Capitulo 9

"Vivi na abadia desde que me lembro. O meu avô nunca falava dos meus pais, e eu assumi que tivessem morrido, como aconteceu à maior parte das outras crianças. Eram todas enjeitadas ou cujos pais morreram. O Bryan esteve lá sempre, e o Tala chegou quando tínhamos dois anos" começou Kai, olhando para cada um deles e estudando a sua reacção.

"O que lhes aconteceu?"

"Os pais do Bryan morreram quando ele nasceu, e o Boris trouxe o Tala do orfanato"

"Tão pequenos?" estranhou Ray

"Era melhor para eles: permitia-lhes ter um maior controlo sobre nós." Parando por momentos para acender um cigarro, Kai prosseguiu. "Habituados desde pequenos, deixávamos de resistir".

"Vocês deixaram?" – perguntou novamente o Tigre.

Kai, olhando para o vazio, respondeu "Que mais poderíamos fazer? Éramos crianças…Muitos de nós não conheciam outra vida. Obedecíamos maquinalmente senão…"

Pousando-lhe a mão no ombro, num apoio mútuo, Ray incentivou-o docemente: "Senão?"

"Éramos castigados" vendo o fumo a subir, Kai forçou-se a prosseguir. "Uma reprimenda, um estalo a principio. Mas com o tempo, as coisas pioraram. As drogas que nos testavam criavam reacções horríveis, andávamos sempre com alterações de humor e personalidade, não tínhamos qualquer estabilidade. Os espancamentos eram cada vez mais frequentes e mais violentos. Por vezes, alguns desapareciam de repente. Depois soubemos que eles eram assassinados, e vivíamos num terror constante a principio…depois deixávamos de sentir por algum tempo, mas o medo voltava sempre. Tínhamos medo de morrer, e por isso obedecíamos em tudo. Éramos controlos por três coisas: o medo, a chantagem e a habituação. Quem nunca conheceu outra vida não espera mais nada."

"Ninguém sabia bem o que aconteceria em seguida. Vivíamos na incerteza: Como será hoje o dia? Quem me vai atacar desta vez? Vou sobreviver? E os meus amigos? Eram questões que repetíamos todos os dias, uns eram pior que outros, indubitavelmente, ou porque eles não nos molestavam, ou porque acordávamos como que anestesiados…é muito difícil de explicar… Era como se nada nos afectasse sabem? Não reagíamos a nada. Eram mecanismos de auto defesa. Por um lado, esses eram dias abençoados…Não sentir era uma dádiva."

"Os dias seguiam-se uns atrás dos outros…Para nos o tempo não dizia nada. Só sabíamos que era mais um dia que tínhamos existido…com medo, por nós e pelos nossos amigos."

"Havia laços de amizade entre vocês?" – perguntou Kenny.

Kai levantou-se é dirigiu-se para a janela – "Não publicamente. Mas eu tinha o meu grupo, e era assim que funcionava pelo que me consta. Grupos isolados. Se não pertencêssemos a um, a vida tornava-se ainda mais difícil."

"Porquê?"

"Éramos perseguidos pelos membros mais velhos dos outros gangs. Assim, cada bando protegia os seus. Desde pequenos que éramos só nós: eu, o Bryan, o Tala e o Spencer. O Ian juntou-se a nós pouco antes de eu ter saído."

"Havia um grande companheirismo entre nós. Era o mais próximo que tínhamos de uma família."

"Tu tens família, Kai."

"Laços de sangue, queres dizer. E isso não interessa, o Voltaire nunca me beneficiou por isso, pelo contrário. Aquilo era diferente. Era irmandade, companheirismo, afecto verdadeiro. A verdadeira família escolhe-se, essa foi a maior liçao que tirei da Biovolt. Eles eram os meus verdadeiros irmãos."

Os ouvintes nao deixaram de sorrir ao ouvir isto. "Ninguem diria..." retorquiu Ray. "Voces pareciam tão..."

"Frios?" completou Kai. "É natural. Não escapamos da abadia sem precisar dessa frialdade. Esconder a dor era essencial naquele lugar."

"Mas esconde-la nao significava que não sentissemos. O terror de lá viver era incessante, demasiado avassalador. Nós ouviamos os gritos daqueles que estavam a ser castigados – mesmo de noite, em sonhos – e o pior era quando sabiamos que era um de nós a sofrer por detrás daquelas paredes. Uma vez o Bryan chegou ao dormitório a chorar compulsivamente, mas por mais que lhe perguntassemos o que tinha ele nao respondia. Evitou-nos durante semanas. Não acreditam?" retorquiu irritado, ao ver a cara incrédula de Tyson. "É verdade. Sabem porque que ele usa o cabelo tao longo? Por causa da cicatriz que lhe ficou atrás no pescoço quando o Boris lhe bateu com uma maça. E o nariz do Ian não é assim tao grande genéticamente partiram-lho vezes sem conta, e quase nunca lho tratavam. Acabou por deformar. Um dos guardas uma vez queimou-me a cara com um isqueiro – é por isso que eu uso estas marcas azuis." Acalmando-se de subito, vagamente consciente de onde estava, e continuou: "Sabem porquê que o Tala usa sempre mangas tao compridas, mesmo no Verão?"

Ninguém se atreveu a responder.

"Ele cortava-se frequentemente."

"O Tala? Era masoquista??"

"Ele costumava fazer golpes nos braços de cada vez que eu, o Bryan ou o Spencer eramos castigados. E ele deixava-os sangrar sem os tratar. "Para quê?" perguntavamos-lhe. "Para que vocês nao sofram sozinhos" dizia. E isto desde que eramos pequenos. O que achas Tyson? Era por diversão, masoquismo? Não, era compreensão, amizade, irmandade. Nós somos os filhos da Abadia, é verdade, mas felizmente não somos totalmente desprovidos de humanidade."

Nenhum dos quatro ouvintes falou, profundamente tocados pelas revelações e sentindo-se culpados pelo que tinham dito.

Fazendo girar o cigarro entre os dedos, Kai falou novamente "Eu não posso contar-vos mais nada. São coisas que vocês nao podem compreender, e é passado que nós queremos enterrar de vez."

"Por isso eu vos peço, não criem problemas com o tala e o Bryan. Eu sei que eles podem ser um pouco dificeis de levar, mas não façam ondas. Agora vocês sabem que nós temos motivos para ser como somos."

"Ya meu. Desculpa, a gente não sabia." disse o Tyson

"Esta descansado, nós vamos fazer um esforço."

"Obrigado, Max"

"Obrigado nós Kai, por confiares em nós." disse Ray, dando-lhe um meio sorriso, ao qual Kai respondeu: "Eu confio pessoal. Vocês são a minha equipa."

TBC

Desculpem por todo este tempo todo sem actualizar. É o de costume: exames, muito para estudar e não arranjo tempo para escrever.

P.S Eu não apoio de nenhum modo o tabagismo.

Kissies, Mina