o frasco. - Nesse caso, não temos nada a fazer. Apenas esperar que ela acorde sozinha.

- E você tem alguma ideia de quando ela irá acordar?

- Se ela tomou esse frasco todo, suponho que só amanhã.

- Mas que maravilha, eu terei que dar aulas para as turmas dela. - Saiu apressado, sem olhar para trás.

Snape já estava nas masmorras, e faltava mais ou menos 10 minutos para a aula de Juliet. De repente, algo o fez parar de andar. Olhou para o lado e fitou a porta do quarto dela.

- Por que não? - Sorriu e entrou no quarto. Teria um dia inteiro para descobrir alguma coisa sobre os planos dela, não era nada mal.

Foi direto para a escrivaninha, abriu 3 gavetas, vasculhou, só papéis sem importância. Mas ainda tinha a última gaveta a ser aberta. Tentou abrir normalmente, mas não conseguiu. Obviamente devia ter algo importante ali, ela deve ter enfeitiçado. Tentou todos os feitiços que conhecia, e nada. Já estava irritado de ficar ali tanto tempo e não conseguir abrir a maldita gaveta. Lembrou da aula de Juliet, olhou para o relógio e viu que já estava dez minutos atrasado.

- Maldição!

A porta abriu num estrondo e ele adentrou a sala, os primeiranistas se encolheram um pouco em suas cadeiras. Aquilo o lembrou da primeira aula que deu a Potter. Desde que ele chegou Hogwarts nunca mais teve um ano tranquilo. Mas era de se esperar, filho de quem era...

- Desculpem pelo atraso. A professora de vocês se sentiu mal e não pôde comparecer, então quem ficou com as aulas dela de hoje fui eu. Só quero deixar bem claro a todos que não estou aqui para brincadeiras. Qualquer gracinha e terão que se entender com o diretor. - Snape observou as criancinhas com medo, os olhinhos arregalados. - Pois bem, vamos a aula.


No intervalo do almoço Snape voltou ao quarto de Juliet, dessa vez munido de alguns livros de artes das trevas, nas esperança de que alguma magia negra o ajudasse.

Passava os olhos rapidamente pelas páginas, mas atento a qualquer coisa que pudesse ajudar.

- Finalmente! - Seus olhos ônix brilharam conforme liam o conteúdo da página cento e setenta e oito.

Varinha em mãos, feitiço e...

- Abriu! - Seu rosto se iluminou e ele começou a vasculhar desesperado na procura de algo incriminador.

A maior parte das coisas que estavam guardadas eram fotos. Em uma delas Juliet abraçava e beijava um homem loiro, alto, e julgando pela aparência dela a foto não foi tirada há muito tempo. Em outra ela aparecia criança, abraçando uma mulher que vestia a mesma blusa que ele havia visto nela outro dia. Supôs que aquela era sua mãe. Procurou, procurou e procurou mais uma vez mas não tinha nadinha de suspeito naquela gaveta. Por que aquele feitiço tão forte? Era tudo que ele se perguntava. Ao fechar a gaveta algumas fotos se moveram e um papel branco com o nome dele apareceu por entre elas. Tornou a abrí-la e retirou a carta com o seu nome.

"Sabia que chegaria aqui mais cedo ou mais tarde, Severus. Nunca duvidei da sua capacidade, continue assim. Ah, e antes que me esqueça, quem é o bisbilhoteiro agora? Tsc, tsc, mas que vergonha, Severus Snape. Logo você, tão reservado ,mexendo nas coisas dos outros. Até perguntaria o que faz aí, como fez comigo o outro dia, mas é desnecessário, não acha? Enfim, não fique tristinho comigo só porque foi pego no flagra. Ainda e meu morcegão favorito! Se estiver muito depremido pegue um chocolatinho nos fundos da gaveta, comprei junto com aquele outro especialmente para você. Dumbledore me disse queo pegou devorando o último, escondido nos fundos da biblioteca. Fico feliz que tenha gostado.

Beijinhos, Juliet."

Ao terminar de ler amassou a carta na mão de tanta raiva. Levantou e já ia saindo do quarto, mas antes voltou e pegou todos os chocolates que ela tinha.


O sol já se escondia no horizonte e os alunos se dirigiam ao salão principal para o jantar. Provavelmente todos presentes no salão já odiavam Umbridge. Todos naquela escola já odiavam Umbridge, sem deixar de contar com os fantasmas. Com exceção é claro de Filch. Não que o que ele pensasse contasse em alguma coisa. Ela mal havia chegado mas já mostrou para que veio. Harry acabara mais uma detenção com ela e a sua mão queimava de tanta dor. Mas ele não era o único que tinha experimentado uma detenção com a cara de sapo, uns certos alunos primeiranistas faltaram o jantar para ficar chorando no dormitório.

Snape sentou no seu lugar na mesa dos professores, e observou o clima estranho no salão. Muitos dos alunos cochichavam baixinho, alguns faziam uma cara de medo e fitavam Umbridge, que devolvia seu famoso sorriso. Algumas cadeiras a sua esquerda Trelawney tremia e enquanto bebia seu vinho derramava consideravel parte dele nas vestes de McGonagall, que foi gentil o bastante para não ligar para isso e consolar a professora, que nessas horas temia por seu emprego.

- Albus, se importa se eu aparecer mais tarde na sua sala? Precisamos conversar. - Snape perguntou para o bruxo ao lado.

- Mas de maneira alguma, Severus, eu ando mesmo querendo conversar com você. - Ele piscou um olhinho azul.

Snape se levantou sem ao menos tocar no prato e foi para o seu quarto esperar até que o jantar acabasse.

Entrou e se assegurou de que não iria achar Juliet mais uma vez mexendo nas suas coisas e deu uma olhada no corredor para ver se tudo estava vazio. Sim, tudo estava tranquilo. Bateu a porta e abriu a gaveta onde havia guardado os bombons. Estava esperando por aquele momento o dia inteiro. Quando já estava no quarto parou para pensar, e se algum dia ela botasse veneno neles? Bem, ele era um mestre de poções, se ela tentasse o envenenar ele saberia o que fazer. E além do mais, bombons como esses, mesmo que envenenados, merecem ser apreciados.

- Professor... - A porta se abriu e Juliet surgiu do nada no quarto. Snape teve pouco tempo para pensar e escondeu o que pode atrás dele, mas não tinha notado que a sua boca estava toda suja de chocolate.

- Ah, mas que bonitinho, pego em flagrante! Aliás, duplamente em flagrante, já que chegou aos bombons. E então, como estão? - Ela sorriu e inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse falando como uma criança.

- O que você está fazendo aqui de novo, hein? Não devia estar dormindo, bela adormecida? - Ele tentou descobrir como ela sabia que ele estava comendo os bombons, e ao molhar os lábios para falar soube a resposta.

- Eu acordei um pouco mais cedo do que o previsto. Não é maravilhoso? Imagina se eu tivesse perdido essa cena! - Ela sorriu marota.

- Se me der licença, estou indo falar com o diretor. Acredito que não preciso pedir que fique longe do meu quarto. - Ele caminhou até a porta mas ela entrou na frente dele.

- E creio que não preciso pedir que fique longe do meu quarto. E dos meus bombons. - Ela piscou.

- Você disse que eu podia pegá-los, sinto muito se você se arrependeu. Com licença. - Ele voltou a marchar pelo corredor e sumiu de vista.

Juliet ficou gargalhando encostada na parede de pedra.

"- Você disse que eu podia pegá-los...". Aquela cena ia ficar muito tempo nas suas lembranças.


Snape mal bateu a porta e o diretor o mandou entrar.

- Sente-se por favor. - Apontou a cadeira. - Creio que pela primeira vez não veio falar da senhorita Hemlock, estou certo?

- Sim, está certo. Sem piadinhas por favor, Albus. - Dumbledore sorriu. - Eu estou aqui para falar de Umbridge. O que faremos com ela?

- Eu venho pensando muito nisso. Cheguei a conclusão de que nada faremos.

- Nada faremos? Como assim nada faremos? Nós não podemos deixar as coisas continuarem do jeito que estão. - Dumbledore o analisou calmamente através dos oclinhos meia lua.

- Nós podemos e nós deixaremos, Severus. Infelizmente não há nada que possamos fazer, vamos apenas deixar as coisas acontecerem e ver onde isso tudo vai dar. Eu me manterei informado de tudo que ela planeja e eu só peço que fique de olho em Harry. Ele já arrumou alguns problemas com ela e eu queria evitar que isso se repetisse.

- Claro, melhor ficar de olho em Potter do que em Hemlock. Esta aí, palavras que eu nunca pensei que sairíam da minha boca. Acho que gostaria de saber que ela já acordou e já voltou aos seus afazares diários, como atormentar a minha vida, atormentar a minha vida e mais... Ah! Atormentar a minha vida. Boa noite, Albus.

- Boa noite, Severus. - Dumbledore sorria.


Assim que a crise de risos parou, Juliet saiu do meio do corredor, que começava a encher de alunos indo para a sala comunal, e foi para o seu quarto. Uma carta estava em cima da escrivaninha. Como uma carta foi parar nas masmorras? Provavelmente foram os elfos, ela pensou. Era a resposta de Sirius.

Ela abriu ansiosa a carta, rápido mas com cautela para não rasgá-la.

"Minha Juliet,

fiquei a espera de sua carta por tanto tempo e me surpreendi com o que escreveu. Achei que iria falar sobre o quanto está se divertindo em Hogwarts, e não pude não me desapontar quando vi que escreveu tão pouco. Estou seriamente preocupado e eu espero que isso não seja tão grave quanto o que soou. Você sabe que eu estou sempre em casa, então quando você puder vir, ótimo. Não precisa mandar outra carta avisando, apenas apareça. Estou morrendo de saudades, minha bruxinha linda.

Beijos, Snuffles.

P.S: Harry poderá te explicar."

Ela amassou a carta contra si e nem ligou para o Snuffles nem nada. Harry saberia explicar mais tarde. O que importava agora era Sirius. O que ela faria quando o encontrasse? Não sabia direito porque tinha sido tão séria na última carta. Não tinha intenção de contar o que aconteceu entre ela e Snape. Aquele beijo foi apenas provocação, da parte dos dois. Afinal, Juliet Hemlock e Severus Snape? Não mesmo.

Jogou a carta na escrivaninha e deitou na cama, impecavelmente arrumada depois da bagunça da noite anterior. Se havia algo que ela iria sentir falta em Hogwarts era da eficiência dos elfos.

Como tinha dormido o dia inteiro e não estava com o menor sono, foi ler um livro que tinha pego no dia em que esteve na sala de Snape. No final da página inicial estava escrito:

"Propriedade de Severus Snape.

P.S: Pega em flagrante, Hemlock!"


N/A: mais um capítulo para vocês, caprichei dessa vez e não demorei muito. Já vou começar a trabalhar no próximo, e se gostaram desse falem nos reviews. Sugestões aceitas, pessoal. Beijinhos, Amy:*